Canção da Sereia
35 Minha vida Parte 3
Notas iniciais

Há um dia no mês que as mulheres vão todas ao pier. Um navio vem da cidade, carregado de roupas e acessórios. A maior parte dos moradores da ilha vão para lá. Menos eu.
Aproveito a distração para ir para a floresta.
Ninguém nunca soube onde a mulher da floresta vive exatamente. Só se sabe que uma mulher vive na ilha, sozinha, longe do mar, na floresta. Ando a ilha toda. Os lados conhecidos e os desconhecidos. Encontro uma casa velha. Mas parece desabitada por anos. Continuo minha busca. Se ao menos houvesse uma pista...
Não encontro a mulher da floresta nesse dia. Nem no dia seguinte. Nem depois. Mas eu não desisto. Preciso chegar até ela, preciso saber o que há de errado comigo. Sinto que ela tem as respostas que preciso.
(…)
Primeiro dia de lua cheia, as mulheres foram para o penhasco de novo. Não entendo porque fazem isso. Estão apenas prejudicando a si mesmas. Vendo seus maridos praticarem o ato de traição e nada sendo feito. Elas deveriam ser corajosas e os enfrentar, mostrar que sabem o que está acontecendo e que não estão felizes com isso. É o que eu faria com Max "se" estivesse no lugar de Joanna.
Eu vou para mata de novo. Preciso encontrar essa mulher. Encontro algo diferente dessa vez, árvores brancas. Não estou longe do rochedo. As mulheres devem ter pintado para servir de marcação do caminho. Continuo andando, pego o lado oposto do que fui na ultima vez. Dessa vez eu trouxe um lampião, mas as chamas não prometem durar por muito tempo.
Tudo parece igual. Árvores, mato. Nada de diferente. Exceto as vozes. Mas elas são conhecidas e vem de trás de mim. Apago o lampião e o escondo. Subo em uma árvore. Não quero que Joanna me veja. É a voz dela que se aproxima.
Ela passa acompanhada de mais cinco mulheres. Andam adiante, a procura de algo. Quando já estou longe, eu desço das árvores. Pretendo voltar, mas vejo ao longe a mulher de cabelos prateados. Tenho medo dela, mas é como se eu fosse atraída por seu brilho.
Eu a sigo de longe. Ela contorna a mata, chegando até uma casa de madeira. É parecida com a que me deparei antes, mas está nova. Parece recém-construída. A mulher prateada entra lá e eu vou para janela, espio entre os vãos. Tem algumas velas acessas. Uma mulher de cabelos negros dorme em uma rede lá dentro. A mulher prateada fica parada ao seu lado a estudando. Então passos começam a vir em direção da casa. Estou escondida aqui, ninguém me verá, a menos que cerquem a casa.
Minha irmã aparece com as outras mulheres e batem na porta. Eu volto a olhar pelo vão da janela. Vejo a mulher prateada sentar em cima da mulher, como se não pesasse nada. A rede nem se mexe com o peso extra. Ela deita sobre o corpo na rede. Se... fundindo a ele. Então a mulher adormecida abre os olhos. Primeiro um brilho prateado passa por eles, como se luz saísse de lá e logo depois ficam normais.
A mulher Boceja e passa as mãos em seu rosto, como se estivesse cansada. Então levanta e vai abrir a porta. Não posso mais ver isso. O que aconteceu aqui? Aquele demônio possuiu o corpo da mulher? O que está havendo? Recolho minhas saias e corro. Preciso me afastar. Ficar longe desse demônio.
Consigo encontrar o caminho, mas me custa muito. As árvores arranham meus braços nus e meu rosto. Dessa vez não sou cuidadosa. Só quero ir para longe.
(…)
Já é quase de manhã quando Joanna vem a meu quarto. Finjo que estou dormindo quando percebo sua presença, mas a verdade é que não dormi nada.
– Pearl... — Minha irmã me chama. Sinto a cama mexer quando ela senta ao meu lado. Abro os olhos e finjo um bocejo.
– O que foi...?
Ela tem um lampião acesso ao lado de meu rosto. Provavelmente está vendo os cortes que fiz na floresta.
– Nós pegamos uma delas... — Ela se apressa em dizer entre sussurros. — Daquelas mulheres da praia. Nós emboscamos uma delas para saber o que estava acontecendo, mas quando as outras escaparam, essa tentou também. E então... um monstro, Pearl. Ela se tornou um monstro. Meio mulher, meio peixe. Então Max que estava na praia acordou. Ele não se lembra de nada. Ele jurou que não sabe o que acontece com ele, que sempre acorda sem memórias uma vez ao mês na praia. Ele não lembra de ter me traído, irmã. Os outros homens disseram o mesmo.
O que ela está me dizendo?
– Você acreditou nessa mentira? — Isso só pode ser mentira. Como um homem se deita com outra mulher. Ou melhor, outras. E não se lembra? Isso é uma mentira.
– Ele não mentiria. Todas nós vimos, estamos de prova Pearl. Então, porque ele mentiria sobre isso com tantas testemunhas? São essas coisas... esses monstros... Elas estão levando nossos maridos. Estão destruindo lares, roubando o que não as pertence. Elas devem morrer!
Morrer?
– Mas... monstros Joanna? Eram apenas mulheres todas as vezes que as vi.
De fato, todas mulheres, como eu e como minha irmã.
– Sim e então elas sumiam no mar. Como pessoas normais poderiam sumir no mar e não morrer? Elas tem caldas. Como peixes. São monstros.
– Está me dizendo que elas são... bruxas? — Eu tento. Essa pode ser uma boa explicação para tudo isso. Bruxas.
– Eu não sei... talvez! Nós procuramos a mulher da floresta.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo todo... a mulher da floresta... a mulher prateada.
Mas como eu poderia dizer isso a minha irmã? Ela me consideraria louca. Quem sabe o que faria para me silenciar.
– Isso não é uma boa ideia Joanna. Ela é uma bruxa.
Minha irmã pega minha mão.
– Se aquelas criaturas também forem... então precisamos dela. Não há como nós ganharmos daquelas coisas, Pearl.
– Mas... eu só descobri sobre elas por acaso. Nem mesmo vocês perceberam... Nunca nos incomodaram, Joanna. Nos meter com elas pode não ser certo.
Minha irmã solta minha mão como se eu tivesse alguma doença. Ela fica em pé.
– Você diz isso porque não tem um marido. É uma mal amada que ninguém quer Pearl. Morre de inveja da família que eu tenho. É por isso que não se importa.
Não tenho um marido porque ela roubou o que deveria ser meu. Será que ela se lembra desse fato?
– Tem razão irmã. — Me sento na cama. — Sinto muito. Só estou assustada.
Não estou assustada mais. Estou zangada. Eu gostaria de matar Joanna, de me livrar dela. Talvez as coisas tomassem seu rumo certo com isso. Talvez eu pudesse ser feliz com quem nunca deixei de amar. Talvez Max não tivesse necessidade de procurar outras mulheres e talvez as crianças ficassem melhor comigo do que com Joanna... tantos talvez...
– Em breve Pearl... — Joanna sorri esperançosa — Na próxima lua cheia a mulher da floresta vai nos ajudar a expulsar esses monstros.
Eu posso fingir que estou de acordo, mas mesmo fingindo, tem coisas que não posso deixar quietas.
– A que preço? — Pergunto a Joanna.
Todos sabem que se juntar com bruxas é o mesmo que vender a alma ao diabo.
– Nada. — Minha irmã senta ao meu lado e sorri – Ela perdeu seu amado para essas coisas. Tudo que quer é que paguem.
Tão fácil assim? A mulher prateada andava com as mulheres da praia outro dia, como saber se isso não é uma armadilha?
– Mas se ela queria vingança, por que não fez algo antes? Por que só agora, Joanna?
– Ora Pearl. Ela é uma feiticeira. Tinha medo que a matássemos se saísse da floresta. Mas agora que nós pedimos isso, as coisas são diferentes. Não a lançaremos no fogo. Precisamos da ajuda dela.
Não podia sair da floresta por medo...? Então como ela viu as mulheres com o “seu amado”?
Será que Joanna é tão burra a ponto de não perceber os pequenos detalhes? No que é que minha irmã acabou de se meter?
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