Notas iniciais
Olá! Esse conto é diferente dos outros, porque ele é todo no ponto de vista da Magrí durante os primeiros capítulos de Pântano de Sangue. O que ela fez e pensou enquanto Crânio se perdia no Pantanal? Teria ela ficado de braços de cruzados...? Boa leitura :) Música: Everyday is Like Sunday - Morrisey

A chuva caía pesada pelas ruas de São Paulo naquele fim de tarde. O trânsito que já era ruim em um dia de sol, estava caótico no horário de pico da cidade.

Carros buzinavam e passavam pelas faixas de ônibus para o desgosto dos motoristas e passageiros; fileiras de carro tentavam acessar as marginais de saída da cidade numa verdadeiro ritmo de tartaruga e muita paciência. Quem vinha no sentido interior querendo chegar a centro, também não estava com muita sorte.

Magrí havia deixado o carro na garagem já prevendo que pela chuva, seria um dia difícil para dirigir. Resolveu voltar de ônibus do hospital para casa. A viagem era muito longa e com o trânsito, ficou desnecessariamente longa. Dormiu e acordou várias vezes e parecia que não tinha saído do lugar.

Por fim, a jovem desistiu de ficar no ônibus, pois estava com muita fome e desceu no próximo ponto, ainda longe de casa.

Estava ainda no bairro do Bixiga, pois reconheceu as ruas e as casas antigas que tanto gostava. Entrou no restaurante favorito que sempre lhe trazia boas recordações. Era um pouco doloroso entrar naquela "cantina" como dizia nome, que aparentemente não tinha nada de muito especial. Era aconchegante e estilo família, com mesas e cadeiras de madeira e toalhas de piquenique como decoração. Estava com alguns poucos clientes e uma TV sem som no jornal da cidade.

Magrí pediu o risotto à moda da casa que sempre lhe dava água na boca e se acomodou numa mesa afastada, sem perceber que tinha sentado no mesmo lugar que ela e Crânio sempre ficavam quando vinham comer ali, tantas e tantas vezes, principalmente nos primeiros anos de namoro.

Quando percebeu, a moça balançou a cabeça com um sorriso triste. Havia tantos locais naquela cidade que foram marcantes para os dois e aquele humilde restaurante não era diferente.

O clima familiar típico das famílias de imigrantes italianos que comandavam o Bixiga sempre fascinavam os dois. Mas a moça sabia que o namorado tinha um apreço especial pelo bairro por uma vaga lembrança da infância, de quando visitou alguns parentes distantes que moravam na região da Sicília há muito tempo. Crânio, apesar das vagas memórias daquelas férias, sempre dizia que pensar no local lhe deixava feliz. Foi mais de uma vez que disse à Magrí que queria levá-la para conhecer a região.

A lembrança de Crânio feliz comentando sobre o lado italiano da família trouxe um leve sorriso mais alegre à moça.

Porém, uma memória, já um tanto esquecida, a respeito deles ressurgiu, apagando o sorriso como o soprar de uma vela.

***

O cheiro do café que saía da chaleira impregnava o ar da casa quando Magrí desceu do quarto naquela manhã. Cumprimentou e deu um beijo nos pais que estavam de saída para o trabalho. Ainda se espreguiçando, deu bom dia para Joana e as outras empregadas da cozinha.

Preparou o café da manhã como de costume e foi para sala assistir TV enquanto comia. Esperava que ainda estivesse passando desenho animado, pois por mais que não fosse mais criança, ela nunca perdeu o costume de assistir as trapalhadas da turma do Looney & Tunes e do Papa Léguas.

Para sua decepção, não estava passando desenho naquela manhã. Ao contrário, o canal estava no noticiário matinal fazendo uma cobertura de um caso de assassinato que chocou a cidade de São Paulo. O repórter narrava:

— "Elias de Azevedo Júnior tinha 40 anos, casado e com dois filhos. Era formado em Matemática pela Universidade Federal de São Paulo e lecionou para o Ensino Fundamental e Médio por quase quinze anos. O professor trabalhava no Colégio Elite, escola localizada em um bairro nobre de São Paulo, por pouco mais de dois anos. O professor foi encontrado morto na calçada em frente à escola na última terça-feira. O repórter Solano Magal tem mais informações a respeito do caso. Bom dia, Solano..."

A reportagem prosseguiu, mas Magrí não conseguiu assistir e desligou a TV com as mãos trêmulas. O estômago revirava. Desistiu de terminar de comer o resto do café da manhã.

Não havia outro assunto no Colégio Elite a não ser o caso do professor Elias, mas não era somente isso que assombrava a menina.

Após a última reunião dos Karas, Magrí não conseguia mais dormir direito, com um único pensamento martelando na sua cabeça:

E se Crânio estivesse de fato certo sobre a morte do professor Elias?

A menina não conseguia lidar com a possibilidade se provar correta e ela ter deixado o amigo sozinho, correndo grande perigo de cair também nas mãos dos assassinos.

Por mais que ela concordou com Miguel que a teoria de Crânio era muito maluca, a garota não conseguia parar de pensar que o gênio dos Karas dificilmente errava.

Lembrou-se da última vez que falou com ele antes dele partir para o Mato Grosso atrás das pistas que tanto almejava.

Magrí temia que aquela poderia ter sido a última conversa que teve com Crânio.

***

O aeroporto de Congonhas estava muito cheio para um dia de semana devido as férias de Julho que se aproximava. Magrí esperava que não tivesse chegado muito tarde e Crânio já estivesse na sala próxima ao portão de embarque, porque daí não poderia entrar para falar com ele.

Era um dos seus raros dias de sorte, pois o gênio dos Karas ainda estava próximo ao guichê de check-in esperando ser chamado para o próximo vôo para o Campo Grande.

Com determinação, Magrí se aproximou dele. Foi nítida a surpresa no rosto do garoto quando a viu se aproximar. Antes mesmo que Crânio dissesse qualquer coisa, a menina desferiu:

— Crânio, não vai.

Ele deu um suspiro alto e franziu a testa a encarando como se ela fosse uma fórmula matemática difícil de resolver.

— Magrí... Miguel mandou você vir aqui?

— Não, eu vim por conta própria. Esquece isso, volta para casa.

O garoto fechou a cara.

— Eu não vou descansar até eu descobrir quem matou o professor Elias, Magrí. Ninguém vai me impedir, nem mesmo você.

A garota apertou os nós dos dedos com a garganta querendo se fechar. Era uma mistura de raiva com tristeza. Crânio conseguia ser tão teimoso e cabeça dura quanto ela quando queria.

— Você não percebe se a sua teoria estiver correta, você estará sozinho correndo perigo?

— Eu já pensei nisso e não me importo. Sinceramente Magrí, nem tente...

A garota se aproximou mais e segurou as mãos de Crânio com os olhos cheios de lágrimas. O que quer que ele fosse dizer, morreu na garganta. Estava desarmado e sua determinação de outrora esquecida.

— Nem mesmo se eu implorar para você não ir? Eu tenho um mal pressentimento sobre essa viagem. Eu estou... — ela engoliu em seco — Estou com medo de você não voltar.

Crânio a abraçou consolando-a. Por um momento realmente fraquejou e considerou deixar toda aquela história para a polícia resolver. Mas o seu senso de justiça acabou falando mais alto quando se lembrou do cadáver do professor e da esposa, agora viúva, chorando quando foi visitá-la.

Não era justo que os culpados por aquele crime saíssem impune, enquanto que ele poderia fazer alguma coisa ao menos para ajudar a polícia a prender os verdadeiros assassinos.

A verdade é que mesmo estando seguro de que as pistas estavam no Pantanal, tentava não pensar muito nas consequências daquela investigação. E se precisasse de ajuda?

Ainda abraçado a Magrí, por mais confiante que se sentisse, o contato daquela garota sempre bagunçava a sua linha raciocínio, como acontece quando ocorre um pane no sistema. Sabia que iria magoá-la, mas não tinha nenhuma escolha.

Antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa a ela, os alto falantes do aeroporto avisaram para todos os passageiros do próximo vôo a Campo Grande se dirigirem aos portões de embarque. Magrí o soltou e a troca de olhares que tiveram foi o suficiente para ela entender que Crânio não ia voltar atrás. Havia mágoa nos olhos bonitos da menina.

Rapidamente, evitando o olhar de decepção dela, Crânio rabiscou em um pedaço de papel do bolso da calça um número de telefone e entregou a Magrí.

— Se você quiser falar comigo enquanto eu estiver fora, pode ligar para a fazenda da minha tia. Se eu descobrir alguma coisa, você vai ser a primeira saber. Prometo.

Magrí guardou o número no bolso do macacão jeans e abraçou o garoto de novo, dizendo:

— Prometa que vai me ligar.

A voz de Crânio saiu abafada pelos cabelos macios da moça.

— Prometo.

Ele deu um beijo rápido na testa da menina, pegou a mochila e maleta que levava e saiu com pressa em direção ao portão. Se tivesse demorado mais um segundo com Magrí, teria mesmo desistido de tudo aquilo e voltado para casa.

Quando foi que se deixou convencer tão facilmente por alguém? O garoto mal se reconhecia. Aqueles pensamentos dominaram sua mente durante todo o vôo. O caso do professor Elias ficando assim esquecido, enquanto Magrí preenchia e bagunçava qualquer raciocínio que tivesse.

No táxi voltando para casa, Magrí olhava para o céu nublado de São Paulo como se fizesse uma oração, para que todos os anjos celestes protegessem aquele garoto tão especial. Ele ficaria bem, estava certa disso, mas seu coração tinha medo.

Tinha medo de perdê-lo.

***

O ginásio do Colégio Elite estava quase vazio quando Magrí chegou para a aula de ginástica de olímpica naquela manhã.

Para sua surpresa, encontrou as companheiras ainda vestidas com o uniforme escolar, enquanto que a professora Iolanda não estava à vista. Franzindo a testa, ela aproximou-se de Natália, que parecia estar pegando a mochila que carregava com suas roupas para deixar o ginásio.

— Oi Natália, cadê a professora?

—Ah, olá Magrí... Achamos que você não viria hoje. A aula foi cancelada por conta do funeral do professor Elias. A professora acabou de avisar.

Os ombros de Magrí se enconlheram. Esperava que tivesse a aula para ao menos manter a mente e o corpo ocupados de suas preocupações dos últimos dias, desde a partida de Crânio após a última reunião dos Karas.

O clima no Colégio Elite não era dos mais favoráveis, pois a polícia rondava os corredores e a sala da diretoria colhendo depoimentos dos funcionários e até mesmo de alguns alunos.

Mais de uma vez, Magrí trombou com o querido detetive Andrade, mas ele estava sempre com pressa e nunca parava realmente para conversar com ela, o que a frustrava. Queria saber como andava as investigações e se a polícia já tinha uma suspeita do assassino. Os jornais também não ajudavam a apaziguar os nervos da garota.

Crânio demorou para ligar, mas pelo menos na manhã do dia anterior ele deu notícias que estava tudo bem... Parecia omitir algo dela a respeito da sua demora em ligar, mas a menina resolveu não pressioná-lo. Estava feliz que ele tinha se lembrado dela, afinal.

Ainda imersa naqueles pensamentos, a garota deixou o ginásio e quando já estava no corredor, viu a figura de Miguel que se aproximava de forma séria com o olhar até um pouco distante. Sorriu levemente quando a viu, mas as linhas de preocupação não deixaram seu rosto.

Trocaram cumprimentos rápidos e Magrí percebeu que havia uma ansiedade no garoto que ele tentava esconder dela, mas que estava falhando miseravelmente.

— Tem certeza que está tudo bem, Miguel? Você está muito agitado.

O garoto piscou algumas vezes de responder.

— Hã? Ah sim... Sim, está tudo ok. Eu acho. É o stress dessa semana longa demais e com a morte do professor, a escola está um caos.

Carinhosamente a menina acariciou o braço do rapazinho como se o consolasse. Porém, sabia que ele não estava dizendo toda a verdade.

O rosto de Miguel se iluminou por alguns segundos pela demonstração de carinho, mas logo voltou para sua expressão taciturna.

Ficaram em silêncio, até que a garota não se aguentando mais de guardar todas as preocupações para si mesma, desferiu, quase que no automático:

— Eu acho que nós não deveríamos ter deixado o Crânio sozinho, Miguel...

O garoto arregalou um pouco os olhos e seu estado de agitação só aumentou. Talvez Miguel estava sabendo de algo sobre o gênio dos Karas que ele não sabia como contar? Era raro Miguel demonstrar insegurança.

Quando falou, ele gravou cada detalhe da expressão dela.

— Por que acha isso, Magrí?

A menina mexeu na alça da bolsa que carregava no ombro direito com nervosismo. Como iria explicar que não estava mais tão confiante que a teoria de Crânio era loucura? Quanto mais os dias passavam e as notícias surgiam sobre o assassinato do professor, mais aquele crime parecia ser mais um caso sem solução para a polícia.

A menina evitou o olhar do líder dos Karas.

— É porque... Acho que existe uma chance dele estar certo, Miguel. Por mais maluca que a teoria dele soasse, do jeito que anda as investigações...

— Eu sei, eu sei — Miguel suspirou — Eu esbarrei no detetive Andrade agora a há pouco, lá fora. Ele quer falar conosco daqui a pouco no Ibirapuera. Você pode chamar os outros para mim?

O coração de Magrí disparou de agitação.

— Sim, sim, claro... Mas o quê...

Miguel balançou a cabeça em clara indicação para que ela fizesse as perguntas depois. A menina calou-se ao ver que Miguel tirou algo do bolso da calça como se pesasse toneladas.

Aproximou-se de Magrí com os olhos tristes.

— O quer que aconteça daqui a diante, prometa que não vai se zangar comigo, Magrí. Por favor?

A menina franziu a testa em completa confusão pelo pedido. Por que ela se zangaria com Miguel? O que ele tinha feito?

Ela acariciou novamente o braço do garoto, sem esconder a apreensão.

— Não, eu não vou me zangar com você. Mas você sabe que não é uma coisa que se possa prever...

Ele acenou em compreensão e finalmente mostrou o que tinha tirado do bolso.

Nas mãos de Miguel estava uma coisa que conhecia muito bem; sabia até os padrões do amassado do instrumento e o som que saía.

— O detetive Andrade me deu isso.

À luz do corredor do Colégio Elite refletiu na gaita muda de Crânio.

***

Magrí dormira muito mal na noite que se seguiu após a reunião com o detetive Andrade. A imagem da jaqueta ensanguentada de Crânio não saía da sua cabeça como um mantra macabro, como se zombasse dela.

Tentou ligar várias vezes para a fazenda da tia dele no Pantanal, mas os empregados não tinham notícias do garoto desde o dia que ele saiu numa excursão de barco com um guia. Desde então, ninguém na região sabia onde ele estava.

Foi difícil para Magrí controlar a fraqueza nas pernas e as lágrimas que queriam explodir dos seus olhos durante todo o jantar. Nem ao menos os preparativos para a viagem ao Mato Grosso com os outros Karas dali a dois dias fez com que se distraísse de seus medos. Não conseguia olhar para Miguel sem se sentir um pouco ressentida. Não era culpa dele, claro que não, mas o inconsciente da menina não entendia aquilo.

Não podia fraquejar, era verdade. Ela era um Kara e Crânio também era. Se tivesse ele caído nas mãos de bandidos ligados à máfia, não iria facilitar a vida deles, e havia chances de uma fuga.

Ainda sim, seu coração não entendia o que sua mente refletia e os pesadelos que tinha era só uma resposta ao sentimento de culpa que carregava.

Precisava fazer alguma coisa, ao menos para apaziguar o sentimento de impotência e desespero que crescia como um monstro. Mas o quê poderia fazer?

Quando estava passando pela sala onde seu pai estava assistindo o jornal da noite, a voz do âncora ressoou nos seus ouvidos como se fosse uma gargalhada macabra.

— "A polícia de São Paulo chegou a conclusão que o caso do professor do Colégio Elite que fora assassinado foi um "crime por trocados", sem nenhuma ligação aparente com algo mais grave do que isso. O delegado responsável pretende dar uma entrevista coletiva amanhã às 10h sobre o encerramento das investigações. Voltamos agora para Brasília com as últimas informações da agenda do presidente João Figueiredo em meio à pressão por eleições diretas..."

Com o coração aos pulos, Magrí adentrou o quarto tentando conter a raiva que borbulhava no seu peito, a voz do âncora do jornal ainda ecooando na cabeça, que se misturava com os seus pensamentos revoltosos:

"A polícia vai encerrar o caso! Não pegaram o assassino, então para não passarem vergonha nacional vão dizer que foi um assassinato qualquer e sem importância! Ai o que vai ser do meu querido Crânio? E se ele descobriu quem são os bandidos e por isso desapareceu?! Eles não podem fazer isso! Não podem!"

Pensou em ligar para o detetive Andrade, mas deteve-se quando surgiu um idéia. Era uma ideia louca e muito arriscada, porém poderia obrigar a polícia de São Paulo a continuar as investigações enquanto ela e os outros Karas procuravam pistas para resgatar Crânio no Pantanal e prender o bandido.

Trocou-se de roupa e prendeu os longos cabelos em um rabo de cavalo. Numa mochila colocou uma lanterna e alguns itens a mais por segurança, como um spray de pimenta e corda.

Abriu a janela do quarto e com uma facilidade incomum, desceu apoiando-se nos parapeitos da parede. Por fim, cruzou o jardim e o portão da casa e rapidamente já estava na rua escura.

Com passos rápidos e cabeça baixa coberta pelo capuz do agasalho, Magrí sumiu em meio ao asfalto.

***

O prédio de estatura baixa e concreto muito branco e apático estava às escuras e quase vazio, se não fosse por alguns guardas que faziam vigia naquela noite. Haviam poucos policiais de plantão no local e por uma sorte do destino, ninguém percebeu uma figura esbelta e encapuzada entrar por uma das janelas no qual forçou a abertura.

A figura se esgueirou facilmente pelos corredores vazios do prédio. Em minutos estava em frente à sala do delegado, o mesmo que daria coletiva de imprensa amanhã.

Com um grampo de cabelo, abriu a porta trancada, fechando-a rapidamente em seguida. De dentro da mochila retirou uma lanterna. Logo o facho de luz clareou o aposento.

A mesa do delegado estava um pouco bagunçada, com diversas pastas cheias de papéis e canetas para todos os lados. Impaciente, Magrí procurava algo sobre o caso do professor Elias, até finalmente, após longos minutos, encontrar em uma pasta aberta. Porém não era o que estava procurando. O que leu gelou o seu sangue.

Eram recibos de cheques milionários assinados numa letra garranchada. O que chocou mais ainda a garota — além do fato de saber que se tratava de propina — era o sobrenome da pessoa que assinou os cheques. Novamente era como se alguém estivesse zombando dela de forma cruel.

Com o coração aos pulos, um pouquinho tonta por aquela informação que poderia solucionar o caso, ao mesmo tempo colocar todos os seu amigos em perigo quando chegassem no Pantanal, Magrí, com sua determinação habitual de um Kara, achou o que inicialmente procurava: o roteiro da coletiva de imprensa.

Sem cerimônias, a menina sentou-se na cadeira estofada, pegou uma caneta e sob à luz da lanterna escreveu uma simples frase no topo da folha de papel. Sabia que era uma coisa tola e que poderia ser ignorada, mas era o mínimo que poderia fazer por Crânio.

Ao lembrar-se dele de novo e de sua descoberta, Magrí sentiu as mãos suarem. Ouviu passos vindo do corredor. Num salto, guardou os papéis onde estavam, abriu a janela da sala e sumiu novamente na noite.

Na coletiva de imprensa do dia seguinte, foi com perplexidade que o delegado encontrou escrito no seu roteiro de depoimento, enquanto o lia em rede nacional, o seguinte:

"As pistas do assassino do professor Elias estão no Pantanal, no Mato Grosso. É necessário que a polícia local do estado coopere com a polícia de São Paulo. Não somos covardes e não iremos encerrar o caso".

Ao longe, uma figura sorria de desdém para a TV enquanto assistia ao depoimento do delegado que parecia muito perdido. Era um sorriso bonito, sedutor e cruel.

***

A chuva já havia parado quando Magrí finalmente adentrou o prédio onde morava. Cumprimentou o porteiro e foi pegar as cartas que estavam endereçadas à ela.

Logo em seguida, entrou no apartamento, agora mais organizado com as caixas da mudança mais vazias e posta em um canto da sala. Jogou as cartas para cima do balcão da pia e foi direto para o chuveiro.

Um quarto de hora se passou quando retornou para a cozinha com o cabelo molhado e vestida com a camisolinha de dormir. Pegou o embrulho de cartas tentando não pensar muito no valor das contas daquele mês.

De forma preguiçosa, passou os olhos nos remetentes, até estacar arregalando-os quando pegou uma das cartas.

O envelope estava cheio de selos. Claramente os correios quase perderam a carta pelas anotações nas laterais. Ela conhecia bem aquela letra apertada mas bem definida que escreveu o nome dela e endereço.

Com o coração aos pulos, o sono e o cansaço esquecidos, Magrí com cuidado abriu o envelope. Para sua satisfação, havia quase quatro folhas preenchidas com a mesma letra do envelope.

Preparou um chocolate quente bem rápido, pegou a carta e sentou-se no sofá da sala para ler o conteúdo, sentindo-se de novo uma adolescente de quinze anos. Ele sempre tinha esse efeito nela, não importando o tempo que estavam juntos.

As lembranças daquela tarde no restaurante ficaram um pouco para trás, agora preenchidas pelas histórias que o seu querido Crânio tinha para contar.

Notas finais
Este conto é um "prólogo" do próximo conto que vai narrar um acontecimento perigoso após os eventos de Pântano de Sangue. Teria mesmo a máfia deixado a morte de Tia Matilde sem nenhuma retaliação? Toda família tem sua história de glórias, mas também existe um lado sombrio que não são todos que estão prontos para lidar. E Magrí sabia bem que Crânio não estava pronto para lidar com os segredos da própria família...