Notas iniciais
Olá leitores! Ainda estamos no finalzinho de Droga de Americana! rs. Sempre me perguntei como Crânio mudou de ideia sobre a Peggy... Não acho que foi uma coisa "do nada". Mas é uma pena que mal conhecemos a personagem... Boa leitura! Música: Born in USA - Bruce Springsteen

Magrí suspirou e bateu palmas pela enésima vez durante a apresentação do tenor Plácido Carreras no Ibirapuera. Sentiu a mão de Crânio fazendo carinho no topo da cabeça dela, que estava apoiada no ombro do rapazinho, enquanto o braço dele enlaçava os ombros da garota.

Sentados na grama, os dois não se desgrudavam desde a hora que chegaram. Com toda a loucura do dia anterior, consequências ocasionadas pelo sequestro da nova integrante dos Karas, os dois mal tiveram tempo de respirar. Os amigos achavam que teriam um pouco de paz depois do desfecho do sequestro, mas pelo jeito, eles atraíam problemas para si mais do que gostariam...

— Eu achei que dessa vez a gente não ia conseguir se safar — Magrí comentou olhando de relance para Crânio.

O rapazinho ficou pensativo por alguns instantes antes de responder.

— Eu também achei, sendo sincero.... Temi que Peggy não desse conta de seu papel, pois eu ainda estava na dúvida sobre ela. Eu estava errado.

A menina levantou a cabeça com uma expressão brincalhona no rosto. Colocou a palma da mão no pescoço de Crânio.

— Você está bem? Está passando mal, não está com febre?

O garoto começou a rir. Pegou a mão de Magrí e a beijou.

— Ah qual é, Magrí...

— Você admitindo que estava errado? Quantas surpresas aqui!

Crânio revirou os olhos, ainda sorrindo:

— Não sou tão orgulhoso assim, sou?

A cabeça de Magrí pendeu para o lado, a expressão ainda mais sapeca.

— Hummm é um pouquinho sim, ainda mais quando está de mal humor...

— Eu só fico mesmo de mal humor quando me interrompem quando estou estudando ou lendo... — Crânio franziu a testa e deu um meio sorriso fitando Magrí — Mas você também hein...

— O quê? Por que você está rindo?

O rapazinho a abraçou de novo sem querer responder. Magrí não iria se dar por vencida, mas adotou outra tática mais eficaz: puxou o rosto de Crânio para si e o beijou com paixão, fazendo carinho nos cabelos dele como ele sempre demonstrou gostar. Em segundos, o garoto correspondeu com entusiasmo, mas se separaram pela nova onda de aplausos do público em volta que assistia a apresentação.

— Do que você estava falando, hein? — Magrí não o soltou e continuou dando pequenos beijos no rosto dele.

— Hummm? Não me lembro mais...

De fato, o garoto sempre ficava tonto e um pouco lento quando Magrí o beijava daquele jeito. Sabia que ficaria com as marcas de batom rosa depois.

Ele carinhosamente beijou várias vezes a bochecha de Magrí, que também a deixou inebriada por alguns instantes.

— Querido, você não me respondeu ainda... — sussurrou sentindo uns arrepios na pele.

Crânio parou e riu no ouvido dela.

— Você é teimosa demais, num nível quase patológico!

Magrí o encarou com indignação:

— Olha quem fala! Eu não sou teimosa!

— Você vive teimando comigo nas reuniões dos Karas, muito mais do que outros. — Crânio levantou a sobrancelha — Estou errado?

Magrí fez bico relembrando todas as aventuras que viveram juntos e de fato, o garoto tinha um tiquinho de razão. Ela era a que mais batia de frente com ele, muitos mais que Miguel, Calú ou Chumbinho.

— Tá legal, você tem razão. Mas sobre a Peggy, você foi o teimoso da vez...

Crânio corou um pouco.

— Eu estava preocupado demais com você, foi tudo muito rápido e maluco! Daí vem mais essa emergência máxima sobre a CIA estar a nossa procura que...

Ele não completou a frase, pois Magrí o abraçou apertado e sem perder tempo, o rapazinho a beijou de novo nos lábios. Ainda estavam um pouco assustados com os acontecimentos das últimas horas...

***

24h antes

A âncora do jornal se posicionou em frente a câmera para o início do noticiário das 19h, ainda sob o caos do sequestro de Peggy MacDermott, a filha do Presidente dos Estados Unidos.

— Boa noite. O Jornal de São Paulo começa com as últimas notícias referentes ao grupo de sequestradores de Peggy MacDermott. A Polícia americana está com uma suspeita agora de que o grupo esteja ligado a espiões soviéticos. O "K" encontrado no espelho do banheiro pode se referir a um grupo de espionagem. As polícias brasileiras e americanas estão trabalhando em conjunto sob esta hipótese, depois que as filmagens do lado de fora do Colégio Elite, onde a garota foi sequestrada, mostrarem alguns suspeitos rondando os telhados. Solano Magal tem mais informações. Boa noite, Solano! Então a teoria sobre ajuda soviética no sequestro está sendo levada a sério pela polícia?

A imagem foi cortada e o repórter apareceu em frente a fachada interditada do Elite:

— Boa noite, Anelisa, boa noite telespectadores. Sim, é verdade. A polícia americana, principalmente, não descartou essa hipótese. Sobre as pessoas que foram vistas nos telhados, alguns eram a mando de Sherman Blake, um dos principais cabeças do sequestro. Os outros que foram vistos nas filmagens já foram a maioria identificados como alunos do próprio Colégio Elite, que pareciam cooperar com o sequestro. A polícia não irá revelar a identidade dos alunos por serem menores de idade, mas eles serão intimados em breve para prestarem maiores explicações.

Miguel desligou a TV com as mãos trêmulas. Correu para o telefone, mas antes mesmo que discasse o número de um dos amigos, ele tocou. Com o coração aos pulos, o garoto pegou o gancho.

— Alô?

— Miguel, it's me, Peggy. Go to Magrí's house right now! Don't ask questions!

— Right!

Sem pensar duas vezes, Miguel colocou a carteira no bolso, pegou as chaves de casa e saiu.

***

Peggy já estava esperando por ele na casa de Magrí quando Miguel chegou. Não demorou para que Crânio, Calú e Chumbinho adentrassem a pequena casinha nos jardins, onde se guardava as ferramentas do jardineiro, para uma atípica reunião dos Karas. Miguel tomou a frente muito sério:

— Peggy, diga tudo o que você sabe.

— I didn't say a word about Karas, I swear! — ela estava à beira do choro — Eu não tenho ideia de como eles descobriram!

Magrí abraçou a amiga tentando consolá-la. Calú se aproximou, então Peggy trocou o ombro de Magrí pelo o do garoto.

— Darling, ninguém está acusando você de nada — disse ele com carinho — Só queremos saber se você tem pistas. Qualquer coisa.

Miguel pigarreou sentindo-se muito desconfortável, e com o estômago afundando ao ver Peggy mais calma após Calú consolá-la com tanta intimidade. Chumbinho também pareceu um pouco triste pela cena. O único que observava tudo sem nenhuma expressão era Crânio, que se encostou num canto e passou a tocar a gaita.

— Calú tem razão, Peggy — disse Miguel — Depois de tudo o que aconteceu, pensar que você nos traiu seria a última coisa que passaria pelas nossas cabeças. Não é Karas?

Todos os outros concordaram, menos Crânio, que parou de soprar a gaita. O olhar que trocou com Miguel foi o suficiente para o líder perceber que o rapaz não compartilhava da mesma opinião dos outros. Magrí o olhou com súplica, ainda sim, Crânio continuou impassível, mas um pouco incerto também. Ele olhou para Peggy criticamente e falou com firmeza:

— Peggy... Have you sure that you didn't say anything?

Caiu um silêncio mortal. Todos olhavam de Peggy para Crânio como se fosse uma partida de ping-pong.

— Entenda, Peggy. Nosso segredos, nossas identidades é uma das regras mais importantes dos Karas. Você é nova no grupo, então talvez ainda não tenha compreendido a gravidade do juramento.

Miguel encarou o amigo com os lábios um pouco trêmulos.

— Crânio tem razão, mas como foi tudo rápido, não tivemos tempo de...

— I mentioned Calú.

O garoto em questão a olhou com surpresa.

— O que você disse sobre mim? Para quem?

Peggy ficou cada vez mais pálida a cada palavra que dizia:

— Eu falei sobre você para papai e mamãe... — ela o olhou como se estivesse apenas os dois na sala — Eu estava tão animada que esqueci da presença do Edgar Hooper e do general Noland! Eu não me recordo muito bem da conversa, mas mencionei que você era amigo de Magrí e estava no colégio na hora em que fui libertada. Mamãe achou romântico.

Calú a abraçou com preocupação, olhando de forma acusatória para Crânio. Os outros Karas ficaram de cabeça baixa, ainda em confusão. O geninho tomou as rédeas:

— Então minha teoria se confirma. O que Peggy disse era tudo o que a CIA e talvez as Forças Armadas precisavam para aumentar a suspeita de "infiltrados da KGB" no sequestro.

O garoto tirou uma notícia imprimida da internet do jornal The New York Times, que dizia na chamada principal: Peggy MacDermott's kidnapping: Anonymous Reports Denounces Soviet Help

— Não se fala de outra coisa nos jornais gringos. Está todo o mundo dizendo desde a hora do sequestro que há um dedo dos russos na história toda. Sendo assim o "K" deixado por Chumbinho poderia se referir a KGB, a polícia soviética. Vocês sabem que os Estados Unidos não se dão bem com a União Soviética há décadas...

Todos os Karas acenaram em concordância com o pensamento do garoto.

— I have sure the Russians are envolved with Uncle Sherm — Peggy se dirigiu a Crânio — Não há outra explicação de como ele conseguiu tanto apoio em tão pouco tempo dos meus compatriotas. É uma traição ao meu país que eu acho difícil de perdoar.

Crânio franziu a testa para a menina de forma pensativa:

— Talvez você tenha razão, Peggy. Mas como convencer a CIA e as Forças Armadas de que nós não somos quem eles estão procurando?

Os seis adolescentes ficaram imersos em pensamentos tentando achar uma solução para aquele beco sem saída. Miguel quebrou o silêncio:

— Creio que eles virão atrás de nós um por um. Os primeiros serão Calú e Magrí, por razões óbvias. Calú por ele ter sido mencionado pela Peggy e Magrí por ser a amiga próxima...

— Eles devem achar que eu como a "espiã russa" — disse a menina tristemente — Atraí Peggy para cá sob o falso pretexto da demonstração de ginástica. É incrível como tudo se encaixa.

— Exato, Magrí — disse Crânio — E na cabeça deles, você apresentou Calú para espionar ainda mais a Peggy e ajudar no sequestro. É engenhoso.

Crânio e Magrí se olharam, a garota sem esconder o temor nos olhos, enquanto ele demonstrou que estava com mais medo por ela do que por si. Calú falou, mas os dois continuaram a se olharem como se quisessem fugir dali:

— Quem será que fez essa denúncia anônima?

— Não faço ideia, Calú — disse Crânio.

A voz de Miguel ressoou novamente:

— Acho que isso não importa agora. Não podemos fugir, pois seria muito pior e as suspeitas sobre nós aumentaria. Vamos ter que enfrentar o interrogatório sem nos entregar e conseguir convencer a polícia americana sobre nossa inocência.

Os Karas olharam para Miguel numa mistura de receio com a coragem que somente eles possuíam, e de que seguiriam as ordens do seu líder fielmente.

— Nem em sonho podemos dizer que ajudamos a libertar a Peggy — Miguel prosseguiu — porque eles não iriam acreditar, mas sim nos acusaria e colocaria o nosso segredo em perigo, mais do que já está. Precisamos também de alguém que testemunhe a nosso favor. Mas como iremos ficar detidos...

— Eu sei quem pode — disse Magrí — O Andrade! Ele pode nos ajudar!

— Boa, Magrí! — Chumbinho animou-se — Ele fez parte da operação, ele libertou a Peggy tecnicamente, o testemunho dele pode ser a nossa salvação!

— Sim, ele pode, mas temos que ter cuidado ao chamar Andrade — Crânio raciocinou — A polícia não pode suspeitar que nós ajudamos ele em outras ocasiões a solucionar crimes, nem o próprio Andrade pode mencionar isso, por que do contrário, aumentaria as suspeitas de que somos organizados. Além disso, nós fizemos ele acreditar que não nos metemos no sequestro de Peggy, lembram? Então nós não podemos pedir ajuda a ele, pelo menos não diretamente. Tem que ser outra pessoa...

Calú sentou no chão desanimado.

— Isso está ficando complicado demais para nós!

— Só uma maneira de conseguirmos sair dessa — Miguel falou de forma solene e se dirigiu a Peggy — Estamos nas suas mãos, Peggy.

Todos os olhares se voltaram para a garota. Chumbinho sorria encorajando-a, Calú se levantou e passou os braços novamente nos ombros dela, Magrí a olhava com confiança, enquanto Crânio a estudava como se ela fosse uma incógnita matemática. Quando fitou Magrí, o rapazinho perguntava com os olhos:

"Ela vai conseguir?"

***

A maior sala de aula do Colégio Elite estava interditada pelos policiais americanos naquela manhã de quinta-feira, para aumentar o alvoroço dos alunos. Era fato que iria demorar mais dias para que todas as dependências da escola pudessem ser usadas após o episódio do sequestro, mas aquela interdição estava causando um falatório nos corredores mais do que o normal. "Há alunos lá dentro sendo interrogados pela CIA!", cochichavam os estudantes com cara de espanto e ansiedade em um mais capítulo daquela novela que parecia longe de acabar.

Ofereceram café ou chá para Magrí, mas a garota recusou alegando que tinha acabado de almoçar. Havia uma conselheira tutelar mandada pelo governo brasileiro para garantir a integridade dos menores interrogados.

O chefe da CIA, Edgar Hooper e o General Noland se faziam presentes, e o primeiro comandava o interrogatório, tentando ao máximo passar a imagem que era apenas um procedimento padrão americano dado as circunstâncias...

— Você esteve recentemente no Mundial Ginástica, correto? Foi lá onde você conheceu Miss Peggy?

Magrí acenou para Hooper concordando.

— Antes disso você não teve contato nenhum com...

Ele não terminou, pois a porta foi aberta e Calú entrava acompanhado de um policial. Miguel acertou precisamente a ordem que eles seriam intimados!

— Sit down, my boy. Do you want a cup of coffee?

Várias perguntas sobre suas vidas pessoais foram feitas aos dois, e em especial, quanto ao relacionamento de ambos com a filha do Presidente.

— Since when you have been dating Miss Peggy?

Calú se remexeu na cadeira olhando de relance para Magrí.

— Err dias eu diria. Mal tivemos tempo de nos ver direito com toda essa loucura...

Do outro lado da sala, o general Noland se dirigiu ao dois em um tom nada amigável, ao contrário do tom amigável de Hooper:

— É muito conveniente que você tenha tido um interesse momentâneo em Miss Peggy, garoto... E que você, mocinha, tenha apresentado ele a ela. Não acha? Exatamente a procedência que esp...

— Noland! — Hooper virou-se para o general — Lembre-se que nós não temos certeza de nada!

— Nós não somos espiões russos, sr. Hooper! — Magrí explodiu — Isso tudo é ridículo!

Hooper remexeu nos papéis em cima da mesa, olhando de forma incerta para os dois Karas.

— Estamos em tempos difíceis, crianças. E as imagens e os boatos que estão sendo propagados nos jornais estão deixando a CIA numa posição muito complicada. Vocês foram vistos em lugares suspeitos, e agradeçam por nenhum jornalista ter soltado a identidade de vocês, após a nossa ameaça e também do governo brasileiro.

— E alguns subornos milionários para calar a boca daqueles jornalistas de araque — disse o general com desdém — Tudo para salvar a pele de cinco pirralhos. Espero que isso tudo valha a pena.

Magrí ficou vermelha de raiva e sentiu os olhos de Calú sobre ela. Quando o olhou, o garoto tentava dizer com os dedos "fica calma". Ela suspirou, mas ainda estava nervosa.

Logo Miguel adentrou a sala recebendo as mesmas enxurradas de perguntas, em seguida entraram Chumbinho e por último, Crânio, seguindo o mesmo padrão. Juntos, porém, não se sentiam tão indefesos.

O agente Hooper terminou o seu interrogatório, passando a palavra para o general Noland. A conselheira tutelar anotava tudo com furor na sua prancheta sem dizer uma palavra. O general se dirigiu aos Karas dizendo o seguinte:

— Nada do que vocês disseram aqui é o suficiente ainda para salvá-los de uma prisão e uma acusação de traição. Nos Estados Unidos vocês já seriam considerados maiores de idade. Os pais de vocês também estão sendo interrogados neste exato momento nas suas residências. Sendo assim, pensem muito bem antes de contar qualquer mentira.

Eles se entreolharam sem demonstrar nenhum medo por aquela ameaça velada. Eles fitaram o relógio na parede em apreensão, se perguntando se o plano de Miguel daria certo.

O general Noland se dirigiu a Calú:

— Qual é a garantia que você me dá, garoto, de não ter se passado como namorado de Miss Peggy para facilitar o sequestro, a mando dos russos?

E depois se dirigiu a Magrí:

— Como você prova a sua inocência, sendo que você não foi encontrada junto com as outras garotas na hora do sequestro? Onde você estava, menina?

Ela abriu e fechou a boca, mas Crânio deu um sinal para ela não responder, e Miguel pediu o mesmo a ela e Calú. Estavam aperfeiçoando a conversa silenciosa naquele dia.

— Vocês três — Noland se dirigiu a Miguel, Crânio e Chumbinho — Como vocês irão me convencer de que não estava acobertando os dois aí como os espiõezinhos treinados que vocês são? Os russos escolhem bem seus agentes, disso eu tenho certeza!

Miguel tomou a palavra:

— Se os russos escolhem bem seus agentes, isso eu não tenho certeza, porque nós mal nos conhecemos. Sendo assim, se fossemos mesmo espiões, não seria melhor colocar uma equipe mais bem treinada e que se conhecia há tempos, ao invés de cinco alunos que mal trocaram duas palavras em público esse tempo todo?

— Bom, isso é verdade — Hooper destacou — Pois pelo o que dizem os professores e alguns outros alunos deste colégio, vocês quase não têm nenhum contato.

Noland olhou para Miguel de forma crítica:

— Eu conheço um líder quando vejo um, e sei bem de disfarces e estratégias, boy. Trabalhei a vida inteira desmontando estratégias adversárias!

Miguel se enganou achando que o maior problema seria o diretor da CIA! O general Noland estava se mostrando um osso duro de roer. Olhou de novo para o relógio. Tinham que acabar com aquele interrogatório antes que se complicassem mais ainda.

"Vamos, Peggy. Apareça", implorava o garoto.

***

O detetive Andrade tentava ao máximo entender o que raios a senhorita Peggy estava tentando dizer a ele. O inglês do policial nunca passou de "the book is on the table", mas infelizmente a menina queria dizer outra coisa:

— D-A-N-G-E-R-O-U-S, mister!

— Dedo do quê? Olha senhorita Peggy, eu não sei o que a senhorita está fazendo no meu gabinete e como me encontrou. Seus pais não estão à sua procura? Cadê a sua segurança pessoal? Você não pode sair assim dessa forma depois de tudo o que aconteceu! Eu vou levá-la para o hotel!

Peggy bateu na própria testa e balançou a cabeça. Por que ela não pediu umas aulinhas de Português para os seus novos amigos? Não sabia dizer uma palavra!

Olhou para o bloco de papel em cima da mesa do detetive. Estava seguindo todas as instruções de Miguel e a do outro garoto que ela suspeitava ser o namorado de Magrí. Não podia revelar nada sobre a participação deles na sua libertação para Andrade, mas tinha de convencê-lo a depor a favor deles. Como explicar tudo isso?

Pegou a caneta e começou a desenhar. O gordo detetive franziu a testa, ao passo que ela parecia estar preenchendo a folha. Em seguida mostrou cinco bonecos de palito, acima deles escreveu "MAGRI'SFRIENDS AND MY FRIENDS".

— Ah eu sei o que é "friends" — Andrade riu — Isso eu sei. É "amigos", não é?

Peggy sorriu e fez o sinal joinha com o polegar. E apontou de novo para a imagem.

— Ok... Amigos da Magrí. Você está falando do Miguel, Crânio, Calú e Chumbinho?

— Yes! CIA arrested them!

— A CIA arrastou o quê?

A garota passou a desenhar de novo no papel. Fez um boneco de palito representando a CIA com riscos que apontavam aos outros bonecos. Depois fez um último boneco escrito "Android" e apontou para o detetive. O boneco estava se interpondo entre o bonequinho da CIA e os Karas.

— Help — Peggy apontou para ele e depois para o desenho dos Karas — You need to help them, but need to be careful!

O detetive encarava a garota e o desenho tentando compreender. Peggy desenhou um balãozinho no bonequinho da CIA escrevendo "soviets, spies".

— O quê? Soviéticos? A CIA está acusando os meus garotos de serem soviéticos?!

Peggy apontou para o desenho com ênfase. Andrade se esforçava para entender.

— "Spies"? Ah sim! Sim! Eu já vi essa palavra, vi um gringo lá no hotel dizendo isso, quer dizer espiões, certo? Espera... Soviéticos, espiões...

O detetive olhou para o desenho e arregalou os olhos, finalmente entendendo o que Peggy estava lhe alertando:

— Mas isso é um absurdo! Eu vou pegar aquele tal de Hooper e ele vai se ver comigo! Meus meninos espiões soviéticos?! Eles ficaram malucos?!

Peggy sorriu mesmo não entendendo uma palavra que Andrade disse, mas sabia que ele compreendeu o que estava tentando dizer. Fez um balãozinho no boneco que o representava escrevendo: "You, fake. You do not know them".

— O quê, senhorita Peggy? Espera... Fake, eu vi alguém chamando o Sherman Blake com essa palavra. O que era mesmo? ... Ah já sei! Falso! Você quer que eu seja falso para o quê?

Peggy apontou para o boneco-CIA e os bonequinhos-Karas e fez um gesto de cortar a garganta neste último. Escreveu "help" acima do boneco-Andrade que apontava para os bonequinhos-Karas. Depois apontou com o dedo para o detetive e deu de ombros, apontando para o desenho dos Karas de novo. Depois fez o gesto de não com os dedos.

Andrade limpou a careca com o lenço. Pensou, e pensou fitando a garota que o encarava de volta em ansiedade. Depois daquilo, iria dar um jeito de pagar um cursinho de inglês nem que seja só para aprender o tal do verbo to be.

Até que finalmente, entendeu o que Peggy estava penando para lhe dizer.

— É claro! Como fui estúpido! Não posso dizer que os conheço, porque se não as suspeitas iriam aumentar! A senhorita é muito esperta!

Peggy sorriu radiante. Ela e o detetive iriam salvar os amigos.

***

O tempo passava e a cada tique-taque do relógio, a tensão aumentava. As perguntas ficavam cada vez mais complicadas de responder. Miguel tentava a todo custo conduzir os amigos no que deveriam ou não dizer, mas qualquer gesto incomum que fizesse poderia se voltar contra ele.

— Então, Miguel — disse Noland — Você acaba de admitir que conhece o outro garoto ali — apontou para Crânio — Há muito tempo, correto?

O líder dos Karas praguejou em pensamento. Vacilou na hora de escolher as palavras e sem querer, acabou se contradizendo na sua resposta para as perguntas minuciosas do general. Não havia saída, era melhor confirmar que ele e Crânio eram amigos.

— Humm interessante. Você diria, Miguel, que este garoto poderia se deixar seduzir por alguma proposta suspeita? Diria que ele seria capaz de traição?

Os dois se fitaram. Crânio estava tenso, mas tentou passar confiança ao seu líder que sentia a responsabilidade caindo nas costas.

— Não, ele jamais se deixaria seduzir por coisa errada ou seria um traidor, seja uma pessoa ou causa. Disso nunca tive dúvidas.

Algo naquelas palavras deixou o gênio dos Karas comovido, ainda mais porque vinha de Miguel. Não sabia mais o que amigo pensava dele desde toda a briga que tiveram. Noland se dirigiu a ele:

— E você? Acredita que Miguel aceitaria qualquer negócio por dinheiro, status ou poder?

O rapazinho olhou bem para o amigo. Miguel sentiu que ele estava tentando ler sua própria alma.

— Não, ele não pode. Qualquer coisa que ele faça de errado, o Miguel sempre acha seu caminho de volta. É leal demais a si mesmo e aos seus amigos para trocá-los ou usá-los para qualquer coisa.

O lábio de Miguel tremeu, porque não havia percebido que temia o que Crânio iria dizer dele. Calú, esquecendo da tensão e de onde eles estavam, brincou:

— Que declaração de amor mais fofa, querem que eu faça um cartãozinho também?

Eles caíram na risada, mesmo com Magrí dando um cutucão em Calú para ele se calar. Chumbinho limpava lágrimas do canto do olho e até o agente Hooper riu um pouco.

Eles se calaram repentinamente quando a porta da sala se abriu, e Peggy MacDermott adentrou de cabeça erguida sendo escoltada pelo detetive Andrade.

— What's going on here? — Noland encarou os dois — Miss Peggy, what are you doing here?

— Stop and leave them alone! These guys are innocent and I have someone who can prove it.

Andrade acenou para os dois conhecidos, mas era óbvio para ele que o reencontro não era agradável. Hooper franziu a testa, enquanto a expressão de Noland ficava cada vez mais azeda.

— É verdade, Hooper e Noland. Esses meninos não tem nada a ver com essa história de espionagem russa! Pelo o que me recordo, quando invadimos o cativeiro de Miss Peggy, só haviam dois bandidos. Eu vi todas essas crianças deixando o colégio na hora do sequestro junto com os outros estudantes. Foi isso que as imagens dos jornais pegaram! Seus orangotangos expulsaram todo mundo da escola após a apresentação!

Hooper olhou para Noland. Magrí traduziu o que Andrade havia dito.

— We forgot the detective... — o agente da CIA comentou com Noland.

— Bullshit! How we can believe this?

— Pergunte a eles mesmos, general! — Andrade explodiu — O senhor está mesmo maluco de achar que a KGB iria escolher cinco alunos brasileiros para facilitar o sequestro de Miss Peggy?!

Hooper suspirou alto e tomou as rédeas.

— Right, right. You — apontou para Chumbinho — O que você estava fazendo na hora do sequestro?

O menor dos Karas riu de forma sapeca.

— Eu? Eu fui correndo para a festa junina do Colégio Logos! Tinha barraca de tiro ao alvo, maçãs do amor, crepes, hummm...

Antes que os policiais dissessem qualquer coisa, Calú emendou:

— Eu te vi por lá, Chumbinho! Mas fiquei sabendo do sequestro pela TV, quando eu já estava na festa. Também fui após a apresentação de ginástica para comer alguma coisa e afogar as mágoas, já que eu não ia conseguir ver minha gatinha tão cedo.

Ele piscou de forma galante para Peggy, que corou até a raíz dos cabelos e sorriu de volta para ele. Miguel, Chumbinho, Crânio e Magrí seguraram o riso. Os amigos entenderam que ele estava atuando para passar despreocupação e sentiram-se gratos pelo esforço do rapazinho.

Hooper continuou e se dirigiu a Crânio:

— O que você estava fazendo na hora do incidente?

O garoto sorriu de forma inocente.

— Ah eu estava em casa, vi tudo pela TV. Meus pais tinham saído para um jantar com amigos e não me viram chegar. Estava estudando quando me lembrei que tinha esquecido um CD na escola e voltei. Foi aí que vi toda a confusão.

— Eu me lembro disso! — Andrade sorriu — Você até veio me cumprimentar.

— Você conhece bem esses garotos, deteticte Android? — Noland indagou de forma suspeita. Andrade não vacilou.

— Apenas de vista, apenas de vista! Venho bastante a esta escola por conta de casos esquisitos que ocorreram aqui antes.

— Gostamos muito do detetive Andrade, porque ele sempre nos trata muito bem — Magrí sorriu docemente — Muito melhor do que qualquer outro policial.

Hooper já parecia estar convencido que tudo não passou de um engano. Apenas Noland parecia ainda ter suspeitas. O primeiro indagou Miguel sobre seu paradeiro na hora do sequestro.

— Vi que eu não poderia ser de nenhuma utilidade ficando na escola no meio daquele caos. Fiquei um tempo lá fora tentando acompanhar as notícias, mas logo me cansei e fui para casa.

Antes que o agente da CIA perguntasse a Magrí, Noland se interpôs.

— Você não me respondeu, mocinha, como conseguiu deixar o colégio antes de todas as outras garotas!

Magrí trincou os dentes. Viu Crânio ao seu lado olhar de forma assassina para o general e cerrar os punhos. Os dois automaticamente deram as mãos debaixo da mesa e o gesto não passou despercebido para Chumbinho.

— Magrí foi para casa de uma amiga, não era Crânio? — disse Andrade — Foi o que você me contou.

— Tanta pressa para apenas visitar uma amiga?

Peggy que até então apenas observava a cena, falou com firmeza:

— Eu tive um probleminha nesse meio tempo...

— What? — Hooper indagou — Explique-se melhor, Miss Peggy.

"Nessa hora, eu jurei que não íamos conseguir sair daquela situação", Crânio balançou a cabeça. "O general era esperto demais e nossas ideias estavam se esgotando".

Magrí sorriu de forma compreensiva para o garoto e o abraçou como se o consolasse.

"Nem eu sabia o que ela estava tramando! Mas foi engenhoso".

A garota e Crânio riram de verdade ao se recordar da cena.

Vários pares de olhos encaravam Peggy de forma confusa. A menina procurou os olhos de Calú, que brilhavam de forma encorajadora. Ela sorriu para ele fracamente, sentindo seu coraçãozinho palpitar no peito.

— All right, general, agent Hooper — Peggy suspirou — Eles estão apenas tentando me proteger, mas terei que dizer a verdade. Espero que papai não fique zangado comigo.

Todo mundo dessa vez olhou para a garota sem entender e com apreensão. O que aquelas palavras significavam?

Peggy continuou:

— I was bored and alone. Desde que papai foi eleito e nos mudamos para Washington, eu me sentia sozinha e sem amigos. Eu queria novos amigos e aventuras, e foi aí que conheci Magrí.

As duas sorriram uma para outra. Magrí entendeu na hora o que se passava na cabeça da nova amiga.

— Então ela me falou de seus amigos e de como eles eram importantes para ela e fiquei com inveja dela, admito. Mas não durou muito, pois através dela conheci Calú. Haviam outros amigos também e consegui vê-los brevemente, mas eles não me conheciam direito, por isso ficaram um pouco relutantes comigo no começo... Então eu queria impressioná-los.

Os amigos ficaram um pouco sem graça, principalmente Crânio, que fingiu estar observando uma formiga desaparecer entre as pernas das cadeiras. Magrí continuava traduzindo para o detetive.

— Sendo assim — Peggy continuou sem jeito — Eu disse que ia levá-los para um passeio de carro assim que acabasse a apresentação e eu estivesse livre. Mas eu iria dirigir e sem segurança nenhum no meu pé.

— Miss Peggy! — Hooper exclamou — Essa sua ideia foi completamente imprudente!

— É, minha querida, isso não foi sensato — Andrade franziu a testa — Você poderia se colocar em perigo desnecessário!

A garota torceu as mãos.

— Eu sei dirigir, e ia ser uma aventura... Não seria tão imprudente se eu fosse uma garota comum.

Por alguns instantes, Hooper e Andrade a encararam com um pouco de pena. Noland se mantinha impassível e apenas observava os três. Miguel, aproveitando que os citados não prestavam a atenção neles, escreveu na mão usando uma caneta que tinha no bolso, uma rápida mensagem em código morse. Ele virou a palma da mão para Crânio que leu rapidamente pelo canto de olho. Encarou amigo como se quisesse discordar dele, mas o olhar de Miguel era insistente. O gênio dos Karas cedeu.

— A culpa também foi minha, sr. Hooper — disse Crânio, o que deixou o agente mais impressionado — Eu a desafiei e a provoquei achando que ela não merecia andar com a gente por aí.

Ele olhou para Peggy e sorriu, sabendo que suas palavras tinham outro contexto para ela:

— Espero que você me desculpe. Eu a julguei muito mal.

— Of course! — Ela sorriu radiante — There's nothing to blame at all!

Hooper e Andrade se fitaram por alguns instantes, e por fim o primeiro deu o caso como encerrado. Noland não tinha como fazer alguma objeção, já que o diretor da CIA era quem comandava aquele tipo de operação. Era fato que o general não estava tão convencido (e comovido) por toda aquela história.

Quando foram deixados sozinhos por alguns instantes, os Karas, incluindo a nova integrante, se abraçaram com carinho, entre risos e algumas lágrimas de Peggy.

Era bom ter amigos, pensou ela.

***

Miguel piscou quando percebeu que as mãos delicadas de Danielle acenavam para ele acordar. Despertou com a voz cantarolante dela:

Alô, alô marciano, aqui quem fala é da Terra, para variar estamos em guerra...

O rapaz riu e balançou a cabeça. A moça sempre tinha uma canção para todas as situações. Ela segurava uma caderneta e sorria levemente com zombaria.

— Ei Michael Corleone, temos uma reunião agora, lembra?

Miguel se distraiu um pouco pela forma como ela estava corada pelo frio, o que fazia um contraste interessante com o cabelo avermelhado dela. Deve ter feito uma cara bem estúpida, pois Danielle riu mais ainda. Ele se levantou num pulo arrumando a camisa social.

— Quantas vezes eu te falei para parar de me chamar de Michael Corleone? — ele crispou os lábios seguindo atrás da moça até a porta da sala onde trabalhavam.

Danielle riu e deu de ombros sem responder. Tinha esquecido um papel na mesa de Miguel e voltou com pressa para pegar. Antes de sair, porém, pegou o porta-retratos que estava deitado e o colocou em pé. Velhos amigos sorriam para ela da fotografia de formatura do Elite, com o próprio Miguel sorrindo e acenando para ela da antiga foto da Polaroid de Magrí. Era um contraste do Miguel melancólico e ranzinza que convivia todos os dias...

Pelo menos, enquanto ele praticamente a escoltava até a sala de reuniões, o rapaz sorriu de verdade das brincadeiras dela. Definitivamente continuaria o chamando de Michael Corleone ele gostando ou não...

***

Notas finais
No próximo conto: Mesmo com um relacionamento discreto e se conhecendo há um tempo, Magrí e Crânio ainda tem muito de aprender sobre o outro. O geninho, por exemplo, descobre que a namorada tem um gosto duvidoso para música. Magrí, por outro lado, se esforça para deixá-lo "menos careta" musicalmente.