Canção De Camaleões

1 Apenas mais um despertar.


Notas iniciais
Hey Pessoal,
Aqui começo mais um projeto, totalmente diferente dos outros. Espero atrair alguns leitores, vamos ver o que pode acontecer com o tempo né?
Espero também que alguém possa se identificar com o personagem principal, garanto que ele vive uma vida que é igual a de muita gente por ai.
Vamos lá o/

O sol começa a invadir as repartições da cortina de meu quarto. Ainda não estou pronto para abrir os olhos. Não estou a fim de acordar e enfrentar a realidade. Mais uma segunda-feira qualquer em minha vida, sem emoções, sem expectativas; apenas mais uma segunda-feira regada de tédio. Eu poderia dizer a minha mãe que não estou me sentindo bem, assim eu poderia ficar em casa ao invés de ir à aula. Mas ao mesmo tempo em que não gosto da escola eu sei que ela um dia será importante para mim. Sei que naquele prédio onde passo grande parte do meu tempo muitas pessoas são falsas e detestáveis, eu deveria ignorar todas. Porém, eu também sou falso. Finjo me enturmar com todos, para um dia poder me aproveitar disso. Talvez conseguir favores. Concordo que eu não sou diferente do resto, mas acredito que se eu fosse quem eu realmente sou eu não aguentaria um dia naquele mundo falso, impregnado pela elite desprezível e fútil.

Decido me levantar, ainda sem abrir os olhos. Ainda estou um pouco sonolento, um pouco deprimido, um pouco vivo. Parte de mim fica presa em meus sonhos. Essa parte sim é feliz. Essa parte sim vive uma vida interessante. Na verdade essa parte de mim é a minha parte mais viva, mais realizada e bonita. Pena que não posso mostrá-la para ninguém. Arrasto-me até perto da janela abro a cortina e depois a janela. A brisa matinal passa por meus cabelos, invade o meu quarto, toca o meu coração. Ela transmite uma calmaria impressionante, quase me sinto revigorado e pronto para viver mais um dia. Quem dera que uma brisa matinal pudesse curar toda a maldade do mundo. Fico olhando para o horizonte sem ter um ponto em foco, apenas estou olhando o dia. Admirando sua beleza. Criando coragem para sair dos meus pensamentos e ir tentar sobreviver.

Pego minha toalha que está pendurada na porta do armário e vou para o banheiro, mas antes ligo o rádio para ouvir alguma música enquanto tomo banho. Aumento o volume, sei que é de manhã e eu não deveria fazer barulho, mas todos em minha volta devem estar acostumados com isso. Todo dia coloco uma música para tocar enquanto me banho. Acredito que a música tem o poder de tirar a sujeira que fica entranhada em nossas almas, ela nos resgata da tristeza e nos projeta para a realidade. Agradeço a quem inventou o ritmo, a vivacidade, a simplicidade cativante da música. Creio que essa pessoa me poupou de várias lágrimas que seriam desperdiçadas.

Ligo o chuveiro, começo a tirar minha roupa e me posiciono em baixo das gotas quentes de água. Deixo-as molharem o meu corpo enquanto começo a criar uma coragem que até então estava adormecida. Preencho o meu rosto com uma máscara que apenas seria retirada no final do dia. Sou bom em criar personagens, ainda mais quando estes me ajudam a esconder minhas mágoas. Cada dia uma máscara diferente, cada dia um personagem diferente, cada dia uma nova mentira que é contada por um falso que não consegue viver uma verdade. É, eu sou assim.

Desligo o chuveiro e me enrolo na toalha. Seco-me e vou para o quarto vestir o uniforme escolar. Acho uma bobeira esse papo de uniforme. Quem inventou isso queria padronizar toda a população, mas eu tenho algo a dizer para essa pessoa, ninguém é igual a ninguém, não é uma roupa que vai me fazer ficar igual à outra pessoa. Ser diferente é importante. Perdemos nossas particularidades quando nos uniformizamos, cada um tem uma característica própria e nada deveria apagar isso. Mas tenho que aceitar que me igualem ao resto, tenho que aceitar essas malditas regras. Que se fodam as normas, mas ainda não posso fazer nada contra isso. Apenas visto meu uniforme e coloco uma camisa por cima da camiseta. Não estou querendo me diferenciar do resto, estou apenas seguindo o meu estilo. E nada e nem ninguém vai tirar isso de mim.

Vou até o espelho e começo a pentear o meu cabelo, será que parece perfeito? Na verdade pareço um boneco moldado em falsidade, mas não estou com tempo para reflexões. Estou começando a ficar atrasado. Desligo o rádio, passo um pouco de perfume, pego minha mochila e saio correndo pela casa até chegar na porta da sala. Esqueço do essencial, coloco minha mochila sobre o sofá e vou até o quarto dos meus pais. Beijo minha mãe e digo que estou saindo. Ambos me desejam boa aula e saio do quarto. Posso ter várias brigas com os dois, mas não nego que os amo. Sem eles, eu não sei muito bem o que eu seria. Na verdade eu não seria nada, pois eu não teria nem nascido.

Pego minha mochila e saio de casa. O dia está tão belo e calmo, começo a ficar mais animado. Enquanto caminho até o ponto de ônibus vou pensando em tudo que está acontecendo. Sou apenas um garoto de 17 anos, que está começando a ficar rebelde sem ter um motivo plausível. Talvez esteja um pouco tarde de para eu me rebelar, ainda mais em ano de vestibular, mas sinto uma necessidade de romper com meus velhos pensamentos. Estou sendo quem eu queria ser a muito tempo. Será que estou conseguindo me libertar?

Chegando ao ponto vejo várias pessoas esperando a condução. Todas parecem felizes, mas seus olhos me dizem o contrário. Elas estão cansadas de suas vidas estressantes e conturbadas, querem melhorar suas condições. Enquanto elas fazem o essencial para garantirem a sua sobrevivência, elas se distanciam da vontade de perseguirem os seus sonhos. Talvez elas já tenham percebido que sonhos são apenas ilusões que não ajudam em nada. Apenas eu não percebi isso. Apenas eu continuo a pensar que os sonhos são uma expressão de revolta, são as vozes de nossa liberdade gritando por uma ruptura da realidade. Eu quero sonhar e vou continuar sonhando, mesmo que isso me faça cair durante meu caminho.

Apoiado no muro de uma casa eu fico esperando o ônibus chegar. Às vezes ele atrasa, mas quase sempre ele cumpre seu horário, pelo menos no período da manhã. Ele chega no horário certo, eu entro nele e me sento em um banco perto de uma janela. Adoro ver a rua se movimentando enquanto estou parado dentro do ônibus. Sei que isso que acabei de dizer não está totalmente certo, eu estou parado em relação ao ônibus e a rua não está se movimentando, quem está se movimentando sou eu. Mas não estou com vontade de discutir física agora. Observar a vida passar em frente aos meus olhos é interessante, é divertido. Esqueço-me de minha vida e fico concentrado na vida alheia. Isso pode ser visto como algo ruim para a maioria das pessoas, mas mesmo que elas neguem, eu sei que todos adoram fazer isso. Escapar pelo menos por um tempo de nossa vida é necessário, é uma questão de sobrevivência.

Muitas pessoas entram e saem do ônibus e nem ao menos se cumprimentam. Por onde anda a educação? Por onde anda a vontade de fazer novas amizades? Os valores de antigamente entraram no maldito túnel do esquecimento. A pressa conseguiu tomar o lugar da gentileza e da verdade. Todos entram e saem do ônibus sem ao menos perceberem quem está ao seu redor. Não compartilham os seus problemas e nem oferecem conselhos aconchegantes para quem não encontra a resolução de seus dilemas. A sociedade deveria ser um pouco mais preocupada com o próximo, mas acho impossível que isso algum dia aconteça. Confesso que eu faço parte das pessoas que entram e saem do ônibus sem ao menos falar um simples “oi” para alguém. Mas o que eu posso fazer, se não falam comigo eu não preciso falar com ninguém. Eu sozinho não posso mudar a sociedade.

Saio da condução após longos e cansativos 45 minutos. Caminho por mais um tempo até parar em frente a minha escola. Eu poderia dizer que é uma prisão, mas no fundo eu gosto dela. Dentro desse prédio azul, verde e branco eu posso encontrar as várias camadas da sociedade. Posso estudar o comportamento das pessoas e me acostumar a encarar as diversas realidades de uma vida. Cada um pode me mostrar que somos diferentes, mesmo estando em um lugar comum, com uma roupa igual. Mesmo que tentem nos padronizar, nos alienar, nos direcionar para o caminho aceito pela sociedade; nós ainda possuímos certo controle sobre o trajeto que queremos um dia seguir. Não estou dizendo que todos são rebeldes, mas somos apenas adolescentes. Temos que aproveitar a vida e temos que mostrar que os adultos podem querer dominar a gente, mas somos nós que escolhemos por onde andar.

Entro na escola e vou para minha sala. Abro a porta e vou em direção a minha cadeira. Coloco minha mochila na mesa e vou para perto de um amigo que já estava na sala. O nome dele é John. Um cara legal, loiro, alto, um pouco acima do peso, com olhos claros e uma barba um pouco mal feita. Converso às vezes com ele, temos alguns assuntos em comum. Ele parece um urso, não só por sua aparência, mas também por sua incrível habilidade de hibernar. Ele dorme durante várias aulas, o que eu admiro, pois mesmo não prestando atenção ele consegue tirar notas altas nas avaliações.

- Eai... Tudo bem? – John me pergunta, bocejando.

Esqueci de informar, eu não falarei o meu nome nessa história. Não acho relevante. O que os leitores devem saber é que eu sou um adolescente, quase como todos os outros. Sou alto, moreno, com olhos castanhos. Meu cabelo é detestável e passo raiva com ele sempre. Eu me apaixono, me divirto, me entristeço como qualquer outra pessoa. Sou falso, dissimulado, frio, desprezível e mal igual o resto da sociedade. Não quero que me individualizem. Talvez quem esteja lendo pense da mesma forma que eu. Então, serei apenas um personagem que está vivenciando a história.

- Tudo bem John, e com você? – Indago John, tentando manter um assunto.

- Bem também cara. Viu os episódios do seriado que te passei ontem?

- Nem vi. Não tive tempo. Fiquei o dia todo estudando.

- Você estuda demais.

- Na verdade eu estava mentindo. Fiquei o dia todo no MSN e me esqueci de ver. Mas juro que vou ver. Algum dia.

- Sei.

Os outros alunos começam a entrar na sala e eu vou conversar com alguns amigos. São assuntos banais, mas servem muito bem para passar o tempo. Abro um sorriso para as pessoas e passo a imagem de uma pessoa divertida e alegre. Não mostro meu verdadeiro eu, não é isso que eles querem ver. Todos que estão na sala estão escondendo alguma coisa, mas não demonstram isso. Somos falsos e misteriosos. Personagens criados para mostrar que existe um lado bom na vida. Tenho certeza que a falsidade nos une ao mesmo tempo em que uma verdade poderia nos separar.

Notas finais
Então,
O que acharam?
Será que consigo alguns leitores?
Ah, se alguma alma bondosa leu esse capítulo, por favor, seja mais benevolente ainda e indique para amigos. Isso me faria muito feliz.
See You Later,
Noah.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.