Canção Da Morte

19 Capítulo 19 - Jamir


Quando os jovens foram informados da localização do Santuário de Jamir, todos sentiram-se desanimados demais para partir. Eles estavam na Grécia e uma viagem até a Itália seria rápido para os cavaleiros de Athena. Ir até Portugal seria um passeio razoável. Já uma jornada até as montanhas do Nepal era uma jornada longa demais, até mesmo para eles. Ichiro entendia que viajar até Jamir seria cansativo, mas era necessário, afinal, Hikaru, Athena e o mundo dependiam do sucesso deles, foi assim que ele convenceu os garotos a acompanha-lo até terras tão distantes.

Ryu percebeu durante a jornada que o cavaleiro de Áries era um homem muito sábio. Ele conhecia diversas espécies de plantas, quais possuíam efeitos medicinais, quais eram comestíveis e quais poderiam ser utilizadas como veneno. Ele também era, sem dúvida, o cavaleiro que mais conhecia as histórias das gerações antigas. Os fatos presentes na vida dos cavaleiros que vieram antes deles. Constantemente eles conversavam sobre os cavaleiros da geração passada, os garotos ouvindo e fazendo perguntas e o mais velho contando suas histórias.

- “... e foi assim que Seiya derrotou Aldebaran de Touro.”.

- Como você sabe de tudo isso? – perguntou Aquiles

- Parte de meu trabalho no Santuário é a restauração de armaduras, se alguma armadura é danificada, eu tenho por dever conserta-la. Quando faço isso, preciso ceder certa quantidade de sangue, pois as armaduras precisam de uma grande quantidade de cosmo para serem restauradas e meu cosmo é transferido para elas através de meu sangue. Quando meu sangue entra em contato com as armaduras eu posso ver tudo pelo que elas já passaram, assim como tudo o que já viveram aqueles que as vestiam.

- Nossa! Qualquer um? – quis saber Cleon.

- Se eu estiver com a armadura correta, sim. Agora me deixem contar como Shiryu fez uma cachoeira correr ao contrário. “Certo dia, nos altos e distantes Picos de Rozan...”.

E assim a viagem seguiu, os cavaleiros ouviam as histórias e se maravilhavam com os feitos de Regulus, Sísifo, Saga, Shura e tantos outros cavaleiros que existiram a tempos atrás. As noites eram passadas ao redor de uma fogueira que eles rapidamente faziam e isso trazia uma memória de um lugar mais familiar do que florestas, campos abandonados ou terrenos baldios. Tudo parecia estar indo bem. Mas quando se está em uma guerra não se pode confiar na aparência das coisas.

Passando por algumas terras no Oriente Médio, os cavaleiros de depararam com um cenário de guerra. Não que isso fosse surpresa para eles, todo o mundo sabia que aquela região vivia em constante conflito. Porém todos tinham conhecimento de que os soldados envolvidos não utilizavam armaduras vermelhas. Felizmente já havia um grupo de cavaleiros de prata por perto e assim eles puderam se juntar aos companheiros e lutar com o exército de Ares.

Diferentemente dos soldados que haviam atacado a Vila Rodório, esses não eram esqueletos ressuscitados. Eram jovens e adultos que haviam sido recrutados pelo deus da guerra, assim como eles tinham sido chamados por Athena. O exército continuava com uma grande variedade de guerreiros: arqueiros, espadachins, samurais, vikings entre outros. Aliando-se a Hades, Ares ganhou o direito de trazer grandes lutadores de volta a vida, seus corpos e suas almas eram regenerados e eles renasciam para lutar. Porém com a derrota de Fobos e Deimos, eles só podiam ressurgir uma única vez para depois morrerem novamente.

Dante e seus amigos mostraram-se felizes quando viram que Miro de Cérbero estava no grupo de cavaleiros de prata, e ficaram impressionados depois que viram as habilidades de luta de seu antigo avaliador. Miro podia criar cópias de si mesmo e assim ele atacava até sete adversários simultaneamente. De suas mãos surgiam garras que dilaceravam as armaduras e os corpos dos inimigos e a maior surpresa foi vê-lo invocar um enorme cão de três cabeças feito puramente de energia, o animal corria entre o exército rubro mordendo e pisoteando seus soldados como se fossem brinquedos para cães. Certamente os cavaleiros de bronze vestiram suas armaduras e foram para a batalha. Dante criou um furacão de fogo que consumiu alguns samurais sem deixar vestígios de sua existência, Aquiles fez com que suas correntes se enrolassem nos inimigos e os espremessem como uma jiboia que quebra os ossos de suas presas, Cleon corria por entre as fileiras do exército e golpeava com socos, chutes até mesmo cabeçadas, onde ele tocasse uma grossa crosta de gelo se formava e reduzia bruscamente a temperatura, muitas estátuas de gelo foram se formando ao longo do caminho. Ryu viu-se cercado por dez espadachins e sua expressão demonstrava que ele não sabia como sair daquela situação, seus olhos pareciam os de uma criança assustada e suas pernas tremiam. Ichiro correu para ajuda-lo, mas se deteve logo depois de dar dois passos. De alguma forma os dez espadachins estavam caídos no chão, mortos. Ryu olhou para ele e abriu um largo sorriso.

- Como você fez isso? Como os derrotou tão rápido? – perguntou o cavaleiro dourado.

- Sutileza. O segredo é ser sutil. – disse o jovem com um sorriso maior ainda.

A luta durou algumas horas, porém os cavaleiros de Athena foram vitoriosos e alguns dos soldados de Ares acabaram fugindo para que não acabassem mortos.

A noite havia chegado e todos concordaram em passarem mais um tempo juntos, não era sempre que tinham a oportunidade de ver uns aos outros. Eles conversaram, riram, contaram histórias e compartilharam suas esperanças de vencer a guerra, voltar para casa, rever a família e dar adeus a esse pesadelo que a maior parte do mundo não sabia que estava acontecendo. Amanheceu e todos se despediram, o grupo de Miro seguiu em sua caça aos soldados rubros e a equipe de Ichiro continuou sua jornada rumo a Jamir.

Não muitos dias depois eles entraram no território do Nepal e sentiram aliviados por estarem tão perto de concluírem a missão. Se tudo corresse como o planejado eles retornariam dois dias depois com o reforço das amazonas e com a certeza da ressureição de Hikaru. Porém toda estratégia tem falhas e quando se planeja algo não se leva em conta alguns fatores que podem atrapalhar sua realização.

Depois de duas horas eles alcançaram a montanha que os levaria até o Santuário escondido. A subida era íngreme e cansativa, suas armaduras pesavam nas mochilas e seus pés doíam a cada passo. Finalmente eles chegaram a um ponto onde a subida acabava e uma espécie de planalto dava continuidade ao caminho. Foi quando Ryu sentiu algo estranho e começou a olhar em volta como se procurasse alguma coisa.

- Você também sentiu, não é? – perguntou Ichiro.

- O que é isso? É um cosmo? Mas é tão... fraco. – disse.

- Fraco não, baixo. Essa é uma técnica que foi ensinada pelo mestre deste Santuário. Comecei a sentir esse cosmo quando viramos a esquerda naquela pedra quadrada logo ali embaixo. – falou apontando para um lugar mais abaixo na montanha, onde haviam passado minutos antes.

- Mas não há pedra nenhuma lá. – comentou Cleon.

- Hm... Inteligente. Então era um embuste. Foi a partir daquele ponto que ela começou a nos seguir. – disse Áries.

- Mesmo sabendo que tem alguém nos seguindo não consigo sentir o cosmo dessa pessoa. – falou Aquiles.

- É porque uma das técnicas que essas amazonas aprenderam é a de ocultar seu cosmo. Para nós que temos consciência de cosmo e de como utilizá-lo, sentir o cosmo de alguém é algo simples. Quando alguém se aproxima, nós sentimos seu cosmo antes que a pessoas chegue, é como ouvir seus passos ou sua voz, mesmo a pessoa não estando no nosso campo de visão. Num período de guerra, esconder-se dos inimigos é vital, pois assim você não avisa que está próximo e tem mais chances de ataca-lo de surpresa. – nesse momento Ichiro olhou em volta com um ar de curiosidade. – Assim como essa! – disse ele rapidamente agarrando uma flecha que tinha uma trajetória certeira para a cabeça de Dante. Os olhos do cavaleiro de Fênix arregalaram-se de susto com a flecha que estava a poucos centímetros de distancia dele.

— Muito bem, apareça Kizumi! – ordenou o cavaleiro de ouro.

Segundos se passaram até que uma linda garota saiu de trás de uma grande rocha com um arco na mão, ela era linda, seu cabelo loiro caía até dois palmos abaixo de seus ombros, seus olhos de cor azulada fitavam o cavaleiro dourado, primeiro com uma expressão séria depois com vergonha, como uma criança pega numa travessura.

- Tio Ichiro!? O que o senhor faz aqui? – perguntou a menina ainda com uma cara envergonhada.

- Nós viemos para falar com seu mestre. Ele está?

- Sim. Está no Santuário.

- Ótimo. – falou Ichiro com uma seriedade medonha na voz. — Agora venha cá me dar um abraço. – disse com os braços abertos e um sorriso no rosto.

A menina fez uma cara de alegria e correu para os braços dele, parecia mesmo que eram parentes. Parentes que não se viam há tempos. Então Ichiro perguntou:

- O que eu lhe disse sobre objetos pontudos? Está querendo se machucar? Ande passe esse arco pra cá. – disse estendendo uma das mãos.

- Tio! Eu sou uma amazona agora, sei usar arco e flecha. Está achando que sou uma de suas crianças? – falou Kizumi apontando para os quatro jovens atrás de Ichiro.

- Ei! – protestou Dante, ainda nervoso pela tentativa de assassinato.

- Acalmem-se garotos! Creio que foi tudo um mal entendido. Eu e Kizumi vamos até o Santuário na frente e depois vocês virão ao nosso encontro, ok?

Kizumi foi a frente guiando-os pela trilha e revelando algumas armadilhas preparadas para invasores, algumas feitas por ela mesma, as últimas eram apresentadas com um orgulho na voz. Até que eles chegaram ao vale.

Num dado ponto do caminho a trilha acabava num penhasco com uma longa queda que terminava em uma série de pedras afiadíssimas apontadas para cima, se assemelhavam a gigantescas estalagmites esperando por qualquer viajante desavisado. Do outro lado podia-se ver outro paredão levantando-se do chão e nivelando-se paralelo aquele em que eles se encontravam, existia também certa protuberância na rocha que adentrava sobre o vale de estalagmites, como se houvesse uma ponte ali no passado.

- Demoramos uma semana para fazer com que as rochas ficassem bem afiadas. – disse Kizumi, ainda exibindo-se para o tio. – Derrubar a ponte foi fácil, eu fiz isso sozinha.

- E por que tantas mudanças? – perguntou Ichiro.

- Ah, o senhor sabe. Temos que nos proteger dos inimigos e quanto mais difícil for o acesso deles melhor. Assim não teremos que nos preocupar com invasões ou ataques.

- Entendo. E como chegaremos ao Santuário? Ele continua após o outro paredão ou vocês o mudaram de lugar? – quis saber Áries.

- O senhor é realmente inteligente. Sim, nós o mudamos de lugar. Não faria sentido por tantas armadilhas que pudessem prejudicar nossa entrada no Santuário. Seria como atirar no próprio pé. Mas eu não vou revelar a localização do Santuário, descubra por si mesmo.

Ichiro olhou para o paredão a frente deles e depois para trás, aproximou-se da beirada e olhou para baixo procurando por algo e então ele percebeu uma estranha elevação rochosa do outro lado do vale. Parecia uma montanha distante, mas ele percebeu a verdade. A torre de Jamir estava disfarçada por alguma técnica ilusória. Se não estivesse bem atento, ele mesmo poderia passar por ali e continuar caminhando até encontrar a torre, o que poderia levar dias e dias até que ele percebesse que seria um trabalho em vão.

— Garotos, fiquem aqui. Se tudo correr bem eu mando um sinal dizendo que vocês podem entrar. – disse Ichiro.

Uma ponte dourada surgiu diante dele e ele começou a andar seguido por sua sobrinha Kizumi, a cada passo que davam o chão da ponte desaparecia atrás de seus pés. Logo os jovens cavaleiros perceberam que a ponte fora criada pela vontade de seu líder. Em instantes eles estavam sozinhos observando o cavaleiro de ouro desaparecer de suas vistas. Longos minutos se passaram sem que qualquer sinal viesse do Santuário de Jamir. Os cavaleiros já começavam a ficar impacientes.

- Que demora! O que será que está acontecendo lá em cima? – disse Aquiles.

- Paciência, Aquiles. Você se lembra do que Ichiro nos disse? O mestre de Jamir é um homem difícil de lidar, ele já foi um cavaleiro de Athena na Guerra Santa anterior, enfrentou perigos que nós nem imaginamos. E o maior medo do Ichiro é que esse homem já traiu seus companheiros uma vez. Claro, ele se redimiu, mas ainda sim carrega esse peso na consciência. Mas não podemos afirmar certamente que ele vai nos ajudar, talvez ele traia Athena novamente. Não temos como saber. – advertiu Ryu.

- Mesmo assim, estou ansioso para conhecê-lo. Mal posso esperar. – falou Cleon.

- Nós já sabemos Cleon. Ele pode ajuda-lo em seu treinamento e bla bla bla. Você vem falando disso desde que soube quem ele é. – disse Dante.

Então eles ouviram uma explosão. Um forte estrondo vindo do Santuário a frente deles. Todos se assustaram e ficaram preocupados com o que seria o motivo dessa explosão. Até que uma pedra caiu perto de onde estavam, letras estavam talhadas na superfície da rocha: V-E-N-H-A-M.

— Acho que esse é o sinal. Mas e então como vamos chegar lá? Alguém sabe criar pontes com o cosmo? – perguntou Aquiles.

- Eu acho que antes de pensar em ir, precisamos saber o que é aquilo que está voando pra cá. – disse Ryu apontando para algo distante no céu.

Todos se viraram para olhar o que estava se aproximando deles, procuraram por qualquer coisa que estivesse voando no céu, mas não conseguiram ver nada.

- Ryu, eu não estou vendo... – disse Cleon virando-se para o amigo, porém o cavaleiro de Dragão já não estava mais ali. Ryu havia sumido.

- Hahahahahahaha. Tenho que admitir, o garoto tem mais estilo que vocês idiotas! – disse Dante, rindo da situação.

- Quem você está chamando de idiotas? – perguntou Aquiles com raiva na voz.

- Os dois que vão chegar por último. – respondeu Fênix. Chamas surgiram em suas mãos e começaram a crescer mais e mais até que o cavaleiro lançou-se ao céu, usando seu fogo para impulsioná-lo ele começou a voar na direção do Santuário.

Cleon olhou para Aquiles e viu que suas correntes já começavam a se mover e assim que alcançaram o Santuário ele começou a ser puxado para lá, indo de encontro aos amigos. O cavaleiro de cisne sentiu-se traído e percebeu que era o único que continuava com os pés no chão. Rapidamente ele fez com que um vento frio soprasse por ali, um vento tão forte que o fez flutuar e assim ele começou seu caminho até o Santuário.

Quando estavam todos lá, eles entraram no Salão principal, lá Ichiro e Kizumi aguardavam sentados próximos a uma das paredes, um a um os cavaleiros foram se juntando ao cavaleiro de ouro e esperaram pela entrada do mestre de Jamir. Uma das portas de abriu e dela saiu um homem velho, seus cabelos eram muito brancos, talvez quando mais jovem ele fosse loiro pensou Cleon. O homem usava uma longa vestimenta, semelhante a do Grande Mestre. Sua capa branca caía de seus ombros e seus olhos tinham uma expressão séria. Ele não possuía a marca característica dos Lemurianos, duas pintas sobre os olhos no começo das sobrancelhas. Quando ele entrou todos se levantaram. Ele caminhou até o centro do Salão e parou a frente dos cavaleiros.

- Olá. – disse ele. – Eu sou Hyoga.