Um Suspiro

Tomo minhas mãos como a um piano

Meus dedos deslizam uns sobre os outros

Sentem o frio dos seus pares

Dedos cadavéricos e cheios de cicatrizes

Sobre a mesa da sala, compromissos se acumulam

Na minha janela, sombras negras pipocam na existência

O frio toca a mundo com um ar de piedade

O frio vem ao mundo como um motivo para odiá-lo

A crueldade se despediu e meu irmão foi com ela

Para uma casa nas montanhas, foram caçar histórias e razão

As noites insones foram substituídas pelo sono

Pelo cansaço e por interminável responsabilidade

O sono e o desinteresse povoam o mundo sombrio

A noite já não traz medo, mas impaciência e ansiedade

O dia se aproxima novamente e decisões devem ser tomadas

Erros devem ser cometidos e poemas devem se escritos

Já a algum tempo não vejo muitas mariposas

E meu irmão é novamente um parente distante, daqueles que não desejamos nos lembrar

Já a algum tempo não me deparo com abismos, apenas encaro o mar noturno

E as águas salinas me devolveram a melancolia dessa vida

Devolveram-me a paz dessa vida, não com um palhaço sorridente

Ou com uma criança dessas que fui... tão inocente

A melancolia me trouxe a paz quieta, resignada e sensata

Sem heróis fracassados ou missões suicidas

O mar apresenta calmas sinfonias, acordes suaves

Cigarro, álcool, internet e energia elétrica

O mar trouxe responsabilidades e afazeres, trouxe muito

E trouxe o nada, que preencheu o vazio que tanto me ocupava

Os violões desafiam as notas do piano

E ambos valsam espiral interminável para o fundo do mar

Os dois travam uma batalha eterna pelo equilíbrio do mundo

Pelo equilíbrio entre o pesar e a loucura

Entre os poemas

As drogas

E o Homem.