A muito tempo não sinto nada

Não que eu deixe de sentir alguma coisa

Mas a muito tempo não há nada para sentir

Um vazio

Um despropósito

A chuva caiu o dia inteiro

E dentro da minha casa eu sinto frio

Debaixo das minhas cobertas, eu sinto frio

E o frio transformou a minha realidade

Transformou-se na minha realidade

Entendo que nunca senti muita coisa

E que sempre que sentia algo

Eu sentia demais

Até perceber que tudo aquilo não passava de mentira

Não passava de miragem

Mas o frio, o frio é sempre presente

Nem sempre a chuva

Nem sempre o sol

Nem sempre responsabilidades e nem sempre o tédio

Mas o frio... o frio está sempre aqui

E eu o agradeço por provar que ainda vivo

Pois eu não sinto o calor do meu sangue

Não sinto a dureza dos meus ossos

Não sinto a dor da morte

Nem o afago do amor

Não me lembro da euforia

Não me lembro da saudade

Não sinto mais vontade

Não sinto nem mesmo o sono

Mas eu sinto frio

Muito frio

E uma fome insaciável

Por sentir alguma coisa

Que não seja um mero devaneio desesperado

De um náufrago solitário