Cantos da Montanha
11 Natal
É muito estranho tudo isso
Ao redor do mundo as pessoas comemoram
Mas no meu coração reina o silêncio
E a resignação anuncia a queda.
De fato, não existe muito o que comemorar
A verdade é que vivemos da derrota
A infantilidade desses versos, ou quem sabe sua arrogância
Já pode ter matado o meu espírito.
Não sei mais como proceder, nem que rimas fazer
Eu sinto medo, sinto muito medo de morrer
A cada dia que passa, passa meu passo
E a cada pegada minha vontade de andar diminui.
Quem sabe seja o clima, o sol ou a temperatura
Mas festas de família sempre me deixam confuso demais
A dicotomia eterna entre o regojizo e a morte paira sobre o ar
Está difícil respirar.
Quem sabe se eu cortar um braço, eu consiga parar
Um braço, uma perna, um hábito, uma gíria
Quem sabe virar um tagarela ou um devorador de pílulas açucaradas
Quem sabe então o meu coração se aqueça e o passado não mais importe.
Pois a sombra de quem fui tateia as paredes do meu quarto
E os fantasmas da minha infância se escondem nos cantos
Eles vieram me buscar, tristes, constatam uma verdade inegável
A criança de outrora fôra assassinada nos prados frios da juventude.
E nesse frio absoluto correm, caudalosos, rios de decepção e dúvida
E cada dia mais a resignação se solidifica nas margens
Opções terríveis flutuam na superfície azul, cristalizam-se na correnteza.
O delta parece ser iminente.
E embora ainda exista esperança e tímidas certezas, o frio é indomável
Embora o amor ainda reine, eu sinto o medo e a naturalidade do fime
E embora toda a melancolia dessa vida se aglomere na garganta da minha alma
A morte ainda é o fim dos versos, e os versos devem continuar.
Devem continuar, embora o mundo se revolte e trema com brados de pura ira
Os sorrisos surgem no meio da noite, as lembranças acalmam o desespero
Tudo volta a ser como era
Os rios se acalmam e o frio se atenua.
Mas a saudade... a saudade precisa de mais versos
De mais champanhe,
De mais sorrisos,
De mais Natal.
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