Cantos da Montanha
3 Fantasma
Eu temo esse escuro a minha volta
Temos os fantasmas
O tolo que sou, não havia notado...
Os fantasmas não me percebem
Pois neste quarto não há nada o que assombrar
Não existem personalidades a se assombrar
Existe apenas carne, e mesmo esta os vermes tratam de limpar
Não que eu não exista
Consumo logo existo
E consumo bastante
Consumo comida, bebida
Internet e energia elétrica
Consumo produtos da indústria
Consumo o consumo
E me consumo
Consumando este pacto comigo mesmo
De nunca deixar de existir
Enquanto houver demanda existe oferta
E o que eu ofereço a vida se não eu mesmo?
O que ela me oferece?
A chance de ser outro alguém?
De ser alguém?
De ser melhor?
A vida me oferece a chance de ser assombrado
A vida me oferece a chance de viver
E de consumir, é claro
De consumir-me inteiro, se necessário
Mas principalmente
Oferece a chance de existir
Banal, direis, tudo o que é, é
E nada não é a sua própria existência
Mas palavras complicadas e raciocínios difíceis não me convencem.
O que sou não é nada
Pelo menos não é nada ainda
De forma que se me chamasse de alguma coisa
Por mais simples que seja
Seria um desrespeito com tudo aquilo que é
Em toda a gloria daquilo que faz diferença
Não que eu seja uma farsa
Ou não que eu finja ser alguma coisa que seja relevante
Eu simplesmente não estou aqui, e mesmo que esteja
Não importa
Por que eu não sou nada
E ainda que deseje ser algo, continuo não sendo
Sou fantasma
E abrigo o anonimato
O escuro e a dissimulação
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