Eu temo esse escuro a minha volta

Temos os fantasmas

O tolo que sou, não havia notado...

Os fantasmas não me percebem

Pois neste quarto não há nada o que assombrar

Não existem personalidades a se assombrar

Existe apenas carne, e mesmo esta os vermes tratam de limpar

Não que eu não exista

Consumo logo existo

E consumo bastante

Consumo comida, bebida

Internet e energia elétrica

Consumo produtos da indústria

Consumo o consumo

E me consumo

Consumando este pacto comigo mesmo

De nunca deixar de existir

Enquanto houver demanda existe oferta

E o que eu ofereço a vida se não eu mesmo?

O que ela me oferece?

A chance de ser outro alguém?

De ser alguém?

De ser melhor?

A vida me oferece a chance de ser assombrado

A vida me oferece a chance de viver

E de consumir, é claro

De consumir-me inteiro, se necessário

Mas principalmente

Oferece a chance de existir

Banal, direis, tudo o que é, é

E nada não é a sua própria existência

Mas palavras complicadas e raciocínios difíceis não me convencem.

O que sou não é nada

Pelo menos não é nada ainda

De forma que se me chamasse de alguma coisa

Por mais simples que seja

Seria um desrespeito com tudo aquilo que é

Em toda a gloria daquilo que faz diferença

Não que eu seja uma farsa

Ou não que eu finja ser alguma coisa que seja relevante

Eu simplesmente não estou aqui, e mesmo que esteja

Não importa

Por que eu não sou nada

E ainda que deseje ser algo, continuo não sendo

Sou fantasma

E abrigo o anonimato

O escuro e a dissimulação