Olá

Você de novo por aqui?

O que fazes na escuridão?

Perdeu-se novamente?

Ou andas a procurar novos artefatos?

Quem sabe coisas de valor

Moedas e ingressos esparramados por ai

Não me diga que perdeu sua esposa novamente

Perdida de novo no emaranhado dos lençóis

Ou na profusão dos seus sonhos

Pois sim, sei que sonhas muito

E que dormes pouco

Quem sabe foi o sono que perdestes

Deixaste-o cair pelas ruas da cidade

Devorado enfim pelos cachorros abandonados

Mas procure-o direito, ele costuma se esconder dentro do armário

Nos bolsos das calças, nas gavetas do banheiro

Quem sabe até debaixo dessa cama

Mas lá não tens coragem de olhar

Sabe-se lá o que vais encontrar

O que escondemos deve mesmo ficar escondido

Mas tenho certeza de que perdestes outras coisas também

Amigos, família e um punhado de sorrisos bem dados

Você sabe onde os deixou?

Lembra-se dos velhos dias?

Daqueles dias em que lembrar-se do passado não era importante

Em que a história era fabricada a cada suspiro

Você se lembra, sei que sim

Sobrevive dos momentos de outrora

E sabe muito bem que isso tudo

Os anos não trazem mais

Você não sabe o que faz

Nem o que escreve

E em vão, como um tolo,

Espera que esses poemas te salvem do mundo

Esses versos sem rumo nem rima

Que tateiam no escuro

Sempre a procura do que nunca vão encontrar

Quem sabe luz, embora de pouco lhe sirva

Quem sabe companhia, embora pouca mereça

Quem sabe paz

Ou um pouco de força

Para essa alma que tanto se maltrata

Quem sabe encontre amigos

Uma mulher para chamar de sua

Quem sabe afaste os enxeridos que lhe caçam

Sem saber que nada existe para encontrar

Vá lá saber os motivos dos fantasmas

Dos poetas e dos estudantes

Feche o caderno e vá dormir

Desenhe o sono e se esqueça do frio

Se esqueça das vozes que lhe sussurram os versos

Esqueça os poemas

O ódio e o amor.