Cantos da Montanha
8 Amnésia
Olá
Você de novo por aqui?
O que fazes na escuridão?
Perdeu-se novamente?
Ou andas a procurar novos artefatos?
Quem sabe coisas de valor
Moedas e ingressos esparramados por ai
Não me diga que perdeu sua esposa novamente
Perdida de novo no emaranhado dos lençóis
Ou na profusão dos seus sonhos
Pois sim, sei que sonhas muito
E que dormes pouco
Quem sabe foi o sono que perdestes
Deixaste-o cair pelas ruas da cidade
Devorado enfim pelos cachorros abandonados
Mas procure-o direito, ele costuma se esconder dentro do armário
Nos bolsos das calças, nas gavetas do banheiro
Quem sabe até debaixo dessa cama
Mas lá não tens coragem de olhar
Sabe-se lá o que vais encontrar
O que escondemos deve mesmo ficar escondido
Mas tenho certeza de que perdestes outras coisas também
Amigos, família e um punhado de sorrisos bem dados
Você sabe onde os deixou?
Lembra-se dos velhos dias?
Daqueles dias em que lembrar-se do passado não era importante
Em que a história era fabricada a cada suspiro
Você se lembra, sei que sim
Sobrevive dos momentos de outrora
E sabe muito bem que isso tudo
Os anos não trazem mais
Você não sabe o que faz
Nem o que escreve
E em vão, como um tolo,
Espera que esses poemas te salvem do mundo
Esses versos sem rumo nem rima
Que tateiam no escuro
Sempre a procura do que nunca vão encontrar
Quem sabe luz, embora de pouco lhe sirva
Quem sabe companhia, embora pouca mereça
Quem sabe paz
Ou um pouco de força
Para essa alma que tanto se maltrata
Quem sabe encontre amigos
Uma mulher para chamar de sua
Quem sabe afaste os enxeridos que lhe caçam
Sem saber que nada existe para encontrar
Vá lá saber os motivos dos fantasmas
Dos poetas e dos estudantes
Feche o caderno e vá dormir
Desenhe o sono e se esqueça do frio
Se esqueça das vozes que lhe sussurram os versos
Esqueça os poemas
O ódio e o amor.
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