Cante para mim
1 Tudo está em ordem, mas estou machucada
Existem coisas que não conseguimos esquecer. Cicatrizes que nos marcarão para sempre.
O teto tem uma rachadura. Laura não faz ideia de quando ela apareceu. Ela nunca tinha prestado tanta atenção no teto de seu quarto até hoje. A luz dos faróis dos carros passam por entre as frestas da cortina e desfilam no teto, se tornando cada vez mais sombrias e desaparecendo na escuridão deixando-a sozinha com a noite e seus dolorosos pensamentos.
Ela ainda não conseguia acreditar no que aconteceu. Como ele poderia ter... Levantou-se da cama e foi até o banheiro. Seus lençóis já estavam molhados de suor. Jogou a camisa de um time qualquer futebol qualquer num gancho e se jogou sob o chuveiro. Sentiu a água fria massagear seus ombros e tentar acalmá-la. Lembrou-se de Leandro tocando sua cintura enquanto entrava no banho com ela. Como ele a beijava e como a segurava. Como a fazia se sentir segura.
As lágrimas vieram-lhe aos olhos enquanto ela se sentava no chão com a água caindo sobre sua cabeça.
...
Olho no relógio. 10:32 da manhã. Deveria ter acordado horas antes para chegar na faculdade. Não importava. Nada mais importava.
Levantou sentindo o corpo pesado. Todos os seus músculos estavam indispostos. Foi ao banheiro e observou suas olheiras. Seus olhos conseguiram se manter fechados algumas horas após o sol nascer e lançar as luzes pelas frestas da cortina do quarto. Laura jogou uma água no rosto. Alguns minutos depois saiu do banheiro e se sentou na cama. Pegou o celular com todas as suas notificações de redes sociais. Ignorou todas elas.
"Alyssa" demonstrava uma delas. Ela clicou nessa.
"Laura, queremos te ver. Te amamos." dizia a mensagem curta. Ela entendia tudo o que aquilo significava. A irmã de Leandro precisava dela e sabia que Laura não ficaria bem e precisava de companhia. Elas eram algumas das poucas pessoas que realmente amavam Leandro. Saiu do quarto e andou até a cozinha para pegar uma caneca de café. Seus pais lhe deixaram a cafeteira com o café pronto e um bilhete "Fique forte. Te amamos". Ela pegou a caneca e caminhou para o quarto para se vestir. Precisava ver Alyssa, precisa de alguém que a entendesse pelo menos em partes.
Vestiu uma calça jeans e a primeira blusa que lhe apareceu. Uma caixinha que mantinha em seu guarda-roupas a chamou atenção. Abriu-a revelando uma infinidade de pequenos recortes de papel, post-its e outros bilhetes que Leandro costumava deixar toda vez que ia à casa dela. Laura sentiu as lágrimas voltando aos olhos. Jogou a caixa dentro do guarda-roupas, pegou a bolsa e saiu, trancando a porta da casa atrás de si.
Era a primeira vez depois de toda aquela loucura que fazia o trajeto para a casa de Leandro. Apesar de sentir seu coração pesado, Laura tinha uma esperança estúpida de que chegaria lá e o encontraria sentado ao piano tocando qualquer coisa como costumava fazer. Ela sabia que nunca mais o veria ali, mas seu coração acreditava com tanta certeza de que ele estaria lá que ela quase se deixou acreditar.
Desceu no ponto de ônibus e caminhou até a casa dele. Chegou ao portão. Seu corpo inteiro gritava que ele estaria lá e mais uma vez seus olhos se encheram de lágrimas. Ele não estaria.
Tocou a campainha e enquanto esperava se lembrava de todas as vezes que aquele portão foi aberto e o rosto sorridente de Leandro a recebeu. Dessa vez no entanto quem abriu se parecia muito com ele, mas o sorriso não existia, apenas olhos fundos e vermelhos, com grandes olheiras e abatido, apático. Antes que Laura pudesse se mover, Alyssa se jogou em seus braços a abraçando. Ambas começaram a soluçar enquanto ali mesmo na rua. Alyssa segurou Laura e a levou para dentro de casa.
Laura entrou observando a casa, o piano na sala. Tudo como sempre esteve, como se Leandro fosse chegar a qualquer momento. Olhou para a porta do quarto dele, mas a porta estava fechada.
Alyssa a olhou tentando sorrir, mas seu rosto se desfez mais uma vez em lágrimas.
- Acho que não faz sentido te perguntar se você está bem... — ela disse. As duas pareciam acometidas pela mesma doença. Ambas apáticas, com olheiras e olhos fundos. Ficaram sentadas por alguns minutos se olhando.
Laura abraçou Alyssa mais uma vez.
- Como seguimos a nossa vida? — perguntou.
- Acho que um dia de cada vez... — disse Alyssa, insegura — É o que todo mundo diz.
Laura fechou os olhos e respirou fundo, fechando os punhos e sentindo seu corpo inteiro tremer.
Não entendia como continuaria vivendo sem a única coisa que fazia sentido em sua vida. Sem Leandro para ser sua âncora, Laura era um barco a deriva sob uma tempestade.
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