Can't let you go.
5 Capítulo 5
No caminho para o aeroporto, Marina encarou a janela o tempo todo. Olhando a paisagem lá fora, como que tentando memorizar tudo aquilo que já tinha memorizado, afinal era onde morava. Mas não por muito mais tempo, e sentiria saudades. Usava óculos escuros para tentar mascarar seu sofrimento. Não chorou. Havia decidido que não choraria mais. Mas fazia um esforço imenso para manter sua postura. Tentava memorizar a cidade para que sua mente não se desviasse para Clara. Não queria pensar nela agora. Não queria nunca mais. É claro que ainda a amava, e por isso mesmo não queria mais pensar, não queria se lembrar. Porque por mais que estava ferida, que sentia raiva por ter sido enganada todo esse tempo, toda vez que se lembrava dos seus momentos com ela, lembrava com carinho. E doía demais. Doía saber que não tinha passado de uma ilusão.
Clara ficou quieta segurando o celular e olhando para o nada, em choque, deixando que as lágrimas rolassem livremente.
– Clara, pelo amor de Deus, o que aconteceu?
Clara piscou várias vezes, voltando a si. — Ela tá indo embora. – Falou baixinho, soltando o celular.
– O quê?
Olhou para Helena. — Ela está indo embora, Leninha. Do Brasil. Pra sempre! – Soluçou.
Helena ficou calada observando os olhos de Clara, que pareciam estar passando um filme.
– Clara. – Pôs a mão em seu ombro. — Talvez seja melhor assim.
Clara olhou para a irmã indignada.
– Melhor assim?
– É. Ela está acostumada, é famosa internacionalmente, fará bem a ela, novos ares. Vai esquecer tudo isso. E é claro que ela deve voltar, e quem sabe vocês podem continuar sendo amigas depois disso?
– Ela nem quis se despedir. – Chorava. – Não, a Flavinha disse que ela não vai voltar, mandou fechar o estúdio. Ela está indo embora e nem quis falar comigo antes, não quis me ver, nem que fosse uma última vez? Eu não vou vê-la nunca mais! Depois de tudo, de tudo que nós passamos juntas! Essa não é minha Marina! – Falou chamando a atenção de Helena. — De tudo que ela fez por mim, minha última imagem dela vai ser de eu partindo seu coração. Porque eu não tive coragem!? – A última frase saiu quase inaudível.
Helena olhou para ela.
– Clara, tem mais nessa história do que você me contou? Vocês duas já..?
– Não, Helena, não. Eu não tive coragem! Eu não tive coragem de assumir nem para mim mesma tudo que sentia... tudo que sinto por ela. – Chorava.
– Clara, você.. você..
– Eu estou apaixonada, Leninha. – Falou em voz alta para ver se conseguia fazer Helena entender de uma vez. — Não é só curiosidade, tesão de ser desejada por outra mulher. Eu estou apaixonada por ela. Não tive coragem de dizer, de ser franca com ela. Ela deve pensar que eu estava brincando com o seu coração. Não tenho coragem de abandonar meu marido por ela. E ela está indo embora, por minha causa.
Helena abraçou a irmã, deixando que ela chorasse.
– Marina... – Clara falou, chorando.
Helena tentava consolá-la, mas não parava de pensar na revelação de sua irmã. Estava apaixonada.
– A Flavinha está certa. – Se afastou, passando a mão no rosto.
– O quê?
– Não posso. Não posso deixá-la ir embora, Helena. Não posso. Eu conseguiria, sabe? Tocar meu casamento, ser apenas amigas. Enfiar esse sentimento – batia no peito — no cantinho mais fundo que fosse do meu coração, esconder. Eu torceria para ela me esquecer o mais rápido possível, por mais que eu não quisesse isso realmente, mas eu torceria para ela ser feliz. Mesmo que me doesse. Mas, pelo menos.. pelo menos eu ia vê-la todos os dias ali. E mesmo se ela me despedisse, eu ainda toparia com ela por aí. Mas agora.. –Se levantou.
– Clara. – Helena pôs a mão em seu braço.
– Eu não sei se consigo viver sem nem saber onde ela está, Helena. – Sorriu. – Claro que mais cedo ou mais tarde eu saberia por meio de alguma revista. Mas não é a mesma coisa. – Limpava suas lágrimas. – A Marina das revistas não é.. não é a minha Marina. Não consigo viver completamente sem ela. –Se virou para sair.
Helena a parou.
– E sem o Cadu, Clara? Se você for atrás dela, seu casamento acabou. Consegue viver sem o seu marido?
Clara olhou para ela novamente e assentiu. Tentou sair, mas Helena entrou em sua frente.
– Clara, você está de cabeça quente. Essa menina ter te ligado assim quando nem a Marina quis foi golpe baixo. Não vá fazer nada do que você vá se arrepender.
Clara respirou profundamente. — Já fiz. – Mordeu o lábio segurando o choro. Tirou sua aliança, pôs na mão de Helena e saiu.
No caminho, topou com Cadu.
– Clara, o que houve? – Perguntou genuinamente preocupado com a aparência da esposa.
– Não dá, Cadu. – O empurrou, pegou a chave do carro com ele e saiu correndo. Ele quis ir atrás, mas estava com Ivan que agora estava assustado por ver a mãe naquele estado.
– Pai, o que aconteceu?
– Não sei, meu filho. Mas logo a gente vai saber. – Nesse momento Cadu pensou em Marina, mas preferiu pensar que fosse outra coisa qualquer.
Clara dirigia perigosamente, com as lágrimas embaçando sua visão e completamente distraída, tentando ligar para Marina várias vezes, mas só caía na caixa. Helena percebeu que Cadu chegara e resolveu pegar um táxi e ir atrás dela, antes que ele fosse questioná-la sobre o que tinha sido aquilo tudo.
– Droga, droga, droga. Não vá embora, Marina. Não vá embora, meu amor.– Chorava, jogando o celular no banco. Seu coração batia tão rapidamente, que ela nem o notaria se ele também não estivesse doendo. Um medo imenso tomando conta de si.
O trânsito não estava parado, mas também não estava leve, e sua falta de atenção fez com que Clara quase batesse o carro algumas vezes. Esmurrava o volante todas as vezes que tinha que parar no sinal. Havia considerado furar, mas se quisesse parar Marina tinha que se manter ilesa.
Chegou ao aeroporto correndo, sem fôlego, chamando atenção de todos por onde passava. Se informou onde era o embarque para Londres e correu para entrar quando se sentiu sendo agarrada por um segurança.
– Senhora, a senhora não pode passar por aqui sem passagem. Essa área é restrita para passageiros.
– Eu sei. – Se soltou dele bruscamente. – Eu não tenho passagem, não vou viajar. Mas eu preciso entrar. – Tentou novamente.
– Senhora. – Ele pôs as mãos ameaçando detê-la.
– Tem uma pessoa aí dentro. – Lutava para segurar as lágrimas. – E ela não pode entrar naquele avião. Eu preciso falar com ela. Ela não pode ir nesse vôo. Me deixa passar, pelo amor de Deus.
– Eu sinto muito, mas eu não posso.
Clara tentou passar novamente.
– Senhora, eu serei obrigado a detê-la se insistir.
– Ela não pode ir embora! – Falou mais alto do que devia.
– Vamos no balcão, qual o nome da passageira? Ela será chamada.
Se acalmou. –Ma-Marina. Marina Meirelles.
O segurança a acompanhou até o balcão.
O embarque do vôo para Inglaterra já havia sido anunciado. Marina esperava na sala com o olhar vago, escondido atrás dos óculos, tentando não desabar na frente de tantos estranhos. Vez ou outra uma lágrima escorria, ela não conseguia mais evitar, estava tão perto de partir. E por mais que tentasse, Clara sempre dava um jeito de infiltrar sua mente. Sabia que sentiria sua falta terrivelmente, mas iria esquecê-la, levasse o tempo que fosse. Começou a juntar suas bagagens de mão e foi para a fila.
– Senhora Marina Meirelles, favor comparecer no balcão da British Airways.
Marina ouvia seu nome imaginando o que poderia ter acontecido.
– Senhora Marina Meirelles, favor comparecer no balcão da British Airways.
Foi até um representante da companhia aérea que estava na sala de embarques.
– Com licença, eu sou Marina Meirelles, estou sendo chamada. O senhor pode me informar o que está acontecendo?
– Não, senhora. A senhora está sendo chamada lá fora.
– Mas, eu não posso ir lá fora, já estamos embarcando.
– Pode ser alguma formalidade nos seus documentos. É melhor irmos checar.
– Senhora. – Outro homem a chamava agora. – A senhora vai perder o vôo. – Se dirigia ao representante agora. – Os documentos dela já foram checados, deve ser outra coisa. Algo pessoal?
Marina se virou para ele. – Nada que valha a pena eu perder esse vôo.
Clara esperava ansiosamente enquanto a mulher do balcão falava no telefone.
– Senhora?
– Sim? – Clara olhou para ela desesperada.
– Sinto informar, mas o vôo para Londres já decolou.
– Não, não, não, não, não. Não pode ser, liga de novo, chama de novo. Faz alguma coisa. – Se exaltava.
– Não há mais nada a fazer, senhora. Já decolaram.
– Não. – Clara desabava agora. Novamente se sentiu ser abraçada, mas era mais gentil dessa vez.
– Minha irmã. – Helena havia chegado.
Chorou se abraçando a ela. — Ela foi embora.
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