– Nossa, já tem um tempão que estamos aqui e nada ainda. — Marina colocou os papeis em cima da mesa, e em seguida pôs a mão na cabeça. — Será que não tem nenhum que.. será que não tem mais? Deve ter. Tem pouquíssimas opções aqui.

– Calma, amor. Você tá sendo muito rígida com os candidatos. — Clara riu e passou o braço ao redor dela. — Claro que tem mais, mas eles nos passaram as fichas que são melhores para nós, questão de compatibilidade sanguínea, imunológica e tudo mais. Então, essas são nossas opções, mas olha esse aqui. Esse parece perfeito.

– Cadê?

– Doador 292: 1,80m, faioderma, 0+, cabelo castanho escuro, olhos castanho claro.

Marina ficou pensativa.

– Amor, ele é perfeito. Não se preocupe tanto, será nosso filho, o doador pode ser um estranho, mas terá sua carinha também, e, pela descrição, ele se parece um pouco comigo. Além disso, sabemos que todos os doadores são muito bem selecionados.

– Eu sei. — Suspirou. — Eu só tô um pouco nervosa. — Riu. — É estranho essa ideia de engravidar de um cara que nunca vi, não posso ver, não sei nada além dessas cinco características. — Pegou o papel na mão de Clara e releu.

– Não precisa saber mais que isso. O resto é com a gente.

Marina a abraçou. — Você tem razão, como sempre. — Sorriu e deu um beijo em seu rosto. — Ele é perfeito. Então… então, acho que podemos dizer que é ele? — Sorriu.

– É ele!

– Nem acredito que já estamos indo fazer isso! — Clara falou animada, tirando Marina de suas recordações. — Tá tudo bem? Tá nervosa? Você tá tão quietinha.

– Finalmente! — Sorriu e pegou sua mão, respirando fundo. — Ai, nosso bebê! Nosso bebê vem aí. Tô bem, só tava me lembrando do dia que estávamos escolhendo o doador. Que eu tava louca para, sei lá, ver uma foto, bater um papo com o cara. — Riu. — Mas já me acostumei. É como você disse, é nosso filho! Já sabemos as características físicas, sabemos que é saudável, o resto é com a gente. Ai, Clara, você consegue me imaginar com aquele barrigão?

– Vai ficar linda, amor. — Sorriram.

– Essa clínica que não chega. — Balançou as pernas.

– Calma. — Clara riu. — Já estamos quase lá.

– Marina? — As duas se levantaram. — Podem vir comigo, Dra Mírian já está esperando vocês.

Foram recebidas por ela na porta do consultório.

– Bom dia, meninas. Como estão?

– Bem. — Responderam ao cumprimentar a médica.

– Então chegou o grande dia. — Mírian passou um robe para Marina. — Pode se trocar ali no banheiro, com o lado aberto para frente e não precisa tirar a parte de cima.

Marina deu um selinho em Clara antes de ir, e Clara deu uma apertadinha de apoio em sua mão.

– Como ela está, realmente?

– Ansiosa. — Suspirou. — O que é normal. Estamos bem, só estamos loucas para engravidar logo e ver nosso bebê. — Riu. — Vão ser os nove meses mais longos da vida dela.

– E vocês fizeram a tabelinha da temperatura certinho?

– Dessa vez fizemos tudo direitinho. Deu 36,8 e praticamente voamos para cá.

Marina apareceu, segurando o robe fechado.

– Tô ouvindo vocês duas fofocando sobre mim, hein? Minha bandida. — Sussurrou as últimas palavras para Clara apenas.

– Está preparada, Marina?

Marina assentiu, deitada na maca ginecológica. Clara, que segurava sua mão, beijou sua testa.

– Então vamos te examinar. Olha, você vai sentir um desconforto. Clara já me informou do pico de temperatura, e realmente você está com muco mais viscoso, mas temos que fazer a ultrassonografia transvaginal pra ter certeza absoluta, tudo bem?

Assentiu novamente.

– Fica tranquila, é rapidinho.

Segurou firme na mão de Clara e fez uma careta quando sentiu o aparelho sendo introduzido. Clara beijou sua cabeça novamente.

– E então?

A médica continuava olhando para a imagem no computador e então retirou o aparelho e as luvas.

– Vocês estão certas. — Sorriu.

As duas se entreolharam comemorando.

– Bom, eu vou terminar de preparar o sêmen e aí vamos introduzi-lo. Como expliquei, é bem rapidinho, um cateter fino, você vai sentir pouca coisa. Depois deve permanecer em repouso aqui por cerca de meia hora e daí já pode ir pra casa e seguir sua rotina normalmente.

Se ausentou.

– Eu sei que nós prometemos ir devagar na emoção, mas eu já tô tão animada. — Sorriu. — É hoje! É hoje que nosso bebê começa a se formar, Clara. Mal posso acreditar que daqui a pouco.. — Olhou para sua barriga.

Clara sorriu emocionada. – Vai dar tudo certo, meu amor. E temos todos os motivos para ficarmos animadas, não dá para não ficar. — Beijou sua testa.

Alguns minutos depois, Mírian retornou.

– Vamos lá?

Sorriram uma para a outra. Marina voltou a se deitar, ainda segurando a mão de Clara, e fechou os olhos.

– Pronto.

– Já? Tem certeza?

Mírian riu da ansiedade das duas. – Tenho certeza, sim. Agora é só aguardar. Em 16 dias, você retorna e faremos o teste de gravidez. Como expliquei para vocês, não podemos garantir que tudo dê certo de primeira, mas esperemos que assim o seja. Boa sorte para vocês e estarei aguardando o retorno, Marina. – Sorriu. — Vou deixar que fiquem mais à vontade. — Deixou a sala.

– Mas foi muito rápido. Nem senti. Não tô sentindo nada de diferente.

– Não é pra sentir, né, amor? – Clara riu. – Não ainda. Vai dar tudo certo, fica tranquila.

– Acho que já podemos começar a pensar em nomes. Para ambos os sexos.

– Eu já tenho algumas ideias. — Clara sorriu. — Podemos fazer uma lista e ir selecionando os que chamarem mais nossa atenção.

– Já vou chamar alguém para dar uma olhada naquele quarto de hóspedes mais perto do nosso também. Para pintar, decorar. Ainda que no início ele vá ficar no nosso com a gente, né?

– É, mas já devemos começar mesmo. A gravidez passa voando. Temos que fazer compras. Para roupinhas tá muito cedo, mas já podemos ir montando o quarto, comprando toda a mobília.

– Lembra quando levamos o Ivan para decidir como seria o quarto dele? — Sorriu.

Clara sorriu. — O bichinho ficou todo animado.

– Tomara que nosso bebê seja tão doce quanto ele.

– Vai ser.

Ficaram um tempo em silêncio e Marina voltou a fechar os olhos.

– Marina?

– Hmm?

– Já passou meia hora, já podemos ir.

– Só mais cinco minutinhos. Não quero correr risco nenhum. — Clara beijou sua mão.

Ao chegar em casa, Marina não quis seguir sua rotina, preferiu ficar quieta no quarto com Clara. Estava exagerando um pouco nos cuidados, mas Clara sabia o quanto ela estava ansiosa e preferiu fazer o que ela precisasse para se sentir melhor.

– Imagina o dia que meu pai ficar sabendo que estou grávida? — Riram. — O velho vai ficar doido. Acho que ele nunca esperaria isso.

– Sem dúvidas, vai ser uma surpresa e tanto.

Marina suspirou. — Ai, Clara, tudo isso, essa animação, essa preparação nossa… me dá uma saudade da minha mãe. Queria que ela pudesse participar, pudesse ver toda essa maravilha que tá acontecendo na minha vida, na nossa. — Limpou uma lágrima antes que ela escorresse. — Queria que ela tivesse te conhecido. — Sua voz falhou por um instante e não conseguiu conter as lágrimas.

Clara a abraçou, deitando-a em seu peito. — Eu também, meu amor. Sua mãe devia ser uma pessoa maravilhosa. — Enxugou suas lágrimas. — Imagino que tão grandiosa quanto você ou até mais. Seria um prazer conhecê-la.

– Acho que ela ia adorar ser vovó. — Riu, fechou os olhos. — E ia adorar você e o Ivan.

Clara beijou sua cabeça. — Tenho certeza que ela pode nos ver, de algum lugar, e deve estar muito feliz em ver no que a garotinha dela se tornou.

Marina sorriu e suspirou. — Mas chega de chorar. — Passou as mãos no rosto. — Não quero lembrar dela com tristeza. Dona Ana faz muita falta e eu nunca vou deixar de sentir saudades e de desejar a presença dela, principalmente nesses acontecimentos. Mas. — Limpou os olhos mais uma vez. — Não quero ficar deprimida nesse momento tão importante para nós. — Deitou no colo de Clara, que ficou acariciando seu cabelo. Ficaram em silêncio por alguns minutos. — Usou a palavra certa. Grandiosa. Minha mãe era simplesmente grandiosa, nada menos que isso. — Falou enquanto olhava e acariciava sua barriga.

Marina estava dando aula no galpão quando recebeu mensagem de Clara chamando-a para almoçar no restaurante de Cadu. A demanda havia aumentado, o bistrô foi crescendo e acabou virando um restaurante, sonho realizado do chef. Chegou de surpresa, dando um beijo na sua bochecha.

– Oi, minha linda. Como estava a aula? — Lhe deu um selinho.

– Maravilhosa. — Se sentou. — Os alunos novos que entraram dessa vez são cada um melhor que o outro, já chegaram com alguma noção, ou talento mesmo, e parecem muito interessados. Adoro isso! Gente nova, gente inspirada. Dá um gás novo pro projeto.

– E como você está? Mais calma?

Respirou fundo. – Um pouco. – Mas só porque já é amanhã o teste. – Riu. – Foram os dias mais longos da minha vida. – Tombou a cabeça para trás.

Clara sorriu e pegou sua mão, mas foram interrompidas.

– E aí? Tudo bem?

– Cadu, ei. Tudo ótimo e você? — Se cumprimentaram.

– Tudo bem, mas a Marina aí parece exasperada. – Deu um risinho.

– Drama, Cadu. Ela tá fazendo drama. – Riram.

– Vieram pro almoço?

– Sim, nós já vamos fazer nosso pedido.

– Eu mesmo anoto. Atenção especial do chef para as duas. – Pegou um bloquinho.

– Daqui a pouco, não vai demorar muito, viu Marina? Fica calma aí. — Riu. — Foi bom ver vocês.

Já ia se virando, quando Clara o chamou.

– Cadu? Almoça com a gente? Ou o chef tá muito ocupado para suas clientes especiais?

Um garçom levou o prato das duas, Cadu chegou com o seu e se sentou à mesa.

– Estão com a corda toda, hein? Almoçando com o chef! Não é para todo mundo. – Cadu se gabou. – Mas à que devo o convite?

– Temos uma novidade. — Marina sorria animada.

– Então, Cadu, a Marina e eu, nós estamos.. tentando ter um filho juntas.

Cadu quase engasgou, tomou um gole de sua água.

– Um filho? Vocês vão adotar?

– Não, inseminação.

– Eu vou engravidar. Bom, tô tentando. – Sorriu e, inconscientemente, tocou sua barriga.

– Sério, gente? Ué, é.. é uma excelente notícia. Né? Vocês já estão juntas há um tempinho. Mas vem cá, o Ivan já tá sabendo disso?

– Claro! Foi o primeiro a saber e ele adorou a idéia, ficou todo animado.

– Puxa, ele nem me falou nada. — Cadu se sentiu um pouco excluído pelo filho.

– Não, nós que pedimos que ele não comentasse nada com a família ainda. Ainda estávamos planejando, pode ser um processo demorado. Preferimos guardar a boa notícia para quando tivéssemos certeza.

– Tá certo, então. Bom, boa sorte pra vocês. Tomara que dê tudo certo. Lembra quando o Ivan nasceu, Clara?

Clara riu. – O Cadu tinha medo de pegar o menino no colo, achava que ia quebrar o bichinho.

– Claro, quase que cabia na minha mão quando nasceu, de tão pequeno. Parecia tão.. tão frágil. Ó, e dá um trabalhão. — Se virou para Marina. — Mas a gente acaba aprendendo a ser pai, mãe... faz parte.

– Bem que podia ser uma menininha, né? – Olhou para Marina. – Ai, de qualquer jeito vai ser lindo, vai ser ótimo, e vai ser muito amado. Mas já temos o Ivan, bem que podia vir uma menina dessa vez.

– Seria bem legal mesmo. Acho que cuidar de meninas é mais fácil. Não, mais fácil definitivamente não. — Riu. — Mulher dá muito mais trabalho, mas vestir meninas é mais divertido, fazer penteados, aquelas roupinhas todas fofas.

– A menina nem nasceu e a Marina já quer fazer dela uma boneca. – Cadu riu.

– Não é isso. – Riu. – Tá, é um pouco. Acho que toda mãe pensa assim, né?

Clara sorriu para ela. – É verdade.

– Mas, espera aí, vocês já tem alguma certeza então? Já começaram o tratamento?

– Já, falta só fazer o exame agora. Temos que esperar. – Pronunciou a última palavra em um tom que demonstrava o quanto a espera a incomodava.

– Esse é o motivo da exasperação dela. Não consegue mais esperar. — Clara sorriu e mandou um beijinho para ela.

– Então quer dizer que estamos aqui conversando e a senhora fotógrafa já pode até estar grávida? Devia era estar aproveitando. – Cadu deu batidinhas leves em seu braço. – Seus últimos dias de liberdade.

– Ai, que maldade, Cadu!

– Tô mentindo, Clara? Últimas noites bem dormidas, sem preocupação, sem choro, sem fraldas sujas.

– Não. – Sorriu. – Mas não fala assim também. Nós sabemos a ‘encrenca’ que estamos nos metendo e estamos ansiosas por ela.

Mais tarde no estúdio.

– Tá tudo bem? – Clara chegou perto de Marina e perguntou baixinho quando reparou uma careta da fotógrafa.

– Tá, só.. senti umas pontadas aqui. — Pôs a mão na barriga. — Será que..?

– Fica calma. Não deve ser nada.

– Não seria bom já ir na clínica hoje? Um dia só, que diferença faz? — Seus olhos imploravam.

– Tá, nós podemos tentar, se quiser. Vou passar essas fotos para Vanessa e nós vamos, tudo bem?

– Tudo bem. – Marina ficou mais aliviada.

Notas finais
Beijos, gente. :)