– Vamos embora, Clara, vem!

Clara continuava chorando, mas calada.

– Eu sinto muito. – Passou a mão em suas costas.

Abriu a porta do carro.

– Não, não. – Me dá essa chave aí, você não está em condições.

Não discutiu.

O caminho de volta para casa foi de um silêncio atormentador. “Estive tão perto, tão perto.” Clara pensava. E agora, agora ela tinha perdido Marina.

– É melhor você tentar se recompor, Clara. Cadu e Ivan já chegaram, você não pode chegar lá esse estado.

– Já me encontrei com eles, já me viram assim. Mas não quero ir pra casa. Não quero ter que ficar dando explicações pro Cadu. Não quero assutar o Ivan ainda mais. Me deixa ficar na sua?

– Claro. Mas, ele vai te procurar, vai querer saber o que está acontecendo.

– Diz que eu falo com ele depois.

– E vai falar o quê?

– Que perdi a chance de viver um grande amor. – Falou vagamente.

– Clara.

Virou o rosto, não queria conversar mais.

Na casa de Helena, Clara foi para o quarto de hóspedes e se trancou lá pelo resto do dia. Alternando entre chorar e cair no sono, exausta. Também passou bastante tempo pensando no que faria agora. Poderia inventar qualquer coisa para Cadu, que estava desesperada porque havia perdido o emprego, e dar de verdade a chance que seu casamento pedia. Mas seu coração agonizava. Não, não ia conseguir viver sem ela. Não queria pensar em viver sem ela.

No outro dia, se levantou bem cedo.

– Bom dia. Tá melhor?

Clara não respondeu, só olhou para ela, mostrando que não. – Vou falar com o Cadu.

– Já pensou no que vai dizer.

– Já.

– E aí?

– Vou me separar dele.

– Clara, tem certeza disso? Agora finalmente você vai poder se concentrar no seu casamento...

Clara começou a se exaltar com as palavras dela. – Você não ouviu nada do que eu disse ontem, Helena? Não dá. Eu estou apaixonada pela Marina. Eu quero a Marina. Eu penso o dia todo em Marina. Marina, Marina, Marina. Não dá para eu chegar em casa e só ter Cadu. Eu amo o Cadu, mas é muito mais por amizade, companheirismo, respeito aos nossos anos juntos, ao nosso filho. Não passa disso. Ele me toca, e eu penso nela. Ele me abraça, e quero o abraço dela. Ele me beija, e eu.. eu não quero, eu.. meu coração grita por ela. Não dá para viver assim. Não é justo comigo, nem por ele.

– Mas até pouco tempo atrás você achou que podia.... você aceitou a nova aliança!

– Até pouco tempo atrás eu achei que tinha todo o tempo do mundo com a Marina, para esquecê-la ou para ter coragem de dar uma chance a nós duas. Mas agora sei que não. Eu a tomei por certa na minha vida. Ela sempre esteve do meu lado, achei que continuaria assim. Ela sempre engoliu tudo e continuou comigo. Eu não valorizei sua presença, não pensei que ela fosse ir embora. Eu sabia que ela sofreria, mas mesmo assim... mesmo assim tive o pensamento egoísta de que ela também não conseguiria viver totalmente sem mim. E agora ela me mostrou, indo embora, que não pode, mas que não iria deixar de tentar.

Helena ouvia sua irmã atentamente.

– Só de pensar, Helena, em não ouvir a voz dela mais. – Balançou a cabeça espantando as lágrimas. – Só de pensar nela me esquecendo, me substituindo, amando outra pessoa. Doi. – Pôs a mão em seu coração. – Eu achei que podia, mas ela tinha que estar aqui.. para eu continuar me intoxicando com ela, eu me viciei.

– Eu não sabia que estava tão apaixonada.

– Eu também não. Quer dizer. – Deu um sorriso irônico, enxugando uma lágrima que havia teimado em escorrer. – Eu sabia, claro que sabia. Durmo pensando nela, acordo pensando nela. Se pudesse passava o dia todo ali naquele estúdio, só voltava pra casa por causa do meu bichinho. Não sou boba. Mas eu escondi. Coloquei tudo e todos por cima desse meu sentimento e achei que conseguiria mantê-lo ali. Foi só – respirou fundo – foi só ela me ignorar, não responder minhas chamadas, ir embora, pro meu medo vir e transbordar tudo. Ela deve estar me odiando. Você não viu o jeito que ela olhou para mim. Eu nunca vou me perdoar.

– Mas... – Helena se conteve e permaneceu calada. “Mas, ela já se foi mesmo. Não vale a pena arriscar.” Pensava.

– Melhor eu ir. Antes que ele saia. – Pegou a aliança com Helena.

– Tem certeza?

– Tenho. Chega de mentiras, chega.

Assim que abriu a porta do apartamento, foi recebida por Cadu.

– Clara, pô! O que está acontecendo? Você saiu louca daqui ontem, toda descompensada, depois a única coisa que eu recebo é uma mensagem da Helena dizendo que você ia ficar por lá. Eu aqui sem noção nenhuma do que se passou, o Ivan preocupado com a mãe dele, cara. O que houve?

Clara respirou fundo.

– Não podia voltar pra casa ontem do jeito que estava, seria pior pra ele. – Falou fria.

– Mas o que aconteceu, Clara? Pra te deixar desse jeito? Tô esperando sua explicação. Você só pegou a chave e saiu, sem falar nada.

Por mais que Cadu tentasse ser suave, afinal a expressão da esposa ontem havia o assustado, Clara não deixava de perceber o autoritarismo, a desconfiança em sua voz.

– Não tinha tempo para explicar. – Ameaçou chorar novamente.

– Não tinha tempo? Pra quê? Foi tirar o pai da forca?

– Fui impedi-la.

– Do que você está falando? Peraí, deixa eu tentar adivinhar. Tem alguma coisa a ver com a Marina, né? Você não foi trabalhar, eu achei que estava indo tudo bem. Mas ela não aceitou a derrota, né? De que você não está nem aí pra ela. Que você me ama e é minha mulher. Nunca deve ter perdido nada na vida, mimada. Não agüentou. Me diz. Me diz o que ela fez dessa vez pra fazer você voltar correndo pra ela?

– Nada, Cadu. – Se exaltava. Não gostava nada do jeito que o marido falava dela. – Ela não fez nada para eu sair correndo pros braços dela, ela nunca fez nada desse tipo.

– Ahh, não. – Falou irônico. – Mas pelo jeito eu estava certo, né?

– Fez por ela. Ela nem.. nem quis falar comigo antes.

– Do que você está falando, Clara? – Perguntou lentamente demonstrando sua irritação. Mas tentando manter a voz num tom normal, porque Ivan ainda dormia.

– Ela foi embora, Cadu. Foi embora.

– Embora? – Perguntou realmente surpreso.

– Sim, embora. Embora do Brasil.

Cadu bateu palmas, surpreendendo Clara. – Finalmente. Finalmente vai voltar lá pra Europa, que é o lugar dela. Percebeu que não tinha espaço na sua vida e resolveu deixar nosso casamento em paz. Finalmente caiu a ficha. Bem lenta ela, né? Deve estar mordida porque achou que estava te ganhando, mas nós só renovamos nossos votos. – A abraçou agora.

Clara se desvencilhou do abraço. – Me ganhando? Que isso, Cadu? Eu não sou troféu pra ninguém não.

– Para mim, não. Mas para ela, com certeza. Troféu de “Mais uma dona de casa perdida em minha cama.” – Falou passando as mãos no ar como quem revelava uma faixa.

Clara olhou para ele furiosa, mas se conteve.

– Isso nunca foi uma competição.

– Claro que foi, ela sempre..

– Ela sempre deixou claro os sentimentos dela por mim, mas ela nunca fez nada para me ‘roubar’ de você. Só deixou claro que eu tinha opções a considerar. Nunca passou dos limites, nunca fez nada demais.

Cadu riu. – Sentimentos.

– Sim, Cadu. Sentimentos. Sentimentos que nós duas compartilhamos. – Cadu olhou para ela arregalando os olhos. – Mas eu não conseguia encarar. Isso nunca foi uma competição. Isso foi.. foi uma grande oportunidade que eu tive diante de mim e que agora só realça meu fracasso pessoal.

– O que você está dizendo, Clara? – Para ele, nada que ela dizia fazia sentido.

– Eu quero me separar.

– Você o quê?

Clara balançou a cabeça. – Não dá. Não é justo. Renovei os votos com você – abaixou a voz, de tristeza e vergonha por revelar isso a ele – pensando nela. Só.. não tive coragem de fazer o que eu queria fazer, que era correr atrás dela.. antes que fosse tarde demais.

– Clara. – Cadu falou, nervoso e machucado ao mesmo tempo.

– Me desculpa, Cadu. Me desculpa, me desculpa. Eu sempre te amei muito, e apesar do seus defeitos, você sempre foi um bom marido, porque até os seus defeitos eu amava.

– Amava…?

– Amava. – Engoliu. – Eu.. eu estou apaixonada. – Falou suavemente.

Cadu passou a mão no cabelo, ficando mais e mais nervoso com suas palavras.

– Clara, você não pode tá falando sério? Que caiu nesse joguinho sujo daquela mulher. Ela só queria te seduzir, te arrastar pra cama dela.

– É muito mais que isso, Cadu. Muito mais que isso. – Clara não queria piorar as coisas, portanto segurava sua língua.

– Muito mais que isso? Como pode ter tanta certeza? Porque essa parte ela já tinha conseguido, é isso? Ela já tinha conseguido te por na cama dela? Claro, né? E eu aqui besta..

– Não. – Tentava, mas era impossível não se exaltar quando Cadu falava com tanto desdém da pessoa que ela tanto amava. – Não, Cadu, não. Ela não me teve na cama dela. – Falou com nojo das palavras usadas por ele. – Não teve, porque não quis.

Cadu olhou para ela espantado.

– Não quis cruzar nenhum limite que eu não quisesse. Não quis fazer nada que eu não estivesse pronta ainda. Não quis fazer do jeito errado. Não quis porque não era esse o intuito dela. O intuito dela sempre foi me fazer feliz, do lado dela ou não. Ela só percebeu antes de mim que só do lado dela é que eu poderia.

– Você não..

– Mas, se ela fosse tão baixa assim como você pensa, e se eu fosse tão fácil assim como você diz... sim. Sim ela teria me tido na cama dela. Porque vontade não faltou. Da parte de nenhuma de nós.

– Eu não estou acreditando.

– Não faz isso mais difícil para nós. Você não é mais criança, sabe que nosso casamento não ia bem, e sabe que eu estou falando a verdade. Você só fica aí falando essas coisas porque está com o orgulho ferido. Vai ser melhor para nós dois, Cadu. Vamos os dois tentar ser felizes. Eu sei que você também não está feliz, só está feliz por ter me “vencido”. Mas não está realmente feliz, porque sabe que não é como era antes mais. Isso aqui não é a mesma coisa. – Gesticulou.

– Cadê.. cadê sua aliança?

Clara mostrou que estava em sua outra mão e pôs na dele.

– Eu sinto muito. Eu tentei. Mas não dá mais. Você sempre vai ter sido o meu primeiro grande amor. Mas agora.. agora eu amo outra pessoa. Me deixa sair, Cadu. Me deixa porque.. porque não dá mais. – Pedia desesperadamente.

Cadu chorou.

– Mãe? – Ivan havia acordado e tinha ouvido as últimas palavras da mãe.

– Como assim, mãe? Sair de onde? – Perguntava preocupado. – Você não ama mais meu pai? Vai deixar a gente?

– Meu filho.. – Clara correu até ele para abraçá-lo.

– Vai, Clara. Está livre, faça o que você quiser. E boa sorte. – Falou cheio de ironia, apontando para Ivan. – Boa sorte, porque até onde eu sei, ela foi embora, não foi? E não vai voltar. Não por você. Não pra você. – Saiu de casa batendo a porta.