Notas iniciais
Ei, gente. :) Obrigada pelos comentários. Marina tá precisando de força. :/

– Vanessa, as fotos estão aqui. — Clara as colocou na mesa e se virou.

– Vocês vão sair?

– Vamos. Vamos dar um pulo lá na clínica.

– Ué, mas hoje? Achei que fossem amanhã, Marina inclusive pediu para não marcar nada nesse dia.

– É, marcamos de voltar amanhã. Mas ela tá querendo ir hoje de uma vez, um dia só não deve fazer diferença também.

– Mas. — Pegou no braço dela. — Tá tudo bem? — Perguntou em voz baixa, realmente preocupada.

Clara hesitou. — Não sei. Ela disse que tá se sentindo estranha, uma dor incômoda, e quer ir checar. — Respirou fundo. — Tomara que esteja tudo bem. — Juntou as mãos e olhou para cima.

– Clara! — As duas ouviram o grito de Marina e correram em direção à ele. — Clara! — Marina estava chorando.

– Gente, o que tá acontecendo? — Flavinha se juntou à elas.

– Marina, amor. — Clara ia bater na porta do banheiro, mas Marina abriu a porta e se jogou em seus braços, soluçando em lágrimas.

Clara já estava desesperada, segurando-a e tentando entender o que estava acontecendo, mas já tinha uma boa ideia. Flávia pegou a mão de Vanessa para que elas se afastassem um pouco, dando às duas um pouco mais de privacidade.

– Amor. — Clara tentava afastá-la um pouco para ver seu rosto. — Não me diga que.. — Se desesperava cada vez mais, mas tentava controlar a respiração. — Marina..

Marina olhou para ela chorando e balançou a cabeça negativamente. — Eu.. — Sua voz saía fraca. — Eu estou sangrando. — Escondeu em seu pescoço e voltou a chorar descontroladamente. — Clara…. sangue. Eu.. — Ela tremia.

Clara a abraçou forte. — Meu Deus. — Tentou se controlar. — Marina, vamos na clínica? Vem. Vamos dar uma olhada.

– Para quê? — Marina se desvencilhou dela. — Tá claro que eu.. eu.. eu ou tô perdendo nosso filho ou eu nem engravidei pra começar. — Subiu o tom de voz.

– Calma, não é assim também. — Enxugou as lágrimas com pressa. Por mais que estivesse tão abalada quanto Marina, sabia que precisava ser mais forte para apoiá-la. — Sangrou muito? Como foi?

– Não muito, mas… — Elevou os ombros.

– Vamos na clínica. — Clara pegou sua mão. — E eu sei que é inútil dizer, mas.. tenta se acalmar. Vamos esperar o que a Mírian tem pra dizer. Tá bom?

Marina assentiu. — Eu não quero ouvir, não sei se consigo.

– Vem cá. — Clara a puxou de volta pros seus braços e a beijou. Enxugou suas lágrimas. — Vamos?

Enquanto Clara dirigia, Marina permanecia calada, abraçando suas pernas, olhando pela janela e vez ou outra limpando uma lágrima que escorria. Permaneceu assim quase todo o caminho. Clara estava agoniada tentando ajudá-la, mas não sabia bem o que dizer e temia que se tentasse falar, acabasse chorando mais que ela.

– Eu não entendo. Eu juro que não consigo entender. Eu não entendo. Como pode uma inseminação falhar? Dois estranhos que nem ao menos se apresentaram transam bêbados, drogados, no final de uma balada no banco de trás de um carro. Esquecem a camisinha ou a camisinha fura, ou sei lá; eles nunca mais se vêem, não sabem nem de onde são, mas passa um mês e a mulher se descobre grávida. E nós? Nós fomos numa clínica, nós fizemos exames, nós nos preparamos, eu tomei remédios, eles prepararam o esperma, escolheram a melhor amostra para injetar — elevou a voz — dentro do meu útero, exatamente no meu período fértil e nada? Nada?? — Pôs a mão na cabeça. — Eu não entendo, Clara!

– Eu também não. — Suspirou e pegou sua mão, deixando algumas lágrimas escapar. — Também não entendo, mas eles disseram que poderia acontecer, que é comum até.

– Não faz sentido uma coisa dessa não dar certo! As pessoas engravidam de formas mais aleatórias e nós que estamos fazendo tudo para esse fim…. — Balançou a cabeça e elevou os ombros.

– Vamos descobrir o que tá acontecendo. — Estacionou e desceram do carro.

– Boa tarde.

– Nós não temos hora marcada. — Marina falou sem cerimônias. — Mas podemos falar com Dra Mírian, por favor?

– A doutora tá com paciente. — Pelo semblante das duas, a secretária nem tentou remarcar. — Mas assim que ela estiver livre, aviso que estão aqui.

– Obrigada.

Se sentaram. Marina começou a esfregar as mãos na coxa, nervosa, e Clara as segurou e a puxou para mais perto de si.

– Marina, ei, me escuta. Seja lá o que for, nós conseguimos lidar, nós não vamos desistir.

Marina assentiu calada.

Vinte minutos depois, Mírian apareceu.

– Clara, Marina. Eu não esperava vocês aqui até amanhã, aconteceu alguma coisa?

As duas assentiram. Mírian percebendo a situação, chamou as duas para o consultório.

– Sentem-se e me digam. O que houve?

– Aconteceu que. — Marina começou chorar novamente, mas parou, respirou fundo e limpou a garganta. — Acontece que eu senti uma pontada hoje mais cedo. E teve um sangramento. Será que? Nós podemos fazer o exame hoje?

Mírian suspirou. — Como foi o sangramento?

– Não foi muito, mas eu sangrei. E teve essa dor que veio do nada.

– Sangrou mais de uma vez?

– Não sei, só vi no banheiro e nós corremos para cá. Deixa eu olhar de novo. — Falou já se levantando.

– Tá bom.

Marina voltou do banheiro. — Não tinha mais sangue.

– Nós podemos, sim, fazer o exame. — Pegou o telefone. — Clarice, pede o laboratório para mandar alguém aqui para coleta de sangue, por favor. Obrigada.

– Bom, Marina e Clara. Esse sangramento pode significar inúmeras coisas. Portanto, vamos com calma, mas de qualquer forma, é melhor vocês... ficarem preparadas. Eu vou explicar para vocês as possibilidades. Pode significar algum pequeno trauma vaginal, de causa qualquer. Pode ser também que você não tenha engravidado e isso ser um início de menstruação. Infelizmente, como expliquei para vocês, é até comum a inseminação não dar certo de primeira.

Clara entrelaçou seus dedos.

– Também pode ser um abortamento espontâneo. — Falava com cautela. — O que eu duvido, pela quantidade do sangramento ter sido tão pequena. Mas também pode não ser nada demais. Algumas mães, poucas, mas acontece de sangrarem no início da gravidez e não ser nada. Claro que deve ser investigado e é isso que vamos fazer. A nidação, que é a implantação do zigoto no útero, na maioria das vezes é uma etapa que passa despercebida. Mas há casos de mulheres que sentem uma pequena dor, assim como tem mulheres que sentem dor ao ovular. E nessa etapa também pode ocorrer uma descamação do endométrio, levando à leves sangramentos.

As duas assentiram.

– Faremos o teste, mas, no momento, eu imagino que será inconclusivo se você não apresentar mais nenhum sintoma, se não voltar a sangrar. Porque se for esse último caso, será muito cedo para um beta-HCG positivo. Sugiro, portanto, que façamos o exame, que você volte para casa e fique em repouso absoluto pelo menos até amanhã. Independemente do resultado do exame, se nada acontecer, vamos repeti-lo, para excluir um falso negativo. Enquanto isso, você vai ficar se vigiando. Se voltar a acontecer qualquer outro sangramento, vocês me avisem. Pode ser menstruação. Se não menstruar, repetimos o teste. Tudo bem?

Assentiram novamente.

– Tenta descansar, você já passou por um estresse enorme com essa situação. Sei o quanto é difícil, mas vamos esperar ou a menstruação ou o outro teste para termos certeza de qualquer coisa. Repito, o resultado de amanhã mais provavelmente será inconclusivo.

– Tudo bem.

Ouviram uma batida na porta e Mírian abriu para que o técnico colhesse o sangue de Marina.

– Marina, eu preferia que você ficasse em casa, repousando. Tem algum problema só a Clara vir buscar o resultado amanhã? A não ser que..

– A não ser que eu menstrue. Tudo bem, sem problemas.

– Eu venho amanhã. Vamos, amor. Obrigada, doutora.

Se despediram.

– Você ouviu, se não voltar a sangrar, acho que podemos..

– Não sei, Clarinha. — Falou em tom fraco. — Não sei se quero pensar assim. Não sei. — Andou sozinha na frente e entrou no carro, deixando Clara com o coração na mão para trás.

O caminho todo para casa foi de um silêncio insuportável. Mas pelo menos Marina tinha parado de chorar. Chegaram em casa.

Vanessa se aproximou com cautela. — Tá tudo bem?

– Tá, vou pro quarto.

Flávia se voltou para Clara. — Esse ‘tá’ não convenceu ninguém. O que aconteceu?

– Ai, meninas, não sei. — Clara chorou. — Ela teve um sangramento e nós fomos conversar com a nossa médica. Ela falou que pode ser várias causas, que pode ser normal, mas dentre elas menstruação ou até mesmo aborto. Colheu sangue, mas ela acha que o resultado não daria positivo ainda, mesmo.. mesmo se ela estiver grávida. Disse que a implantação pode demorar de 5 à 15 dias e só depois disso que o hormônio começa a ser produzido. Mas à essa altura, nós.. — Respirou fundo. — Nem sei, vocês viram a Marina. Ela tá arrasada. De qualquer forma, ela pediu repouso, então. Vamos esperar, né? É só o que podemos fazer.

– Gente, mas que barra. Coitada da Marina. — Flávia abraçou Clara. — Se precisarem de alguma coisa, qualquer coisa, vocês sabem que estamos aqui.

– Claro. — Vanessa concordou. — E manda um beijo para ela, acho melhor a gente não ir lá, ela deve tá querendo ficar sozinha.

Clara assentiu. — Obrigada, gente. Vamos torcer.

Clara subiu e não disse nada. Apenas deitou Marina em seu colo e ficou acariciando-a.

– Ainda bem que não contamos pro Ivan que já estávamos tentando. Tadinho, ia ficar de coração partido.
– Assim como nós.
– Sabia que tinha algo errado. — Olhou para longe, tentando não chorar novamente.

– Marina. Olha pra mim. Vamos esperar, tá bom? Nós teremos nosso bebê, mais cedo ou mais tarde. Eu te prometo.

Marina acabou adormecendo. Ivan chegou em casa e foi avisado pelas meninas de que suas mães estavam no quarto. Bateu na porta.

– Pode entrar. — Respondeu com cuidado para não acordar Marina. — Oi, meu filho!

– Oi, mãe. Aconteceu alguma coisa? — Olhou para Marina.

– Ela só.. não tá se sentindo bem, tá preocupada com os planos de gravidez e tudo mais.

– Mas ela não tá doente, né, mãe?

– Não, graças à Deus não, bichinho.

Ivan olhou para Marina, que parecia tão frágil no colo de Clara e com aquela carinha de quem havia chorado. Foi para o outro lado da cama e se deitou, abraçando Marina também. Marina abriu os olhos brevemente, mas permaneceu quieta. Dormiram os três juntos.

No outro dia, pela manhã, Clara levantou cedo e foi para a clínica sem nem tomar café. Deu um beijo em Marina antes de sair, que percebeu mas não quis mostrar que estava acordada. Esperou Clara sair e abraçou Ivan.

– E então, Mírian? — Clara perguntou assim que a viu entrar com o envelope em mãos.

Sentou à mesa e abriu. — Sinto muito, Clara. — Suspirou.

Clara pôs as duas mãos na cabeça, e apoiou os cotovelos na mesa.

– Mas calma, como eu disse, eu já esperava isso. — Pôs a mão em seu ombro. — Só vamos saber com certeza no próximo. Teve alguma outra intercorrência?

– Deixei ela dormindo em casa, mas parece que não.

– Já vou deixar marcado o próximo. Vamos esperar. Ela estava bem abalada ontem, vai precisar muito do seu apoio.

– Eu sei, tô.. tô tentando me manter firme pra ela. Bom, muito obrigada, doutora. Ela já deve ter acordado, melhor eu já voltar para casa.

Apertaram as mãos. — Espero vocês.

Clara assentiu e saiu.

Como esperava, encontrou Marina acordada sentada na cama, pulando canais na televisão.

– E aí? — Olhou para Clara que só balançou a cabeça negativamente. Marina engoliu e assentiu.

– Mas já era esperado, né, amor? Temos que esperar o outro.

– Ou não.

– Sangrou de novo?

– É.

– Muito?

Marina negou. Clara suspirou e sentou ao seu lado.

– Acho que já podemos marcar a próxima tentativa.

– Vamos esperar?

– Não tem porquê a gente se manter otimista, Clara! Olha o que tá acontecendo!

– Penso que se fosse menstruação viria mais.

– Ou só está desregulado devido aos medicamentos.

Clara abaixou a cabeça.

– Desculpa, amor. — Marina a abraçou. — Não queria estar.. amarga assim. Eu tô com medo. — Segurou as lágrimas. — Eu tava tão confiante de que já estava grávida que tô sentindo como se tivesse sido tirado de mim. Eu tô com medo de me manter esperançosa só para ouvir um não. — Enxugou uma lágrima que teimou em escorrer.

– Eu sei. — Clara beijou seu rosto.

– E você sabe que não aceito um "não" tão facilmente. — Falou com mais humor.

Clara sorriu. — Eu sei.