Can't help falling in love

2 Like a river flows surely to the sea


Notas iniciais
A passagem do tempo é rápida mesmo porque eu quero focar apenas em algumas partes importantes no desenvolvimento do amor de Sasuke por Naruto.

Setembro de 1964

A brisa do outono soprava calmamente entre as árvores. As folhas, apresentando cores num espectro entre vermelho e amarelo, balançavam preguiçosas ao toque delicado do vento. Alguns carros seguiam pelo asfalto e pessoas iam apressadas pelas calçadas da South, outras caminhavam despreocupadas e uma dessas era Sasuke.

Regressava de um dia chato na escola, não teve o mínimo desejo de sair da sala na hora do almoço, até porque as únicas duas pessoas que ele gostava de conversar tinham faltado, então fez questão de ficar ‘isolado’ até a hora da saída. As férias de verão haviam chegado ao fim, e aquele foi o primeiro dia de seu 6° ano na Somerville Middle School.

Estava passando na entrada da rua onde ficava sua casa, pensou em ir lá deixar os cadernos mas desistiu, não estava com vontade de ouvir provocações idiotas de Itachi sobre o que quer seja. Quanto mais tarde chegasse em casa, mais chances tinha do irmão já ter saído para encontrar com os amigos.

Após a aula, Sasuke teve vontade de passar um tempo no seu lugar preferido na cidade: as margens do rio Raritan. E é pra lá que estava indo agora.

Percorria o caminho estreito de terra entre as árvores, se esquivando de alguns galhos baixos, quando chegou ao seu destino e parou ao perceber alguém ali.

Sasuke arregalou os olhos. Reconheceria aquela cabeleira loira em qualquer lugar. Uma ou duas vezes sonhara com o dono dela.

Era Naruto. Bem ali. Com apenas alguns metros o separando de Sasuke.

Ele estava dentro do rio, com a barra da calça jeans levantada até abaixo dos joelhos, a água batia em suas canelas. Jogava pedras no Raritan fazendo-as quicar na superfície para depois afundar.

O estômago de Sasuke deu uma guinada violenta e sentiu um frio na barriga inexplicável. O primeiro impulso foi o de sair de fininho, voltar pelo mesmo rastro. Mas nunca faria isso. Aquele lugar era dele.

“O que faz aqui?” disse rudemente enquanto se aproximava mais da margem, parando onde estavam jogados os tênis vermelhos de Naruto.

O outro garoto parou o movimento que fazia com o braço e olhou para trás, vendo um menino de olhos e cabelos negros, vestindo calção marrom e camisa com listras horizontais alternando entre vermelha e azul. Deu de ombros.

“Estou jogando pedras no rio.” falou com obviedade.

Sasuke adorou a voz de Naruto ouvida de perto e mais claramente.

“Isso eu sei, estou vendo! Mas você não deveria estar aqui!” expressou nervoso com o cenho franzido.

“Por que não? É muito legal atirar pedras assim. Você sabe jogar?”

“Claro que sei!” exclamou indignado.

Sasuke nunca havia externado tantas emoções diferentes em um espaço tão curto de tempo. Mas Naruto parecia não se abalar com nenhuma delas.

“Quer brincar comigo?” disse animado. “Eu duvido você fazer a pedra saltar cinco vezes...” completou em tom de desafio.

“Está me desafiando?? Irá se arrepender disso! Vai, você joga primeiro.”

O loirinho fez uma cara de quem quer dizer que é invencível e lançou a pedra. Ela quicou 4 vezes.

Sasuke riu ladino. “Isso é o melhor que consegue?” analisou o chão em busca de uma pedra perfeita e a pegou. Venceria aquele convencido. Se posicionou e jogou.

A pedra saltou 2 vezes.

Naruto descortinou uma risada alta, daquelas que Sasuke havia escutado no ônibus. Bufou fingindo indignaçao pelo fracasso, mas não resistiu ficar de cara fechada por muito tempo e também sorriu. Nunca se sentira tão feliz ao perder em algo.

Foram se acalmando aos poucos. Sasuke olhava para além do rio, para a outra margem, apreciando a companhia e a sensação de tranquilidade perfeita. Estava com medo de olhar para o outro garoto e se perder em seus olhos profundos, que ele constatou serem mais bonitos do que qualquer azul que tivesse visto na vida.

“Qual seu nome?” perguntou o loiro.

“Sasuke. Uchiha.”

“Eu sou Naruto Uzumaki.” falou com olhos brilhando.

Sasuke balançou a cabeça em entendimento, fingindo que não sabia o nome do menino que têm visitado sua mente por quase dois meses.

E continuaram ali, brincando de jogar pedras e conversando bobagens que lhes surgia na cabeça, até os primeiros indícios do crepúsculo e irem para casa antes que escurecesse.

Era o início de um laço indestrutível.

Fevereiro de 1965

“Lembrei de onde te conheço!!!”

Sasuke assustou-se com a abrupta mudança de assunto.

Andavam rumo à residência de Sasuke. Naruto iria dormir lá. Ação que havia se tornado um costume.

Fazia muito frio e delicados flocos de neve se precipitava em ambos. Estavam conversando sobre a cidade em que Naruto morava antes de mudar para Somerville. Disse o motivo da mudança de estado; seu pai, Minato, morrera em um acidente há pouco mais de um ano e Kushina desejou trocar de ares. Conseguiu um emprego de enfermeira no Somerset Hospital e vieram para a cidade.

“O que quer dizer com 'lembrou de onde me conhece'? O frio tá afetando sua cabeça e danificando seu pobre cérebro?” soltou um riso divertido olhando para o amigo.

“Não, engraçadinho.” parou e olhou de volta para Sasuke, que o encarava aguardando uma explicação. “Quando te vi, aquele dia no rio, tive a sensação que te conhecia, que tinha te visto antes em algum lugar.”

Sasuke gelou. E não tinha nada a ver com o inverno rigoroso. Naruto o percebera no ônibus? Pigarreou.

“E então?”

“Do ônibus! Quando eu tava de mudança pra cá, durante as férias de verão.” o garoto respondeu alegre e orgulhoso de si mesmo por finalmente ter recordado daquele momento em específico.

Sasuke inquietou-se em seu íntimo, mas continuou adotando uma cara de que não entendia o que o outro dizia.

“Ah... bom, eu não me lembro de ter te visto.”

“Você me encarou. Depois ficou olhando a mim e a minha mãe. Como pode não ter me visto?” sorriu sapeca.

“Encarei? Deve ter sido impressão sua.” Sasuke estava nervoso. Olhava para qualquer lugar menos para o loirinho que agora estava parado à sua frente.

“Tsc, Sasuke, conta outra vai!”

O mais velho se irritou. Achou que tivesse sido discreto! Estava puto consigo mesmo.

“Oras, isso era porque você fazia muito barulho!” jogou sua última cartada e completou “E se sabe que eu tava te olhando, então quer dizer que não parava de me olhar também.” soltou de modo mais curioso que acusatório.

“Eu estava. Tinha gostado do seu tênis. E do seu cabelo”

O rosto pálido de Sasuke adquiriu um vermelho de vergonha. Não esperava tamanha sinceridade. Agora fitando o mais novo, focou sua íris negra em Naruto e mergulhou nos dois pedaços do mais profundo oceano.

Naruto estava com uns floquinhos de neve presos ao gorro, com roupas grossas e pesadas, o rosto coradinho de frio.

Estava lindo. Muito lindo.

E seu estômago mais uma vez deu aquele solavanco, que quase sempre acontecia quando parava para admirar Naruto por muito tempo.

“Obrigado. Também gosto do seu cabelo. E dos seus olhos.” resolveu responder sinceramente.

Naruto deu um sorriso ladino desviando o olhar. Tímido. Envergonhado.

Sasuke pensou que adorava os risos escandalosos do loiro, mas aquele sorriso que acabou de testemunhar era mais especial, pois sentiu que era o tipo de sorriso que Naruto não oferecia para todo mundo. Concluiu que queria ver mais desses sorrisos direcionados a si.

“Valeu. Agora vamos logo que eu to congelando. Ainda temos que fazer as lições de casa antes de brincarmos senão mamãe nunca mais me deixa dormir na sua casa. Sabe como ela é.”

Passou um braço em volta dos ombros de Sasuke e voltaram a caminhar.

Abril de 1966

Aproveitando a sombra de um tulipeiro ali perto do rio, dois adolescentes sentados lado a lado no chão coberto por uma planta rasteira, escreviam algo em seus cadernos. Era uma linda tarde de domingo e eles resolveram usá-la, por insistência de Sasuke, para pôr as lições em dia antes de saírem com os amigos.

A margem do Raritan agora havia se tornado um refúgio para ambos, desde quando ali se encontraram por acidente há quase 2 anos. Era um lugar calmo e aconchegante, com um silêncio sendo quebrado apenas pelo som da fraca correnteza , o canto dos pássaros e, as vezes, pelas vozes de Sasuke e Naruto trocando palavras enquanto resolviam questões.

“Sasuke, você gosta de alguma garota da nossa turma?” cansado de fazer a lição, Naruto perguntou parando de resolver cálculos chatos e complicados.

“Não.” respondeu simplista.

“Hm...e da escola?”

“Também não.” deu de ombros sem tirar os olhos do papel.

“Entendi.” Naruto disse coçando o queixo e observou o rio. “Mas todas as garotas da escola adoram você. Já percebeu?”

“Todas as garotas da escola? Quem você acha que eu sou? Paul Newman??” Sasuke falou meio divertido.

Soltou um suspiro, parou de fazer a lição e virou-se um pouco para Naruto.

“Percebi algumas, sim. Mas não me importa, não tenho interesse em nenhuma no momento.” levantou uma sombrancelha e resolveu devolver a pergunta, mesmo receoso pela resposta. “Mas e você? Tá interessado em alguém?”

“Mais ou menos, eu acho. Quer dizer, tem umas bonitas não é.” Deu um sorriso sugestivo de canto.

Sasuke balançou a cabeça concordando, mesmo com algo gritando em seu interior, implorando para que o idiota parasse de falar essas coisas tão animadamente.

“Você já pensou em, sei lá, beijar alguém?” o loirinho continuou com o questionário.

“Ainda não.” mentiu. “Tô bem assim por enquanto.”

Naruto pareceu satisfeito com a resposta e suspirou olhando para cima com ar reflexivo, mirando as várias flores pequenas e amarelas na copa da árvore.

“Hoje faz 3 anos que meu pai morreu. Todos os dias sinto saudades dele. Você iria adorar conhecê-lo.”

Sasuke percebeu a melancolia na voz de Naruto apesar de estar oferecendo um rosto tranquilo. O moreno sabia que não era preciso dizer nada, ele queria apenas ser ouvido no momento.

Retirou a mão do caderno e a pousou no ombro esquerdo de Naruto, apertando levemente, tentando passar algum conforto com o gesto.

Naruto moveu a mão que apoiava no chão, levou-a até a de Sasuke depositada em seu ombro e começou a fazer um carinho suave usando o polegar enquanto virava o rosto para encontrar o olhar negro e hipnotizante do amigo.

Olho no olho.

Durante dez segundos. Ou 10 mil anos.

Não havia a noção de tempo enquanto Sasuke se afogava no oceano e Naruto se perdia na escuridão.

Sasuke, com a garganta seca e o coração batendo frenético e barulhento como tambores no desfile de 4 de julho, encontrou a resposta que não sabia estar procurando e, finalmente, percebeu o óbvio.

Estava fudido.

Novembro de 1967

A hora do almoço estava quase no fim e um certo rapaz ainda não havia retornado da ida ao banheiro.

Assim que o sinal anunciou o fim da aula e início do intervalo para almoço, os dois amigos saíram para se juntar ao resto dos colegas no refeitório. Cinco minutos após sentarem, Naruto informou ao grupo que iria 'aliviar a bexiga que tava pedindo por socorro'. E, agora, o intervalo estava praticamente encerrado e nada do estabanado amigo de Sasuke voltar. Ele estava preocupado com a demora.

Sasuke já havia aceitado que se apaixonou por Naruto. No começo, ao constatar esse fato, ele quase surtou. Não acreditava que estava apaixonado por um rapaz e, o pior, esse rapaz era seu melhor amigo. O coração com certeza não facilita a vida na terra. Depois de uns meses tentando evitar ficar a sós com Naruto, desistiu dessa tática por dois motivos

1. O loiro estava ficando magoado. Provavelmente percebendo Sasuke, de repente, tentando se afastar de si.

2. Simplesmente não conseguia ficar longe de Naruto, da voz, do sorriso, das conversas e da agradável companhia.

A estratégia que usava atualmente era a de ignorar os sentimentos de paixão, trancá-los num baú e jogar a chave do cadeado fora. Sim, estava funcionando.

Levantou-se antes de a sirene tocar e avisou aos outros que iria procurar Naruto. Foi em direção ao banheiro masculino, o lugar mais óbvio de ele estar já que havia dito que ia para lá. Só esperava que o amigo não tivesse caído com a cabeça dentro do vaso sanitário. Riu com o pensamento, era um idiota mesmo. Andava pelo corredor vazio olhando para as salas desocupadas. Talvez o loiro estivesse caído no sono em uma delas. Não seria a primeira vez.

Naruto estava mesmo dentro de uma sala. Mas não estava dormindo. Muito menos sozinho.

Estava aos beijos com Sakura.

Um sentimento lhe arrebatou enquanto o via apertar as costas da garota puxando-a para mais perto. Um sentimento que ele já sentira pelo melhor amigo umas poucas vezes, mas dessa vez bateu mais forte. Ciúmes.

Entendia perfeitamente que não tinha o mínimo direito de estar sentindo ciúme com tanta intensidade, afinal eram apenas amigos. Estava apaixonado por Naruto mas não eram namorados e as chances de isso acontecer eram de uma em um bilhão. Porém não conseguiu evitar a onda de irritação que se instalou em seu âmago.

A sirene tocou e Sasuke voltou para a sala. Uns minutos depois Naruto chegou e sentou- se no lugar de sempre, atrás de Sasuke. Durante as duas aulas que restavam, não dava mais que sorrisos forçados e resmungos quando o outro rapaz chamava sua atenção para comentar sobre algo. Tentava agir o mais natural possível, mas falhava miseravelmente.

“Sasuke! Ei, Sasuke!! Me espera seu idiota.” na hora da saída, ouviu Naruto gritando atrás de si e correndo com uma bolsa no ombro na tentativa de alcança-lo.

“O que foi?” o tom rude em sua voz saiu sem intenção.

“Como assim 'o que foi'? O café fica pro outro lado. A gente não combinou de ir pra lá comer algo e conversar? Só nos vimos na escola essa semana...”

Com o que se passava em sua mente, Sasuke havia esquecido do que combinou com o loiro pela manhã.

“Achei que tivesse mudado de ideia e encontrado uma coisa melhor pra passar o resto da tarde.” o desgosto em sua voz era nítido.

“O que você tem?! Tá mais bruto que o normal! Eu te fiz algo?” Naruto respondeu com um misto de raiva e desolação. “Desde depois do almoço você está sendo um cuzão comigo, acha que não percebi?”

Sasuke se sentiu culpado pelo jeito que estava o tratando, mas o ciúme ainda martelava.

“Você estava beijando a Sakura!”

“E daí? Qual o problema? Achei que fosse se animar por eu, finalmente, ter encostado minha boca na de alguém.” o loiro lançou um olhar acusatório. “Ate porque, Sasuke, você já beijou a Ino.”

Diante desse fato, Sasuke parou de caminhar e ficou muito quieto. Um vento leve tocou seus cabelos e ele soltou um suspiro como uma criança presa em casa num dia ensolarado.

Não era justo ficar com raiva de Naruto. Ele não tinha feito nada errado. Se achou um completo imbecil no momento.

“Por que ficou bravo comigo?”

“Porque ela é nossa amiga. Não é pra sair beijando amigas.” improvisou uma desculpa qualquer e esperou que fosse o suficiente.

“Foi só dessa vez, tá legal? A gente se agarrou por curiosidade. Nós dois éramos os únicos do nosso círculo de amizade que ainda não tinha essa experiência, não vai acontecer novamente.” assegurou.

Sasuke voltou seu olhar para o rapaz ao seu lado. Os cabelos bagunçados num ar selvagem, vestia uma camisa amarela com uma jaqueta preta por cima. Os olhos azuis profundos fitando Sasuke com curiosidade à espera de uma reação. Naruto era muito lindo. 15 anos de pura beleza. E era igualmente belo por dentro. Impossível não se apaixonar.

Deu meia-volta e passou a andar novamente pela calçada da N.Bridge.

“Pra onde tá indo?” perguntou o loiro preocupado.

“Pro café, idiota. A gente combinou, não é? Comer enquanto ouço você exaltar os Beatles.” respondeu fingindo indiferença.

O olhar de Naruto brilhou e abriu um sorriso caloroso e luminoso, parecendo um pedaço do próprio sol.

“Dona Kushina convidou seus pais para jantarem lá em casa amanhã, sabia? Ela disse pra levar você também, claro. Quer comemorar a promoção que ela teve no hospital. Agora é enfermeira chefe!” ia falando todo orgulhoso enquanto andava ao lado do amigo.

“Verdade? Acho ótimo, ela merece. Sua mãe é a mulher mais forte que conheço.” sorriu pura e sinceramente. O ciúme e a irritação não mais tomando espaço em si.

“Assim que gosto de te ver. Sorrindo. Já é bonito sério, quando ri então fica uma visão de outro mundo.” Naruto as vezes não tinha filtro e falava o que dava na cabeça.

Sasuke corou. Sua mente dando voltas com o elogio e sentiu uma fisgada nas partes íntimas. Não respondeu nada, nem se quisesse conseguiria. O coração batia descontrolado dando pulos de contentamento.