Cansaço
1 Nos braços de minhas irmãs encontrei meu lar.
Quantos anos fazem?
Eu não me lembro qual foi a última vez em que dormir me fez bem.
Os dias são quentes e exaustivos, mas isso já se tornou rotina. O problema é quando o cansaço físico me obriga a deitar na minha cama enquanto ainda estou sem sono, ou com pouco sono.
Não consigo dormir sem música, se tornou um costume.
Uma maldição.
As primeiras músicas que escuto são aquelas que me levam a lugares nublados, músicas de amor que me fazem lembrar como eu sinto falta de ter um amor correspondido. Embora hoje em dia eu não acredite mais que “amor” seja a palavra que defina meu anseio por uma ou outra pessoa.
Foi-se o tempo em que amor não era uma mentira conveniente.
Continua a época, no entanto, de sensações desconfortáveis em músicas que são tão confortáveis para meus ouvidos.
Perco o sono.
Com o celular por perto, acabo sempre por buscar vídeos de outras pessoas em situações familiares. Talvez seja o anseio, não por amor, mas por cumplicidade. Uma que só posso encontrar em pessoas que passam por algo parecido, mesmo que eu sequer as tenha visto.
Sem que elas tenham me visto.
Mas alguém ainda me vê para início de conversa?
Tudo está bem para os outros, não?
Mesmo quando não está, é só uma piada.
Assim como meu sono.
Uma piada tão engraçada quanto genocídio.
Depois de enfim deixar meus olhos ardendo como consequência de horas olhando para uma tela minúscula num ambiente escuro, enfim decido deixar o celular de lado. Não por perder o interesse em me afundar ainda mais em sentimentos ruins, mas sim pela bateria não ser eterna.
Ao menos não tão eterna quanto meu cansaço parece ser nesses últimos dias.
Enfim caio no sono.
Memórias? Algumas.
Pesadelos, sempre.
Tragédias familiares na maioria dos casos.
Perdas em todos os casos.
Acordo durante a tarde.
Minhas costas doem mais do que se eu tivesse passado o dia inteiro fazendo exercícios.
Como alguém pode ficar tão mal por simplesmente deitar numa cama?
Acho que nunca vou entender.
Sinto como se não tivesse ninguém em quem pudesse confiar tudo isso.
Não é verdade, eu sei.
Sim, não é verdade.
Então talvez seja outra coisa.
Sim, é diferente.
Sinto como se não fosse fazer diferença alguma dividir essa sensação.
Às vezes me pego pensando se não deveria terminar o que tentei alguns anos atrás.
Seria doloroso, sem dúvida.
Mas seria uma dor passageira.
Um cansaço passageiro.
Como a bateria do meu celular.
Mas então eu perpetuaria meu anseio por outrem.
Talvez não valha a pena continuar na espera pela resposta. Afinal, quem sabe um dia esse anseio acabe, contra todas as minhas expectativas. E que, por um milagre do acaso, não seja uma relação vazia e impulsionada por solidão, mas sim algo que se assemelhe ao menos um pouco com amor.
Mas eu não mereceria isso.
Seria injusto.
Comigo, e com a pessoa que se relacionasse comigo.
“Tragédia” seria o termo mais adequado, é o que vejo agora.
Afinal, eu não vejo fim para o abismo que minha aura tem se tornado ao longo dos anos.
Eternidades e brevidades.
Andam lado a lado.
Que ironia.
As fontes de meu tormento também possuem uma companhia.
E eu, sem nenhuma, acabo me agarrando a elas.
Estou em casa.
E aqui continuarei vivo.
Ao lado de minhas irmãs.
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