Candy Box
1 Capítulo único
Ainda me lembro, como se tivesse sido ontem. Estava com 10 anos quando ela pegou mania de me levar ao supermercado. Me levava só pra me maltratar, acho. Minha vontade era a de qualquer criança: encher o carrinho de doces, bolachas, biscoitos e tudo que não seria certo comer. Mas não. A megera só me deixava pegar uma única bala. A mesma bala que, no mesmo dia, eu ia guardar na caixa debaixo da cama e poupar pro dia em que eu realmente precisasse chupá-la. Passava dias me contorcendo pra não comer a bala, mas fizesse o que fosse, não comia. Esperava ansioso pela próxima ida ao supermercado. Íamos de novo, mais uma bala ia pra caixa. Não tinha coragem de comê-la. Tratava todas como se fossem filhas, meu doce favorito. E todas as vezes que voltávamos àquele centro de comidas, não importava o quanto eu gritasse, chorasse ou implorasse, ela não comprava mais. Era uma. Só uma. Poupei todas. A caixa, eu escondia cada mês em um lugar diferente, mas, não sei como, ela acabava voltando pra debaixo da cama. Na época, pensava que era uma fada ou algo do tipo, que estava de olho nas minhas balas. Ficava tão irritado ao pensar que alguém queria roubá-las que um dia, guardei a caixa no sótão de casa. E as balas, não comia. Nenhuma. Passavam-se meses e mais meses, eu me esquecia do gosto. Mas sabia que ia valer a pena, ou pelo menos achava, e não comia. Mas como ia dizendo, um dia escondi a caixa no sótão. Ainda era de manhã quando a coloquei lá. E foi no final do mesmo dia, eu estava simplesmente arrasado. Foi o dia em que descobri que papai tinha ido embora. Os adultos mentem pra gente quando somos pequenos demais pra aguentar a verdade. Mas não ela não ia mais poder mentir pra mim. Porque por volta das quatro da tarde, entrei em seu quarto. Até aquele dia, ela me enrolava, dizendo que ele andava viajando muito. O caso é que quando entrei, havia uma outra pessoa fazendo o que papai costumava fazer. Tentei enxergar a pessoa que tinha me criado, vivido tanto tempo ao meu lado(pelo menos até os nove anos), mas não tinha como ver o que não existia. Não minto quando digo que tentei: olhei-o de todos os ângulos, pedi que fizesse nosso aperto de mão secreto, até chamei-o do que definitivamente não deveria ter chamado. Mas era outro homem. Fiquei desiludido. Além de não ter mais pai, ela tinha mentido pra mim. E eu tive de descobrir sobre aquela pessoa por conta própria. Pensei nas balas. Até aquele dia, não sentia mais vontade de comê-las. Então, imaginei se cada uma delas, cada uma das balinhas tivesse sentimentos e gostasse de mim tanto quanto eu gostava do papai. E em como se sentiriam se eu, de repente, fosse embora e chegasse um estranho que pouco se importasse com elas. Como se sentiriam? Do mesmo jeito que eu me sentia, é claro. Mas será que valia a pena pensar daquela forma? Eram só balas e balas não têm sentimentos. Ou será que as minhas como eu, teriam vontade de desaparecer do mundo? É. As minhas, eram diferentes. Tinham um valor especial pra mim, eu não ia permitir que se machucassem ou que me vissem chorar. Eram mais doces do que qualquer pessoa poderia ser. Mais consoladoras do que qualquer garrafa de cerveja e mais inocentes do que qualquer criancinha poderia ser. Era isso. Depois de tanto me torturar, pensando no fato de papai ter ido embora, cheguei à conclusão de que as balas não mereciam o mundo frio em que vivíamos. As pessoas são más. Todas elas. Depois que crescem, perdem a doçura, o dom de consolar, a inocência. Eu não queria ser daquela forma, mas se todas as pessoas eram daquele jeito, não ia ter como escapar. Em pouco tempo, eu seria tão frio e tão indiferente quanto qualquer uma delas. Mas as balas, que eu tanto amava, ia ter de salvar. Ia ter de salvar daquele mundo. Subi correndo as escadas que davam para o sótão e, ao chegar lá, tirei as balas debaixo do sofá. Eu nunca desejaria comê-las, depois de tudo que havíamos passado juntos. Talvez fossem só balas, mas pra mim, valiam mais do que a vida de uma pessoa daquelas, que viviam da tristeza de outras. No entento, ia precisar tirar-lhes a vida se quisesse que elas se salvassem. Ia ter de comê-las, uma por uma, o que pra mim, àquele ponto, seria uma verdadeira tortura. A culpa era toda dela, de minha mãe. Além de sempre ter sido cruel comigo, havia mandado papai embora. Eu sabia que era ela, eu sabia. Se não tivesse sido do jeito que sempre fora, talvez eu nunca tivesse ganho tanta independência, mas será que eu precisava mesmo daquilo? Ela era má. Devia ser isso, só podia ser. Mas como ia mostrar a ela todo o mal que havia me causado, com a mesma doçura que as balas me trariam? Foi aí que tive a idéia. A idéia de deixar todas as balas, no chão, em frente ao seu quarto. Simplesmente porque ela sabia quão importante aquelas balas eram pra mim. Acho que foi a única bondade que fez na vida: devolver minhas balas, todas as semanas, ao mesmo lugar, em baixo da cama. Mas naquele dia elas ainda estavam no sótão, então ela devia estar ocupada demais, com o homem substituto do papai. Se visse as balas no chão, ia achar que eu havia perdido-as. Então, eu tirei o papel de todas as balas e amarrei lacinhos de papel fino, de embrulhar presente, em todas. Assim, ela saberia que as balas estavam lá porque eu as havia abandonado. Tentei adiar ao máximo o momento. Sentia algo por todas, tinha me apegado a elas. Mas se quisesse mesmo mostrar minha tristeza, sem que mamãe brigasse comigo, ia ter de fazer um esforço. Ela não se comovia quando eu chorava, então talvez, se eu mostrasse que estava triste de uma forma mais simbólica, atingiria seus sentimentos. Ela tinha sentimentos? Amarrei lacinhos em todas as balas, já nuas do papel que antes as cobria. Enquanto a porta de seu quarto estava fechada, coloquei uma por uma em frente ao mesmo. Deviam ser umas cinqüenta balas. Deixei todas lá e, com os olhos já cheios de água, fui colando os papeizinhos, um por um, na caixa que antes era usada pra guardar minhas balas. A caixa, deve estar até hoje em baixo de minha cama. As balas, ela deve ter visto, mas não disse nada. Sei só que no dia seguinte, não estavam mais lá. “Deve ter-las jogado fora”, pensei comigo mesmo. Era bem típico dela fazer isso. E me lembro que, aquela noite, passei chorando, abraçado à caixa. Talvez eu fosse mesmo fútil, mas gostava das balas como se fossem filhas. Não existe nada mais idiota ou patético do que achar que balas têm sentimentos. Mas eu era criança e naquele dia, me sentia vazio. Até hoje talvez não tenha superado toda a história das balas. Do jeito que me machucaram, mais pareceram balas de revólver do que balas doces. Mas abandonar algo que eu tanto amava é motivo pra me orgulhar até hoje. É triste, é triste. Mas precisei ser muito forte pra conseguir fazer o que fiz. Eu, que tanto sonhava com o dia em que poderia sentir aquele gosto doce na boca, acabei perdendo tudo o que mais amava do jeito mais cruel possível. Passaram-se dois, três, cinco anos. E foi bem no meu aniversário de quinze, que achei que não ganharia presentes. Já fomos pobres, mas nunca estivemos em nível tão baixo de classe social. Antes, tínhamos uma mesa farta no café da manhã. Hoje, nos contentamos com pão e leite. Mas foi nesse ano que ganhei o presente mais simbólico que poderia ter recebido em toda a vida. Acho que quanto menos dinheiro temos, mais sensível ela fica. Porque ontem à noite, quando cheguei em casa, deparei com uma bala em cima da mesa. O mesmo papel, a mesma marca. Exatamente a mesma bala. E foi nessa mesma noite que devolvi a bala ao lugar em que ela pertence: dentro de sua caixinha. A caixa já é velha, o papel meio rasgado e me traz lembranças do dia em que papai nos deixou. Eu me livrei de todas as outras balas, mas essa acho que vou manter pelo resto da vida. Mostra minha infância, me devolve a inocência, a doçura e o dom de consolar. Mas acima de tudo mostra que talvez, talvez...mas só talvez...mostre que aquela pessoa tão fria que me comprava apenas uma bala...mostre...que talvez, ela goste de mim.
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