Candor Lunar - Livro 2
41 Entre capítulos - A Máscara do Terceiro
Notas iniciais
Então, eu chamo isso de "entre capítulos"... são pedaços de capítulos que ficaram muito grandes e que tem uma conotação diferente do capitulo corrente, geralmente fazem parte de outro cenário.
Então aí está. uma leitura rápida e fundamental... e que revela MUITA COISA...kkkk.
O fim está próximo.
Ang.

A noite já cobria o mundo. Estrelas faiscavam por todo o espaço e uma meia lua prateada cingia a noite com um brilho esmaecido; havia música ao fundo, mesclavam-se em melodias hora clássicas, hora antigas, hora contemporâneas.
E um zum zum zum de vozes também emergia do pátio, ele espiou por cima da sacada e encontrou uma dezena de tendas brancas balançando sobre a brisa do mar, sob elas uma miríade de luzes faiscava num tom áureo pelas paredes rochosas do castelo. O Pináculo da Luz estava polvilhando de vampiros e humanos, uma mistura bastante curiosa que atualmente apenas um casamento real poderia conseguir.
Ele se perguntou o que aqueles pobres trabalhadores mortais imaginavam quando se viam cercados por uma centena de estranhos com peles claras como neve e olhos vermelhos de sangue. Provavelmente pensam se tratar de um casamento gótico de algum ricaço excêntrico, pensou Dean Portman consigo mesmo enquanto afastava-se da sacada e voltava para o quarto.
Vestia um terno Armani preto, o corte italiano assentava-se preciso nas curvas de seu corpo delgado, o paletó ficava levemente apertado nos braços onde músculos magros, mas fortes expandiam perigosamente o tecido. A camisa branca era imaculada e contrastava com a gravata prata. Os sapatos, num também feitio italiano não continham uma grama de pó. Ele olhou-se no espelho, ajeitou a gravata e despenteou os cabelos, preferia-os assim... lhe davam um tom de deboche contra toda aquela pompa, como se ele não desse a mínima importância em estar vestido com roupas que ultrapassavam facilmente os três mil euros.
Ele deixou o quarto para encontrar o hall principal do castelo tomado por vampiros e alguns poucos e extasiados humanos. Enquanto descia as escadas os olhares femininos caíram sobre ele com uma já costumeira... fome. O problema de Dean Portman consistia no fato de que ele sabia o quanto era bonito. Seu rosto quadrado terminava num queixo forte de maxilares firmes, algo ridiculamente perfeito como se tivesse sido modelado por algum escultor; os cílios eram longos e negros como seus cabelos que desalinhavam-se charmosamente sobre sua cabeça.
Era alto, postura reta, mãos precisas e dedos longos. Os ombros largos não conseguiam ser disfarçados pelo terno e movia-se com uma elegância prepotente e arrogante. Tinha um eterno sorriso enviesado nos lábios, parecia considerar tudo o que o cercava como uma grande piada da natureza, como se pesasse tudo com sarcasmos, medisse tudo com desleixo.
E as vampiras – e com mais força as humanas naquele hall – pareciam devorar-lhe com o olhar, desejavam-no para possuírem-no vezes repetidas apenas para poder sonhar mais tarde com aquele corpo perfeito e esculpido que agora as encarava com prepotência.
E talvez prepotência fosse justamente o pior defeito de Dean Portman, a consciência de que era terrivelmente belo e obscenamente fascinante dava a ele este porte... e um irritante brilho no olhar que parecia reduzir todos os outros a meros insetos sem valor.
Seu pensamento também não era dos melhores. Considerava-se melhor do que todos e ficava realmente transtornado quando se deparava com um vampiro velho ou de beleza duvidosa, afinal de contas, quem iria querer ser velho ou feio para sempre? Mas as vampiras – e algumas humanas – que por ventura caíram em sua cama nunca se importaram com o temperamento duvidoso de Dean, o que desejavam era seu corpo, não seu caráter.
Havia sido transformado aos vinte e sete anos de idade e por isso não tinha mais aquele ar infantil que tantos outros vampiros adolescentes mantinham, e era jovem para um vampiro, completaria oitenta e três anos naquela mesma semana. E a despeito de a quem servia, jamais poderiam imaginar que era um espião.
Fosse como fosse, Dean Portman era um perigo.
Ele cruzou alheio a todos os olhares famintos lançados a ele – a maioria de mulheres, mas alguns vampiros também – depois, quem sabe, retornaria para o meio da confusão de corpos para colher alguma bela vampira para conduzir à sua cama até que o dia raiasse.
Mas agora tinha mais coisas com que se preocupar.
Subiu os degraus e novamente caminhava por corredores vazios e sombrios, iluminados apenas por tochas bruxuleantes; Dean jamais pode compreender qual exatamente era o fetiche dos Reis em manter seus castelos iluminados por tochas numa era dominada pela energia elétrica. Mas ele não era rei e por isso abanou para longe estes pensamentos.
Esgueirou-se para a torre principal na ala sul, uma ala que por ser muito distante do hall principal era muito pouco usada, mas aquele a quem ele buscava já estava acostumado a manter-se recluso e distante de tudo... por enquanto. Houve mais escadas e mais subida e depois de pouco tempo ele encontrou o corredor no último andar da última torre, a porta estava fechada, mas ninguém a vigiava. Ele aproximou-se, empurrou a porta e entrou.
O quarto era redondo, seguia a curvatura da torre, amplo e completamente desguarnecido de qualquer coisa a não ser uma poltrona de encosto alto e uma vidraça imensa que alongava-se do chão até o teto alto sustentado por vigas de madeira. Uma luminosidade prateada derramava-se por todo o chão tornando-o luzidio e estranhamente sobrenatural... havia alguém sentado na cadeira.
Dean Portman aproximou-se e viu seu próprio reflexo na vidraça polida, assim como o reflexo do vampiro na cadeira que agora o olhava com curiosidade. Dean dobrou-se numa mesura e depois caiu sobre um dos joelhos, dizendo:
- Meu mestre – sua voz era voluptuosa e morna, como seda fina deslizando pela pele nua do corpo de uma mulher – Eles partiram de Volterra a caminho do Pináculo da Luz, como o senhor previu Arian foi despertado e libertado de sua prisão.
Houve um som leve quando o vampiro ergueu-se da cadeira, deslizou até a janela e encarou a noite profunda, o reflexo no vidro refletiu o brilho dos olhos rubros de Marcus Volturi. Quando o Rei se virou não havia ali qualquer letargia ou indício de retidão, ele parecia assustadoramente desperto tanto quanto Aro ou Caius. E quando falou, sua voz não soou baixa e remota como antes quando não passava de um sussurro que nem mesmo os vampiros eram capazes de captar muitas vezes, ao contrário, a voz era profunda, alerta... e tinha um tom raivoso e malicioso.
- Você fez bem, meu servo – disse Marcus – Tudo está saindo como o previsto. Quem libertou Arian?
- O filho de Carlisle Cullen, Edward.
- Sim, teria de ser ele – um sorriso maligno desenhou-se nos lábios de Marcus – Madalene já avisou Erestor?
- Está a caminho de fazer isso, meu mestre – respondeu Dean – Ela não virá ao casamento justamente para preparar tudo. Arian e os outros estarão aqui amanhã, provavelmente atacarão durante a cerimônia quando não haverá ninguém vigiando.
- De fato. Ficarei aguardando-os – Marcus virou-se novamente para a janela – Você conhece seu próximo passo?
- Aproximar-me da Rainha Isabella – disse
- Princesa – corrigiu-o Marcus – Ela jamais chegará a se tornar Rainha.
- E quanto ao depois? Se me permite perguntar, meu mestre, Arian sentar-se-á no trono de Volterra?
- Depois de amanhã não haverá mais Volterra – o brilho no olhar de Marcus causou um arrepio em Dean – Nem rei ou rainha e nem será preciso... não tardará a não restar nada. Agora vá, deixe-me. E prepara-se. Amanhã a tempestade estará sobre nós. Finalmente chegou o momento de espiar os nossos pecados.
Dean deixou Marcus com seus planos e demônios e retornou para a parte principal do castelo onde a festa acontecia; subitamente impaciente com todo aquele movimento deixou-se guiar para fora, para uma sacada arejada que dava para os pátios cheios de tenda. Um garçom surgiu com uma taça de sangue para ele.
Ele notou certo furor na multidão de vampiros pelo pátio e então correu o olhar para onde todos apontavam e lá, no tablado principal, o Rei Aro e a futura Rainha Isabella beijavam-se completamente indiferentes a todos os olhares que os observavam. Dean Portman ergueu uma sobrancelha em nítida surpresa. Até onde o informaram Isabella havia aceitado se casar com Aro em troca da própria vida e da liberdade da irmã, mas aquele beijo – e Dean entendia muito de beijos – não era uma encenação. A Bella perdeu o coração para a Fera? Questionou-se Dean.
Mas não importava na verdade, todos aqueles pobres bastardos que estavam ali para um casamento seriam parte de um grande funeral. Dean era capaz de ouvir o som do mar mesmo com a música alta ecoando pelo pátio, uma mão fria pareceu descer por suas costas quando ele lembrou as palavras de Marcus: Depois de amanhã não haverá mais Volterra. Nem rei ou rainha e nem será preciso... não tardará a não restar nada.
Seja lá o que Marcus tentara dizer tinha haver com o grande segredo dos Volturi. E com tudo o que Erestor, Madalene e o próprio Marcus faziam para tirar os Volturi do poder... o segredo que a Confraria do Sangue temia acima de tudo e que mudaria o futuro do mundo todo.
Dean Portman realmente não queria saber que segredo era este, mas uma coisa era certa: uma tempestade estava a caminho e ele estaria bem no meio dela. Teria que prever com precisão seus próximos movimentos ou seria tragado pelos ventos furiosos que se formavam.
Ele sacudiu a cabeça para clarear as ideias e retornou para dentro do salão a fim de angariar alguma companhia para passar a noite, pois até onde sabia... poderia ser a sua última noite na face da Terra.
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