Candor Lunar - Livro 2
46 Capítulo 43 - Quando se revoltam os bravos
Notas iniciais
Havia um paredão de escudos em riste, uma muralha de corpos imorredouros incapaz de sequer pensar em recuar, não havia naqueles guardas a margem para recusar a ordem dos reis que serviam há séculos. Quil foi na frente, um projétil em forma de lobo cravado em aço que reduziu esta mesma barreira a um mero e espalhado conjunto de vampiros atirados para todos os lados. Não havia como parar a fúria vingativa de Quil Ateara.
Antes da colisão um dos guardas se perguntou como um grupo tão pequeno de intrusos ser capaz de desbaratar toda a tropa da guarda de Volterra, mas a resposta que o guarda não sabia era bastante simples: a culpa era dos reis. Temendo um motim os Três sempre mantiveram seus soldados rasos apenas entre vampiros comuns e sem qualquer talento, permitindo que os servos de postos mais baixos continuassem sendo fracos e facilmente coagidos pelas ordens dos reis. Isso acabou sendo sua ruína.
Como poderiam vampiros com nada além da imortalidade e de seus sentidos aguçados fazerem frente a lobos sobrenaturais e dons especiais como os de Edward e Jasper? Mas além disso, o que poderiam fazer contra todo o sentimento de raiva e vingança que brotava daquele grupo de intrusos que galgava os degraus e corredores do castelo dispostos trocar suas vidas pelo prazer de desmembrar os Três?
Logo que Quil limpou o caminho, Seth atirou-se pelo corredor e de forma impiedosa ceifou a vida dos guardas que ainda resistiam, Jasper infectou todo o corredor com uma aura de terror e pânico enquanto os outros seguiam decapitando os vampiros que estavam vulneráveis. No fim da fila seguiam Edward e Bella. Ela estava maravilhada em poder ver Seth e Jasper novamente, assim como Carlisle e Garret; ficou perturbada por Jacob, mas aliviada por ele pelo menos estar vivo e sentiu-se ainda mais aliviada por saber que Alice não estava mais enclausurada em Volterra. Um certo aperto no coração de Bella causou-lhe um mal estar, o fato de que Nessie sabia que eles todos estavam vivos e que vinham salvá-las, Bella entregara-se a desilusão enquanto a filha havia mantido as esperanças o tempo todo; teria ela no fim de tudo agido errado? Será que ela era egoísta por não ter se permitido ter esperanças? Resolveu não se magoar muito e decidiu que todos a quem amava estavam perdidos para sempre.
Teria ela sido fraca?
Teria Nessie sido a mais correta e resistido aos Volturi?
Mas Bella decidiu deixar de lado estas dúvidas para uma oportunidade em que pudesse sentar-se sozinha e pensar em tudo com mais cuidado. Aquele não era o lugar e nem a ocasião, mas ela não deixava de pensar que seguia atrás de todos os outros, caminhando como uma rainha por um corredor de inimigos derrotados e conduzida pelo vingador em que seu marido havia se transformado. E ela não era capaz nem ao menos de imaginar um modo de dizer a Edward que não desejava que Aro fosse morto, afinal, como poderia dizê-lo? Como poderia explicar que em algum momento desta louca jornada havia se apaixonado pelo Rei?
Dúvidas, dúvidas.
Depois do desastre do Canadá tudo o que restava a Bella eram as dúvidas.
Entretanto, um inesperado tropel de pés tirou Bella de seus devaneios. Havia quatorze portas no corredor, sete de cada lado, e delas jorrou uma horda inteira de guardas armados com lanças e clavas de guerras, caíram sobre o grupo com a vantagem da surpresa. Diante disso não houve força bruta de lobo ou dom para apavorar que pudesse dar um resultado bom.
Pelo menos dez guardas atiraram-se sobre Quil levando o lobo ao chão e imobilizando-o, havia no mínimo três guardas para cada um deles e num local confinado e estreito como aquele corredor onde estavam a luta resumiu-se a um empurrar de lá para cá, como um cabo de guerra que tentava ser vencido por ambos os lados. Os guardas tentavam empurrar enquanto o grupo de Edward fazia força para seguir em frente.
Mas todos eles estavam sendo espancados e provavelmente apenas não haviam morrido devido ao fato de os inimigos não terem espaço suficiente para manobrar seus ataques com precisão, porém os golpes eram atordoantes e Vrau Urban e Garret já haviam sido atirados ao chão correndo o risco de serem pisoteados por aqueles pés raivosos. Bella ainda tinha um dos braços machucados e não conseguiria se defender sozinha se não fosse Edward que com seu dom de ler pensamentos funcionando a mil fazia o possível para aparar os golpes direcionados a eles, mas Edward possuía apenas dois braços e isso era insuficiente para proteger a si mesmo e Bella.
Quil não podia ser ferido, mas o peso dos vampiros sobre ele impedia qualquer possível movimento; a massa disforme do agrupamento de corpos se golpeando às cegas movia-se para frente ou para trás dependendo da força com que cada grupo conseguia resistir. Mas o fator dos números realmente estava fazendo a diferença, pois Jasper não conseguia se concentrar o suficiente para acionar e manter o seu dom, os diversos golpes que levava simplesmente atiravam para longe sua capacidade de se concentrar em um único alvo sequer.
Matheu distribuía golpes a esmo sem procurar definir um único alvo, não havia como fazer isso com a confusão de corpos, mas assim como batia ele também levava, temia que estivesse acertando até mesmo os próprios aliados. Em mesma situação estava Dean Portman que agora levava a maior surra de sua vida desde que o haviam transformado em um vampiro há quase quatrocentos anos na Irlanda.
Mas que beleza, Dean, pensou para si mesmo, onde foi se enfiar por conta daquela maldita Confraria do Sangue? E isso só vai piorar, ah, se vai, principalmente quando todos descobrirem que o terceiro fundador da Confraria junto de Madalene e Erestor não é ninguém menos que Marcus Volturi. Eu não vejo a hora de ver a cara dos outros dois quando isso acontecer... se é que vou estar vivo até lá.
Carlisle fora empurrado para junto de Edward e Bella e nada via a não ser aquela massa disforme empurrando-os para os fundos do corredor, definitivamente não fora uma boa ideia a de subir direto para encurralar os Três. Mas o patriarca Cullen também sabia que não havia mais escolha, seus filhos e seus recentes aliados não iriam simplesmente partir deixando os Reis em paz. Não, todos ali desejavam a vingança, ávidos por poderem enfim laçar os dedos ao redor da garganta dos governantes.
Sabe... isso aqui está realmente ruim – comentou ele dirigindo seus pensamento para Edward.
Já estivemos em situações piores – respondeu Edward num ranger de dentes.
Verdade, mas o problema é que eu não tenho certeza se teremos alguma sorte desta vez.
Então teremos de criar a sorte, Carlisle.
E dito isso voltou-se para Giordano, Margot e Seline que vinham colados em Bella.
– Protejam-na – ele ordenou num tom senhorial – Eu vou tentar abrir algum caminho.
Ampliando seu dom de ler os pensamentos, Edward soltou um muxoxo de impaciência, no meio daquele caos era quase impossível isolar pensamentos de batalha, era tudo uma baderna indeterminada, nenhum vampiro ali, amigo ou inimigo, sabia o que estava fazendo ou era capaz de predeterminar uma linha de ataque ou defesa. O que se passava na cabeça de todos era apenas os golpes sobre golpes, arranhar, socar, puxar, morder ou qualquer coisa que se assemelhasse a um ataque. E no meio disto tudo, foi com raiva que Edward percebeu que não iria conseguir fazer absolutamente nada para alterar a maré das coisas.
Mas no fim foi a sorte... ou o azar... que os auxiliou.
No fim bastou que uma lança atravessasse o corpo de Seth para que a maré deles virasse.
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Ele pairava sobre o campo de batalha como um deus. A armadura faiscava num tom ferruginoso contra o sol e o manto rubro adejava ao vento, sua figura imponente lembraria a de um Super-homem impiedoso se o Super-homem fosse um vampiro. Arian estava há pelo menos nove metros de altura sendo sustentado no ar por seu dom de voo, abaixo dele havia morte e destruição e vampiros gemendo ou arrastando-se pelo campo de batalha em busca de algum membro perdido; mas ele, Arian, não se importava com nada disso.
Flávius Aurélius olhava com um misto de impaciência e admiração. Sim! Admiração. Era impossível não admirar um adversário tão formidável, um único ser com poder suficiente para destruir Volterra e três milhares de soldados treinados. Mas isso era uma bobagem e Flávius o sabia, considerar soldados alguns pobres vampiros com menos de uma década de treinamento era quase um insulto aos Mercadores da Morte originais que foram compostos por romanos com séculos de experiência em batalhas.
Mas nada importava agora. Os planos de Marcus haviam seguido o seu curso e o fim estava próximo, seu mestre o havia condenado, mas Flávius não se importava... se a grande maquinação de Marcus Volturi encontrasse resultado, provavelmente não restaria nada do mundo para se importar.
– O grande general romano – a voz de Arian ribombou dos céus como a voz de um deus – Chegaste a hora, Flávius Aurélius. O momento de tua queda.
– Um guerreiro sabe que não lutará para sempre, Arian – respondeu Flávius com desgosto, ele não ficara feliz de ver seus soldados serem escorraçados pelo guerreiro-deus – Até mesmo para você está próximo, talvez, o dia em que encontrará um oponente insuperável.
– Um deus não possui oponentes.
– Talvez você não seja o único deus que neste mundo, Arian – havia tristeza no semblante de Flávius – Vai descobrir isso no momento em que matar teu pai e herdar dele o trono.
– Não haverá mais tronos ou reinos ou reis, General – disse Arian – Os vampiros serão livres.
– Não há liberdade real, Arian. E sempre haverá reinos e reis.
– Não depois de mim.
– Então eu o deterei – Flávius Aurélius colocou-se ereto de repente – Se veio lutar, então lute! Mas lute como um homem, de guerreiro para guerreiro. Se abstenha de todos os seus infinitos dons e prove para todos estes solados aqui que você é digno de ser o senhor deles... lute comigo, Arian Volturi, se valendo apenas de tua perícia como guerreiro.
Arian riu, um riso de trovão e em seguida despencou do céu. Os Mercadores da Morte afastaram-se quando Arian caiu como um meteoro, o guerreiro-deus ergueu o machado de guerra num gesto de saudação ao General e depois disso ele disse:
– Que assim seja, Flávius Aurélius, mas teu destino em nada se alterará mesmo que eu não me valha de meus poderes. Teus Mercadores da Morte serão meus para eu fazer deles o que bem entender.
Flávius balançou a cabeça e Arian se irritou com ele, havia no velho General um olhar reprovador, uma daqueles olhares que os mais velhos lançam aos mais jovens quando estes dizem uma bobagem infantil. O General parecia conhecer algo que Arian não sabia, como se o velho guerreiro soubesse o caminho que ele seguiria, tivesse conhecimento de tudo o que aconteceria no futuro.
Arian atacou, o machado de guerra como um borrão prateado cortando o ar e sendo aparado com facilidade pela espada curta de Flávius Aurélius, o general era veloz e seu braço era forte, era experimentado em inúmeras batalhas desde antes de receber a imortalidade. Mesmo a força e a velocidade de Arian pareciam incapazes de furar o bloqueio férreo e determinado de Flávius.
Os Mercadores da Morte observavam atentos a luta dos dois guerreiros como expectadores de uma dança da morte, depois de quase um minuto surgiu uma ruga de irritação no rosto de Flávius e um sorriso de escárnio nos lábios de Arian. O gigante afastou-se dois passos do general, o machado erguido na mão direita.
– O velho Flávius Aurélius – riu Arian – Eu imaginei que você estaria mais forte, mas enganei-me... está ainda mais fraco do que antes, Flávius.
– Não foi capaz de me tocar, Arian – o General estreitou os olhos – Como pode afirmar que estou mais fraco?
– Eu não quis acertá-lo, velho –riu o guerreiro-deus – Mas vou provar-te a minha afirmação... agora.
Arian moveu-se e tudo o que Flávius viu foi um borrão, a velocidade atingida pelo oponente era demais até mesmo para seus olhos treinados, ele ergueu a espada na frente do corpo e apoiou a perna direita para trás numa tentativa de suportar o ataque... mas foi inútil. A lâmina do machado de guerra de Arian atravessou a sua armadura na altura do peito e Flávius sentiu a sua pele se rachar sob a pressão do golpe; a dor explodiu em seu corpo e sua visão embaçou enquanto milhares de pontos vermelhos borraram sua visão. Flávius viu-se cair sobre um dos joelhos, a espada ainda segura na mão, o peito latejando como se alguém o tivesse partido ao meio com uma lâmina em fogo.
– Viste General? – Arian soou sério – Não há outro ser na face deste mundo que me faça frente.
– Mas haverá – a voz de Flávius era apenas um fiapo quase inaudível – A sua maior provação ainda irá se revelar... Arian Volturi. E ainda mais logo do que você pode imaginar.
E sem qualquer aviso o General moveu-se, rápido feito um relâmpago, a espada no alto, arremetendo contra Arian, mas no meio do caminho ele parou, não por escolha própria, não por qualquer outro motivo que não o poder de Arian de imobilizar inimigos deixando-os estáticos e vulneráveis. O olhar de Flávius se imobilizou no príncipe de Volterra, uma fúria perplexa fulminando-o como um raio desabando sobre uma árvore.
– O dom – disse o general num tom raivoso – Usou seu dom depois de ter concordado em lutar usando apenas sua força. Não tem o estofo de um rei, não serve para governar. Você é o pior tipo de praga que há no mundo, Arian.
– Por que haveria de um deus rebaixar-se ao nível de um homem? – Arian respondeu olhando para Flávius como se ele não passasse de um monte de palha seca – O teu tempo terminou, General, assim como o tempo dos Três.
O poder foi liberado e Flávius caiu ao chão, a espada foi largada e ele ergueu-se sobre os joelhos olhado para Arian com desafio, no olhar cansado ainda podia-se perceber aquele brilho de quem sabia muito mais do que revelava.
– O fim de tudo aproxima-se – ele disse sem titubear – O fardo que cairá em seus ombros será muito maior que o dos Três. O Pai está próximo do despertar, ouça minhas palavras, os Segundos tornar-se-ão novamente os Primeiros e o mundo será obscurecido por uma onda de sangue e morte.
– Enigmas e mais enigmas – debochou Arian – É sempre assim com os Volturi. Há segredos que apenas vocês conhecem e que muito provavelmente criaram como desculpas para manter o poder, você morrerá como um tolo, Flávius Aurélius, um tolo que acreditou nas mentiras dos Reis, um homem que lutou por nada a não ser enigmas e boatos... eu estou lhe fazendo um favor agora. Acredite.
E sem um único segundo de hesitação Arian ergueu o machado e a cabeça de Flávius Aurélius rolou para longe do corpo, depois disso apenas o silvar do vento oceânico se pronunciou sobre o pátio, o restante do exército de Mercadores da Morte permaneceu em silêncio enquanto, aos poucos, um murmúrio ia passando entre as fileiras anunciando que o General havia tombado. Arian voltou-se para eles olhando-os com uma expressão séria como se os desafia-se a atacá-lo, mas nenhum inimigo se moveu.
– Mercadores da morte – chamou Arian – Teu general tombou e tão logo teus reis o seguirão para a morte! Depois que eles se forem vocês serão livres, se lutarem... morrerão. Não percam suas vidas por três vampiros que nem ao menos reconhecem seus rostos e que os usaram meramente como servos e nada mais. Os Três não merecem o vosso sacrifício. Não há razão para trocarem suas vidas tentando protegê-los, eu sei disso, eu já os servi... e já fui traído por eles. Vão em paz, e aproveitem sua imortalidade com honra e dignidade. Ou fique e sejam destruídos.
A horda de soldados encarou Arian num sincronismo hipnótico. Os que estavam na primeira fileira sussurraram aos outros de trás sobre a verdade nas palavras do guerreiro: Flávius Aurélius estava morto. E eles não eram tolos, todos notaram a ameaça clara da última frase de Arian, se ficassem todos seriam destruídos por aquele fabuloso vampiro e seus poderes divinos. Valia a pena morrer por aqueles reis que jamais vieram até eles?
E aos poucos aqueles Mercadores mais jovens que estavam servindo os Reis há apenas uma década começaram a se questionar sobre a vida que tinham lá fora, longe dos portões do Pináculo, uma vida de liberdade e correrias pelo mundo e diante de Arian eles subitamente se viram com uma esperança que até então nunca haviam se dado ao luxo de sonhar: os Reis podiam ser destruídos e a liberdade dos vampiros finalmente assegurada.
Desta forma, no começo apenas alguns e depois vários, as fileiras mais distantes de soldados começaram a largar suas armas e se afastar vagarosa e timidamente para fora dos portões, atravessando o pátio como prisioneiros que há muito não viam a luz do sol, mas que subitamente sentiram o toque quente da liberdade em seus rostos. Finalmente não tardou até que gritos de “vamos embora” ou “deixem estes três velhos que se danem” ecoassem pelo pátio enquanto os soldados debandavam.
Arian se permitiu ficar ali enquanto os Mercadores da Morte, outrora uma arma dos Volturi, se desfazia como bruma ao vento. Porém, quando grande parte da coluna única se afastou, um soldado permaneceu para trás encarando Arian com atenção. Um soldado cuja aparência jovem não lhe daria mais de vinte anos, bem apessoado, alto e de compleição forte, os olhos rubros de sangue faiscando à luz do sol.
– Vais permanecer e lutar? — perguntou Arian com a sugestão de um sorriso no rosto.
O Mercador retirou o elmo e largou-o no chão, depois soltou a lança e aproximou-se dois passos sem desviar o olhar de Arian.
– Eu não sou páreo para o seu poder, meu senhor – disse o vampiro – Mas eu fui soldado a minha vida toda e sou um Mercador da Morte há milênios. Servia ao meu senhor Flávius desde quando ainda era mortal na X Legião Félix Romana. Eu estava lá há mil anos atrás, eu combati o senhor quando os Volturi decidiram aprisioná-lo. Fui um dos poucos que sobreviveu à sua fúria. Não sei fazer outra coisa a não ser lutar, por isso peço que o senhor me destrua agora e aqui para que eu possa me unir aos meus irmãos tombados no mundo além deste.
Arian sustentou o olhar do soldado, percebeu que ali não havia medo nem indecisão, não havia nada além de uma férrea vontade e uma já arraigada condição de servidão. Mas havia mais. Arian sabia o que era aquilo. Reconheceu-o. A honra de guerreiro, aquela sensação que não permite recuar mesmo à morte iminente. Era impossível não respeitar isso.
– Teu nome, Mercador? — perguntou Arian.
– Tácitus Públio, meu senhor.
– Foi companheiro de Matheu, não foi?
– Sim, meu senhor. Isso antes de ele escolher deixar os Mercadores para seguir o senhor.
– Eu não vou matá-lo – decidiu Arian diante de um olhar indagador de Tácitus – Não há certeza no que acontecerá depois que os Três caírem, Tácitus Públio, então permaneça por perto até que as coisas terminem. Lembre-se que tenho a sua vida em minhas mãos.
– Eu me lembrarei, meu senhor – respondeu Tácitus um pouco confuso.
Arian confirmou com a cabeça e um segundo depois ganhava os céus rumo ao centro de tudo, ao lugar onde os destinos de todos os envolvidos finalmente convergiriam para um final em comum. O Salão dos Reis do Pináculo seria o palco para o derradeiro fim de um era... e o início de outra.
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Seth não viu de que lugar partiu a lança, só percebeu que estava com a arma cravada no corpo quando bateu com a haste de metal contra a parede. A lança espetou-lhe na altura do ombro direito e saiu por entre as costelas do lado esquerdo errando o coração por alguns parcos e perigosos milímetros. Um dos pulmões fora avariado e a respiração de Seth tornou-se subitamente arfada e entrecortada, o lobo desabou no chão alguns momentos depois.
No meio da confusão de corpos se batendo apenas o grito de horror de Bella informou aos outros que um dos seus havia sido abatido.
Seth está ferido – a voz mental de Bella estava carregada de desespero – Alguém faça alguma coisa, eu não consigo chegar até ele!
Mas a tragédia do fato é que ninguém era capaz de chegar até Seth. Todos estavam envolvidos em lutas setoriais e afastados uns dos outros, mesmo Quil não era capaz de transpor a muralha de corpos que se interpunha entre ele e os companheiros. O estreito corredor de pedra acabou tornando-se um impasse para ambos os lados; os guardas não conseguiam avançar e destruir os intrusos e os Cullen simplesmente não eram capazes de empurrar os guardas para frente e chegar até os Reis.
Mesmo o dom de Jasper não surtia efeito, por mais que ele tentasse rechaçar os inimigos fazendo-os sentir terror, os mesmos não eram capazes de fugir devido à muralha de corpos que havia atrás deles. Isso, Jasper percebeu, fui uma técnica de defesa da Guarda numa tentativa de inutilizar o seu dom, ou seja, os guardas das fileiras mais afastadas que não eram atingidos pelo poder de Jasper impediam que os companheiros afetados fugissem de medo obrigando-os a revidar o ataque mesmo estando em pânico. Isso criou um impasse.
E os danos colaterais deste impasse surgiram quando Seth foi atingido letalmente... se o dardo não fosse retirado de seu corpo a coisa poderia seguir-se para um fim trágico.
Mas onde a força física não era suficiente para garantir uma vitória – ou pelo menos uma margem de supremacia – a magia novamente entrou em ação, pois ao ver Seth sobre risco de morte... Charlotte ficou realmente furiosa.
Por um momento a feiticeira hesitou. Ficou chocada com a cena, olhando Seth, um lobo poderoso, cair no chão com uma lança enterrada no corpo e afogando-se no próprio sangue. A voz de sua mãe, da profecia realizada tornou a ecoar em sua mente como um arauto do destino fatídico: vai apaixonar-se pela primeira vez, minha protegida, dizia a voz de sua mãe, por um ser elemental de grande poder, mas se corresponder a este amor os dois padecerão juntos. Mesmo que sobrevivam haverá um tempo em que a tristeza a sepultará, pois esta criatura por quem se apaixonará terá sua vida enredada em uma teia de destinos... e ele não poderá ser dono de suas próprias escolhas, nem de vida, nem de morte.
Mas a verdade era que Charlotte estava farta de tudo aquilo. Há quase mil e cem anos caminhava sobre a face da Terra e tudo o que vira desde então foram as aulas de magia concedidas por Forge e Salesiana e a prisão num pântano encantado. Sua vida era cercada por visões e profecias, e parecia que não havia arestas a serem aparadas uma vez que tudo era reduzido a uma simples olhadela mágica nas brumas disformes do futuro. Naquele momento algo se partiu dentro da feiticeira, aquele tênue fio que a amarrava às antigas tradições de sua mãe foi desprendido e agora Charlotte havia se decidido a viver um dia de cada vez... ao lado de Seth.
Desde que ela pudesse salvá-lo.
E ela o faria.
Subitamente Edward sentiu o ar ionizar, um cheiro de eletricidade pairava por todos os lados do espremido corredor de corpos entulhados, alguma coisa estava mudando, algo se alterando, como se subitamente uma pressão estranha estivesse comprimindo seu peito. Ele olhou para os lados procurando esta força invisível, mas tudo o que pode detectar – no meio da confusão e dos punhos esmurrando seu corpo – foi uma estranha e sinistra luz esverdeada vindo do lado oposto do corredor... próximo de onde Seth havia tombado.
Mas Bella, por sua vez – ou por sorte ou azar – estava olhando diretamente para Charlotte. No meio da correria, quando Edward mencionou que a bonita vampira de olhos verdes era uma bruxa, Bella quase rira na cara do marido, mas Edward apenas comentou que a história era longa demais para contar ali. Porém, olhando para Charlotte agora, Bella já não duvidava de mais nada... ao contrário, sentia um medo terrível formigando-lhe a pele. E ela tinha razão para isso.
Uma suspeita luz doentia emanava do corpo de Charlotte feito uma aura de poder, a feiticeira flutuava alguns poucos centímetros do chão, mas isso já era o suficiente para causar um arrepio de estranheza nos companheiros que somente agora notavam o que ela fazia. Os olhos de Charlotte faiscavam com uma eletricidade da mesma cor da aura e somente quando encarou aquele rosto belo e temível é que Bella notou que os lábios da feiticeira moviam-se ritmicamente numa espécie de evocação baixinha.
Bella, por uma razão que ela desconheceu no momento, ou impelida pelo antigo e instintivo senso de curiosidade, apurou sua audição para tentar compreender o que a feiticeira dizia e o que ela ouviu deixou-a ainda mais consternada.
Era de fato uma invocação.
E foi assim que ela a ouviu:
Híbridos senhores do desespero
dos que habitam a solidez da rocha;
dos que vagam pela intransponibilidade da pedra,
ouçam meu chamado.
Apelo aos inclementes espíritos da dureza,
que vossa lânguida vontade de agir se desvaneça,
que tua inerte certeza se desfaça.
Venha agora que chamo, agora que clamo, agora que choro.
Usa a dúvida dos inimigos,
esmaga-os com tua sina
E os meus covardes atacantes... elimina.
Bella notou que Charlotte repetia as palavras ciclicamente, sempre que o rito terminava ela automaticamente recomeçava aquela estranha entonação. Os cabelos na nuca de Bella se eriçaram anunciando um perigo iminente, mas ela simplesmente não conseguia identificar o que poderia ser pior que a turba de guardas que os matinha preso naquele corredor. Mas havia algo ali. Algo impalpável, indizível, à iminência de acontecer e esta estranha sensação de antecipação incomodava Bella mais do que a própria luz verde ao redor de Charlotte ou o estranho encantamento que escapava de seus lábios.
Então aconteceu.
Uma singularidade que jamais fora presenciada por qualquer um deles. O corredor de pedra começou a torcer-se, as pedras alongavam-se como se estivessem espreguiçando-se nas paredes, rochas densas assumiram uma textura como a de borracha, mas Bella sabia, mesmo sem saber como sabia, que as paredes de pedra continuavam frias e duras como sempre.
O corredor começou a encolher sobre o grupo, como se estivesse retorcendo-se sobre si mesmo e engolindo quem estivesse no caminho. Todos os guardas olharam aterrorizados para a feiticeira e suas vozes gritaram contra as paredes que fechavam-se sobre eles, o encantamento de Charlotte causou-lhes tanto terror quanto o poder de Jasper. Houve aqueles que gritaram que aquilo era uma ilusão utilizada para que eles fugissem, mas a maioria não era capaz de ignorar o corredor de pedra afunilando-se sobre eles, apertando cada vez mais com o intuito de esmagá-los a todos como a água no meio de um pano torcido.
Eu sugiro que vocês saiam daí – disse Charlotte na mente de todos os companheiros – Não será saudável permanecer no corredor.
Quando o grupo se desvencilhou dos guardas recuando pelo corredor até onde Charlotte estava, nenhum inimigo tentou segui-los, estavam ocupados demais olhando para o fenômeno estranho que abatia-se sobre eles. Sem perceber Edward viu-se agrupado com todos os companheiros contra a parede oposta e ao olhar para frente viu o túnel se fechando como uma grande escotilha helicoidal... e neste momento os gritos começaram. Urros de medo e pânico, de dor e sofrimento, e junto destes gritos o som fantasmagórico e nauseante de corpos sendo amassados e triturados, as rochas do túnel elástico apertaram os Guardas como uma grande serpente esmigalhando seus ossos e reduzindo-os a nada mais que uma massa quebrada. E foi exatamente isso que o grupo viu assim que o silêncio caiu sobre o lugar e Charlotte suspendeu seu poder; um cemitério de corpos pulverizados e membros retorcidos marcava toda a extensão do corredor onde as rochas vivas haviam agido.
Era um caminho de morte com dezenas de corpos espalhados por todos os lados. À frente restava apenas a antecâmara alta onde, no fim, via-se a grande porta dupla do Salão dos Reis. E o caminho encontrava-se livre.
Bella não conseguia desviar o olhar do corredor repleto de corpos, os olhos dela, vidrados, encaravam aquela matança com uma crescente onda de horror e estupefação, aos poucos ela virou o rosto para encarar Edward e uma agulhada de reconhecimento atingiu seu coração... Edward não parecia surpreso, como se o marido já tivesse visto alguma demonstração do poder horrendo da feiticeira. Pelos céus, Edward, pensou ela, o que foi que vocês fizeram até aqui? Quanto deste poder maldito você utilizou para entrar em Volterra?
– Vão – a voz de Charlotte soou clara e firme e só então Bella notou que ela havia se ajoelhado ao lado de Seth e que a luz esverdeada havia deixado seu corpo, o poder tinha se apagado – Vão, os Reis estão logo à frente... terminem o que eles começaram. Eu cuidarei de Seth.
– Tem certeza de que ele ficará bem? — inquiriu Edward olhando-a com atenção.
– Eu farei o possível, agora deixem-nos... vão terminar com isso de uma vez por todas.
Não houve discussão alguma. Em parte porque apesar da vitória fácil e da virada da maré, o grupo todo estava bastante chocado com a forma com que Charlotte se livrara dos inimigos... mostrando que o poder de sua magia ia além da compreensão deles. Mas também havia a urgência de salvar Renesmee e o rosto da feiticeira demonstrava um cansaço profundo, provavelmente ela teria que exaurir sua parca reserva de poder para salvar a vida de Seth.
Quil baixou o rosto de lobo e deu uma cheirada contra as orelhas de Seth que parecia respirar com ainda mais dificuldade, o sangue começava a secar ao redor da lança incrustada em seu corpo.
Cuide-se, velho amigo – disse Quil na mente de Seth – E não demore a nos encontrar.
Eu irei assim que puder – respondeu Seth fechando os olhos, a voz saindo num arquejo de dor – Não termine a festa antes que eu consiga chegar.
Carlisle não ficou feliz de ter de deixar mais Seth para trás depois de Jacob, mas o vampiro teve de admitir que assim era melhor; não podiam se dar ao luxo de esperar que Seth se recuperasse e Charlotte estava fraca depois de seu último encantamento... os dois teriam de ser deixados.
– Vamos – chamou Edward dirigindo-se a passos firmes pelo corredor cheio de corpos destroçados – O fim está próximo.
Cada um deles pousou sobre Seth um olhar de força e carinho... ele era de longe o membro mais querido do grupo, mas logo em seguida partiram atrás de Edward para enfrentar os Reis e destruir de uma vez por todas o reinado dos Volturi.
Depois que o grupo partiu o corredor foi engolido por um silêncio pesado, o único som hesitante era o da respiração irregular e coagulante de Seth, no mais aquele lugar estava parecido com um cemitério gigantesco de corpo distorcidos e esmagados. Mas toda a fúria, toda aquele energia hostil havia deixado Charlotte e quando ela olhou para Seth havia um murmúrio de sorriso em seus lábios, um sorriso carinhoso e tranquilizador.
– Seu lobo bobo – disse ela numa voz doce – Sempre me deixando preocupada.
É o meu trabalho, madame - respondeu Seth num tom dolorido e sufocante na mente da feiticeira.
– Eu quero que preste muita atenção, Seth. Tenho de retirar a lança do seu corpo, está bem? Não me resta muita força e o processo de cura desprende bastante energia, por isso só poderei dar um empurrão inicial e depois seu fator de cura terá de fazer o resto, está bem? Para não gastar energia não poderei anestesiá-lo para retirar a lança, isso vai doer muito, você entende?
Apenas... faça logo.
– Eu vou contar até três e puxar – disse Charlotte com pena.
A feiticeira se posicionou sobre o volumoso corpo do lobo, o sangue ainda fluía numa constante através da haste da lança, ela firmou as pernas no solo e agarrou a arma com ambas as mãos. Olhou para Seth com uma intensidade preocupada.
– Vamos lá. Até três. Um... — e antes mesmo de começar a contagem do dois Charlotte puxou a lança com uma força extraordinária. Houve um som de “chung” e a arma libertou-se do corpo de Seth e saiu livre nas mãos da feiticeira.
O lobo urrou de dor, as suas forças sendo consumidas a tal ponto que Seth foi incapaz de manter sua forma lupina, um momento depois não passava de um rapaz nu com um feio ferimento do lado do corpo. Seth suava e Charlotte abaixou-se rapidamente envolvendo seu corpo nu com osua capa surrada de viagem, ela segurou Seth em seu colo e virou delicadamente o rosto do rapaz para o seu.
– O que... o que aconteceu com o dois? — perguntou Seth, trêmulo.
– Sinto muito – a voz de Charlotte estava emocionada – Eu achei que assim você não se concentraria na dor no momento em que eu puxasse.
– B... bem... doeu como o diabo do mesmo jeito – respondeu ele rindo.
– Quieto agora – a feiticeira colocou sua mão sobre o ferimento e logo uma luzinha verde e fraca iluminou o rosto dos dois – Eu vou fechar este estrago aqui, mas você tem de ser forte, sua cura tem que ser acionada para você melhorar logo.
– Como qu... quiser, madame.
Charlotte se concentrava no ferimento de Seth, com suas forças quase exauridas graças ao feitiço que invocou para salvá-los dos guardas, a cura de Seth estava ocorrendo com bastante lentidão, levou vários minutos para que ela conseguisse fechar a abertura sangrenta. Depois disso, deu um rápido olhar para a câmara mais a frente e constatou que os companheiros já havia entrado no Salão dos Reis. Que eles tivessem sorte.
Ao olhar para Seth notou que o rapaz a encarava com os olhos sonhadores e um sorriso bobo nos lábios.
– O que foi? — ela perguntou confusa.
– Tô perdido – suspirou Seth mantendo o olhar, aquele olhar que parecia deter a rotação do mundo, mantendo-o para apenas ela.
– Você vive dizendo isso pelos cantos... o que significa afinal?
– É o amor – Seth sorriu – Simplesmente isso, o amor que eu sinto por você. Eu a amo.
– Eu sei – ela disse mal contendo a emoção – Mas você é um lobo de sangue quente e eu uma vampira milenar, como acha que pode haver um amor entre nós? Não é racional.
– E o amor é racional, Charlotte? Eu não sei quem criou ou amor, qual deus insano teve esta louca ideia, mas o amor nunca foi para ser racional, acho que há um motivo pelo qual temos que ficar juntos ou eu nunca teria minha Impressão com você... mas independente de quem eu sou e de quem você é, independente de tudo isso... eu a amo, e não importa nada... apenas isso.
Os olhos de Charlotte estava muito abertos, de surpresa e espanto, aquele bonito garoto vivo havia entregado seu pulsante coração guerreiro a ela, uma vampira-feiticeira; por um segundo, apenas por um segundo, Charlotte lembrou-se do aviso de sua mãe, mas esta lembrança foi varrida de sua mente no momento em que, num ímpeto, ela abaixou-se sobre Seth colando seus lábios nos dele.
Charlotte sentiu aquele energia vibrante tomar conta de seu corpo, a mesma sensação que havia sentido no primeiro beijo que deu em Seth à beira de um lago, lembrança esta que havia surrupiado do rapaz através da magia. Mas os lábios de Seth eram vulcânicos contra os seus lábios gelados, o rapaz ergueu sua mão entrelaçando os dedos em seus cabelos e o toque fez um formigamento de prazer cruzar a pele de Charlotte. Não, não havia mais o que ela recusar, não tinha mais forças para ficar longe dele, se o destino dos dois era morrer de amor então morreriam juntos.
Quando os lábios se afastaram Seth tinha no rosto um sorriso sonhador.
– Eu também te amo, seu garoto bobo – disse Charlotte encarando-o com carinho.
Seth riu.
– E só agora você vem me dizer isso?
Charlotte desatou a rir, mas era um riso misturado com soluço de emoção. Ela que desde sempre nunca amara ninguém havia unido seu estático coração ao coração vivo e flamejante de um lobo... um ser elemental.
Mas enquanto riam Seth teve um acesso de tosse e gotas de sangue mancharam seus lábios, ele esticou-se para trás numa dor óbvia e seus olhos estavam cerrados de agonia.
– Oh, céus – Charlotte estava assustada – Seth, você está bem? Seth, por favor... Seth?
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Por um segundo, como se tivessem combinado previamente, o grupo todo parou diante das portas altas, duplas, de uma madeira velha e pesada. Atrás daquelas portas estavam os Reis e uma pequena parcela de sua Guarda Principal. Edward estava na frente do grupo com Carlisle, Jasper e Bella parados logo atrás.
Edward encarava aquela porta com apreensão, afinal, sua filha estava atrás delas, mas ao mesmo tempo havia um súbito entendimento nele, algo que lhe dizia que aquele era o fim da jornada, que ele veio de muito longe para estar ali. Aquele era o fim de tudo. Carlisle pareceu prever sua hesitação e direcionou seu pensamento para o filho usando ainda o elo mental que Kaori mantinha ativo.
“Dá um certo receio, não é mesmo?” — ele perguntou ao filho, Edward assentiu quase imperceptivelmente sem desviar-se das portas — “O que quer que façamos, Edward, tenha em mente que nossas vidas nunca mais serão as mesmas... não há como voltar atrás depois que atravessarmos esta porta”.
“Foram os Volturi que abriram esta porta, Carlisle” — a voz de Edward era firme — “E agora que Arian está entre nós já não temos escolha. Eu me recordo que você falou que poderíamos vir a pagar um preço muito caro se matássemos os Reis, mas já que eles estão com Renesmee... qualquer preço será barato demais desde que eu tenha a minha filha novamente”.
Bella pareceu ler os pensamentos dos dois porque deu um passo à frente e segurou o braço do marido com apreensão, ela sabia o que estava por vir, sabia que eles não estavam ali apenas para bater educadamente na porta e pedir para que devolvessem Renesmee, não, não era como no passado em que os Volturi ouviram em silêncio as verdades que os Cullen e seus amigos tinham para lhe dizer. Ela temia o que poderia acontecer, temia o que estava para acontecer.
Algo totalmente irrefreável.
– Edward? — ela chamou numa voz preocupada.
E quando Edward se virou para os companheiros ela teve certeza que ela estava mudado. O rapaz imortal que ela amara jamais havia envergado uma máscara de frieza sombria, o olhar do marido era inflexível, imperdoável. Por onde tanto você andou para ter conseguido este olhar? Perguntava-se Bella, preocupada. Será que há uma sombra maior em você agora, meu amor? Agora que os Volturi tiraram tanto de você... você ficará como eles? Ficará... sombrio?
– Meus amigos – a voz de Edward soou firme, triste e determinada. Ele olhou para cada um dos companheiros ali presente – Este é o fim de nossa jornada, finalmente. Não há como recuar. Juntos vencemos batalhões inteiros de inimigos, juntos viemos até aqui na companhia de um deus, juntos derrubaremos três reis. É inevitável. Eu peço que sejam fortes mais um pouco, que tenha fé mais um pouco e que me sigam uma última vez. Contra todas as chances chegamos aqui, contra todas as possibilidades estamos vivos... nós que deveríamos ter sido mortos. Fizemos alguns companheiros de causa ao longo do caminho e temos de ser gratos por isso... mas agora finalmente estamos terminando e precisamos acreditar que na alvorada do próximo dia estaremos livres de uma tirania que já perdura há milênios. Então, amigos, sigam-me uma última vez... e que nosso destino nos encontre determinados e convictos de que iremos vencer.
Os companheiros olharam para Edward num misto de entendimento e admiração... sim, de fato aquele seria o fim. Cada um aquiesceu para Edward garantindo-lhe um apoio incondicional ali... no lugar onde todas as coisas terminavam.
Edward lançou-lhes um sorriso. Um sorriso de amizade, um misto de tristeza e encorajamento, um daqueles sorrisos que geralmente pessoas que estão partindo dão àqueles que estão ficando. Era um sorriso de despedida. Edward virou-se e segurando a mão de Bella deu um passo em direção às portas.
Com força e convicção ele as abriu... e entrou no Salão dos Reis...
O lugar onde o destino de cada um deles se entrelaçaria definitivamente... e para sempre.
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