Candor Lunar - Livro 2
32 Capítulo 31 - A Cidadela dos Vampiros
Notas iniciais
Uma vez mais quase atrasei demais... srsr
Mas espero realmente uma dia conseguir postar mais rapidamente.
Finalmente, tudo se aproxima.
Boa Leitura.
Ang
Enquanto a tarde caia sonolenta sobre o mundo, os sete vampiros pareciam estátuas marmóreas espalhadas pelo descampado sobre o cume da colina, escondiam-se do sol sob uma sucessão de pequenas árvores raquíticas e baixas, mas o medo de que o reflexo de suas peles fulgurantes pudesse chamar a atenção de algum vampiro das redondezas obrigou-os a permanecer o tempo todo escondidos.
Os dois lobos espreguiçavam-se na grama admirando a tarde que podia perfeitamente bem ser a última que veriam. Jacob Black olhava para a Cidadela com uma expressão sombria, ali habitavam os responsáveis por toda a desgraça que se abateu sobre sua terra. Apesar de Jacob não pensar sobre isso, ele fora um dos Alfas que levou para a morte mais da metade dos lobos de La Push e este peso, esta pedra fria que se alojava em seu coração, não iria se desfazer tão cedo.
Jacob Black teria sua vingança, de um jeito ou de outro.
- Ele está voltando – avisou Garret.
E logo em seguida os companheiros avistaram um vampiro correndo a toda velocidade morro acima como se os próprios Reis estivessem em seu encalço, ocultou-se sob as árvores e não demorou muito para alcançá-los. Quando chegou, porém, todos ali notaram que a expressão no rosto de Vrau Urban era sombria.
- E então? — quis saber Carlisle.
- Bem, há algo estranho na cidade – disse Vrau – Não sei exatamente o que e também não pude me aproximar tanto, todos os guardas conhecem meu rosto e se eu chegar perto das muralhas provavelmente não terei chance de fugir. Ainda assim consegui infiltrar Didi para dentro e ele deverá entrar em contato com Lotho ou Ícaro.
- E este plano é seguro? — perguntou Edward – Sabemos que Ícaro nos passou informações sobre os Volturi, mas este Lotho não conhecemos, ele poderia nos levar para uma emboscada.
- Lotho é tão velho quanto Ícaro, ele serve aos Volturi há milênios, mas há centenas de anos já passou para o nosso lado. Lotho é um espião da Confraria do Sangue, foi ele quem me acobertou e auxiliou em minha fuga de dentro do palácio, confiaria minha vida a ele.
- Lotho – ponderou Alec – Eu jamais poderia imaginar que aquele ferreiro doido era um espião, se bem que ele sempre foi misterioso, enfiado naquela forja dia e noite confeccionando sempre novas lanças e armaduras para os Mercadores da Morte... ele nos encontrará aonde?
- Há uma parte de matas fechadas na periferia da cidade, antes de chegar ao Portão Sul. Lá Lotho irá nos encontrar e relatar tudo o que pode e, com sorte, tentar nos colocar para dentro através do Portão Sul sem que o guarda nos veja. Temos que estar na posição à meia-noite.
- E Didi?
- Didi estará nos esperando escondido dentro do palácio – retorquiu Vrau Urban com um sorriso cheio de dentes – Por que acham que escolhi um anão para companheiro nesta viagem?
- Então ficaremos aqui até o anoitecer? — disse Jake levemente angustiado.
- Como sempre, ações deste tipo são muito menos arriscadas quando realizadas sob o manto da noite.
- Então aproveitem o tempo que lhes resta, crianças – disse Alec – Porque hoje à noite provavelmente estaremos mortos.
À medida que o sol se aproximava do horizonte as nuvens tornavam-se carmesim, numa pintura natural tão bela que permitiu aos viajantes sentirem em seus corações um momento de paz. Mas Jacob Black olhava para a Cidadela dos Vampiros lá em baixo e se perguntava como tantos humanos viviam ali sem se dar conta que eram regidos por vampiros imortais.
As casas e as ruas, os edifícios e as lojas encantadoras e charmosas daquela cidade tão antiga agora começavam a iluminarem-se uma a uma enquanto o dia findava, Jacob sentia que o destino estava se aproximando a passo largo. Quando a meia-noite chegasse ele finalmente se reuniria novamente a Renesmee nem que fosse para morrer ao seu lado. Seria sua sina tombar dentro dos muros daquele castelo?
Aos poucos os companheiros dispersaram-se um pouco, recolhendo-se dentro de seus próprios e fortuitos medos, espalharam-se como sombras cabisbaixas por toda a colina que dali a poucas horas trilhariam para encontrar seu fim ou sua salvação. À eminência de entrar em Volterra, seus receios aumentavam exponencialmente, sentiam naquele ar quente da Itália um odor mórbido e perigoso, como se a morte os espreitasse com dedos gélidos e ávidos.
Pensando na morte, Kaori afastou-se do grupo descendo um pouco a colina que gradualmente caia na semi escuridão do crepúsculo, ela tinha consciência de que deveria ter morrido com a família há muito tempo... deveria ter sido morta pelo mesmo vampiro que dizimou seu marido e seu filho. Mas ali estava ela, novamente enredada em tramas de morte. Entretanto, estranhamente, não era medo que Kaori sentia, mas alívio... como se toda a sua existência estivesse destina a terminar ali naquela cidade de vampiros e isso a deixou estranhamente tranquila, em paz, e levemente distraída o suficiente para não perceber que Alec estava ao seu lado.
- Você pode escolher não entrar lá – disse ele.
- Eu escolhi acompanhá-los – respondeu Kaori – Não iria abandoná-los justamente quando mais precisam de mim.
- Eu já lhe disse que a lealdade é um peso.
- A traição também – respondeu Kaori categórica – Como pode ter tanta certeza de que morreremos todos lá?
“Por que o heroico Edward Cullen irá libertar o vampiro mais poderoso que existe na face da terra” pensou Alec, mas nada disse, Kaori não poderia saber deste plano sombrio, aliás, apenas alguns poucos tolos sabiam.
Kaori olhava para Volterra que agora começava a iluminar-se pouco a pouco com a eminência da noite acobertando-a, obviamente Alec, ligado à visão de Kaori pelo dom da vampira, também partilhava desta visão linda. Um leve ar saudosista despertou em Alec, afinal de contas, mesmo tendo sido traído pela Corte, Volterra fora seu lar por séculos longos e marcados por traições, mortes e arrependimentos.
- Aquela é a Praça de São Clemente – disse ele apontando para um aglomerado de luzes e árvores – Há poucos dias ocorreu um festival mensal onde os humanos comemoram a fartura, cheia de luzes, cores, pessoas, risos... você iria gostar.
- É estranho imaginar que possa haver risos naquele lugar.
- Engana-se – respondeu Alec taciturno – Volterra é um belo lugar, as pessoas que moram ali amam a cidade e muitas delas são frutos de gerações e gerações de antigos moradores. Há beleza e felicidade em Volterra, você não pode generalizar. Mesmo os Reis e a Corte são felizes a seu modo.
- E não é injusto que os maus também sejam felizes? — contrapôs Kaori.
- É? Bom, o problema é que felicidade é maldade é muito relativa, infelizmente. Veja, você considera os Volturi maus, mas nós fizemos muita coisa para salvar este mundinho estranho, muito do que fazemos pode parecer ruim, mas se você estivesse lá conosco não teria tomado decisões tão distintas das que escolhemos.
Kaori não respondeu, não tinha a intenção de concordar com Alec, mas ela sentia que as palavras do vampiro possuíam meias verdades... afinal de contas, ela mesma acreditava que não havia maldade completa ou felicidade plena, assim como acreditava que não existia pessoas totalmente más, ou totalmente boas.
Porém, não tinha qualquer certeza se Alec era totalmente mal, ou incompletamente bom.
Seth tinha os olhos fechados enquanto mantinha-se estirado na realva verde, seus pensamentos iam de Volterra a Charlotte e no fato de que muito provavelmente não viveria um tempo a mais além do que aquele que teria depois de passar pelas muralhas do palácio. Então, inconsciente e subitamente, uma ideia estranha lhe veio à mente... se ele estava prestes a morrer, não seria melhor expressar seus sentimentos de uma vez?
“Kaori?” – chamou Seth através do elo mental a que todos estavam ligados graças ao poder de Kaori.
“Sim?” – respondeu ela de algum lugar.
“Nada, apenas testando se o seu poder estava ativado”.
“Está ativado desde que iniciamos esta viagem, Seth” – respondeu ela distraída.
O jovem lobo, então, direcionou sua mente para a bruxa que por ventura – ou desventura – havia roubado seu coração. Com um suspiro pesaroso Seth se perguntou por que a natureza havia feito com que ele se apaixonasse por Charlotte, afinal de contas, a dita Impressão servia para que lobos mais fortes fossem gerados a fim de proteger a tribo. Mas nenhum fruto de uma quase impossível união entre ele e a bruxa seria gerado... aquilo estava completamente errado.
“Charlotte?” – chamou Seth, seu coração estranhamente leve e tranquilo. Talvez a proximidade do fim o fizesse ficar menos preocupado.
“O que foi?” – perguntou a bruxa com sua voz etérea.
“O beijo no lago... eu sonhei ou realmente aconteceu?”
“Não sei do que está falando” – respondeu ela preocupada.
“Eu a amo” – disparou Seth sem pestanejar – “Não posso explicar como ou por que, não sei nem ao menos o motivo pelo qual o meu coração permitiu que eu me apaixonasse por uma vampira. Esta possivelmente é a minha última noite na face da terra... então eu a amo e nada vai mudar isso”.
“Menino bobo” – tornou Charlotte com a voz embargada.
A feiticeira sabia que agora ela e Seth estavam condenados... o destino fora selado. Charlotte sentiu uma tristeza infinita tocar seu coração ao mesmo tempo em que uma alegria imensurável a tomou por completo, a alegria de ouvir que Seth a amava e a tristeza de saber que agora ambos iriam morrer em Volterra.
Garret estava apenas atirado no solo fresco olhando para as estrelas distantes, as mesmas estrelas que ele olhava a mais de duzentos anos, lembrou-se de Kate e seu coração pareceu comprimir-se em seu peito. Passara muitos anos sozinho pelo mundo, lutando em guerras, batalhando em batalhas sem amar ninguém até encontrar Kate Denali. Agora, entretanto, estava prestes a morrer longe dela... seria sepultado em Volterra e jamais tornaria a ver sua preciosa Kate. Mas faria isso com honra e lealdade, lutaria contra os tiranos e morreria pela sua consciência e que Kate o perdoasse por isso.
Mas quem sabe, quem sabe, ele conseguisse revê-la novamente...
... talvez.
Carlisle, por sua vez, encarava Volterra com uma impressionante calma... ele morara ali há tantos anos e jamais poderia imaginar que estaria na calada da noite prestes a entrar fortuitamente no palácio que um dia fora seu lar.
Mas também jamais poderia ter imaginado tamanha traição por parte de Aro, Caius e Marcus.
Ele recordou-se de muitas coisas e de vários pensamentos e se perguntou se sua filosofia de vida estava tão errada a ponto de despertar a fúria de Reis, sabia que havia cometido erros e que Aro os havia reparado, porém, a dor que os Volturi lhe causaram era muitas vezes maior do que o preço que estava disposto a pagar.
E ali, naquele lugar antigo, sentiu-se culpado por estar arrastando consigo tantos bons companheiros para uma possível morte, uma oferta de desespero, um ímpeto de horror. O pagamento da coragem era o perecimento e o fardo do insucesso.
Ainda assim havia algo mais denso que a noite de Volterra pesando sobre eles e Carlisle sentia que a origem de toda esta carga negativa era Edward. Seu filho estava mais introspectivo que o normal, como se sua mente estivesse processando algo que pertencia apenas a ele mesmo e mais ninguém. Normalmente o patriarca da família Cullen não se importaria com isso, Edward sempre procurara sua companhia para desabafar quando estava preocupada... mas agora simplesmente parecia estar contendo um plano sombrio apenas para ele.
“Preocupado?” – perguntou Carlisle através do elo de Kaori a um Edward quieto sob a proteção de uma árvore baixa.
“Ansioso para rever Bella e Nessie” – respondeu ele sem se mover.
“Nós conseguiremos”.
“Mas não temos garantia nenhuma de um futuro tranquilo”.
“O que esta sugerindo, Edward?”
“Que talvez tenhamos que garantir que os Volturi não tornem a vir atrás de nós novamente” – respondeu ele sombrio – “Seria simples se eles desaparecessem da face da terra”.
“Não há força neste mundo capaz de deter os Três, filho... não há como detê-los”.
Mas a isso Edward não respondeu e Carlisle apenas conquistou uma parcela maior de dúvida vinda deste vácuo silencioso que tornou-se a mente de Edward.
Jacob Black não deixava de encarar a cidade abaixo com um espanto moderado. Volterra realmente impressionava os que nela colocavam pela primeira vez os olhos, hipnotizava com sua sóbria antiguidade, sua austera face marcada pelo tempo. Mas para aquele lobo que crescera em meio às praias de areias cascalhentas, mar de água escura e ondas revoltas, a visão da antiga e bela cidade nada significava; Jacob Black, Senhor dos Lobos de La Push, ansiava para poder reduzir aqueles muralhas a pó, por ao chão as torres altas e resgatar sua noiva daqueles assassinos travestidos de realeza.
Então apenas fechou os olhos... faltava pouco agora.
Muito pouco.
Jasper não pensava em nada, mas sentia o descontrole começando a apalpar-lhe a pele como se várias garras de gelo estivessem prestes a estraçalhar sua pele e despedaçar o que estivesse por perto. A bem da verdade, uma verdade que sua família adotiva conhecia e que tentava ocultar, era que o coração valoro de Jasper também mantinha em si um toque de escuridão.
Jasper é um guerreiro, nasceu para a batalha, fora curtido a horror, sangue e gritos. Quando Maria o criou, não o criou apenas por sua beleza ou pelo dom nato de guerrear, mas pela imensa e insaciável sede de matança que havia latente em sua alma corajosa. Jasper era uma arma; estrategista brilhante, guerreiro habilidoso, matador inclemente... atributos que são estimados em qualquer assassino perfeito. O dom de Jasper também auxiliava nisso... ele imbuia o terror àqueles que lhe impunham obstáculos.
E esse horror era algo que fazia parte dele, podia-se tentar esconder isso, seus irmãos, Carlisle e Esme e mesmo Alice pensavam que Jasper já havia esquecido aquela fase mortífera de sua vida como vampiro... mas todos enganaram-se. As sombras sempre estiveram ali rondando, ramificando-se, crescendo e mantendo-se à margem da luz em seus pensamentos... mas jamais extinguindo-se. Alice era a represa, sempre fora ela. A vampira que conseguiu organizar os pensamentos de Jasper e fizera com que todo aquele ódio, toda aquela sede por batalhas e guerras fosse resfriado dentro de seu inerte coração.
Sem Alice, as sombras agora voltavam a extravasar de si.
Jasper precisava lutar, precisava batalhar... era imprescindível que seu ódio explodisse. E ele estava ali, sorrateiramente encarapitado em uma árvore, olhando para Volterra e imaginando o momento em que pudesse, novamente, abraçar sua preciosa Alice.
Charlotte, por sua vez, ainda estava incomodada com a declaração de Seth e com medo do que aquilo representava... a promessa de sua mãe. E assim, no meio da noite que já se formara completamente, uma noite cheia de estrelas e de um vento solitário, a bruxa lembrou-se... lembrou-se do que sua mãe havia lhe dito, Salesiana havia parado em sua frente, bloqueando o caminho e não permitindo que ela deixasse a casa enquanto todos esperavam do lado de fora no Pântano da Desolação.
“Você estará perdida se se entregar ao amor” — disse sua mãe muito séria — “Charlotte, minha filha, eu vi sem querer ver, mas vi. Você entregará seu coração imortal a um ser elemental de grande poder e este ser também entregará seu coração a você e o amor de vocês será mais forte do que muitas forças que existem neste mundo e no outro... será um laço potente o suficiente para perdurar por toda a eternidade. Mas é um amor amaldiçoado. Se você entregar o seu coração a este ser antes da hora... os dois perecerão na empreitada que enfrentarão...”
E apesar do aviso, apesar de tudo... Charlotte ouvira a promessa de amor vinda de Seth. A vontade de responder a esta promessa era imensa, mas por amor ao jovem lobo ela não o fez, era responsabilidade de Charlotte não responder a ele e dar uma chance aos dois de sobreviverem a tudo isso.
“Depois que tudo passar... sim, depois que tudo passar... eu serei dele para sempre”, pensou a bruxa consigo mesma.
Mas, subitamente, em meio a seus desejos e anseios, Charlotte lembrou-se algo fundamental, algo que apenas rondava o medo em sua mente. Os feitiços das celas de Volterra. O que era preciso para abrir as portas contava com algo muito mais obscuro que palavras antigas... algo que possivelmente arrastaria a alma da feiticeira uma polegada para mais perto da perdição eterna.
“Edward” — chamou ela através do vínculo mental que Kaori deixava permanentemente ligado — “Há algo que precisamos para abrir as celas de Volterra, caso seja necessário”.
“Estou ouvindo” — respondeu ele de algum lugar no escuro.
“Sangue”.
“Sangue? Humano é claro”.
“Sim”.
“Por que os seus feitiços sempre exigem sacrifícios ou sangue humano, Charlotte?” — perguntou Edward claramente insatisfeito.
“Não são os meus feitiços, Cullen” — rebateu a bruxa — “Quem os desenvolveu foi meu pai e estou aqui para reproduzi-los, então não me culpe pelo que ele criou. Mas se por um acaso sua preciosa filha e esposa estiverem presas nas Catacumbas, precisaremos de sangue humano para poder tirá-las de lá”.
“E para que serve o sangue?”
“A porta das celas são guardiãs vivas, eles só abrem se receberem o tributo... são portas de vampiros, Edward, é claro que o tributo seria sangue humano”.
“E onde arranjaremos isso a esta hora? Por que não pediu antes?”
“Eu tinha mais coisas em mente...” — defendeu-se Charlotte.
“Você precisa literalmente “lavar” a porta com sangue?”
“Não, apenas o suficiente para cobrir a palma de minha mão”.
“Espere” — pediu Edward e em seguida dirigiu seu pensamento a Jasper — “Temos um problema”.
“Apenas um?” — riu Jasper de forma amarga.
“Fique aqui e distraia os outros, principalmente Carlisle, eu tenho que sair”.
“O que aconteceu?”
“Para variar um pouco, Charlotte precisa de sangue humano para o feitiço das celas caso alguém esteja preso nas catacumbas”.
“Pensa em matar alguém?” — perguntou Jasper.
“De jeito nenhum”.
“Explique”.
“Precisamos do sangue humano, e apenas isso... não sabemos se algum deles está preso em uma cela, não vou sacrificar ninguém sem ter esta certeza antes, além do mais, parece que ela não precisa de todo o sangue do corpo de um ser humano”.
“Então, basicamente, você vai sequestrar alguém, carregá-lo junto para dentro de Volterra, arrastá-lo para as catacumbas e utilizar o sangue do pobre coitado para abrir as celas? Impressionante, maninho... vindo de você”.
“Não temos escolha”.
“Carlisle ficará de cabelos em pé, acho melhor falar para ele de uma vez”.
“Carlisle não entenderia, minha ideia é chegar perto dos portões de surpresa com um humano nas mãos para impedir que Carlisle questione qualquer coisa a tempo, à sombra da muralha ele também não terá escolha”.
“Você está ouvindo tudo o que está dizendo? Está agindo pelas costas de Carlisle”.
“Apresente outra alternativa” — disse Edward simplesmente.
Jasper calou-se por uns instantes, estava visivelmente surpreso com o comportamento do irmão... para Edward passar a fazer coisas pelas costas de Carlisle significava que as coisas estavam perigosamente críticas.
“Eu vou” — declarou Jasper.
“Como?”
“Eu vou, já matei um humano há alguns dias, não me custa nada sequestrar outro. Além do mais eu também estou disposto a fazer o que for necessário para libertar Alice”.
“Não posso permitir que este tipo de peso fique apenas sobre os seus ombros, Jasper”.
“Sem essa, Edward. Estamos todos ferrados... não temos tempo de ficar armando discussões intermináveis sobre o que é certo e errado com Carlisle, agora temos que fazer o que podemos e no menor tempo possível. Além do mais, espera-se este tipo de coisa de mim e não de você... acredite, eu não me importo com a alcunha de traidor da causa humanista de Carlisle. Não agora enquanto Alice está em perigo no meio daqueles loucos”.
“Espere um pouco” — suspirou Edward e em seguida direcionou seu pensamento a Alec — “Alec, há algum povoado nas redondezas? Aquelas luzes fora das muralhas são o que?”.
“Bairros de classe baixa, as mais distantes são de casas pertencentes a pequenos proprietários de terra... cultivadores de hortaliças que alimentam os mercados e mercearias de Volterra, por que o súbito interesse?”
“Charlotte precisa de sangue humano para o encanto das celas nas catacumbas”.
“Ah sim, é verdade” — disse Alec recordando-se — “Então você planeja decapitar alguém?”
“Não exatamente... que isso fique entre nós por enquanto”.
“Naturalmente, meu senhor Edward” — zombou Alec.
“Jasper” — chamou Edward — “As casas na baixada fora da muralha pertencem aos bairros humildes”.
“Não parecem humildes daqui” — riu Jasper.
“Bem, talvez sejam humildes para o padrão de Volterra, não é? Mas suponho que Alec refira-se a eles por estarem fora das muralhas, historicamente os que habitavam na orla exterior eram camponeses e plebeus, pelo visto a ideia não se alterou. Mas o importante é que estão próximos do castelo para que o sumiço de alguém não passe despercebido durante muito tempo na cidade”.
“E as luzes mais afastadas?”
“São propriedades de pequenos produtores, estão afastadas o suficiente para que ninguém dê por falta de um sumiço durante a madrugada”.
“Edward, provavelmente quem sequestrarmos ficará traumatizado o bastante para contar a quem puder ouvir sobre vampiros, celas dentro do palácio de Volterra e outras coisas espantosas”.
“Provavelmente vão ligar isso a um trauma pelo sequestro” — declarou Edward de modo sombrio — “Temos de fazer isso, não nos resta alternativa. Jasper vá até a mais distante propriedade que conseguir encontrar e pegue alguém para nós, faça de modo a não permitir que qualquer outro possível habitante da casa perceba alguma coisa até podermos devolver nosso cativo”.
“Você tem consciência de que se morrermos lá dentro... nosso sequestrado sucumbirá conosco?”
“Sim” — respondeu Edward — “E então teremos de pagar por nossos crimes no mundo além deste.
- Eu vou dar uma olhada ao redor – declarou Jasper em alto e bom som para que todos deixassem o estupor e olhassem para ele – Checar o perímetro.
- Não se aproxime da muralha, há proteções nela – disse Alec prevenindo-o, mas também interpretando a farsa que envolvia apenas um seleto grupo.
- Seria prudente permanecermos juntos, Jasper – opinou Carlisle.
- Não se preocupe, eu estarei olhando as redondezas para evitar surpresas, estarei com vocês no Portão Sul à meia-noite.
E dito isso ele partiu, sumindo na escuridão da noite, carregando nas costas mais um pesado fardo que dividiria com o irmão... e as sombras no coração de Jasper se adensaram ainda mais.
A lua estava a meio caminho no céu quando o horário marcado aproximara-se, não havia qualquer ruído, nem mesmo o vento tinha disposição para se pronunciar naquela que poderia ser uma madrugada fria e maldita. Parece que o próprio lugar sabia que alguma coisa ali estava para acontecer... algo que possivelmente alteraria a história do mundo.
- Temos de ir – avisou Vrau Urban.
- Você tem certeza de que Didi conseguiu invadir o palácio? – perguntou Carlisle – E que ele contatou Ícaro?
- Acredite, se meu amigo anão tivesse sido pego... bem, a esta altura já estaríamos sob as botas dos Três.
- Então vamos se temos que ir – disse Jacob decidido.
- E Jasper?
- Ele avisou que nos encontraria lá – disse Edward – Jake tem razão, se o momento chegou... vamos.
Na verdade ninguém queria ir, nenhum deles tinha esta vontade, mas como que por ímpeto suas pernas impeliram seus corpos pela relva fresca da noite, a umidade do sereno sendo quebrada sob a sola de seus pés... o universo sobre suas cabeças, pontilhados com milhões de outros mundos, era a única testemunha da coragem inabalável daqueles viajantes.
A cidade aproximava-se aos poucos enquanto o grupo caminhava silenciosamente, os lobos ainda em forma humana para não chamar a atenção dos vampiros na Cidadela, os vampiros pareciam flutuar sob a relva. Havia um cheiro estranho naquela cidade, eles perceberam, era algo pungente e asséptico, como se o lugar fosse limpo demais para qualquer cidade e isso era obviamente estranho, qualquer local limpo demais era motivo de desconfiança... como aquelas pessoas que sorriam demais para todos, geralmente quem sorri demais tem muito a esconder.
Mas ainda assim eles prosseguiram, contra todas as esperanças e contra todas as chances eles prosseguiram. A ideia de que Bella, Nessie, Alice e Quil estavam ali presos era quase torturante, os muros virtualmente intransponíveis começaram, aos poucos, a encará-los de cima... como montanhas rochosas e retas; a cidade estava quieta... não havia ruídos de pessoas, de carros, de animais ou de qualquer outra coisa que vivesse.
Era uma Cidadela de Mortos.
- O portão Sul? – perguntou Edward.
- Lá, onde a muralha faz uma curva e encosta na floresta – respondeu Alec olhando para o horizonte com os olhos de Kaori.
E, de fato, a muralha assumia uma curvatura que se avizinhava com as árvores da floresta densa, e foi para este canto que os companheiros rumaram... unidos em um grupo compacto, tão próximos quanto podiam. O coração de Seth batia com uma força incomum, acelerado... o jovem lobo estava ansioso e ali, entre os não vivos cujos corações eram imóveis, o retumbar das batidas cardíacas de Seth parecia uma explosão. Já o coração de Jacob estava silencioso... calmo e rítmico, exato e compassado, não havia anseio ali, não havia pressa, apenas uma raiva crescente.
Logo, entre as árvores altas que sombreavam o caminho deixando a noite ainda mais escura, surgiu uma pequena clareira, não mais do que a ausência de algumas árvores, mas, ainda assim, um claro intervelo em meio à maciça mata. E foi ali que Vrau Urban incitou-as a parar.
Restava pouco menos de uma hora para a meia noite.
- Aqui aguardaremos até Ícaro aparecer – declarou Vrau.
- E se outra pessoa aparecer? – perguntou Kaori.
- Se for Lotho não teremos problema... se for outro vampiro, bem, corram como se o próprio diabo estivesse atrás de suas canelas.
- Espero que um destes dois consiga nos colocar para dentro.
- Não precisa se preocupar meu caro lobo, eu confio em Didi.
- Nossas vidas nas mãos de um anão – suspirou Jacob.
- A barreira não pode nos detectar? – perguntou Carlisle a Charlotte.
- Se não tocarmos nela não haverá problemas, mas quando formos entrar eu terei de desativa-la – respondeu a bruxa.
E ali eles ficaram, à sombra da muralha, com a tensão ameaçando esmagá-los sobre si mesmo, aguardando um sinal de vida vindo da cidade, mas tudo o que conseguiram foi apenas um silêncio grudento que parecia aderir a eles como um parasita sufocante. Entretanto, este silêncio durou pouco mais de dez minutos, depois disso ouviram um farfalhar por entre a mata e o susto acabou preparando-os para um ataque, mas logo a voz de Jasper chegou até eles.
- Não se preocupem, sou eu – disse ele surgindo por entre as folhagens.
E não estava só.
Caminhando junto com o vampiro estava a garota mais assustada e fascinada que poderia existir. Tinha, quem sabe, quinze anos de idade e olhos assombrosamente castanhos dotados de um brilho vívido e reflexivo. Os cabelos eram longos e negros como a noite, cacheados como ventos espiralantes, sua pele era tão clara como a dos vampiros ali presente, mas muito mais delicada, como porcelana fina moldada na forma de pele. Os lábios eram bonitos, sensuais e bem delineados, curvilíneos e naturalmente caídos num contorno gracioso que dava à menina um ar estranhamente preocupado.
Não era essencialmente bonita. Graciosa seria a palavra mais exata para descrevê-la. O nariz parecia pequeno demais para o quadro do rosto e o queixo se afilava vertiginosamente dando-lhe um ar escorrido. Mas era delicada como uma flor em meio a uma ventania de inverno.
- Esta é Giuliana – declarou Jasper.
- E o que exatamente ela faz aqui, Jasper? — perguntou Carlisle levemente surpreso.
- Eu pedi a Jasper que a trouxesse – respondeu Edward no lugar no irmão.
- Está tudo bem, eu expliquei a ela quem somos e porque precisamos de sua ajuda, ela aceitou de livre e espontânea vontade nos auxiliar – explicou Jasper diante do olhar incrédulo de Carlisle.
- Você contou quem somos? — estranhou Garret – Mas por quê?
- As portas das celas das catacumbas são encantadas, Garret – lembrou-o Edward – Segundo Charlotte é necessário sangue humano para abri-las.
- E esta criança humana está aqui para saciar a sede dos encantamentos – sentenciou Carlisle visivelmente contrariado – Você enviou Jasper para trazê-la aqui diante dos portões à eminência de nossa entrada justamente para não haver tempo para protestos, não é mesmo Edward?
- Ela não será morta, Carlisle – explicou o vampiro – Precisaremos apenas de um pouco de seu sangue e depois a devolveremos em segurança à sua casa.
- A menina pode muito bem perder a vida conosco... o que aconteceu a você Edward? Agir pelas minhas costas é compreensível, mas para sequestrar uma criança e amaldiçoá-la com a ciência de nossa existência e de coisas que ela não compreende? Arriscar a vida de uma inocente para nossos propósitos? Não foi assim que eu eduquei seu coração.
- Infelizmente não há alternativa, temos que fazer o que é necessário.
- Este é um lema Volturi! — Carlisle disse em voz alta, uma leve raiva pairando sobre seu semblante sempre calmo – O que mais você planeja realizar que ainda não nos contou?
- Carlisle, nós corremos o risco de que as meninas e Quil estejam presas nas catacumbas, não foi para isso que trouxemos Charlotte? Não foi por isso que perdemos todo aquele tempo procurando por ela e Salesiana? E agora chegaremos aqui e deixaríamos o trabalho incompleto por conta deste empecilho?
- Não se trata do que fazer, Edward, mas de como fazer – rebateu Carlisle – Agir nas sombras e à traição é uma forma Volturi de se fazer as coisas. Não podemos trilhar este caminho.
- Os Volturi não nos deram escolha, Carlisle – interpôs Jasper – Emmet e Rosalie estão mortos, seus filhos estão mortos, metade dos lobos de La Push, crianças que lutaram por nós, foram mortas. Eu sinto ter que lhe dizer isso, sabe o quanto lhe respeito, mas abandonei a sua filosofia de não violência e de fazer o que é certo a todo custo.
- Então nada sobrará de nós quando terminarmos isso – disse Carlisle com tristeza – No fim seremos iguais a eles.
- Desculpem – disse de repente uma vozinha falha e farfalhante – Mas eu quero mesmo ajudar vocês.
Vampiros e lobos olharam para a pequena Giuliana, parada ali na noite fria vestida apenas com uma caça de malha e uma camiseta, olhando-os com olhos de sonho, com olhos brilhantes e estranhamente desprovidos de medo.
- O senhor Jasper me contou sua história e eu quero mesmo ajudar, se puder. Eu sei o que é perder quem se ama, não quero que isso aconteça a vocês. Meu pai e meu irmão morreram quando eu era pequena, minha mãe casou-se com outro homem e eu não gosto dele. Mas nunca imaginei que poderiam existir vampiros de verdade, achei que era tudo história, vocês sugam o sangue das pessoas?
- Não – respondeu Carlisle, um sorriso de benevolência espalhando-se por seu rosto – Somos de um tipo diferente. Eu agradeço o que pensa em fazer por nós, Giuliana, mas entenda que é algo muito perigoso... você pode realmente se machucar.
- Eu sei – respondeu a menina acanhada – Mas eu não me importo.
“O padrasto costumava bater nela” — disse Jasper usando o elo de Kaori — “Ela não pensou duas vezes em vir comigo”.
“Tirar uma criança de um lugar ruim para outro pior não é algo que me reconforta, Jasper” — disse Carlisle — “Ela não compreende tudo o que irá passar, simplesmente agarrou a oportunidade de fugir de casa com um belo estranho que lhe prometeu uma aventura fantástica”.
“Bem ou mal ela está aqui” — interpôs-se Edward — “Jasper fez bem em contar a ela a verdade, achei que teríamos que carregar alguém se debatendo e a contragosto, assim pelo menos a menina nos auxiliará de boa vontade”.
“Se aproveitar de uma criança instável e com uma história familiar problemática não me parece boa vontade, Edward” — rebateu o patriarca Cullen com desgosto — “A menina foi ludibriada, Jasper absorveu a agonia dela enquanto procurava alguém para isso e foi certeiro em uma menina que esperava um príncipe encantado para buscá-la em sua janela e salvá-la de uma vida complicada e miserável... mas nós sabemos o que isso realmente significa”.
- Faremos o que tivermos de fazer – disse Edward encerrando a discussão.
- E o que sobrará de nós quando isso tudo terminar? — perguntou Carlisle e Edward o encarou com o olhar mais distante e triste que algum dia o pai pode ver em seu rosto.
- Poeira e vento... — disse ele se afastando de Carlisle.
Seth encarou a menina que se sentou abraçando os joelhos ali no meio da mata, o lobo percebeu que ela ficou encolhida perto de Jasper e seu coração valoroso se apertou em seu peito... aquilo não era o certo. E com isso na mente, moveu seu pensamento para junto da de Jacob.
“Você acha isso certo?” — perguntou o jovem lobo ao companheiro usando o vínculo de Kaori.
“Usar a menina? Ela veio de livre vontade” — respondeu o alfa.
“Corta essa, Jake... você e Edward estão concordando demais ultimamente, primeiro foi o homem que Jasper trouxe para o feitiço de Charlotte e agora esta menina, e o pior é que você nem ao menos se manifestou contra”.
“Talvez precisemos do sangue dela para abrir as portas nas catacumbas, Seth. Ela não será ferida além do que precisarmos... apesar de não gostar disso, Edward tem razão: temos que fazer o que é necessário”.
A fungada de Seth revelou a Jacob que o amigo não estava satisfeito com o andar das coisas, Jacob mesmo não gostava daquilo, mas não havia escolha. Os Volturi não lhes deixaram muita opção. Mas o coração do lobo se preocupava com o que poderia acontecer a eles caso sobrevivessem a esta jornada sombria, fizeram tanta coisa que jamais pensariam em fazer que acabaram aproximando-se muito do estilo Volturi de ser.
Conseguiriam voltar a ser como antes?
Jacob não acreditava nisso.
A noite estava quieta a não ser pela batida do coração dos três humanos que se juntavam ali. O orvalho umedecia a clareira tornando tudo ainda mais frio e uma bruma leve começou a se formar ali tornando o lugar ainda mais desolado do que antes... Giuliana, pequena e temerosa, aproximou-se um pouco mais de Jasper que estava completamente alheio a tudo a sua volta.
A meia noite veio e se foi sem que houvesse qualquer sinal de Ícaro e isso começou a preocupar o grupo todo, os lobos estavam em pé espiando as muralhas temendo que algum vampiro despencasse lá de cima sobre suas cabeças.
- Algo deu errado – reclamou Garret.
- Didi jamais foi pego, ele já entrou e saiu de Volterra várias vezes – disse Vrau Urban – Mas desconfio que alguma coisa aconteceu.
- Vamos nos mover então – disse Jacob – Não acho seguro ficarmos aqui muito tempo, somos alvos facilmente detectáveis tão perto da muralha.
- Temos tanta chance de sobreviver aqui como em qualquer outro lugar – declarou Alec- De uma forma ou de outra, podemos tentar entrar sem ajuda interna, mas obviamente vai ser bem mais complicado.
- Melhor do que ficar aqui sem fazer nada – opinou Seth.
- Rumamos direto ao portão e batemos? — ironizou Kaori – Ao menos aqui ainda podemos bater em retirada.
- Não chegamos até aqui para fugir – rosnou Jacob.
- E nem para morrer antes de entrar em Volterra – rebateu Kaori.
- Silêncio – sibilou Edward de repente – Alguém está se aproximando... um vampiro.
E de fato alguém se aproximava; somente um vampiro podia ter ouvido, mas eram passos leves quase diáfanos, mais uma arrastar como o atrito de uma capa longa contra a mata baixa, e o cheiro adocicado natural dos vampiros veio até eles carregado por um vento insone e fraco. Logo a bruma moveu-se em torvelinhos de fumaça e um vulto alto e escuro surgiu caminhando para eles em silêncio e desimpedidamente.
Os lobos eriçaram-se com aparição e os vampiros juntaram-se imediatamente, Jasper empurrou Giuliana para o centro a fim de protegê-la... num momento de tensão onde podia-se esperar qualquer coisa, os companheiros não lembraram que na verdade esperavam uma visita que levaria a todos para dentro das muralhas da cidadela.
O vampiro se aproximou deles e parou há menos de quinze metros, era baixo e pelo volume da capa muito atarracado; por debaixo daquele capuz um par de olhos brilhantes encarou um a um por alguns instantes como se para se certificar de que este era realmente o grupo que viera encontrar e em seguida baixou o capuz. Um rosto redondo revelou um homem de meia idade com olhos sanguinolentos e espertos, o cabelo era preto e extremamente curto, havia vestígios de carvão no rosto do homem e um cheiro ocre de fumaça emanou de suas roupas quando ele parou, parecia que tinha acabado de mexer em uma fogueira. Não era um rosto simpático, não tinha o refinamento característico dos vampiros, era bruto e chapado como se algo muito pesado tivesse lhe achatado o nariz... o pescoço era grosso como um tronco e quando falou, sua voz surgiu rouca e áspera, sem qualquer gentileza.
- Problemas é o que você sempre arranja, Vrau.
- Lotho – cumprimentou Vrau Urban um pouco surpreso – É realmente raro você deixar o castelo, esperávamos Ícaro.
- Bem, tive de vir no lugar dele... não por gosto é claro, eu não fico feliz por me envolver nos assuntos políticos desta maldita Confraria, mas pelo que me falaram o caso era muito urgente para que mesmo eu pudesse ignorá-lo. Então estes são os famosos Cullen? Parece um bando de vagabundos miseráveis, é com eles que você pretende entrar em Volterra?
- Eles vieram retomar o que lhes pertence, Lotho, você conhece a história.
- Sim – disse o vampiro recém chegado — Vieram para buscar as meninas Cullen e o lobo.
- Elas estão bem? — atravessou Edward sem se conter.
- Mas que grosseria a minha – interveio Vrau Urban – Meus amigos, este é Lotho, o artífice ferreiro de Volterra. Lotho, meu bom amigo, estes são meus aliados... Carlisle, Edward, Jasper, Garret, Kaori, Jacob e Seth. Creio que você se lembrará dos outros dois.
- Meu senhor Alec – falou Lotho realmente surpreso – Vejo que os rumores sobre sua morte foram exagerados... e a menina Charlotte, meu Deus, eu pensei que estivesse perdida para sempre. Vejo que vieram preparados, trouxeram até mesmo uma feiticeira, estão realmente intencionados a entrar no palácio.
- Estão bem, ou estavam, depende do ponto de vista – falou Lotho – Sua filha arrumou um bocado de problemas, Edward Cullen, na verdade ela obrigou sua irmã e sua esposa e até mesmo seu amigo lobo a dançarem muito conforme a música dos Volturi. Mas no fim de nada adiantou, todos eles se vergaram à sombra de Aro.
- O que está acontecendo em Volterra neste momento? — questionou Carlisle – Precisamos que as informações sejam precisas.
- Bem, minha Princesa Alice está, neste momento, presa nas catacumbas de Volterra – disparou Lotho sem pestanejar.
Os lobos prenderam a respiração e Kaori sufocou um grito, o pior dos temores deles se concretizou, as catacumbas encantadas de Volterra foram utilizadas. Por mais que todos ali tivessem consciência de que poderiam ter topado com este problema – e justamente por isso foram atrás de Charlotte – nenhum deles realmente contava que as Catacumbas estivessem sido abertas.
Mas apesar do choque inicial, o cérebro estratégico de Jasper já havia captado algo que até então a mente entorpecida dos outros ainda não havia digerido, e com sua habitual frieza, encarou Lotho com uma pergunta pronta tal qual uma bala na agulha de uma arma.
- Você disse “princesa” Alice?
- Sim, Alice e Isabella juraram lealdade aos Volturi – respondeu Lotho simplesmente.
- Isso é novidade! — riu Alec.
- Se fizeram isso foi por algum bom motivo – sugestionou Garret.
- Fizeram isso para evitar punições mais severas à sua preciosa Renesmee – explicou Lotho – E para protegê-la de Jane que resolveu se apaixonar pela garota; jurando lealdade aos Três, Isabella e Alice ficavam mais próximas da guarda e podiam manter Jane sob vigilância.
- Eu vou tentar não imaginar o que o “se apaixonar” de Jane por Nessie significa – rosnou Jacob.
- Você é o noivo da menina, não é? — observou Lotho – Ela jamais acreditou que você havia morrido, interessante saber que ela tinha razão. E você é prudente em não querer saber sobre tudo o que aconteceu em Volterra... provavelmente explodiria de raiva agora mesmo e seria inútil. Jane não está no palácio, aliás, ninguém está. Apenas a segurança do palácio e os cavaleiros dos portões estão aqui, os reis partiram em comitiva junto com todos os Lordes Vampiros da Itália.
- Os Reis não estão aqui? — alegrou-se Garret imaginando que sua sorte havia mudado.
- Não, eles rumaram para o Pináculo da Luz.
- Não me interessa onde Aro, Caius e Marcus estão. Lotho, eu quero saber da minha esposa e da minha filha.
- Elas estão com eles, Isabella e Renesmee e seu amigo Quil foram em comitiva para o Pináculo da Luz, o lar dos Mercadores da Morte – respondeu Lotho e seu rosto traiu um desconforto iminente.
- Elas não estão em Volterra? — disse Jacob visivelmente desnorteado – Eu não acredito... não acredito.
- Por que o reis rumaram para o Pináculo? – estranho Vrau Urban – Eles habitam aquele lugar apenas a cada cinco décadas para descansar da rotina de Volterra, que eu me lembre ainda não é época de eles irem para lá. A não ser que... não, não poderia ser isso.
- O que foi? — perguntou Kaori mesmo não querendo perguntar.
- Quando os Três se reúnem no Pináculo da Luz junto com toda a Corte dos Vampiros, significa que um casamento real está para acontecer. Mas quem irá se casar, Lotho?
- Meu mestre Aro – respondeu Lotho – Ele deu a liberdade a Sulpicia e está para tomar a mão de uma outra vampira... e torná-la Rainha dos Vampiros ao lado dele.
- Mas com quem Aro irá se casar desta vez? — perguntou Carlisle.
- Isabella – disse Lotho depois de um minuto de silêncio – Ele irá se casar com Bella.
A notícia caiu como um meteoro no meio deles, foi tão pior do que o fato de Alice estar presa nas catacumbas encantadas, era algo que não podia ser imaginado por nenhum deles; esperava-se que elas estivessem aprisionadas, exaustas tanto física quanto mentalmente, talvez até mesmo mortas... mas um casamento?
Edward simplesmente não conseguiu emitir qualquer palavra, sua voz parecia ter morrido dentro de si como todo o resto. Ele se sentiu, de repente, como quando estava no fundo daquele rio, preso sob o lodo, quase morto; sentiu como se sua força tivesse escoado de si como água, sendo tragada pelo solo até o núcleo do mundo... não havia nada nele, nem pensamentos.
Chegara até ali apenas para descobrir que sua esposa e sua filha não estavam em Volterra, mas a quilômetros de distância, num lugar que jamais havia ouvido falar, inexoravelmente distantes de suas mãos e até mesmo de seu amor. Algo falhou nele. Algo primordial. Até aquele momento Edward havia se tornado distante, um pouco frio e inclemente talvez, mas apenas isso... agora não; naquele instante surgiu nele uma raiva tão grande que foi crescendo a ponto de fazê-lo sentir-se como se fosse capaz de esmigalhar pedra por pedra daquele palácio amaldiçoado... uma raiva moldada por todo o horror e cansaço a que seu corpo e sua mente foram submetidos. Uma raiva que poderia destruir o mundo todo.
- Não bastou sequestrá-la, Aro também agora quer desposá-la? — disse Edward, e sua voz saiu de tal forma sufocada e mal controlada que até mesmo seus companheiros ficaram com receio de olhá-lo.
- Não há meio de eu saber o que se passa na mente do Rei – respondeu Lotho – Mas pelo que sei foi uma sucessão de acontecimentos que levou sua esposa a aceitar tal situação, infelizmente Ícaro poderia lhe dizer, mas ele foi com os Reis para o sul e me deixou incumbido desta missão. Há dois dias os Reis partiram, com eles a Guarda, para o Pináculo da Luz onde o casamento deverá acontecer ao entardecer do dia depois de amanhã.
- Misericórdia – suspirou Jacob – Além de estarmos no lugar errado ainda teremos de andar até o sul da Itália? Esta viagem não termina nunca... há qual distância fica este Pináculo?
- Pouco mais de quinhentos quilômetros – respondeu Alec – Mas não é a distância que me preocupa, mas sim o que há lá... os Mercadores da Morte. Mais de dois mil deles se é que não se lembram.
- Estamos ferrados – disse Seth totalmente desanimado.
- O que faremos então? — perguntou Kaori aflita, ela teve coragem de vir às portas de Volterra, mas não sabia de onde tiraria ainda mais coragem para bater nos portões de Flávius Aurélius e os Mercadores da Morte.
- Vamos libertar Alice – declarou Edward tão sombrio quanto jamais esteve – Depois vamos ver o que podemos fazer.
Mas quando Edward voltou-se para o grupo, Charlotte, Alec e Jacob sentiram o plano amaldiçoado dele tocando-os como um peso gelado. A raiva emanou de Edward e os olhos do vampiro estavam sombrios e frios, desprovidos de qualquer medo, qualquer arrependimento e pior, desprovidos de qualquer razão.
“Nós vamos seguir o plano” — disse ele com a mente apenas para Alec, Jacob e Charlotte — “Eu vou libertar Arian”.
“Você realmente vai continuar com esta loucura?” — exasperou-se Alec.
“Sim”.
“Edward, Arian pode vir a destruir tudo... todos nós” — disse Charlotte.
“Eu não me importo com isso desde que ele destrua Aro, Caius e Marcus. Jacob, você está comigo?”
“Estou” — disse Jacob sem emoção na voz — “Acho que ainda vamos nos arrepender deste seu plano sombrio, mas não temos escolha. Com Bella preste a virar Rainha, teremos que apelar para esta loucura ou não conquistaremos nada a não ser um morte rápida e inútil”.
- Lotho – chamou Edward uma vez que os outros ainda estavam em choque com as notícias – Você pode nos colocar para dentro dos muros ou não?
- Não, pra ser sincero – respondeu o ferreiro – Quando os Três deixam o castelo simultaneamente, Aro ativa um feitiço poderoso que não permite que ninguém entre ou saia de Volterra... eu fiquei para fora das muralhas durante estes dois dias apenas aguardando vocês chegarem. Ícaro me pediu que lhe transmitissem as notícias, eu não tenho poder para colocá-los para dentro... mas creio que a feiticeira possa.
- Sim – respondeu Charlotte – Eu posso quebrar a barreira.
- Não – disse Jasper rapidamente – Quebrar não, você teria poder para alterar a magia da barreira?
- Eu creio que sim, mas por quê?
- Esta barreira impede que alguém entre ou saia do castelo, bem, para nós talvez seja interessante que nenhum vampiro escape daqui para ir correndo contar aos Três que nós estamos por perto não é mesmo?
- Isso muda o plano original de entrarmos e sairmos sem sermos notados, Jasper – cogitou Carlisle – Você diz que Charlotte deveria alterar a magia para ela continuar não permitindo que ninguém saia do palácio além de nós... bem, o que pretende então? Matar cada vampiro que existe no palácio?
- Os que não se renderem – respondeu Jasper austeramente – Quantos vampiros estão no palácio neste momento?
- Algo em torno de nove dezenas – respondeu Lotho.
- Fácil – sorriu Seth cerrando os punhos.
- Mas alguns são apenas serviçais, nem todos são guerreiros – completou o ferreiro – Os outros são guardas que provavelmente lutarão.
- Então teremos de destruí-los aproveitando que não poderão fugir – disse Edward – Algum deles tem talento especial?
- Os guardas? Não – disse Lotho – São guardas de baixa patente, usados apenas para servirem de bucha de canhão quando é preciso, mas vocês estão se precipitando se acham que com apenas este grupo pequeno podem dar conta de tantos vampiros assim reunidos neste lugar.
- Nós temos a feiticeira – rebateu Edward – E dois lobos que valem cinco vampiros cada um... não nos subestime tanto, Lotho, apenas nos coloque para dentro.
- Como isso será feito? — indagou Carlisle.
- Atrás de nós encontra-se o portão Sul, lar de Stevan – revelou o ferreiro – Passar por ele não é o problema desde que a bruxa consiga ludibriar a barreira, depois disso seguiremos pelos pátios até a entrada para os átrios da ala oeste, ali se encontra o portal que nos conduzirá para as profundidades e é ali que vocês terão de libertar a Princesa Alice.
- Você sabe exatamente onde ela está? — perguntou Vrau Urban – E onde estão Miguel e Alexandrovich?
- Seus companheiros estão selados na Primeira Profundeza, Alice está na segunda e é tudo o que sei.
- Ótimo, lá dentro nos dividiremos – disse Edward – Um grupo desce para buscar os prisioneiros enquanto o outro fica montando guarda. Depois que conseguirmos libertar quem fomos buscar, daremos um jeito de percorrer o castelo subjugando quem for necessário até que tenhamos o controle do Palácio... em seguida estudaremos a questão do Pináculo da Luz. Estamos entendidos?
Não era exatamente o que Carlisle havia planejado para esta incursão por Volterra, mas mesmo ele ficara furioso com a notícia de que Aro se casaria com Bella e isso foi suficiente para concordar com Edward. Mesmo Carlisle teve de admitir que Aro fora longe demais desta vez.
Edward seguiu Lotho para dentro da bruma que se fechou sobre todos, o Portão Sul estava ali há alguns metros de distância e a entrada para Volterra significaria muito mais do que qualquer um deles estava disposto a apostar. Cada um dos companheiros levava consigo uma dose de medo mesclada a coragem, uma dose de desespero misturada com esperança... menos Edward, ele entraria em Volterra com um ponto fixo como meta... desceria até a Última Profundidade e libertaria Arian.
Se Aro achava que havia se livrado de sua fúria ele estava tremendamente enganado. Edward levaria a ele a fúria da tempestade... sopraria sobre os Reis os ventos da tormenta até que nenhum deles restasse vivo.
Carlisle seguiu o filho e atrás dele caminhou Kaori com o coração temeroso, ao lado dela seguiu Alec imaginando que aquele seria seu último momento como um ser caminhante da face da terra. Garret suspirou uma última vez encarando as estrelas e desejando do fundo de seu coração poder ver Kate novamente. Seth seguiu ao lado de Charlotte sem trocar uma palavra com a bruxa... ele já havia dito o que precisava. Jacob seguia atrás do amigo, furioso. O lobo descobriu-se ainda longe de seu amor e isso tornava-o, possivelmente, a criatura mais perigosa do lugar... por enquanto.
Jasper, por sua vez, colheu a mão de Giuliana na sua e sorriu para a menina sussurrando um “vai ficar tudo bem” e enchendo-a de tranquilidade com seu dom. A menina humana, por sua vez, ainda pensava se tudo o que vira e ouvira fazia parte de um sonho, mas não sentiu medo... ela parecia ter esperado a vida toda por alguma coisa que mudasse o rumo das coisas, algo que a tirasse de seu mundo e a levasse para um lugar melhor, e senão melhor... diferente.
Vrau Urban seguia por último... imaginando onde diabos tudo aquilo daria.
Mas uma coisa era certa.
A entrada dos viajantes em Volterra desencadearia mudanças que ninguém estaria preparado para suportar.
O mundo dos vampiros estava prestes a ser alterado... para sempre.
Notas finais
Próximo Capítulo - Bianca: A que detém a Tormenta
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