Candor Lunar - Livro 2
15 Capítulo 14 – Seth Impressionado
Notas iniciais
Gente como eu amo esse autor! Leram o titulo do episodio? Só ele responde 90% das duvidas de vocês com relação ao episodio anterior.
Bjks e até semana que vem.
Diê Kellner
Não se sei ao certo como organizar meus pensamentos, eu nunca fiz isso antes, aliás, sempre permiti que meus pensamentos fossem livres de meu domínio, ou melhor, do domínio da razão. Na verdade é uma coisa estranha, por mais que os anos passem, eu não vejo diferença em mim... Edward disse certa vez que gostava do ritmo dos meus pensamentos, eram simples e puros e nunca ficavam tagarelando coisas inúteis.
Minha mãe me deu o nome de Seth e provavelmente eu seja o único Quileute existente no mundo que tenha um nome com origem árabe, mas minha mãe gostou da etiologia do nome: Seth significa guerreiro.
Muitos anos atrás, Carlisle me disse que guerreiro não é apenas aquele que luta contra alguém, mas sim, aquele que luta constantemente contra as adversidades da vida; alguém que não desiste e que sempre procura fazer o que é certo: um guerreiro da luz. Desde a morte de Leah eu não me sinto guerreiro nenhum.
Ultimamente eu fico dando minhas tiradas sarcásticas para tentar esconder a tristeza bem lá no meu íntimo, no fundo de minha alma, mas a verdade é que os últimos acontecimentos e as ultimas semanas foram exaustivas, tanto física quanto mentalmente. A batalha foi algo apavorante, o rapto das meninas e de Quil e a morte de Leah me tiraram de órbita, eu estava acostumado com a paz e a tranquilidade que se seguiram nos últimos 10 anos... ver meu sobrinho nascer, o amor de Jake e Renesmee florescer... estas coisas deixaram meu coração descuidado.
Eu me desacostumei com o sofrimento, com a dor e com o medo.
Eu vejo Jacob e Edward se atirarem na frente em nossa correria desabalada rumo a Volterra, eles pareciam incansáveis enquanto
procurávamos Erestor ou quando viemos até a Escócia atrás das duas feiticeiras. A vontade de Edward estava alquebrada, principalmente pela perda de seu poder e Jacob... bem, Jacob é pouco mais velho do que eu e eu sei que o coração dele está transbordando de medo de perder Renesmee.
No início eu não imaginava tudo o que encontraríamos quando partimos de Forks em direção ao mundo aberto, sinceramente, a conversa com Erestor me deixou de cabelos em pé; simplesmente encontramos o pai de todos os Volturi, um vampiro tão velho e sábio que me dava arrepios só de olhar para ele. Acho que pelo fato de eu imaginá-lo como um velho decrépito, eu me esqueço sempre da imutabilidade dos vampiros... Erestor parecia usar Natura Chronos para homens com 4.000 anos de idade, eu preciso descobrir onde ele compra este creme.
O pior na verdade foi vir à Escócia, o país é lindo e imenso... mas, francamente... eu nunca vi tanto charco como aqui, vira e meche eu me atolava num terreno molhado; sem contar com os campos sem fim, parece um oceano verde que não acaba nunca. Só de olhar me dava desânimo. E o fato de dormir no relento não ajudava muito, minha cama em casa não é lá estas coisas, eu sinto as ripas da armação nas costas... mas dormir no frio também não ajuda em nada.
Eu deveria sentir asco de vampiros... sei lá, eu era um garoto normal, com sonhos normais e tudo mais, era um quileute pobre e feliz em meu mundinho pequeno e estreito. Agora, sou um lobo peludo que pesa quase 500 quilos e que corre na companhia de vampiros para um lugar onde, provavelmente, seremos todos aniquilados.
Eu não gosto da palavra aniquilado, mas é melhor do que empalado eu acho... morrer empalado deve ser um saco, só de imaginar um palanque sendo enfiado no “forévis” dá arrepio. Enfim, espero que os Volturi não empalem ninguém.
Para piorar ficamos vagando por esta terra de ventos nórdicos por meio mês até conseguir descobrir a entrada para o mundo das duas bruxas... e que mundinho feio, meu! Um pântano fedorento, úmido, estagnado e escuro... eu fico pensando no porquê de elas terem se escondido num lugar tão ridículo... se bem que até faz sentido, não adiantaria nada elas irem para o Havaí, ou para Fernando de Noronha... afinal, eu acho que esconderijos devem ser esquisitos mesmo.
Mas eu nunca senti tantos arrepios na minha vida desde que conheci Salesiana, cara, que mulherzinha assustadora... não era feia.. acho que nenhuma vampira é, mas era estranha. Tinha uns olhos verdes e aterrorizantes e parecia prestes a transformar nós todos em sapos verdes e visguentos; eu nem me sentei quando ela ofereceu, fiquei de sobreaviso, se ela começasse a transformar a galera em berinjelas rosas eu acho que conseguiria me escafeder do recinto antes de virar legume.
Berinjela é legume?
Então, além de aturar a preocupação de Carlisle, o silêncio de Garret, os suspiros de Kaori, o azedume de Jacob e o mal humor de Edward... eu tive que me encontrar com uma bruxa num lugar que mais parecia a boca do inferno. Sem bem que o pior não foi conhecer a bruxa-mãe, mas sim, a bruxa-filha.
E minha gente, que bruxa!
Charlotte não era descaradamente linda, tinha uma beleza lenta que precisava ser contemplada com cuidado, mas isso não significava nem por um momento que não era bonita... tinha os cabelos curtos na altura do queixo, negros como a noite mais profunda; sua boca era rosada com lábios delicados e bem delineados, aquela boca me pareceu quase um pecado a princípio. Tinha o nariz pequeno e o rosto em formato de coração, com um queixo pequeno e delicado, de certo ponto de vista ela se parecia muito com Alice.
Sua voz, entretanto, era firme e forte... uma voz intimidadora que não combinava com seu corpo esguio e frágil, mas o mais impressionante neste conjunto, o mais incrível... eram seus olhos. De um verde faiscante, um verde hipnotizante, um tom que eu jamais vi em qualquer imortal ou mortal, como se fosse uma pedra de jade violentamente clara... descolorida ao ponto de se tornar exótica.
Charlotte era linda além da compreensão humana... mas eu notei que só eu suspirei alto demais... e notei que minha alma parecia ter sido sugada de dentro de mim, colocada para fora e atirada no chão. Eu realmente fiquei sem palavras.
Mas havia algo mais, algo familiar em seu rosto e só depois de conversarmos, só depois de estarmos prestes a ir embora e tendo nosso pedido recusado, que eu notei o que era essa familiaridade.
Tristeza.
A mesma tristeza que habitava o rosto de Kaori se acentuava no rosto de Charlotte, como um véu de misteriosos segredos que a tornavam ainda mais intrigantemente chamativa. Eu realmente me sinto atraído por garotas quietas, eu nunca gostei das escandalosas, são tão estranhas e exageradas, por isso, Charlotte me pareceu fascinante... ela era estranhamente simpática, como se seu rosto triste clamasse por um beijo carinhoso.
Uma pena que nós nos desentendemos fácil. Elas recusaram nossa proposta e eu tive que lhes falar uma verdade, pensei que jamais as veríamos novamente e qual não foi a minha surpresa quando, no momento em que partíamos, Charlotte surge das sombras dizendo que viria conosco e que nos ajudaria.
Por algum motivo estranho, meu coração de lobo pareceu ribombar em meu peito... ela me olhou e aquelas olhos verdes perscrutaram a minha alma como se procurassem algo dentro de mim, como se desejassem saber a dose de coragem que me impulsionava para comprovar que eu poderia protegê-la se fosse necessário. Esta troca de olhares pareceu durar horas, ela olhou para mim quando disse que viria conosco e eu não pude conter um sorriso... obviamente, desconfio que foi o sorriso mais estúpido do mundo, como quando um cão sorri ao dono no momento em que ganha comida.
- Você... irá conosco? – perguntou Edward com cuidado.
- Sim – respondeu Charlotte irresoluta nos olhando com receio.
- O que a fez mudar de ideia? – quis saber Carlisle.
- Eu nunca esqueci a morte de meu pai... eu o amava – respondeu a feiticeira, mas eu pude perceber (ou pelo menos pensei ter visto) quando seus olhos se deslocaram rapidamente para mim – Além do mais, não sou uma covarde, se a morte me espera nas mãos dos Volturi, então assim será... não me esconderei mais.
- Sua mãe...? – perguntou Kaori tímida.
- Não. Apenas eu irei com vocês, me acompanhem, eu preciso me preparar.
Acho que meu cérebro deu uma pane momentânea porque eu não reagi imediatamente ao pedido de Charlotte e acabei sendo o último da fila para retornar até a casa. Eu não considerei a coisa mais legal do mundo ter que voltar para aquele casebre miserável e cheio de aranhas, mas minha alma estava mais leve enquanto eu caminhava e não conseguia tirar os olhos de Charlotte... o movimento de seus cabelos negros e curtos me hipnotizava.
- Mas que sorrisinho retardado é esse na sua cara? – perguntou Jacob me olhando azedo.
- Nenhum... eu só estou feliz que conseguimos – respondi rápido.
Seguimos Charlotte até a casa e ela subiu os degraus para a varanda, mas nos fez um sinal para que não subíssemos.
- Por favor, aguardem aqui – disse ela entrando na casa e fechando a porta, nós todos ficamos ali no jardim, onde a sombra nos interpelou mais cedo, se é que podia chamar aquilo de jardim.
O pântano estava adormecido, não ouvíamos o zumbido de inseto algum... as tochas nas palmas das mãos das estatuas na água queimavam num brilho sonolento e as árvores pareciam nos vigiar com interesse.
- O que será que ela está fazendo? – perguntou Kaori.
- Bem, ela é uma feiticeira – respondeu Garret – Talvez precise levar coisas de feiticeiras... e aconselhamentos de sua mãe.
- Coisas de feiticeira? – perguntei – Tipo, caldeirão e asa de morcego?
- Talvez... – disse Garret, mas eu não sei se ele disse isso de brincadeira ou não.
Já fazia quase meia hora que estávamos aguardando Charlotte voltar, ali o tempo era quase tão insuportavelmente lento do que no mundo real, talvez no Pântano da Desolação os minutos levassem horas para passar... eu me sentei num toco velho que estava por ali, o pessoal estava em silêncio perdido nos próprio pensamentos. Eu andava muito inquieto e detestava ficar sem conversar muito tempo.
- Do que diabo você acha que é feita essa água? – perguntei a Garret que estava próximo de mim.
- Sei lá – respondeu ele – É só uma água estagnada.
- É muito escura para ser só água, tem jeito de ser algo visguento... tipo petróleo.
- É só água, Seth – respondeu Garret sem dar muita importância.
Como não tinha mais nada para fazer, resolvi dar uma fuçada na água do pântano apenas para provar que não era apenas água, me aproximei do leito e notei que ali a terra era enlameada e cedia sob a menor pressão, me inclinei sobre a água e meu reflexo me encarou novamente. Mas como eu desconfiei não era só água, parecia um óleo preto e denso, pequenas bolhas de ar pipocavam aqui e ali; sem coragem de tocar a água com as mãos, resolvi pegar um galho seco que estava jogado por ali e cutucar o lago pantanoso.
Foi algo interessante, a superfície parecia uma película emborrachada, como quando a tinta seca na lata formando uma proteção... e era bem resistente, na verdade, parecia que o lago todo era uma geléia preta e gosmenta. No fim das contas não era água, era uma gelatina escura.
- Aí, Garret – eu chamei – Dá uma olhada neste negócio, eu disse para você que não era água, é uma geléia fedorenta... olha só... ah, espera, acho que consegui furar o negócio... mas que diab...
Mas eu não consegui terminar a frase, no momento em que o galho perfurou a superfície do lago um vapor amarelado foi cuspido para fora como se eu tivesse estourado um saco de farinha no ar. O vapor me atingiu diretamente e era de tal forma fedido que me causou enjôo imediato, sem contar que meus olhos lacrimejaram... de tão abalado eu me ajoelhei no chão.
Só que vapor fétido não abalou apenas a mim, uma nuvem amarelada se formava rapidamente e aumentava cada vez mais, os vampiros começaram a engasgar com o cheiro e Jacob tentava proteger o rosto na camisa.
- Meu Deus, estou engasgando – disse Kaori.
- Mas que droga é esta? – gritou Garret.
- Não consigo respirar... – reclamou Jacob.
Eu já estava prestes a perder os sentidos, lágrimas de náuseas corriam pelos meus olhos e minha visão estava embaçada, meu estômago parecia querer se expelir de dentro do meu corpo e eu já não conseguia respirar direito... quando ouvi a porta se escancarar com violência e a voz de Charlotte soar como um trovão furioso.
- O que está havendo aqui?
Eu vi quando Charlotte fez um gesto rápido com o braço em direção ao pântano, como se estivesse mandando calar-se; imediatamente a nuvem de poeira foi varrida de perto de nós como se um vento feroz tivesse soprado... o ar puro alcançou meus pulmões e eu pude respirar sem dificuldade, minha mente clareou aos poucos e eu ouvi os outros buscando o ar limpo com desespero.
- Quem incomodou o Pântano? – perguntou Charlotte nos olhando com ferocidade.
- Bem – eu comecei a dizer de vagar, o fôlego ainda voltando – Eu cutuquei a água com o galho e...
- Você cutucou o pântano com um galho? – repetiu Charlotte como se não acreditasse no que ouvira, de repente pareceu realmente uma coisa bem estúpida.
- Sim, me desculpe.
- Francamente – ela falou num tom de censura e seu rosto estava lívido – Eu até permito que você se comporte como uma criança uma vez que não passa de uma, mas se portar como um bebê já é demais. Por favor, não torne a fazer mais nenhuma besteira.
E dito isso ela entrou novamente na casa batendo com força a porta; bem, se eu pensava em impressioná-la... já era.
- Meu Deus – eu falei ainda engasgado – Isso tem cheiro de peido...
- É enxofre, Seth – respondeu Carlisle – Tenha mais cuidado ao mexer com o que não conhece.
- Minhas roupas estão fedendo – reclamou Kaori – E meu cabelo então...
- Cara... você conviveu pouco tempo com a Alice e já está assim?
- Todos estão fedendo! – rugiu Jasper.
- O que deu em você, seu retardado? – berrou Jacob furioso.
- Ora – eu gaguejei – Como eu poderia imaginar que o pântano peidaria na gente?
- Eu vou ter de por uma coleira em você.
- Ah, não enche o saco, Jacob.
- Crianças, por favor... – pediu Edward mal contendo o riso.
Não levou muito tempo para que Charlotte saísse da casa e se colocasse no jardim à nossa frente, era visível em seu rosto a preocupação e a tristeza de ter de deixar sua mãe. Salesiana, por sua vez, parou em toda a sua altivez na varanda decrépita da casa e nos encarou um a um... parecia procurar medir nossa força e nossa determinação; quando falou sua voz soou fria e sem emoção.
- Eu deveria amaldiçoá-los por virem até aqui e tirarem minha filha de mim... mas agora devo abençoá-los e rezar para que Charlotte volte para casa sã e salva. Eu jamais sairia daqui... de nossa segurança, mas não posso impedir minha filha de auxiliá-los se for de sua vontade.
- Prometemos que a protegeremos com nossas vidas – disse Carlisle honestamente.
- Eu sei que tentarão, mas eu vi parte de seu futuro, sei que provações virão e que enfrentarão com convicção e vontade... agora lhes darei um conselho, não tanto por vocês, mas mais pelo fato de que quero minha filha a salva. Ouçam: o perigo que lhes aguarda se apresentará por todos os lados, não apenas estará à sua frente, como também atrás... estará ao seu redor os cercando como um predador oportunista. Haverá surpresas pelo caminho e um inimigo se tornará um forte aliado...
- Um inimigo se tornará aliado? – perguntou Jake, mas Salesiana não lhe deu atenção.
- E também precisam saber disso – continuou ela e seu olhar se tornou perspicaz – O perigo estará dentro do coração daqueles que vocês amam, vocês poderão entrar em Volterra, mas aqueles que lá habitam agora estão diferente do que eram antes... por isso, tenham cuidado.
- Nós agradecemos os seus conselhos, Salesiana – disse Carlisle.
- Mais uma coisa! – chamou ela – Edward Cullen... o pensamento que ronda sua mente, esqueça-o! Esqueça-o completamente.
Nós todos encaremos Edward que pareceu momentaneamente surpreso com o aviso de Salesiana, entretanto, sabíamos que aquele não era o lugar adequado para questioná-lo sobre isso.
Charlotte usava uma capa pesada de viagem de tom acinzentado e botas de cano alto, a finesse das Cullen me desacostumou a ver uma mulher usando roupas mais comuns, ainda assim ela estava linda. Carregava uma bolsa de viajem de lona rústica e parecia bem pesada. Eu me ofereci para carregar a bagagem dela, mas Charlotte simplesmente me olhou com ironia nos olhos... uma vampira era dezenas de vezes mais forte que um homem comum, ela jamais se cansaria de carregar uma bolsa daquelas.
Em seguida, ela subiu novamente para a varanda e abraçou com força sua mãe, eu realmente fiquei surpreso por Salesiana tê-la deixado partir com tanta facilidade, entretanto, Charlotte sussurrou algo no ouvido da mãe e a troca de olhares das duas revelou que havia muito mais por trás da boa vontade de Charlotte... Salesiana talvez tivesse interesse em algo além de nos auxiliar. Eu apenas torci para que não estivéssemos caindo em uma armadilha.
- Podemos ir agora – disse Charlotte depois de se despedir da mãe.
- Que a boa sorte lhes acompanhem... espero vê-los novamente, e que a coragem não lhes falte no momento de maior precisão – despediu-se Salesiana, ela permaneceu na varanda enquanto partíamos e eu tive pena dela, era apenas uma vampira antiga e sozinha.
Não foi preciso Jasper desligar seu dom... Charlotte nos liberou do encantamento e simplesmente surgimos nas ruínas da antiga casa, no campo deserto onde o feitiço guardava o pântano encantado. O dia estava claro e frio e Charlotte piscou fascinada para o céu azul, como se lhe fosse estranho haver um céu no mundo real.
- Fazia muito tempo que você não saía aqui fora? – perguntou Jasper.
- Sessenta anos... – Charlotte respondeu baixinho.
O assombro percorreu todos nós, mas eu consegui ficar quieto... afinal, para uma imortal, sessenta anos não deveria ser muito tempo, mesmo que para mim signifique uma vida inteira.
- E agora? – quis saber Garret.
- Bem, acho que não há mais necessidade de fazermos mais nenhum trajeto, não é mesmo, Charlotte? – perguntou Carlisle.
- Penso que não, mas mesmo estando no continente Italiano, não poderemos sair correndo diretamente para Volterra, os olhos de Aro alcançam longe e ele tem espiões por todo o continente, vampiros que lhe servem e que têm o poder de detectar qualquer estranho que surja em seus domínios.
- E o que faremos?
- Tenho um feitiço de ocultação, nos fará passar despercebidos pelos servos dos Volturi, mas, mesmo assim, precisamos avançar com cuidado, eu preciso descobrir se Aro armou mais barreiras de detecção longe do castelo e de Volterra... qualquer um que as ultrapasse alertará os Volturi imediatamente.
- Então, nossa progressão será lenta? – perguntou Edward.
- Cuidadosa, eu diria.
- Bem, antes de qualquer coisa – disse Carlisle – Devemos ir até Wick, fretar um avião para Edimburgo e de lá cruzarmos o oceano até a Itália.
- Mas não poderemos fazer isso agora – falou Jasper – Amanheceu a pouco e será um dia raramente claro e sem chuva aqui na Escócia, em campo aberto chamaríamos facilmente a atenção... receio que seremos obrigados a esperar pelo cair da tarde para nos locomovermos até o aeroporto.
- E onde ficaremos escondidos? – quis saber Kaori.
- Há um pequeno bosque — respondeu Charlotte – Em Haster, um vilarejo minúsculo que fica no caminho para Wick, não é grande coisa, mas pode nos fornecer abrigo durante o dia claro.
Acompanhados de vampiros que brilham como purpurina à luz do dia, Jacob e eu não tivemos escolha a não ser rumar para o bosque até que o dia terminasse... às vezes eu preferia estar acompanhado por vampiros de Bram Stoker, ao menos eles não refletem à luz...
Enquanto caminhávamos pelos campos, longe da estrada para não chamar a atenção, meu coração pesava em meu peito, havia algo estranho em mim, algo que eu não conseguia decidir se era tristeza ou felicidade. De alguma forma que não sei explicar, Charlotte parecia ter magnetizado minha alma... meu coração, e tudo o que eu fazia era atraído por ela; eu não era capaz de desgrudar os olhos de seus cabelos negros... como também fui incapaz de me manter quieto perto dela.
- Tô perdido... – eu suspirei baixinho e Garret que estava ao meu lado arqueou uma sobrancelha estranhando.
Mas eu não disse nada a ele, na verdade, sentia uma necessidade doida de ouvir a voz de Charlotte, tanto que acabei me adiantando um pouco para tentar puxar assunto.
- Então... hum... Charlotte – eu comecei meio sem jeito, ela me lançou um olhar inexpressivo como se eu não passasse de uma bolha de lama – Por que a cor dos seus olhos são verdes?
- Imagino que pelo mesmo motivo que o dos Cullen são dourados – ela respondeu depois de um minuto inteiro em silêncio – Alimentação. No Pântano eu e minha mãe absorvíamos o sangue de repteis... crocodilos, cobras... e alguns outros animais de sangue frio. Isso acabou dando o tom esverdeado em nossos olhos e explica o fato de o seu sangue e o de seu amigo não ter nos despertado a sede por humanos.
- Faz tempo que você não mata um humano?
- Desde antes de seus pais pensarem em se conhecer... – ela respondeu séria firmando o fato de ser muito mais velha que eu, em seguida apressou o passo e se afastou de mim.
- Tentando se enturmar? – perguntou Garret sorrindo.
- Hum... – eu gemi em resposta.
O bosque realmente era pequeno, talvez uns três hectares de terra num formato circular e preservado, provavelmente era refugo de alguma grande floresta devastada por um fazendeiro da região. Mas a mata era suficientemente fechada para ficarmos escondidos até o cair do sol; estávamos todos em silêncio, não havia muito assunto e cada um se encontrava fechado em seus próprios pensamentos.
Edward estava próximo a Carlisle, mas nenhum dos dois trocava qualquer palavra, desde que perdera seu dom, Edward se tornara bastante taciturno; Jasper se esticou no chão e fechou os olhos, não era preciso ser adivinho para saber que ele pensava em Alice. Garret e Kaori falavam sobre o passado, de algum ano exato da história dos EUA... eu nem dei bola; Jacob se sentou de encontro a uma árvore e também fechou os olhos.
Charlotte estava um pouco mais afastada do grupo, sentada no chão do bosque com as pernas cruzadas, ela retirou da grande bolsa de viajem um livro velho e degradado e pôs-se a folheá-lo sem prestar atenção em mais nada. A visão dela ali e seu descaso para com a minha pessoa me deixou levemente
chateado, eu me levantei de onde estava e decidi me enfurnar um pouco mais na mata fechada... não estava com vontade de conversar.
- Aonde vai? – perguntou Kaori.
- Caminhar um pouco.
- Não se afaste muito – falou Carlisle – Lembre-se que este bosque é bem pequeno.
- Falou – respondi baixinho e me enfiei por entre as árvores altas.
Realmente, o bosque era pequeno. Não demorou nem 20 minutos para eu atravessá-lo e quando alcancei uma pequena clareira que já margeava uma plantação verde e reluzente eu parei; não pretendia sair em campo aberto para despertar a atenção de algum fazendeiro de plantão.
Perto do centro da clareira, havia uma elevação rochosa abrigada do sol por folhagens altas que cresciam rente à mata, perdido em pensamentos eu vi ali um ótimo lugar para refletir.
O problema é que nenhum pensamento me vinha à mente a não ser Charlotte. E um frio na boca do estômago se apoderou de mim quando a palavra “Imprinting” me veio à mente... mas não era possível que depois de mais de 10 anos como lobo eu simplesmente tivesse um Imprinting por uma vampira. Ou será que podia? Jake teve a Impressão com Nessie, se bem que Nessie é uma meia vampira... seja o que for eu estarei ferrado.
Charlotte, depois de um momento inicial... parece me ignorar completamente.
Assim, eu não vi o tempo passar e só percebi que o horário de almoço se aproximava quando minha barriga roncou, entretanto, a comida que carregávamos na viajem era precária e meu apetite diminuiu consideravelmente ao me lembrar disso. Uma pena que eu não consegui me isolar por muito tempo, pouco depois de ter sentido fome ouvi as folhagens da
mata se dobrarem e de repente o corpo imenso de Jacob surgiu por entre as árvores.
- Você vai perder o almoço – disse ele se aproximando de mim.
- Eu sei, mas não estou com fome – respondi sem dar importância.
- O que houve, está doente?
- Não...
- Seth, eu nunca vi você recusar uma refeição.
- Só estou sem fome.
- Sério, o que está havendo?
- Nada, Jake... eu estou bem, só cansado da viagem, não precisa se preocupar, eu já estou indo.
- Não me venha com essa, Seth, eu te conheço desde que nasceu e você sempre se afasta quando está deprimido, normalmente fica grudado nas pessoas como um cão bobo... quando está muito calado pode saber que está com algum problema.
- Cara, eu não tenho problema nenhum... por que se importa?
- O que quer dizer?
- Qual é, Jake? Ultimamente você só pensa na Renesmee e em vingança e em nada mais à sua volta... não precisa vir bancar uma de Alfa pra cima de mim a esta altura.
- Do que está falando, Seth? Eu estou preocupado com tudo o que envolve esta viagem, não estamos de férias! Mas não ouse me tratar como um estranho, não estou preocupado por você apenas fazer parte do meu bando... considero-o um irmão mais novo. Preocupo-me como amigo.
- Não é nada que vá interferir em nossa missão – eu respondi simplesmente, mas Jake cruzou os braços com uma cara de teimoso
esperando eu desembuchar a verdade – Eu meio que... tive um... problema repentino... eu acho.
- Problema repentino? – perguntou Jacob.
- Jake... quando você sentia o Imprinting pela primeira vez, você sabia o que era? Digo, você sabia que era a hora certa... que tinha acontecido.
- Imprinting? Claro eu soube, é impossível não saber, no meu caso foi horrível porque Nessie era recém-nascida e eu me senti um monstro, mas a gente sempre sabe quando tem um Imprinting... mas porque você pergunta? Espera... Seth, você teve um...?
- Acho que, bem, mais ou menos...
- Seth – disse Jacob agora realmente surpreso – Mas como, quando, quem?
- Sabe... a Charlotte?
- Sim, a bruxa, o que tem ela? Espera... você teve um imprinting com a Charlotte? A Bruxa?
- É – eu falei sem jeito – Eu acho que sim.
Eu sabia que a notícia do meu Imprinting poderia deixar Jacob surpreso, mas o que me surpreendeu na verdade foi a reação dele; imaginei que ele ficaria pensativo ou que me diria que as coisas são difíceis mesmo... mas esperar uma reação destas de Jacob seria impossível. Ao invés de me dar um conselho, ele fez a coisa mais inesperada que eu poderia imaginar: começou a rir.
Mas não era um riso comum, daqueles risos contidos que saem quase que soprados de nosso pulmão, era uma gargalhada que se iniciou aos poucos e baixinho e que se transformou em um ataque desvairado de risadas. Jacob ria tanto que lágrimas caíam de seus olhos e ele se dobrava em dois; aos poucos
ele ficou sem ar e quando pensei que iria parar... ele começava a desatar a rir novamente. Ria tanto que teve que se sentar, eu fiquei furioso com aquilo.
- Que foi que te deu? – eu gritei – Onde está a graça? Não é engraçado, seu idiota.
- Cara... pior que é – ele falou sem fôlego – Pense bem, todo mundo em La Push me incomodava por eu ter tido o Imprinting por Renesmee que é uma meia-vampira... agora imagina só o que eles vão fazer quando descobrirem que você se apaixonou por um vampira pura... que além de tudo... é bruxa.
E Jacob começou a rir descontroladamente, ele ficou ali sem conseguir se conter e eu ainda mais furioso porque não via motivo algum para riso, era pior do que eu imaginava, apesar de tudo ele tinha razão... eu acabara de ter um Imprinting com uma vampira-feiticeira de mais de mil anos de idade.
Não pude evitar soltar um risinho irônico.
- Qual foi a graça? – perguntou Edward de repente saindo de trás da cortina de árvores, Jasper o seguia de perto.
- Nada... Jacob é idiota assim mesmo – respondi com pressa.
- Seth teve um Imprinting – disse Jacob se levantando com a cara vermelha de tanto rir.
- Sério, Seth... com quem? – quis saber Jasper.
- Com quem vocês acham? – adiantou-se Jacob secando as lágrimas de riso dos olhos – A nossa amiga bruxinha.
- Charlotte? – espantou-se Edward – Você tem certeza?
- É... acho que tenho; e falem mais alto... pelo visto ela ainda não ouviu!
- Nossa, Seth, sinto muito – disse Jasper com sinceridade – Eu acho que ela não gosta muito de você.
- Ah, obrigado Jasper – respondi azedo.
- O que pensa em fazer? – perguntou Edward.
- Eu não sei – disse com pesar – Acho que vou dar um tempo, ela realmente é bastante áspera em seu comportamento e não está tão feliz por nos ajudar, na verdade nem sei por que veio. Então acho que vou ficar quieto no meu canto por enquanto...
- É melhor mesmo, agora vamos, você e Jacob precisam comer alguma coisa, ainda temos a tarde toda para esperar até que o sol baixe.
Eu não os segui imediatamente, mas então Jacob voltou para perto de mim, não havia riso ou sinal de sarro em seu semblante, ele apenas colocou a mão sobre meu ombro e me olhou nos olhos, dizendo:
- O amor não é fácil, seja ele de Imprinting ou não. Se o Cosmo, a natureza, Deus eu seja quem for te fez sentir isso é por que é para ser, então não se preocupe tanto a princípio... as coisas se arrumam em seu devido lugar no devido tempo. Não era isso que você sempre me dizia com relação ao meu Imprinting com Renesmee?
- Sim – respondi agradecido por aquele conselho – Obrigado Jake.
- De nada... agora vamos comer alguma coisa. Não adianta sofrer por amor de estômago vazio, não é mesmo?
Eu segui Jacob através da mata densa do bosque, não estava muito satisfeito com as coisas. Afinal, caminhávamos para uma segunda guerra de onde, provavelmente, sairíamos todos mortos e, para piorar, meu sistema “lobo de amor” acabou se ativando no meio desta empreitada... por uma vampira.
Uma vampira-feiticeira com mais de mil anos de idade, cujos olhos verdes são capazes de hipnotizar a minha alma... mas eu acho que este meu sentido lobo está pifado, como uma vampira assim poderia sequer pensar em gostar de mim? Eu pareço uma criança para ela... nada mais.
Parabéns Seth, parabéns mesmo, você está perdido. Não sei por que estas coisas só acontecem comigo. Meu pai deve estar se revirando no túmulo.
Notas finais
Bjks!!
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