Notas iniciais
Apreciem!
O Episodio está fantastico!!
Agradecimentos a DaniSilva que recomendou o Livro 1.

As trevas nos cercavam por todos os lados, não havia qualquer ruído a não ser o do vento silvando veloz em nossos ouvidos; eu via o corpo volumoso de Jacob Black à minha frente, ele era movido por uma fúria fria que o guiava para mais perto de sua vingança. A correria parecia nossa eterna aliada e fazia com que eu não conseguisse parar de imaginar que a maldição era nossa companheira sempiterna... eu jamais culpei Carlisle pela vontade de ter uma família grande e feliz; entretanto, olhando para tudo o que passamos, não posso evitar de imaginar nossa sina.

Muitos homens mortais, fadados ao eterno delírio de riqueza e poder, anseiam pela vida eterna e pela possibilidade tola de vencer a morte, mal sabem estes homens o quão pesado é o fardo da imortalidade.


Seria mais simples se fôssemos normais...


Foi quando Garret, que seguia na frente, parou subitamente fazendo com que todos derrapássemos pelo chão de folhas, não corríamos juntos, pois a mata fechada e tropical não permitia uma locomoção muito rápida... estávamos espalhados mas todos paramos imediatamente quando Garret freou bruscamente.

“Esperem” — disse ele em nossa mente, usando o dom de Kaori — “Há humanos à frente”.

“Humanos?” — estranhou Carlisle — “Mas eles não deveriam estar aqui...”

“Não mesmo” — reclamou Jasper — “Eu e Garret vasculhamos todo este lado da mata e não havia sinais de humanos...”

“Jacob... Seth” — eu falei rapidamente — “Fiquem mais para trás... se humanos estão por aqui eles irão ouvir vocês dois... são muito pesados para passarem despercebidos”.

“Ouçam...” — disparou Jacob — “Estão se aproximando”.

“Depressa” — gritou Jasper — “Ocultem-se nas árvores, Jake e Seth... recuem para mais longe”.


Imediatamente, os lobos recuaram e nós subimos nas árvores... eram árvores complicadas de serem escaladas, seus troncos eram altos mas os galhos eram baixos e levianos e não conseguimos fazer isso sem emitir ruído algum. Logo, ao longe, ouvimos passos abafados pelas folhagens e um zum zum zum estranho de vozes humanas conversando baixo... aquilo causou uma estranheza imediata em todos nós e eu vi quando Carlisle, a alguns metros longe de mim, lançou um olhar intricado a Jasper que apenas apontou com a cabeça para baixo.

E lá, do meio da mata, entre árvores esguias e folhagens verdes e luzidias pela luz da lua, surgiram, aos poucos, uma dezena de pessoas... andavam lentamente e separadas numa área de algumas dezenas de metros... andavam como se conhecessem bem o caminho e como se estivessem hipnotizadas, não diminuíam a velocidade e entoavam um catingo baixo e monótono... como um encantamento estranho; eram quatro homens e duas moças...

Logo eles ficaram abaixo das árvores onde nos escondíamos e ao chegarem pararam subitamente detendo sua marcha lenta e compassada, um dos homens olhou para cima como se procurasse algo oculto ali e um arrepio gelado perpassou meu corpo. Estaria aquele homem nos procurando? Mas como poderia saber de nossa presença ali? Eu rapidamente compreendi que aqueles seres humanos não estavam vagando por coincidência.

“Eles parecem saber de nossa presença” — falou Kaori e o tom de surpresa carregava sua voz.

“Eles sabem...” — suspirou Jasper.

E eu concordei com ambos... pois sem qualquer aviso, tão súbito quanto o bote de uma serpente, a voz do homem que olhou para cima primeiro soou na noite profunda.


– Ele sabe que vocês estão aqui... e os está aguardando.


Nós ficamos ali, envoltos nas trevas e com a impressão de que nos encaminhávamos para uma armadilha, o homem que havia falado baixou novamente a cabeça e todos eles continuaram em sua marcha ininterrupta por entre a floresta fechada. Por alguns segundos eu não me movi, ainda pensava sobre o aviso que o estranho homem dera, até que finalmente eu ouvi Jasper se desprender do galho e pousar suavemente no chão fofo da floresta... nós os seguimos e momentos depois os dois lobos já estavam novamente entre nós.

“Mas que diabo foi aquilo?” — perguntou Seth através do nosso elo mental.

– Não faço a menor ideia... — respondi – Mas desconfio que nosso amigo Erestor é mais imprevisível do que imaginávamos.

– Eles pareciam estar em transe... — disse Kaori à meia voz.

– Será o poder do vampiro? — perguntou Garret.

– É possível – respondeu Carlisle – Não sabemos qual é a extensão do poder de Erestor ou qual o seu verdadeiro dom, temos certeza de que ele, de alguma forma, tem influência sobre as pessoas do lugarejo; ou pelo menos sobre certas pessoas. Um vampiro muito estranho, este tal de Erestor.

“Será ele um vampiro maligno?” — quis saber Jacob.

– Talvez não – rebateu Carlisle – Obviamente não temos como saber, mas ele não parece fazer mal às pessoas do lugar... por sinal ele nem as mata... apenas as morde, suga parte de seu sangue, mas não as mata.

“Como se ser mordido por um vampiro fosse algo bom” — fungou Jake irritado.


No fim, resolvemos que de nada adiantaria permanecermos parados no meio da mata conjecturando acerca de Erestor, seguimos em frente rumo à Voz do Mundo para encontrar nossas respostas. O clima na Nicarágua era quente e Jake e Seth sofriam as consequências, o corpo superaquecido dos lobos os fazia cansar mais facilmente e muito antes de cobrir metade do caminho o nosso ritmo caiu muito.

Jasper corria na frente, impaciente e feroz, Carlisle matinha a complacência mesmo estando triste por estar tão longe de Esme... Garret estava silencioso e concentrado, Kaori apreensiva, e eu corria como se disso dependesse minha vida. A cada passo que eu dava minha agonia aumentava, cada passo parecia um desperdício, eu queria ir até Volterra para reaver minha Bella... minha Nessie e dar um belo chute em Aro, Caius e Marcus.

Bella... minha querida... meu amor, o que estará você fazendo neste momento?

A noite me lançava sua escuridão crescente e as árvores oprimiam nossa passagem, sobre nossas cabeças um teto incomensurável de folhas negras impedia a passagem da luz das estrelas e não tínhamos qualquer orientação a não ser o Vulcão que assomava-se onipotente a nossa frente como um paredão escuro e intransponível.

Forcei-me a prosseguir correndo como me forçava a fazer tudo... Jacob me acompanhou e Seth veio logo atrás e nossa arrancada foi tão repentina e cheia de energia que acabamos nos antecipando ao grupo, movidos por nossa raiva silenciosa e pela saudade que impulsionava nossos corações. E foi justamente quando Jacob emparelhou comigo que nós deixamos a cobertura das árvores e nos vimos parados em uma grande e larga clareira aberta na mata, uma clareia estranha e perfeitamente sinalizada como se há muitos anos aquela área houvesse sido devastada exatamente daquela forma.

Mais a frente... via-se uma plantação imensa, um vinhedo frondoso suspirando à luz da lua e, mais além, uma casa em estilo colonial e extremamente grande e suntuosa, com janelas de correr e folhas de madeira, um gramado perfeitamente aparado antecedia a residência e tudo era tão fantástico que fui obrigado a me segurar e olhar novamente para tudo aquilo.

– Uma fazenda? — disse Kaori tão estarrecida quanto eu.

“Mas não pode ser aqui...” — comentou Seth em nossos pensamentos.

– Pode sim – respondeu Jasper cerrando os dentes de repente – Sintam... há um vampiro nestas terras.

– Jasper tem razão – confirmou Garret – Ele está aqui.

– Naquela casa? Isso está ficando cada vez mais estranho – eu suspirei.

“Bem, já que não temos escolha... vamos indo” — disse Jacob trotando vagarosamente em direção à casa.


Caminhávamos desalentos e um tanto quanto impressionados, o sol ainda não nascera e o céu apenas começara a clarear, ainda assim, graças aos meus olhos de vampiro eu podia ver todo o esplendor da propriedade que agora cruzávamos. Os vinhedos ocupavam quase todo o campo escurecido onde as uvas cresciam saudáveis e volumosas como rebentos de uma floração perfeita, havia uma pequena estradinha... algo mais que um mero carreiro entre os parreirais, este caminho nos conduzia para a casa que despontava soberana a algumas centenas de metros; uma casa alta de dois pavimentos e tijolos à vista, as sacadas eram de uma armação de ferro antiga em detalhes intrincados... havia luzes acesas na varanda e luzes nas janelas frondosas, um lugar pacato, elegante e estranhamente convidativo.

“Garret” — chamou Jacob — “Passa a mochila pra cá, eu e Seth vamos nos trocar, não quero ficar do lado de fora ouvindo conversa”.

Poucos minutos se passaram até que Jake e Seth deixassem as sombras dos parreirais e se reunissem novamente a nós... os lobos altivos sustentavam olhares desafiadores e cheios de suspeita, estávamos diante de uma incógnita: um vampiro estranho e misterioso.

Chegamos ao portão. Estava aberto e dava passagem a quem quer que desejasse adentrar a mansão rural, havia uma estradinha de pedras brancas conduzindo até uma escadaria alta que antecedia a entrada da casa, lá no alto, as janelas nos observavam em silencio, aguardando o nosso próximo movimento.

– Bem... nós não vamos entrar? — perguntou Jacob estranhando nossa súbita hesitação – Nós estamos em número maior, poderemos subjugá-lo facilmente.

– Não é assim que funciona, Jacob – disse Carlisle austeramente – Erestor não é nosso inimigo, nem nunca nos fez mal algum... nós viemos até ele em busca de conhecimento, sem os segredo que ele guarda você terá uma chance mínima de rever sua Renesmee. Não devemos fazer mal a Erestor, mesmo porque, não desejamos esta mal a ele, vamos com calma e será mais educado perguntarmos se podemos entrar em sua residência do que simplesmente abrir a porta.

– E o que você sugere? — disse Jasper.

– Bem... uma abordagem à moda antiga – e assim, Carlisle se pôs a bater palmas antes de subirmos as escadarias tal qual uma pessoa normal faria para chamar o dono de uma casa.


As batidas de Carlisle ecoaram no descampado escuro e um ou dois cachorros latiram ao longe, por trás da casa assomava-se a figura alta do vulcão que mesmo há muitos quilômetros já encobria o céu em toda a sua majestosa figura. Todos permanecemos estáticos em nossos lugares, o silêncio se fez presente novamente e não sabíamos qual seria nosso próximo movimento caso Erestor não nos recebesse.

Mas, então, finalmente, com um rangido baixo, a porta se abriu e uma mulher pequena e de idade avançada saiu à cobertura amarelada das luzes da casa... olhou-nos com olhos serenos e um segundo depois sorriu fazendo um gesto para que subíssemos.

– Venham – disse ela numa voz calma – Meu senhor os está esperando.

E com isso recuou um pouco aguardando enquanto subíamos os degraus que nos separavam da entrada da casa.

“Ela é humana!” — comentou Kaori.

“De fato... isso está ficando cada vez mais estranho” — eu respondi enquanto os outros mantinham-se em silêncio com a expectativa.

– Eu sou Hermínia Marinez – disse a mulher assim que subimos os degraus, ela olhou-nos um por um e um sorriso se fez em seus lábios antigos – Por favor, podem deixar a bagagem na entrada, vocês devem estar cansados, não é mesmo? Desejam se lavar antes de encontrar com meu senhor?

– Nós agradecemos muito, Hermínia – disse Carlisle cortesmente – Mas preferimos falar com seu senhor primeiro.

A mulher fez uma meia mesura e nos conduziu para dentro da imensa casa senhorial. No momento em que baixei meus olhos para os móveis antigos, para o chão de assoalho polido, as luminárias que ainda sustentavam o lugar para pôr velas e as pinturas dos quadros na parede, eu imediatamente me recordei de outras épocas. A América Central... assim como a América do Sul e do Norte... assim como Europa fora outrora palco da terrível febre do tráfico de escravos africanos, esta era uma casa antiga e senhorial, uma casa de um Senhor de feudos e esta fazenda, talvez antes de abrigar seu atual dono, fora uma grande produtora de café.

– Por favor, sentem-se – falou Hermínia – Aguardem aqui.

Ela nos deixou esperando em uma sala confortável e ampla onde as janelas abertas arejavam o ambiente com o dia que aos poucos clareava, ainda assim, detectamos o cheiro de Erestor por todos os lados... havia uma pintura na parede que me chamou a atenção e instantaneamente as lembranças assomaram em minha mente. Sem perder meu tempo eu bati no braço de Carlisle e apontei para a pintura que tomava um grande espaço na parede maior da sala.

– Estranho... — sussurrou Carlisle.

– O que foi? — perguntou Garret.

– Volterra – eu disse baixinho apontando para o quadro.

– Você está brincando? — falou Seth com uma expressão incrédula no rosto.

– O que um quadro de Volterra está fazendo aqui? — perguntou Jacob verbalizando a dúvida geral.

– Bem, meu caro visitante – disse uma voz profunda atrás de nós – Esta é uma longa história.


Todos nos viramos ao mesmo tempo à procura daquela voz... e lá, na porta de entrada para a sala, estava Erestor. O tempo pareceu desacelerar enquanto eu observava o vampiro à minha frente, durante toda a minha vida, desde que Carlisle me salvou, eu conheci muitos vampiros... mas nenhum tão velho quanto Erestor; obviamente esta velhice não diz respeito à aparência, Erestor era um homem no auge de seus prováveis 35 anos de idade. Entretanto, emanava de si uma antiguidade profunda e esta profundidade podia ser mesurada pela agudez de seu olhar, olhos vermelhos de sangue, mas um vermelho bordo e sacramentado... como se todo o conhecimento que este ser possuía estivesse emoldurado em seu olhar; um conhecimento vasto e enraizado.

Era baixo e atarracado, seu rosto tinha uma forma oval e peculiar, suas faces tinha algo de oriental ou asiático lembrando um pouco os povos da península arábica, sobrancelhas fartas e delineadas assim como seu nariz de fendas largas, sua boca de lábios carnudos abriu-se num sorriso de muitos dentes brancos e caninos afiados quando percebeu nossa surpresa.

Tinha cabelos compridos e atados num rabo de cavalo descendo até a altura da cintura... um cabelo bem escovado e vistoso... que complementava a polidez de sua face, uma face bela e exuberante... ele parecia um rei persa de outrora.

– Por favor, sentem-se – ele disse com uma flexão majestosa da mão, e sorriu quando percebeu que não nos movemos – Ora, meus amigos, eu não lhes farei mal, aliás, creio que seria facilmente subjugado por um grupo tão grande... sob meu teto estarão seguros, eu soube de sua presença desde o momento em que chegaram à minha pequena vila. Mas, enfim, eu sou Erestor... e quem seriam vocês?

– Perdoe nossa falta de educação, Erestor – disse Carlisle se adiantando – Mas, infelizmente, minha família passou por acontecimentos bastante dolorosos e ultimamente até esquecemos de nossos modos. Eu sou Carlisle Cullen, estes são meus filhos Edward, Jasper e Kaori – e eu notei o rosto de Kaori se iluminar por ter sido citada como uma das filhas de Carlisle – Estes são Jacob Black, Seth Clewather e Garret... nossos amigos.

– É um prazer conhecê-los – disse Erestor novamente nos pedindo para sentar e desta vez aceitamos.

– Nós estamos aqui para fazer-lhe um pedido muito especial e urgente... — começou Carlisle, mas Erestor o silenciou com a mão.

– Por favor, Carlisle... eu sei porque estão aqui. Vieram até mim para descobrir os segredos que guardam a encantada Volterra.

– Mas como o senhor poderia saber disso? — perguntou Jasper surpreso.

– Bem, meu caro menino... — disse Erestor rindo – Eu presumo que todos aqui saibam que eu fugi daquelas masmorras há alguns séculos atrás e por isso, acreditem, tenho mantido todos os movimentos dos Volturi sob vigília constante. Sou um vampiro muito bem relacionado, apesar de ermitão, então, quando os Três Reis se movem de seus tronos eu sei quase que imediatamente. A aventura deles à América não me passou despercebido... sinto muito pelas suas perdas, eu ouvi dizer que foram devastadoras.


Erestor, novamente, tirou-nos o fôlego. Este estranho vampiro parecia saber mais do que havíamos suposto e agora nos encarava com um olhar de pena... um terrível sentimento tomou conta de mim, algo muito peculiar que me alertava de que havia algo muito mais profundo e secreto por trás deste velho vampiro. Eu não pude deixar de perguntar:

– Erestor – eu comecei assombrado – Como sabe tanto dos Volturi e de Volterra?

– Ora, é muito simples – disse Erestor tranquilamente – A história dos Volturi tem tudo a ver comigo, afinal, fui eu quem construiu aquele palácio... eu construí Volterra

Eu pude perceber o espanto se espalhando pelo meu rosto, assim como pude perceber o horror se instalando no rosto de todos ao meu lado, por um impulso, Kaori segurou instintivamente a mão de Jacob e ele a apertou, Jasper boquiaberto olhou para Carlisle que não desgrudou os olhos de Erestor... Garret estava igualmente pasmo e, para ampliar meu espanto, eu ouvi uma risada divertida de Seth.

– É – disse ele rindo abertamente – Isso está ficando cada vez melhor, não é mesmo? Daqui a pouco o Papai Noel salta do armário para distribuir doces.

– Seth! – rugiu Jacob – Isso não é hora para piadas.

– Por favor, Erestor – pediu Carlisle – Explique-se.

– Mas não há como eu lhes contar sobre Volterra sem lhes contar a minha história, senhores... estarão vocês dispostos a me ouvir? A ouvir a história de Erestor, o Velho. Um dos Primeiros. Um Filho das Eras?

Nós ficamos olhando-o por alguns minutos sem dizer palavra, agora nossa pressa era testada, por um lado eu queria apenas o conhecimento necessário para salvar Bella e Renesmee, mas, por outro, eu estava extremamente curioso com relação a este vampiro que diz ter construído Volterra. Obviamente... ele tinha um laço muito mais estreito com os Volturi do que até então supúnhamos.

– Por favor, Erestor – pediu Carlisle – Apesar de estarmos com pressa e desesperados, conte-nos a sua história... conte-nos quem você é.


E ele nos contou. E foi desta maneira que todos nós ouvimos a história de Erestor...


“Caminho sobre este mundo há quase quatro mil anos. O que me torna um dos poucos vampiros mais velhos; sou quase tão velho quanto o primeiro de nós, cujo qual eu nada sei a não ser o nome e a idade; já vi inúmeros reinos se formarem e padecerem, presenciei guerras, revoltas e revoluções... tudo o que a história sabe sobre a humanidade... e um pouco do que a humanidade esqueceu de si própria.

Nasci numa cidade chamada Babilônia e meu pai, um comerciante de animais chamou-me de Erabi. Ah, como eram belas as ruas da antiga Babilônia, como eram esplêndidos seus edifícios e seus fabulosos Jardins Suspensos... que hoje em dia não passam de lentas que sobrevivem apenas nas páginas dos livros e do imaginário popular; tão belas suas fontes e vastos seus templos de abóbadas estreladas... mas tudo isso terminou como terminam todas as coisas. Quando fecho meus olhos eu ainda lembro-me do rosto de minha mãe... da barba espessa de meu pai e do riso solto de meus cinco irmãos, ainda sinto o ar das especiarias que fervilhavam no mercado público, nas ruas inundadas de cores e tecidos... das belas mulheres e suas joias douradas. Mas isso tudo não passa de uma lembrança e hoje, com quase quatro milênios de idade, sou composto apenas de memórias que os homens já esqueceram.

Sou uma ânfora de lembranças mortas.

Posso dizer, também, que minha vida foi ceifada de mim pelo meu criador. Morri jovem assim digamos, ainda mais pelos padrões de longevidade daquela época, na antiga Babilônia um homem de cinquenta anos era velho; eu tinha 33 anos quando fui atacado por um vampiro em uma fatalidade despropositada.

Eu era casado e tinha filhos, havia herdado os negócios de meu pai e era um homem feliz, ao menos até deparar-me com a criatura em um beco escuro... hoje eu sei que tratava-se de um recém-nascido ensandecido por sangue e solto na cidade sem o menor cuidado. Na antiguidade não havia tanta preocupação com vampiros e a maioria vivia às escuras, entretanto, alguma alma perversa havia transformado aquele jovem soltando-o sem qualquer informação pelas ruas da cidade... sem qualquer outro desejo a não ser o sangue... ele me atacou.

E eu também me tornei um recém-nascido altamente destrutivo e desprovido de controle sobre meus próprios sentimentos... vaguei para longe da minha querida cidade a fim de proteger aqueles que amava pois eu poderia feri-los ou até matá-los, ou pior... transformá-los no monstro em que fui transformado.

E por anos vaguei... por décadas viajei juntando conhecimento, acumulando riquezas incalculáveis até que tomei consciência de minha imortalidade, compreendi que jamais pereceria e que o tempo não me afetava, ao contrário, me deixava ainda mais poderoso.

Assim, o mundo mudava diante de meus olhos e o que era novo tornou-se antigo e os que eram poderosos foram subjugados, reis caíam, mas outros tomavam seus lugares, imperadores iam e vinham pelo oceano conquistando terras distantes e perdendo terras próximas. A roda dos acontecimentos me espantava, até que finalmente eu me cansei dos séculos que passavam lentamente, até que tudo se tornou monótono e eu desejei, por fim, companhia.

Os humanos eram meu alimento, mas como eu nunca fora um homem de má índole abominava o assassinato e por fim, eu corria atrás apenas dos que carregavam o mal consigo; àqueles de má conduta e caráter eu trazia a morte. Até o momento nenhum humano parecia digno de compartilhar a minha imortalidade.

Apesar de amar a minha cidade eu fui obrigado a deixá-la quando as perturbações e ameaças de invasões bateram à nossa porta e, por fim, os haititas conseguiram tomar e saquear a cidade... terminando com um reinado de 200 anos de minha esplendorosa Babilônia.

Assim eu parti através da Crescente Fértil até chegar à costa e aos portos de Tiro, de lá fugi pelo mar passando por Creta e atingindo Siracusa na Sicília... de onde, finalmente, migrei para as terras da belíssima, sorridente e colorida Itália. Nesta terra cálida encontrei meu repouso, em seus campos verdejantes e quase infinitos eu resolvi me estabelecer, o cheiro doce do vinho me intoxicava e minha paixão por vinhedos nasceu daí, era uma pena que eu apenas pudesse deixar minha casa à noite.

E, em um de meus vários passeios ao luar pela iluminada Toscana, eu conheci aquele que seria o meu companheiro; era um jovem e belo fazendeiro e criador de cabras que habitava sozinho sua imensa propriedade; filho de um homem solteiro, pois sua mãe morrera no parto, e havia poucos meses que seu pai também partira deixando-o a cargo de toda a sua imensa herança... também era muito jovem e ainda não havia se casado.

Chamava-se Francesco... Francesco Velathri.

Descendia dos agitados etruscos, povo que habitava a Toscana naquela época distante, sua voz era alta como é normal dos italianos e era honesto até o último suspiro, seu pai ensinara-lhe bem: a única forma das pessoas confiarem em você é sendo honesto o tempo todo. Apesar da vida no campo era dado às artes e à filosofia, uma pequena e pomposa biblioteca compunha sua residência rural e charmosa; lia de Aristóteles à Ésquilo com o mesmo prazer e com a mesma perspicácia.

Eu passei a visitá-lo todas as noites e enchíamos a madrugada com riso e conversas sobre o tempo, a colheita, história e filosofia; Francesco ficava estarrecido com meu conhecimento dos fatos antigos e mal podia saber ele que não fora devido à leitura de livros que eu adquiri toda esta carga de sabedoria e conhecimento.

Mas quanto mais nossa amizade se estendia, mais crescia a minha vontade de tê-lo ao meu lado para sempre, obviamente, eu o amava e ele nutria o mesmo sentimento por mim... éramos companheiros de solidão. Homens além de seu tempo e que os meros gentis daquela época não compreendiam.

As terras de Francesco, prósperas e imensas, também ofereciam algo muito mais que pastos para cabras e terra para vinhedos, não... lá das entranhas do subsolo também brotavam metais preciosos e isso despertou a cobiça de muitos proprietários vizinhos. Naquela época havia já dois grandes senhores de terras: Montaione e Cecina. Homens grosseiros e ignorantes que exploravam seus escravos obrigando-os a trabalhar até a morte, estes dois ofereceram a Francesco uma grande fortuna pelas terras, obviamente meu grande amigo recusou-se terminantemente a vender a propriedade que pertencera a seu pai... esta recusa acirrou um ódio latente e os dois decidiram que era o momento de tomar à força o que não conseguiram com riquezas.

Ah, lembro-me até hoje do horror das chamas... quando, à noite, cheguei junto às fronteiras das terras de Francesco eu vi sua casa ardendo com o fogo sibilante; corri desesperado até lá para encontrá-lo caído nos escombros de seu lar completamente alquebrado. Havia sido covardemente espancado e atirado ali para fenecer junto às chamas.

E como poderia eu deixá-lo morrer? Francesco que fora meu amigo e irmão depois de tantos anos de solidão? Ele que passava horas durante suas noites conversando comigo e me contanto seus segredos e seus pensamentos.... ele que eu amara depois de tantos séculos sem amar ninguém. Não. Eu não poderia deixá-lo morrer e, desta forma, o salvei transformando-o naquilo que eu era... um imortal.

Fugimos dali assim que Francesco despertou para sua vida de vampiro, durante cinco anos ficamos afastados e escondidos no sul da Itália até que ele se adaptasse à sua vida e compreende-se o que lhe foi oferecido; para meu total deleite, ele abraçou a vida de imortal com muito gosto... planejava ler todos os livros que até então foram escritos no mundo, afinal, agora, teria tempo de sobra para isto.

Mas Francesco não abria mão da vingança contra os homens que o atacaram e me convenceu a retornarmos a Toscana e fazer justiça aos injustos, para tanto, eu não poderia deixar de negar este pedido, eu devia isso a ele, devia porque o transformei em um semi-morto sem sua autorização. E desta forma, como sombras vingadoras da morte, cruzamos o país para punir os que o haviam matado.

Não foi difícil. Em pouco mais de meio dia havíamos assassinado os dois homens, suas famílias, seus servos e incendiado suas casas. E quando pensei que iríamos embora dali, quando imaginei que Francesco havia se cansado da Itália, descobri que meu amigo não desejava partir, mas sim, erigir um palácio formidável nas colinas da toscana, sobre os escombros do que um dia fora seu lar ele decidiu erguer uma fortaleza e ensinar àqueles míseros seres humanos que ali habitavam que ele era o senhor daquelas terras.

E em pouco tempo, algo mais do que 12 anos, o palácio estava formando para espanto de todos os que moravam nos arredores, os pobres camponeses não contavam que aquele castelo fora erguido pelos poderes sobrenaturais de dois vampiros poderosos. Com nossa velocidade e com nossa força, nenhuma torre ou muralha era um empecilho intransponível, na colina erigimos uma fortaleza perfeita de muitas torres e de um palácio espantosamente belo e suntuoso, suas muralhas eram altas, seus aposentos talhados e amplos, seu pátio coroado com flores de muitas plantas e suas masmorras profundas e intrincadas numa série de corredores retorcidos que sempre conduziam para baixo.

Para ser senhor de suas terras novamente, meu amigo mudou seu nome. Agora ele não era mais Francesco Velathri, mas sim... Francesco Volturos.

E à sua magnífica cidade ele deu o nome de Volaterrae.

Há muitos sítios e guerras esta cidade sobreviveu com o passar das décadas, os camponeses que viviam aos arredores foram trazidos para dentro das muralhas graças à bondade de seus dois senhores. Fizemos isso porque desta forma haveria alimento em fartura, nem eu e nem Francesco precisaríamos deixar a cidade para caçar novamente, nosso sangue essencial estava dentro de nosso próprio pátio, na soleira de nossa porta.

Obviamente, nós tivemos nosso apogeu... mas como toda grande cidade... também tivemos nosso declínio. Não me recordarei a data exata, talvez 70 ou 80 antes de Cristo, talvez antes ou depois, o Império Romano estava em plena guerra civil, e nós fomos acusados de traição por estarmos abrigando camponeses que não queriam servir à Roma. Uma bobagem, sempre fomos fiéis a Roma... tanto eu quanto Francesco amávamos sua cultura, sua riqueza, seus aquedutos, seus edifícios e suas esculturas, suas leis; acusar-nos de traição foi só um pretexto para roubar as riquezas de Volaterrae.

E uma vez mais, Francesco viu sua casa ser destruída. O palácio foi invadido e os camponeses foram mortos e vimo-nos ali, tristes e lamuriosos em meio aos escombros de nosso lar, em meio às paredes meio desabadas, às bibliotecas queimadas e livros incinerados, aos gritos e suplícios dos que sobreviveram.

Uma vez mais eu pedi a Francesco que deixássemos aquela terra triste e partíssemos para além dos mares divisores, tudo o que encontrávamos ali, indiferente da passagem dos séculos, era a destruição movida única e exclusivamente pela volúpia da especulação. A riqueza daquele lugar era sua maior fraqueza.

E uma vez mais, Francesco convenceu-me a ficar. Convenceu-me a reerguer os entulhos do castelo. Mas a fortaleza agora havia diminuído e passara a servir de morada para homens santos, era quase um mosteiro e Francesco fora abençoado pelos padres e monges por ter oferecido a eles um lugar de repouso tão confortável. Obviamente, tudo não passava de um plano naquela mente perspicaz que Francesco desenvolvera, o abrigo a uma Ordem Religiosa era apenas uma máscara, uma camuflagem para espantar os invasores e os sedentos por riquezas.

Ali, nasceram muitos homens que se tornaram bispos poderosos, sendo que um deles, Lino, tornou-se um Papa... mas nos submundos, nas catacumbas, nos subterrâneos nós morávamos e nos alimentávamos dos aldeões que viviam sob nossa guarda.

E ali Francesco mudou novamente seu nome. Agora se chamava Francesco Volturi

E a cidade fora rebatizada, recebendo assim o nome de Volterra.

Mas o coração de Francesco, aquele coração puro e honesto havia sido corrompido, corrompido pela dor, pela perda e pelo medo; medo de ter sua casa destruída novamente. Ele prometeu a si mesmo que jamais voltaria a ver seu lar sendo queimado e para isso ele desenvolveu uma solução simples, uma solução eficaz: um exército de vampiros poderosos.

Esta ideia me escandalizou totalmente, eu via em meu amigo uma sombra de ódio que alterava sua face gentil transformando-o em um homem amargurado e vingativo; via em seus olhos rubros o ardor da ira e percebi, lamentavelmente, que ele estava nos arrastando para um poço de lamúrias de destruição.

Eu deveria tê-lo impedido, mas não o fiz... descobri ser impossível repreendê-lo sem perdê-lo para sempre e Francesco me era muito caro para eu simplesmente abandoná-lo. Eu deixei claro que nós deveríamos criar vampiros apenas como companhia e que ele não deveria criar um número tão grande assim; traria muito problemas. A alimentação, o controle... afinal, como ele pretendia controlar um exército?

Mas ele não me deu ouvidos e em um de seus passeios noturnos trouxe consigo um belo jovem de cabelos negros chamado Aro. Aro se tornou o primeiro filho de Francesco e depois dele vieram Marcus e Caius que ficaram conhecidos como os três irmãos Volturi e, para nossa surpresa, Aro e Marcus eram extremamente talentosos; Aro lia pensamentos quando tocava nas pessoas e Marcus sentia o poder dos laços de afeto entre os que observava. Caius era simplesmente um vampiro comum... entretanto, sua sagacidade não parecia ter tamanho.

Com o passar dos séculos... Aro, Caius e Marcus expulsaram os abades transformando Volterra num feudo seu, eles proibiam os vampiros subalternos que foram criando de caçar nos muros da cidade, Aro tinha pavor da anarquia e estabeleceu duras regras a todos os vampiros que faziam parte de sua corte.

No fim das contas, Francesco perdeu o controle sobre seus filhos e eles o destruíram... a mim, acharam que seria mais divertido prender-me num calabouço para o resto da eternidade. E eu fiquei séculos atado em uma cela encantada de onde só fugi por pura sorte... por um toque malicioso do destino que nos traz exatamente a este momento, senhores, a esta sala e com este propósito”.


Por alguns minutos eu permaneci estarrecido e acho que todos nós estávamos assim, Carlisle tinha um ar pensativo e Jasper ainda tinha a boca aberta, Garret parecia estar digerindo tudo o que lhe fora contado enquanto Kaori tinha cara de quem não acreditava no que acabara de ouvir. Os lobos estavam igualmente perdidos.

Agora, apesar de muitas perguntas gritarem em minha mente, nenhuma chegava à minha boca ou conseguia ser verbalizada, eu estava completamente aturdido com tudo o que este homem acabara de contar... tudo o que fez.. o que viveu.


Nenhum de nós conseguia expressar qualquer reação.


Ali, sentado tranquilamente à nossa frente, estava o criador de Volterra... o homem que criou o primeiro Volturi... o homem que era praticamente o avô dos Volturis. Este era o vampiro que começara tudo, ali, velho e lento, olhando-nos com um interesse incomum; sua pele de uma brancura tão intensa que parecia emanar uma aura prateada, seus olhos rubros e leitosos, sua antiguidade emanando de si como um aviso de que este era um dos seres mais velhos que caminhavam sobre a terra. Eu nem podia imaginar sua idade, tudo o que ele já vira... tudo o que presenciara... era muita informação... ali, parado nos olhando, oculto no meio do nada, num vinhedo à beira de um vulcão, numa casa colonial elegante e escondida ... morava Erestor.


Erestor, Um dos Mais Velhos... um Filho das Eras.


Erestor... o Pai de Todos os Volturi.


Notas finais
Por favor! Cade os Reviews? Nós merecemos não?