Candor Lunar - Livro 2

30 Capítulo 29 - A Fada Aprisionada


Notas iniciais
Olá.
Vamos ver ser aos poucos diminuo os intervalos da postagem.
Quero ver se em duas semanas já posto o próximo.
E as coisas fluindo para um fim... seja ele qual for... kk
Boa Leitura.

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Os degraus de pedra ecoavam os passos, amplificando o som de uma forma agourenta, a escuridão opressiva só era levemente dissipada com a luz esmorecida das tochas que queimavam umas distantes das outras. As paredes de pedra maciça eram frias como um cadáver e a sudorese da rocha escorria por todos os lados umedecendo os degraus tornando-os traiçoeiramente escorregadios... ao longe (uma distância incalculável e indefinível) uma goteira se alojava na escuridão pingando suas gotas solitárias sobre alguma poça invisível e fantasmagórica.

Naquela profundidade absoluta até mesmo os sentidos dos vampiros era quase que completamente anulado; a audição captava apenas o abismo abissal do nada escuro, o olfato apenas distinguia a umidade ácida das paredes, mas os olhos, por sua vez, eram capazes de ver além do brilho das tochas no corredor, mas tudo o que viam eram degraus e mais degraus, descendo em espiral para o que parecia ser o núcleo do mundo.

Aro seguia na frente silencioso como uma sombra dentro de sombras, o rei nada dissera desde que desceram pelo portal no pátio que dava acesso às catacumbas. Ali nenhum guarda os seguiam, os segredos das prisões apenas ao Rei pertencia. Mas uma leve taciturnidade se apoderara de Aro, era como se ele não gostasse de descer até as profundidades, uma tristeza tomou conta de seus olhos tornando-os distantes como se estivessem perdidos em lembranças e acontecimentos há muito passados.

A cada quinhentos degraus (era mais ou menos isso, mas depois da primeira profundidade, Bella perdeu as contas) havia um andar e a escadaria, envolta num túnel escuro, abria-se para um salão subterrâneo. As princesas sabiam que se tratava de um espaço imenso porque a sensação de vazio se apoderava delas oprimindo-lhes o peito com uma pressão de não saber. Nos salões abertos não havia luminosidade alguma, qualquer tocha para quebrar o tom absoluto de negro do ambiente, mas as vampiras, com seus olhos sobrenaturais, conseguiam distinguir nas paredes de rocha a impressão de grandes portas.

E isso, elas perceberam com horror, eram as celas contento prisioneiros seculares.

Quando passaram da Primeira Profundidade e voltaram a descer, Alice segurou com força a mão de Bella como se estivesse determinada a não soltar da irmã até que tivessem chegado ao destino que a aguardava. Alice fora muito corajosa e manteve sua dignidade depois que Aro e Bella retornaram ao Salão dos Tronos para compartilhar a decisão que fora tomada na conversa particular entre rei e princesa.

Caius não ficou satisfeito, ele considerava que Aro estava se tornando perigosamente beligerante demais, mas Marcus nada disse apenas se limitando a aquiescer brevemente para lembrar o que havia dito sobre Alice: ela não deveria sofrer qualquer dano, apenas ser aprisionada. O problema era que a prisão estava pondo à prova a resistência já minguante da fada vampira.

Os olhos temerosos de Alice espreitavam com medo o túnel inclinado que sempre conduzia inexoravelmente para baixo, ela deixou de contar os degraus que descia para não entrar em pânico e a todo instante lembrava para si mesma que Bella estava se sacrificando para mantê-la viva. Sobre a irmã pairava todo o peso, pois, afinal, quando ela visse Bella novamente a irmã seria uma rainha. Ela apenas precisava passar alguns dias presa num calabouço a centenas de metros abaixo da superfície... um local que era praticamente um túmulo.

Um túmulo recheado de pessoas mortas... de fantasmas.

Finalmente, depois de mais meio milhar de degraus, um novo andar os recebeu igual ao anterior, um espaço sinuoso e opressivo, escuro como breu, silencioso como uma cova e frio como uma geleira. Alice olhou aquele espaço vaziou e sentiu como se aquela maça de escuridão a encarasse cobiçosa por sua companhia e por sua sanidade.

Bella a abraçou com força, mas não conseguiu olhar em seus olhos.

- É aqui – declarou a voz de Aro, possante como o tiro de um canhão ali naquela profundeza sem som.

O Rei seguiu em frente, caminhando como se flutuasse, flutuando como se caminhasse, seus passos não emitiam qualquer som, ele simplesmente pairava no ar como uma assombração, uma sombra mais densa e escura como a própria sombra que o envolvia. E Bella e Alice seguiram-no com seus corações pesados e repletos de hesitação... mas, de repente, pararam.

Aro parou.

Alice sentiu a força que os fez parar. Era como uma coceira leve no fundo de sua mente, como se algo estivesse tentando entrar, empurrando uma membrana muito sensível para dentro de seu pensamento. Bella surpreendeu-se com a parada brusca e olhou de Alice para Aro sem compreender o que os dois estavam fazendo, ela não sentiu o que os outros dois sentiram graças ao seu dom que lhe escudava a mente contra qualquer ataque.

Mas Alice sentiu e logo percebera que o Rei também. Aro virou-se para elas, mas mesmo ali na escuridão elas perceberam que ele olhava para além delas, olhava na direção da escadaria no fundo do salão que conduzia até a Terceira Profundidade e, talvez, mais além. Alice, um segundo depois, também se virou e ficou olhando para abertura.

O que foi? — perguntou Bella intrigada.

- Você não está sentindo? — Alice falou sem tirar os olhos do fundo do salão – É uma força, uma presença... uma coisa estranha como se uma montanha estivesse pousado sobre o meu peito. Não sei o que pode ser, mas é poderoso.

Aro estava em silêncio e Bella olhou para a passagem da Terceira Profundidade, olhou durante um tempo para ver se sentia o que Alice descrevera como uma força estranha; ela não sentia a presença que a irmã mencionara, mas, então, depois de direcionar todos os seus sentidos de vampira para o lugar ela notou algo, ou melhor, sentiu algo. Havia sim uma força, mas Bella também sentiu um cheiro... o cheiro da morte; subia na forma de uma hálito gelado, um vento sem vida e Bella sentiu um formigamento em sua pele, aquilo que ela sentia era raiva... a personificação do ódio. A força que Alice dizia sentir feito o peso de uma montanha era o ódio que emanava daquelas profundezas ocultas na escuridão sob elas.

Aro virou-se e deu um passo raso para longe do fundo do salão e neste instante um som ecoou pela escuridão das catacumbas, o som como o de um desmoronamento, era como se as rochas da prisão tivessem sido golpeadas com uma força descomunal... uma força divina. E Bella e Alice sabiam que algo muito poderoso habitava aquelas profundezas, algo poderoso e ávido por liberdade.

Alguma coisa queria escapar dali.

- Ele está furioso – sussurrou Aro – Depois de tantos séculos, continua furioso.

- Quem? — perguntou Bella.

- Arian – disse Aro.

- Quem? — tornou Alice.

- Não importa... vamos – sentenciou o Rei voltando a andar para o outro lado onde as portas das celas se postavam uma ao lado da outra como sentinelas mudas e finitas.

Alice e Bella continuavam receosas por aquela força de ódio que as atingiu, mas continuaram seguindo Aro Volturi para o fundo do salão tumular; o silêncio era tão grave que beirava a obscenidade, como se qualquer som tivesse sido banido daquele lugar sob pena capital.

Por um longo tempo caminharam, seguindo aquela luz bruxuleante da tocha de Aro, ele enfiou-se nas trevas até chegar a uma das portas seladas, do saco que trazia consigo tirou um pequeno frasco com um líquido escuro, ao abrir o frasco um cheiro de sangue inundou o salão. Bella e Alice sabiam que aquele era sangue fresco de um humano, mas imaginaram que apesar da quantidade e das leis Volturi, a pessoa cujas veias foram drenadas talvez ainda estivesse viva.

Mas não se podia confiar cegamente nos habitantes de Volterra.

Aro besuntou a palma da mão esquerda com aquele sangue viscoso e depois a espalmou bem no centro da porta pressionando o pulso para que a marca de sangue ficasse nítida na madeira, à claridade da tocha, a marca reluziu como se emanasse luz própria. Em seguida, Aro disse apenas uma única e rápida palavra.

- Enogh!

E a porta se abriu girando com estalos em suas dobradiças antigas. De dentro da cela um ar abafado, velho e quente surgiu como um vento agourento, nada se via dentro da prisão, apenas um nada escuro e impenetrável.

- É aqui, declarou Aro.

- Bem, acho que esse é literalmente o meu “fundo do poço”, não é mesmo? — riu nervosamente Alice tentando em vão parecer corajosa.

Aro entrou na cela que se mostrou à luz da tocha, amplo e triste, era como uma gruta totalmente oval com pelo menos quinze ou vinte metros quadrados. Nas paredes havia armações e suportes de onde pendiam tochas apagadas, Aro acendeu-as uma a uma.

- Esta é uma regalia que não costumamos ceder a nossos convidados – disse ele, sua voz ecoando – Estas tochas permanecerão acesas por mais de dez dias, o suficiente para termos voltado, ao menos você não ficará no escuro o tempo todo, já é algum conforto.

- Desconfio que conforto seja eufemismo, Aro – disse Bella que depois de ter aceitado de vez se casar com o Rei nunca mais usou novamente o tratamento de “mestre” ou “senhor”, ela provavelmente não seria uma esposa muito fácil – Não há absolutamente nada aqui.

- É uma cela, Isabella – retorquiu Aro numa voz amável, ele parecia adorar quando Bella o contrariava, a bem da verdade, parecia ser justamente por isso que ele a amava – O que esperava... uma cama, TV por satélite e uma jacuzzi?

- Eu não gosto quando você é sarcástico, Aro.

- Me perdoe, é inevitável às vezes. Mas posso providenciar uma cama, além das luzes.

- Eu vou desconsiderar novamente o seu sarcasmo, mas não falarei mais com você até que deixe de agir assim – disse Bella visivelmente chateada.

- Me perdoe minha princesa – respondeu Aro sorrindo e fazendo-lhe uma reverência – Eu não mais agirei assim em sua presença.

E Alice, que se encontrava entre os dois, sentiu um mal estar. Bella e Aro estavam começando a se tornar familiares demais um com o outro, ao ponto de parecerem realmente se gostar, ao ponto de as implicâncias não serem mais por raiva, mas por puro hábito. Era como se os dois se entendessem desta forma. E Alice não gostou daquilo, assim como não gostava de ter se apaixonado por Matheu, mas no fim, ela apenas suspirou e pensou consigo mesma “dane-se, estamos ferradas mesmo”.

- Mas isso ainda é uma cela e Alice está sendo punida – disse Aro e seu rosto estava sério – Apenas de tudo, graças a Marcus os Volturi foram misericordiosos e sua irmã só permanecerá poucos dias nesta cela. Depois do casamento nós retornaremos e ela será solta. As luzes não vão permitir que este local permaneça tão opressivo... e é tudo o que posso fazer.

Como o momento era iminente, Alice encarou Bella que mantinha no rosto um ar assustado e as duas não conseguiram falar qualquer palavra.

- Você poderia nos dar licença um momento? — perguntou Bella a Aro, o rei aquiesceu e deixou a cela indo aguardar sua noiva no salão escuro.

- O que eu faço com você? — perguntou Bella encarando Alice que já tinha uma expressão de choro no rosto – Não acho que consiga te deixar aqui, nesta catacumba há não sei quantos metros de profundidade.

- Temos escolha? — perguntou Alice.

Não tinham.

- Mas olhe só todo este pó.

- Bella, sujeira, no momento, é o menor de meus problemas.

- Oh, eu sei disso. Mas eu não consigo te imaginar aqui sozinha, no meio do nada. Você é você, entende? É a coisa mais delicada e boba que conheço, eu deveria ter batido o pé e impedido que Aro te...

- Bella, sem drama – disse Alice com firmeza – Eu sou mais velha que você e era eu quem deveria estar tomando conta de todos, ao contrário, o peso caiu sobre os seus ombros. Então pare, por favor. É uma sorte eu estar viva, acha que uns dias presa aqui será tão ruins quanto ter a cabeça separada do corpo? Não seja boba, nos veremos em breve.

- Não ouse bancar a forte comigo, Alice.

- Bell, eu estou me borrando toda de ficar neste túmulo. Você sentiu aquilo, tem alguma coisa estranha neste lugar, mas não podemos fazer nada, e realmente é uma sorte eu estar viva... você vem me buscar depois de... você sabe.

- Eu me tornar rainha?

- É, isso... agora não temos escolha. Faremos o que temos de fazer, não é? Cuide de Nessie e de Quil, por favor, e tente, se puder, demorar menos do que está previsto.

E então as duas se abraçaram, apertadas uma contra a outra com tanta força que poderiam passar a eternidade sem se separarem, Alice e Bella amavam-se como irmãs de sangue; o destino talvez tenha transformado Alice em imortal apenas para poder encontrar em Bella sua irmã de alma. O que unia as duas era quase tão forte quanto o que as unira a Jasper e Edward, era um amor fraternal e eterno que não seria quebrado por nada no mundo.

Mesmo sem saber naquele momento de incertezas... Alice seguiria Bella aonde a irmã fosse por séculos e séculos à frente. Mesmo quando Bella se perdeu na busca por Níneve, mesmo quando Lycos foi libertado e ameaçou lançar ao mundo a maldição dos lobisomens novamente, Alice continuou ao lado de Bella. E ainda, quando o poder dos Primeiros Filhos estava para ser despertado e o Primeiro caminhava novamente sobre o mundo e tudo era caos e trevas, Alice permaneceu ao lado de Bella.

Alice ficou ao lado da irmã até o fim do mundo.

E as duas, mesmo sem poder saber tudo isso naquele momento, tinham a estranha certeza de que passariam a eternidade próxima uma da outra.

- Agora vá – disse Alice num sussurro – Vá.

- Eu voltarei aqui pra buscar você, juro – respondeu Bella.

- Eu sei que vai.

Alice beijou Bella no rosto e num breve momento de hesitação, afastou-se da irmã ficando sozinha no centro daquela cela deprimente. Alice parecia uma fada princesa, linda, radiante, delicada... e contrastava violentamente do local onde se encontrava; mas ela também decidiu ser forte e não permitir que Bella ficasse ainda mais nervosa, afinal, a irmã teria de se casar com Aro, teria de se tornar Rainha e fazia isso para mantê-la viva. O fardo de Bella era bem maior que o seu.

- Vejo você em poucos dias – disse Bella.

No momento em que a irmã deixou a cela, Aro se aproximou e fechou a porta com um rangido triste, Alice ainda captou um último olhar melancólico de Bella antes de ser completamente selada. As tochas permaneceram como suas únicas companhias, serenas e faiscantes lançando no ar um estranho cheiro de óleo e um estalar crepitante e lento.

As pedras que formavam as paredes eram essencialmente irregulares e ali tudo parecia abafado naquele local hermeticamente fechado. O teto era razoavelmente alto e ela decidiu não se sentar, esta era uma vantagem de ser vampira, poderia ficar em pé para sempre sem se cansar.

Mas, inevitavelmente, uma aflição se apoderou de seu coração. Ela estava selada nas catacumbas e não via a hora de Bella retornar para tirá-la dali.

Isabella subia as escadarias um passo atrás de Aro, ela manteve-se calada por todo o percurso e agora já estavam passando pela Primeira Profundeza, mas a expressão emburrada de Bella ao em vez de causar desagrado em Aro, o divertiu imensamente. Apesar de que, ao falar com a Princesa, o Rei foi extremamente cauteloso.

- Partiremos para o Pináculo da Luz amanhã ao cair da tarde – disse ele em tom trivial – Lorde Ecclestone de Londres, um de nossos vassalos, cedeu gentilmente o seu alfaiate para a confecção de seu vestido de noiva.

- Muita bondade a dele – respondeu Isabella azeda.

- O alfaiate de Lorde Ecclestone é famoso, atende boa parte da corte vampira há séculos. Há alguma cor de sua preferência?

- Não estou muito animada para escolher cores ou provar vestidos.

- Penso que com o tom de seus cabelos, azul celeste seria uma bela cor para combinar com seus olhos.

- Não ouse me fazer um vestido azul celeste, Aro – chiou Isabella.

- Vermelho, então? – indagou o rei com o rosto sério. Mas Aro, na verdade, estava extremamente satisfeito e exultante, a presença de Bella o animava, deixava-o mais leve, mesmo ele sabendo que ela se encontrava chateado.

- Eu não me casarei de vermelho! – sibilou Isabella.

- Branco? – arriscou o rei novamente, virando-se para ela que se encontrava dois degraus abaixo.

- Definitivamente não.

- Então fiquemos no meio termo, pérola ficaria perfeito em você.

- Pérola então, mas sem muitas ornamentações, Aro, eu não quero parecer um bolo de aniversário – disse Isabella fechando a cara para ele, havia um tom de ameaça em sua voz.

- Pérola, combinado. E você poderia não permanecer de mau humor, o que me diz?

- Acabei de ver minha irmã ser selada em um buraco, deveria estar satisfeita?

- Deveria estar satisfeita de ela continuar viva – rebateu Aro.

Mas a princesa apenas amarrou a cara para ele e permaneceu em silêncio até deixarem para trás a Primeira Profundeza, os passos ecoavam baixos contra os degraus de pedra, aos poucos a sensação opressiva da escuridão aliviando no peito de Bella que, apesar de se ver aliviada de ter deixado as catacumbas para trás, sentia seu coração pesado por sentir a irmã tão distante... presa numa cela eterna.

- Como funciona o casamento de vampiros? – perguntou Isabella curiosa.

- Como um casamento qualquer, mas temos um capelão que é amigo nosso há séculos... é ele quem sempre realiza os casamentos em nossa família. Mas é tudo parecido com no casamento dos humanos.

- Por que se preocupam com uma cerimônia religiosa?

- Hábito, eu suponho.

- Algo que os aproxima dos humanos? – disse Isabella num tom perigoso insinuando contra a mania de Aro dizer que os vampiros não podem viver como humanos.

- Eu disse que é parecida com a dos humanos, não idêntica. Temos nossos próprios ritos, por assim dizer. É algo mais parecido com o casamento civil do que o religioso.

- E o que eu vou ficar fazendo depois de me tornar rainha? Ficarei vagando pelo palácio como um fantasma?

- Não. Irá até Carlisle para pedir que ele se uma a nós... e terá total liberdade para visitar seus pais quando quiser. Renesmee poderá cursar faculdade onde preferir e Alice também poderá ficar ao seu lado se assim decidir.

- Ela anda recebendo muitas propostas de casamento. Eu não quero minha irmã longe de mim.

- Eu não a afastarei de você – respondeu Aro.

- Ótimo – tornou Isabella parecendo seca, mas extremamente aliviada.

A tarde raiava com um faiscar de luz cintilante, o pátio do palácio estava fresco e Isabella recebeu no rosto o frescor da tarde na forma de uma brisa cálida que transportava o cheiro de jasmim do Jardim do Bem e do Mal de Caius. O céu era uma tela azul sem qualquer traço de nuvens e a tarde estava agradável ali, seria uma tarde perfeita se Alice não tivesse sido presa ou se tudo o que aconteceu não tivesse acontecido.

- Eu terei de permanecer no Salão ao seu lado? — perguntou Isabella.

- Acho que podemos deixar de lado estas condições no seu caso – respondeu Aro.

- Ótimo, vou para a torre, preciso falar com Renesmee. Seria pedir demais para que ninguém nos incomode até o cair da noite?

- Seu desejo é uma ordem, minha princesa – disse Aro – E não precisa se preocupar com relação à Jane, eu darei um jeito nela.

- Ah, fico satisfeita com isso – retorquiu Bella.

- Então nos vemos à noite – disse Aro que colheu a mão de Isabella com um leve beijo de seus lábios gelados.

- Como queria... meu mestre Aro – respondeu ela levemente tensa.

Aro Volturi seguiu para dentro do castelo deixando Isabella sozinha no pátio, por um instante ela teve a impressão de que iria se desesperar, mas engoliu aquele sentimento e simplesmente apagou os temores de seu coração. Ela já havia tomado sua decisão, seria forte, seria uma rainha.

E agora chegara a hora de enfrentar Renesmee.

A bem da verdade chegara o momento de sua filha amadurecer nem que fosse à força, infelizmente Nessie não tinha mais à sua disposição o direito de crescer como uma menina normal, ela teria que assumir sua sobrenaturalidade... teria de ser mais. Teria de ser adulta.

Giordano estava a postos no hall de entrada aguardando para escoltar sua Princesa até a torre. O sóbrio cavaleiro mantinha sua habitual expressão séria no rosto e agora parecia estar particularmente tenso com alguma coisa. As escadarias da torre receberam-nos com mais uma dose de ecos nas pedras brutas e foi apenas neste momento que Giordano falou:

- A menina está nervosa – disse ele simplesmente.

- Ela tem motivos para estar – replicou Isabella.

- Jane tentou passar para vê-la, mas segui as ordens de mestre Aro e não permiti.

- Imagino que ela não recebeu a notícia com boa vontade – riu Isabella.

- Oh não... de forma alguma, para ser franco, quando cruzei minha lança no corredor ela ficou furiosa. Minha cabeça está latejando até agora.

- Ela usou o pode dela em você? — disse Isabella voltando-se para Giordano, uma fúria fria se instalando em seu rosto.

- Sim, mas Jane é a Capitã da Guarda, era visto que ela não ficaria satisfeita com a minha...

- Venha comigo Giordano – chamou Bella descendo as escadas e não deixando o cavaleiro terminar de falar.

- Mas minha senhora, aonde vai?

- Vou fazer com que Jane lhe peça desculpas, eu não vou permitir que ela saia pelo palácio torturando os outros.

- Mas... minha princesa...

- Apenas venha comigo.

O cavaleiro desceu em silêncio atrás de Isabella que caminhava a passos largos e pesados pelos corredores de pedra em direção ao Salão dos Tronos, ao chegar lá as portas duplas automaticamente foram abertas pelos dois guardas que ali se postavam, Giordano, como costume, parou no limiar do Salão, os cavaleiros ali só podiam entrar com o consentimento dos Reis.

- Giordano, venha comigo, por favor – chamou Isabella.

- Mas minha senhora – preocupou-se o cavaleiro.

- Eu ordeno que venha comigo – disse a vampira, categórica, e Giordano entrou arrastando os pés atrás dela.

No salão estavam apenas Caius e Aro em seus tronos altos e esculpidos, a Guarda Volturi reunia-se em silêncio ao redor deles: Jane, Renata, Felix e Chelsea. Todos mudos como estátuas. Caius falava alguma coisa com Aro que prestava atenção a tudo o que o irmão dizia, porém, no momento em que Isabella entrou no salão, sua atenção se moveu diretamente para ela. Mas o rosto de Isabella não estava feliz, era uma máscara de insatisfação marcante.

- Agora você entra sem se anunciar? — Caius indagou com um rosto levemente cansado.

- Não foi me dada a liberdade para isso? — atreveu-se Isabella, mas ela continuou logo em seguida antes mesmo de Caius ter tempo de responder alguma coisa – Vim aqui fazer uma reclamação formal.

E dito isso, com a maior cara de pau, Bella subiu os degraus e dirigiu-se até onde Jane estava parada, olhando-a com certo ar de surpresa. Aro apenas acompanhou sua noiva com o olhar, mas apesar do rosto sério, seus olhos sorriam para ela de forma divertida.

- Você irá pedir desculpas a Giordano – disse Isabella para Jane.

- Você só pode estar brincando... — rugiu Jane como um tigre ferido, o ódio fuzilando a rival.

- Eu sou sua Princesa e sua futura Rainha, Jane e você fará exatamente o que eu ordenar – retorquiu Isabella diante do olhar estupefato de Caius.

- Mas o que, em nome dos céus e dos infernos, está acontecendo aqui desta vez, Isabella? — reclamou Caius completamente ultrajado.

- Jane agrediu o meu Cavaleiro e não tolerarei isso. Não vou admitir que um mero membro da Guarda saia pelo palácio agredindo ou aterrorizando qualquer outro membro desta Corte. Jane não é nada a não ser uma serva, ela não pode usar seu poder para torturar qualquer um sem o consentimento dos Três ou de suas esposas.

Felix fez um ruído como quem segura uma gargalhada, Chelsea estava em choque e Renata parecia apiedar-se pela humilhação que Jane estava sofrendo; Caius, por sua vez, também parecia levemente em choque sem saber ao certo como reagir àquele ultraje, mas, por sorte, Aro estava ali.

- Você agrediu Giordano, Jane? — perguntou ele numa voz fria e ameaçadora e Jane se encolheu de medo.

- Sim, meu mestre Aro – respondeu ela.

- E qual o motivo?

- Ele não me deixou passar para o corredor das Torres.

- Giordano cumpriu seu papel – reinou Isabella – Ela está proibida de chegar perto de Renesmee.

- Você estava tentando ver Renesmee, Jane? — tornou a indagar Aro.

- Sim, meu mestre.

- Algo que está proibida de fazer, ou será que agora passará a desacatar os meus pedidos?

Havia uma raiva vertendo do olhar de Jane, mas também medo. Aro era o Rei, e Rei era Rei, os Volturi não admitiam insubordinação e Jane sabia que Aro e Caius não eram exemplos de complacência... mesmo para com ela que era uma das joias da guarda Volturi.

- Desacato de ordens dentro da Guarda – bufou Caius – Era só o que nos faltava.

- Você fará o que sua Princesa pede – declarou Aro.

- Me desculpar com um inferior? — horrorizou-se Jane – Nunca, eu não farei isso. Não serei humilhada a este ponto.

- FARÁ O QUE EU ORDENO, SERVA – berrou Aro em fúria fazendo com que até mesmo Caius pulasse de seu trono – Esquece-se da hierarquia de nossa casa? Reis, Rainhas e Princesas possuem o direito sobre qualquer servo neste castelo. Isabella será sua Rainha em poucos dias e ela terá poder sobre você tanto quanto eu ou Caius ou Marcus. Entenda de uma vez por todas, Jane, somos nós quem seguramos a coleira, nós ditamos as regras e nós exigimos respeito e obediência. Ou será que você está pensando em trair seu juramento a nós?

A última frase esvaziou o que poderia haver de raiva em Jane, a ameaça de um Rei era algo horrível de se ver e até mesmo Isabella sentiu um medo crescendo dentro dela; a princesa ficou feliz em constatar a humilhação de Jane, mas, ainda assim, não ficou muito segura depois de perceber que Aro podia muito bem ser terrível quando bem entendia.

Jane encarou Bella por apenas um segundo, mas o ódio e o rancor estavam ali, em seguida, a Capitã da Guarda desceu os degraus e se postou em frente a Giordano que a tudo olhava com acanhamento crescente; Jane olhou para o cavaleiro com uma expressão vazia e indiferente, mas, pelo que deu para notar, a arrogância havia cedido lugar ao medo.

- Eu peço sinceras desculpas por tê-lo atacado, Giordano – disse ela numa voz morta.

- Não foi nada, minha senhora – respondeu Giordano visivelmente incomodado.

Depois disso, Jane voltou para o seu posto sem olhar ninguém nos olhos.

- Está satisfeita? — reinou Caius azedo.

- Sim, agora se me dão licença, vou me retirar – disse Isabella tentando imitar o porte de Athenodora.

- Minha Princesa – chamou Aro – Devemos nos alimentar antes de partir, eu teria o prazer de sua companhia para o jantar hoje à noite?

- Certamente, meu senhor – disse Bella fazendo uma leve reverência e se retirando do salão com um leve temor do que a palavra “jantar” estaria significando.

E no momento em que Bella e Giordano deixaram o salão e as portas duplas foram fechadas, Caius olhou para Aro com uma expressão de contrariedade no rosto.

- E você dará a ela o posto de Rainha.

- Já está certo – disse Aro num ar leve.

- Ela só nos dará trabalho! Aro, misericórdia, ela já está andando pelo palácio como uma Rainha, nem Athenodora se intromete em nossos assuntos e Isabella agora também sairá por aí castigando nossos guardas e servos quando eles não se comportarem?

- Bem, precisávamos de alguma coisa diferente nesta casa de mortos, não é mesmo? — riu Aro.

- Vê a cunhada que me arrumou? Bianca já era um caos, Isabella pelo visto será dez vezes pior.

- Não compare as duas, Caius... uma não tem nada da outra a não ser uma determinação ferrenha.

- Esse castelo virá abaixo tendo Isabella como Rainha.

- Provavelmente – suspirou Aro.

Bella estava perdida em pensamentos estranhos, deliberadamente ela jamais havia humilhado alguém, em público ou não, mas simplesmente não aturava Jane; era uma antipatia natural, algo viscoso e gorduroso que se alojava em sua mente fazendo com que qualquer sentimento de pena de Jane ficasse estagnado como uma água num poço velho. E pensar que Isabella teria de passar a eternidade ao lado de Jane.

Outro problema imediato era o fato de Aro querer levá-la para jantar e isso, obviamente, envolvia sangue humano. Porém, apesar de tudo, Isabella simplesmente anulou este ultimo pensamento, ela fizera sua escolha e agora viveria como Volturi.

E ponto final.

Logo, chegaram às escadarias e Giordano, teatralmente, pigarreou para chamar a atenção de sua distraída princesa.

- Minha senhora – chamou ele muito sério – Não deveria ter provocado Jane desta maneira.

- Não? – perguntou Bella distraída.

- Ela é extremamente vingativa.

- Eu serei Rainha, Giordano, não tenho nada a temer... principalmente alguma coisa que venha de Jane. Além do mais, eu não permitirei mais que os vampiros que servem aos Volturi sejam tratados como escravos. Se viverei aqui, tratarei de trazer um pouco mais de humanidade para este lugar... já passou do tempo dos Volturi se adaptaram a tempos modernos e viver um pouco fora desta monarquia centenária e antiga. Não tolerarei discriminações e escravidão enquanto viver aqui.

- Minha senhora Isabella será uma rainha muito melhor do que qualquer outra – disse Giordano num raro momento de intimidade – Jamais algum vampiro das castas superiores alguma vez deu importância para mim, malmente olham para os Cavaleiros, somos apenas bucha de canhão, mas a senhora me defendeu, fez que uma superior se desculpasse. Eu serei eternamente grato por isso. Tenha certeza que a minha senhora Isabella terá o meu respeito e lealdade por todos os imortais anos que estão por vir.

A Princesa sorriu para o Cavaleiro e ambos subiram rumo ao quarto no alto da torre, Isabella preparando-se para a conversa que teria com a filha e Giordano, silencioso como uma sombra, seguia a Princesa cuja qual agora era dona não apenas de seu respeito, como também de sua total lealdade.

A porta de carvalho enegrecida a encarou com austeridade, dentro do aposento estava a joia mais preciosa dos Cullen e sua maior fraqueza: Renesmee. E a menina agora teria de enfrentar uma prova de fogo maior do que já enfrentara antes, pois Isabella iria forçá-la a amadurecer.

- Não quero ser incomodada, Giordano.

- A senhora não será.

- Avise-me quando seu senhor Aro desejar minha presença.

- Assim será, minha Princesa.

A princesa abriu a porta, mas não foi Bella Cullen quem entrou... e sim Isabella Volturi.

Renesmee estava em pé, esperando ansiosa pela chegada da mãe, as vestes curtas e escuras de Volterra mal cobriam suas pernas, a roupa moldava-se e aderia ao corpo da jovem como se estivesse molhada dando à Nessie um ar fetichista e sensual. Isabella iria falar com Aro sobre isso.

Mas Nessie percebeu na mãe uma mudança no momento em que ela entrou no quarto. Havia algo diferente em Bella, um porte que não era dela ou que talvez Nessie jamais houvesse notado nela, mas seja como for, Bella tinha uma expressão diferente no rosto. Era algo altivo e levemente feroz, como se ela, de alguma forma, fosse superior ali naquele lugar, era uma força que emanava dela e Nessie ficou intimidada com sua mãe. Bella parecia mais forte do que fora um dia.

A princípio ela pensou em acusar a mãe, de cobrar explicações, de gritar de raiva e frustração por tudo o que passou, mas olhando Bella e o modo com ela agora caminhava, como se flutuasse no solo acima de todos os demais, a menina perdeu a coragem e sobrou apenas uma mágoa rastejante em seu coração.

- Então havia um plano de fuga e vocês nunca me contaram?

- Havia um plano de fuga sim – começou Bella numa voz gelada como o vento do inverno – Sua tia Alice teve a ideia e nós decidimos agir para tentar fugir de Volterra. Algo arriscado e essencialmente tolo, deveríamos conquistar a confiança dos Três a fim de encontrar uma brecha em sua impenetrável defesa e escapar daqui. Mas julgo que você tenha condições de deduzir por si mesma o motivo pelo qual jamais mencionamos o Plano a você.

- Eles sempre inspecionavam os meus pensamentos e minhas memórias – sussurrou Nessie.

- Então simplesmente não compreendo sua mágoa uma vez que você entende tudo o que estava acontecendo.

- Mas por que o Plano não deu certo? – perguntou Nessie por fim.

- Porque simplesmente não há meios de ludibriar ou conduzir os vampiros desta cidadela, são tramas e subtramas, segredos por cima de segredos que vão tão fundo quanto as catacumbas que se ramificam no subsolo do castelo. Sempre que você encontra um espaço para manobrar ele se fecha, como um labirinto vivo, um animal que se move e se defende sozinho sob a menor aproximação. No fim, sua tia e eu descobrimos que não havia brecha. O cerco é completamente fechado. Nós duas nos atiramos no meio da vida deles para tentar encontrar um meio de fugir, mas, entretanto, tudo que conseguimos foi nos afundarmos complemente neste mundo de traições.

- Começamos a nos perder muito antes de tudo ruir – continuou Bella — Sua tia Alice já havia se apaixonado por Matheu e eu estava à beira de ser pedida em casamento por Aro. Depois que Jane a molestou, sua tia Alice, sozinha no castelo, não teve alternativa a não ser jurar lealdade aos Volturi e para não ficarmos separadas, também o fiz. Mas jurar lealdade a eles é muito mais complicado do que podíamos julgar, literalmente nos tornamos Volturis aos poucos... e isso se dá diariamente, aos poucos, mas vamos mudando mesmo por dentro.

- Ao passo de matarem dois garotos? – perguntou Renesmee com a voz rouca.

- Sim. Não havia como negar o pedido, ou melhor, a ordem de nossos Reis. Havíamos jurado lealdade a eles e se naquele momento negássemos estávamos condenadas, ainda tínhamos esperança de fugir, mas naquele momento percebemos que era impossível vencermos. Mas sim, tragamos a vida daqueles dois jovens e por mais que eu tente convencer a mim mesma que eles eram criminosos que destruíram a vida de duas meninas... eu sei que foi errado. Infelizmente não moramos mais em Forks, Renesmee, infelizmente nossas vidas não são mais as mesmas.

- Está bem, e agora? Descobriram o plano, o que aconteceu afinal? Aro lhe deu uma palmada na mão e tudo está como antes?

- Mais ou menos isso – respondeu Bella – Ele me ofereceu a Liberdade Absoluta dos Volturi e eu não tive coragem de aceitar. Ele me ofereceu a morte e eu fiquei com medo.

- Ele... ofereceu a morte a você?

- A todos nós na verdade. A mim, a você, sua tia e Quil. Todos poderíamos nos livrar destes grilhões, mas obviamente, seria a liberdade dos Volturi, porém eu não tive coragem; pensei em você e como não poderia perdê-la; pensei no amor que sinto em Alice, na responsabilidade e na amizade de Quil e então não pude aceitar. Mas a verdade é que tive medo.

- E agora?

- Eu serei Rainha.

- Você será Rainha?

- Sim.

- Esposa de Aro Volturi?

- Sim.

- O homem que destruiu nossa família.

- Sim.

- Eu escolheria a morte – disse Nessie decidida.

- Escolheria? – perguntou Isabella olhando-a de cima, não como uma mãe, mas como uma Rainha – E por quê?

- Por que eu sou uma Cullen e prefiro mil vezes morrer assim – disse Renesmee aproximando-se da mãe de forma petulante – Eu sou diferente de você, achei que era uma coisa e é outra, talvez tenha me enganado a vida toda... eu escolheria a morte porque não sou uma covarde como você é e...

Mas Renesmee jamais terminou de dizer suas palavras.

O bofete que levou da mãe ecoou pelo quarto. Isabella desferiu um golpe fraco com as costas da mão direita atingindo a face esquerda de Nessie, a menina cambaleou um passo ou dois para trás e depois encarou a mãe com os olhos marejados de lágrimas. O rosto ficou apenas levemente rosado, o tapa não fora tão forte, mas o ato em si marcara a menina; Bella jamais fizera isso com a filha, nunca, em nenhuma circunstância.

Mas quando Renesmee encarou a mãe, percebeu que não fora o tapa que a chocara, não foi a dor momentânea em si — e que agora gradualmente se dissipava – que a marcara, mas sim o olhar de decepção no rosto de sua mãe. Ainda havia a máscara da Princesa sustentando a face emoldurada de Bella, mas a decepção estava ali, gelada como uma parede de gelo, profunda como um lago de águas turvas; era uma decepção tão ampla que parecia emanar de sua mãe até atingi-la como um murro no estômago, tragando-lhe o ar, ceifando-lhe a força.

E Renesmee não teve reação, ficou apenas ali olhando para a mãe que ainda mantinha a mão erguida, viu quando Bella baixou lentamente o braço e alisou o vestido... e quando ela ergueu o rosto para Renesmee, não era mais a face doce de sua mãe que estava ali, nem o rosto indeciso da Princesa. Quem a olhou foi a Rainha, a Rainha que Bella ainda se tornaria.

- Então, oh corajosa Renesmee, você escolheria a morte? – disse Bella, a voz afiada como mil navalhas – Escolheria morrer como uma Cullen, a família perfeita da qual você um dia fez parte? Então me diga, oh pura Renesmee, se eu lhe desse uma fogueira você atiraria nas chamas a mim, sua tia e Quil?

- Não... – balbuciou Nessie confusa.

- Não? Mas agora mesmo você me disse que escolheria a morte, mas a morte não implicaria somente a sua e sim a de outras pessoas que, querendo ou não, estariam sob sua responsabilidade, não é mesmo? Você mataria a mim?

- É claro que não, mãe...

- Mataria sua Tia? Mataria Quil?

- É claro que não, mas você não viu as outras possibilidades – disse Renesmee tentando alinhar os pensamentos – Eu lhe disse que sei que Jacob está vivo, eu sinto que ele está vindo... poderíamos ter esperado por ele, eu estava indo atrás dele.

- De fato, atirando-se nos braços de Jane... a vampira responsável por um dos momentos mais macabros de sua vida, a vampira pela qual nós juramos lealdade aos Volturi. Sua tia e eu nos enforcamos literalmente apenas para vê-la se agarrando com Jane num parque?

- Era um plano... eu pretendia fugir, mas não deu certo.

- Bem, então estamos decididas a concordar que o seu plano era tão horrível quanto o nosso, não é?

- A ideia era fugir para encontrar Jacob... ao menos eu não precisaria VÊ-LA CASADA COM ELE!

- Você age como uma criança tola – disse Isabella olhando a filha com desagrado – Mas talvez a culpa seja minha, eu sempre a mimei e protegi e o mundo a requisitou cedo demais sem que você tivesse tempo suficiente para amadurecer, mas terá de fazê-lo de uma vez por todas. É tão cega que não vê? Você se comporta como aquela vez em que se embrenhou na mata, contrariando seu pai, e quase morreu nas mãos de Felix levando consigo Quilan, uma criança de cinco anos de idade para uma armadilha mortal.

- É tão difícil assim para você não agir por impulso? – continuou a princesa atirando as palavras como dardos pelo ar – Não consegue raciocinar nem por um momento sequer? Para que você compreenda a gravidade de tudo, a mim foi oferecida a escolha da morte, mas sua tia foi sentenciada à morte por Caius.

- O que, oh meu Deus... – desesperou-se Renesmee.

- Mas Marcus, por alguma razão, não permitiu que Caius executasse a sentença e a sua tia foi dada a opção das catacumbas onde agora, neste momento, ela está encerrada.

- Alice está nas masmorras? – horrorizou-se Nessie uma vez mais – Mas, o que... isso é pior do que morrer... Por isso eu queria ir atrás de Jake.

- E o que Jake faria? – perguntou Bella – Vamos assumir que Jacob esteja vivo, eu torço por isso, amo Jacob e quero acreditar tanto quanto você que ele está bem; mas mesmo que Jacob, com todo seu poder, venha a Volterra e devaste todos, ponha a baixo os muros do castelo e mate os Reis... como poderíamos libertar Alice? Você sabe que as celas são encantadas e só respondem ao comando de Aro que é único que conhece a palavra que as abre, sem ele jamais poderíamos soltar sua tia. Jacob não conseguiria derrubar a porta das celas, mesmo usando todo o seu poder ele não seria capaz de libertar Alice, então, minha preciosa Renesmee, minha corajosa e incorruptível filha, como poderemos salvar sua tia? Eu lhe conto, ela permanecerá lá até que eu me case com Aro. Obviamente não permitiria que Alice ficasse presa naquelas catacumbas mais do que o tempo necessário, por isso exigi que Aro apressasse todos os preparativos para podermos libertar Alice o quanto antes.

Neste momento, a filha olhou para a mãe e pela primeira vez Renesmee pareceu perceber todo o peso que Bella carregava sobre os ombros. A menina imortal cambaleou até a cama e sentou-se para impedir que a gravidade a tragasse rumo ao solo, Nessie sentiu algo semelhante ao que sentira na floresta, depois do ataque de Felix, enquanto jazia semimorta no colo de Kaori. Naquela ocasião ela percebera que o pai estava chateado não por ela ter feito amor com Jacob, mas pelo medo de perdê-la antes do que planejara.

E agora aconteceu como se um véu que nublava sua consciência se descortinasse de sua mente, a mãe sacrificou tudo em que acredita para poder mantê-la a salvo, jurou lealdade aos Volturi para poder manter em segurança Quil. E até aceitou se entregar ao Rei dos vampiros para salvar Alice. Havia um grau tão elevado de entrega nos atos de Bella, um sacrifício tão denso e intrincado, que Renesmee sentiu como se estivesse prestes a ser esmagada por todo aquele sentimento represado em sua mãe.

A menina percebeu algo que já sabia, o fato de estar sendo tremendamente egoísta com todos, uma vez mais Nessie havia apenas pensado em si mesma, maquiou o fato de fugir e encontrar Jacob para ajudar a todos, mas a verdade era que não queria mais ficar ali e desejava a todo custo encontrar o noivo perdido. E o egoísmo de Renesmee contrastava severamente com a entrega de sua mãe, com o sentimento corajoso de sacrifício que Bella demonstrou a todos. Ela já sabia disso tudo, mas simplesmente não queria admitir, não queria ver que na verdade sua tia e sua mãe já haviam feito o máximo, mas não havia escapatória possível; Renesmee, no fim, apenas não conseguia acreditar que elas estavam sumariamente atadas aos Volturi... para sempre.

- Eu só queria encontrar Jacob – choramingou Nessie.

- Se você o ama verdadeiramente e se ele realmente estiver vivo – respondeu Bella – Reze para que ele não venha até aqui ou será aprisionado como Quil e exposto a todos como um cão de guarda...

- Então nos perdemos para sempre?

- Sim.

A menina apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos. Ela chorou baixinho compreendendo que o mundo a qual pertencia não existia mais, notou que sua pele, geralmente gelada, estava morna no local onde a mãe a estapeara. Ela sentiu seu coração comprimir e desejou poder simplesmente sair voando pela janela rumo ao céu azul e infinito, lá para longe, num local ermo onde as tristezas jamais a encontrariam.

Então sentiu quando o colchão macio cedeu e percebeu que a mãe estava perto dela, mas ao olhar para Bella teve a certeza de algo difícil: sua mãe já havia aceitado o fardo, ali não estava ninguém menos do que uma rainha, olhando-a de cima e exigindo que ela fosse forte.

- O tempo de sua infância terminou – declarou Isabella numa voz dura – Eu sinto muito por isso, sinto mesmo, mas só podemos fazer alguma coisa com o tempo que temos e isso é o que somos agora. Eu gostaria que você tivesse sido uma menina comum, a culpa é minha por tê-la amaldiçoado a esta vida, mas você e eu somos imortais e temos que arcar com as consequências.

- Eu tinha tudo planejado pelos próximos vinte ou trinta anos – continuou Isabella com a voz um pouco mais distante – Você iria para a faculdade, se casaria com Jacob e teria sua própria vida, eu e seu pai viajaríamos pelo mundo um pouco até que voltássemos a viver juntos novamente depois de algumas décadas longe da casa de Carlisle. Mas tudo isso mudou. Seu pai está morto e eu ainda estou aqui e não tenho coragem de morrer, então temos de seguir com o que temos. Eu me casarei com Aro e serei Rainha e você terá de amadurecer rapidamente porque não posso ficar cuidando de Alice e Quil ao mesmo tempo em que procuro manter você viva e longe dos castigos dos Volturi.

- Eu sinto muito, Nessie... agora terá de ser uma mulher, já tenho peso demais sobre meus ombros, terei de pedir para que você deixe de ser uma menina e aja como adulta, ou não suportarei carregar tudo sozinha.

Renesmee encarou a mãe por um momento e aquiesceu levemente, o rosto molhado com lágrimas quentes, a expressão desolada, mas concordou que faria o que a mãe pedia... havia decidido deixar o egoísmo de lado e ajudar a tornar o fardo de Bella mais leve.

- Eu não quero beber sangue humano – começou Nessie ainda nos braços da mãe, e Bella a apertou com força.

- Você fará o que tiver de ser feito, assim como eu – disse ela – Assim como sua tia e Quil. Amanhã partiremos para o Pináculo da Luz, eu enfrentarei meu destino com a cabeça erguida e você estará ao meu lado.

Nessie nada mais disse, apenas concordou com a cabeça, o rosto oculto nos braços de Bella.

E ali uma jovem foi sacrificada, ali Renesmee se tornou mulher.

Na mesma época em que Isabella tornar-se-ia rainha.

Uma Rainha dos Vampiros.

Notas finais
Próximo Capítulo: O Pináculo da Luz