Candor Lunar - Livro 2

22 Capítulo 21 - A Rainha dos Condenados


Notas iniciais
Bom dia, minha gente!
Bem, eu não sou um Relações Públicas muito bom... por isso contratei a Diê. kkkk
Mas vamos lá... quero aproveitar este capítulo para dedicá-lo a Lilian Oliveira e Vivi Costa pelas recomendações. É muito legal saber o motivo que leva as pessoas a gostar de Candor.
Então, meninas, meus sinceros agradecimentos.
E vamos lá, este é mais um daqueles capítulos que dividem opiniões. E eu vou dar uma dica: eu escondo muitos segredos nos detalhes da história, este é um capítulo com vários segredos ocultos... srsr
Boa leitura
Ang.
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Até mesmo o sol ali era estranho. Um sol rubro, observador e claro demais, mesmo à escuridão das paredes de pedra do castelo a pele dos vampiros fulgurava como um punhado de diamantes brutos lançando réstias multicoloridas pelos corredores onde os raios do sol penetravam. E a luminosidade incomodava mais do que as sombras da noite, era como se os dias incessantemente claros da Itália desnudassem os segredos ocultos ameaçando escancarar para todos os sentimentos guardados no fundo do coração.

Bella observou com um suspiro o horizonte escuro ceder à luminosidade do sol nascente, no local do nada surgiu lentamente uma linha luminosa que correu como uma colcha de luz descobrindo a escuridão do mundo. Os muros do castelo ganharam vida junto com as flores dos jardins, os telhados das casas na cidade abaixo do palácio faiscaram na manhã recém-nascida; era uma quarta-feira, mas Bella quase não se deu por isso, afinal, era apenas mais um dia presa, mais um dia sendo alguém que ela não era.

Ela apenas desviou os olhos do sol vermelho quando uma leve batida na porta obrigou-a a deixar a sacada, o quarto já se iluminava aos poucos, vazio e silencioso já que Renesmee ainda dormia no quarto de Alice, ela não quis incomodar a filha e subiu solitária para os seus aposentos depois de ter sido beijada por Aro Volturi.

A porta abriu sozinha e Giordano, com seu habitual rosto austero, entrou no quarto fazendo uma reverência logo que a avistou.

- Minha princesa – disse o cavaleiro – Trago notícias importantes.

Bella sorriu para Giordano, ela gostava do guarda-cavaleiro, e o vampiro fora um “presente” de Aro para ela. A Giordano fora incumbida a tarefa de prestar qualquer auxílio que porventura Bella viesse a necessitar, e de guiá-la sempre que solicitada... mas, principalmente, para mantê-la em segurança. Bella sabia que Aro a queria bem guardada ou vigiada, mas a vampira gostava de Giordano, era um vampiro de rosto solene, comum, mas estranhamente bondoso e sua seriedade divertia Bella. Ela acabou descobrindo que nem todos os Volturi eram essencialmente maus.

- Parece que todas as notícias neste castelo são importantes – riu Bella – O que foi agora?

- Felix retornou durante a noite com os dois rapazes criminosos. Os Três realizarão o julgamento ao cair desta tarde e pedem que as princesas estejam presentes.

- Por que temo este julgamento?

- Eles são criminosos, minha senhora, e devem ser punidos.

- Mas pela lei dos vampiros?

- O crime foi realizado em Volterra e em Volterra serão julgados. O Três são senhores desta cidade e cabe a eles manter a ordem.

- E não nos cabe questionar, obviamente – suspirou Bella – Descerei até o quarto de minha irmã para ver minha filha, avise-me do momento em que formos solicitadas.

- Minha senhora – disse Giordano numa reverência abrindo espaço para que Bella passasse.

Os corredores frios a receberam mudos como faziam sempre há meses. De fato, Bella não gostava do sentimento de familiaridade que aqueles corredores de pedra causavam em seu coração. Era como se, mesmo contra vontade, estivesse se habituando àquele lugar, mesmo que sua alma não estivesse mais consigo... Edward morrera e com isso sua vida perdera o sentido. Ela só continuava por sua filha. Sua única atual razão para viver.

Bella despertou um estanho hábito: rezar. Não era uma oração formada de alguma religião específica, ela apenas se pegava conversando com Deus, perguntava-se se uma vampira imortal tinha o direito de elevar suas preces aos céus uma vez que desistira da vida humana... de uma vida natural. Mas acreditar que havia uma força maior e justa acima de Aro, Caius e Marcus parecia confortá-la um pouco.

Foi por este motivo, talvez, que um quadro grande na parede chamou-lhe a atenção enquanto descia para os andares inferiores, ela sabia que o afresco estava ali desde que viera para Volterra, mas não havia lhe deitado atenção desde então. Era uma pintura grande e obscura, retratava um casal cansado; o homem velho e a mulher pouco mais jovem segurando uma criança adormecida nos braços. Um anjo os interpelava.

Bella parou e ficou observando a pintura por um tempo. Os traços perfeitos, a luminosidade quase vívida que fez com que a vampira imaginasse que um gênio havia produzido aquela obra de arte... e não estava errada.

- É o Descanso na fuga para o Egito de Caravaggio – disse Giordano depois de um tempo.

- É magnífica – suspirou Bella – As obras de Caravaggio não estão em algum museu ou em alguma amostra ao redor do mundo?

- Este é o original... os que estão pelo mundo são cópias.

- Obviamente Aro não teria uma cópia...

- Caravaggio pintou este quadro nos jardins de Volterra, provavelmente nosso mestre não viu motivo para ele deixar sua casa original.

- Caravaggio morou aqui? – Bella perguntou assombrada – Meu Deus, quantos gênios italianos passaram por este castelo?

- Todos... eu acho – respondeu Giordano inexato.

- Você o conheceu?

- Caravaggio? Sim. Ali pelas idas de 1600 talvez. Homem introspectivo e de sorriso difícil... não tinha a jovialidade de Botticelli ou de Maquiavel.

- Maquiavel jovial? – indagou Bella descrente.

- Bem, era um político e um pensador... um filósofo. E para um filósofo era bastante jovial e sorridente, mas seus ensinos interessavam muito aos Três, na verdade não entendo porque o temos “maquiavélico” é utilizado por todos de forma tão obscura.

- Claro que os Três adoraram Maquiavel – disse Bella num perigoso tom jocoso e irônico... Giordano não respondeu.

Bella suspirou e continuou descendo as escadarias em direção ao quarto de Alice. Ela ouvia o pesado corpo de Giordano a seguindo, a capa do cavaleiro esvoaçando pelos degraus de pedra. Ela não sentia maldade em Giordano e não conseguia compreender porque ele ou Matheu serviam aos Volturi uma vez que não tinham o coração negro como muitos que habitavam ali.

- O que você fazia antes de ser um vampiro, Giordano? – perguntou Bella curiosa tentando colher informações de um modo menos direto.

- Era apenas um camponês, senhora.

- E vivia aqui?

- Sim senhora, mas antigamente havia apenas o palácio, os camponeses vivam ao redor de suas muralhas... criávamos nossos animais soltos no campo e cultivávamos nossos alimentos em paz. Era um lugar abençoado, pois os senhores do palácio não nos cobravam impostos pelas terras e nem porcentagem pelo que colhíamos e nem exigiam animais como pagamento.

- Claro que não – riu Bella – Eram vampiros, não precisavam comer.

- De fato.

- E...? – disse Bella, mas Giordano não falou mais nada e a vampira resolveu apelar um pouco. Virou-se para o cavaleiro e lançou-lhe um sorriso esfuziante – Como sua princesa eu lhe ordeno que me conte.

- É uma história sem importância, minha princesa – respondeu Giordano incomodado com a simpatia de Bella, provavelmente todos os senhores e senhoras daquele castelo tratavam seus subalternos com descaso como se fossem menos do que nada — Guerra, minha princesa, sempre houve disputas entre povos ou entre nações, naquela época distante havia rupturas dentro da Itália e houve devastação e morte nos campos. Eles surgiram na noite e atearam fogo nas casas, mataram os velhos e estupraram as mulheres... só não morremos todos porque os Três deixaram seu palácio e salvaram o povo. Vieram com sua guarda e chacinaram os invasores. Mas fora muito tarde para minha esposa e filha.

- Oh, eu sinto muito Giordano, não podia imaginar... – disse Bella assustada diante da revelação do guarda. Pareceu-lhe que todos os habitantes daquele castelo eram feitos de memórias tristes.

- Eu estava morrendo também e não me importava, mas então um vampiro surgiu nas trevas e me perguntou se eu queria morrer ou viver... eu me envergonho de ter sentido medo de morrer. Deveria ter acompanhado minha filha e minha esposa para o outro mundo, mas senti medo e então declarei que queria viver... e fui transformado em um imortal.

- Por quem?

- Eu não sei – respondeu Giordano dando de ombros – Não tem importância no fim, ele nunca se declarou. Eu me tornei um Volturi e auxiliei na construção dos muros para defender a vila dos camponeses, os Três resolveram proteger os aldeões depois disso... e assim a cidadela tomou a forma que a senhora vê hoje.

- Você ajudou a erguer os muros externos?

- Sim, senhora.

- E é um guarda-cavaleiro desde então.

- Sim.

- Mas não há motivo para ter sido leal aos Volturi por tanto tempo – afirmou Bella.

- Eu nasci, cresci e morri nestas terras, minha princesa – declarou Giordano – Não vi motivo para deixar minha casa e me contentei em ficar aqui por toda a eternidade vendo os lindos campos da Toscana florescer.

Bella não questionou os motivos de Giordano, no fim ele era apenas um homem de coração simples. Nasceu como servo e não sabia fazer outra coisa... a princesa sorriu para o cavaleiro uma vez mais e tomou o caminho novamente rumo aos aposentos de Alice. Ela notou outros quadros impressionantes pelo caminho e tentou adivinhar de quem eram, quais teriam sido as mentes geniais a criá-los.

Alice estava na varanda como sempre. Ela e a irmã partilhavam este habito, como se olhar o céu azul lhes tranquilizasse momentaneamente, apesar de que Bella sabia que na verdade esta visão lhes trazia apenas uma dor e uma saudade ainda maiores.

- Pensando? – perguntou Bella ao abraçar Alice.

- Não – respondeu a fada vampira –Acho que minha mente estava desligada.

“Mentirosa” disse Bella para si mesma, a vampira perguntou-se se a irmã estaria pensando em Jasper ou em Matheu ou se algum dia veria a mãe novamente e de repente ela lembrou-se de Esme e sentiu falta do sorriso bondoso em seus lábios. Mas o pior foi o rosto de Charlie inundando suas lembranças ou a estabanada de sua mãe Renee... a família que ela amava e talvez jamais voltasse a ver.

- E Nessie?

- Dormindo – disse Alice – Esta menina só dorme, Bella... eu estou ficando preocupada com ela, não é normal uma criança dormir tanto. Será que é o trauma ainda?

- Temo que sim, querida. Mas eu vim aqui para avisá-la de que esta tarde não será muito boa para nós duas.

- O que houve?

- Aquele monstro do Felix capturou os rapazes que cometeram aquele crime contra as meninas e à tarde haverá um julgamento que nós, como princesas, seremos obrigadas a presenciar, obviamente.

- Deus meu – suspirou Alice – O que mais nos resta?

- Acho que nada... – respondeu Bella enquanto sentava-se na cama e afagava o cabelo da filha.

Renesmee dormia a sono solto, olhando-a assim parecia uma menina tranquila que não sofrera nenhum trauma na vida. Bella lembrou-se da época em que a despertava para ir ao colégio em Forks... tudo tão simples. A filha tinha uma vida comum, era uma garota comum mesmo pertencendo há duas espécies diferentes; mas nada parecia aborrecê-la naquela época distante e agora a menina vivia num mundo de medo, escravidão e dor.

- Você tem de contar a ela, Bella – disse Alice da varanda.

- Eu não encontrei coragem ainda.

- Ela precisa saber por nós, já imaginou o trauma se ela descobrir que o pai e o noivo estão mortos pela boca de outra pessoa?

- Ela já sofreu tanto, me pergunto se terá forças para superar mais esta dor.

- Nessie é mais forte do que você imagina – disse Alice convicta.

E neste momento, a menina despertou.

- Você ainda está com sono? – perguntou Bella achando graça do bocejo da filha.

- Ainda, acabei perambulando pelo castelo ontem de madrugada atrás de você e de Alice, mas como não as encontrei, Ícaro preparou uma antiga receita caseira para despertar meu sono; acho que por eu ser uma híbrida, o efeito acabou sendo mais potente do que ele planejava. Estou morrendo de sono ainda.

- Querida – começou Bella – Eu preciso de um favor seu.

- O que foi mãe?

- Prometa-me que não sairá do quarto hoje até que eu retorne à noite.

- O que está acontecendo?

- Nada, apenas não saia, está bem? – disse Bella sabendo que não estava conseguindo esconder sua aflição de Nessie – Assunto dos Volturi, você sabe, haverá uma reunião de vampiros hoje e preciso que você fique aqui para não se expor.

- Mãe, confie em mim, eu aguento o que for, mas preciso que me conte o que estiver acontecendo, não sou tão miseravelmente frágil para ficar de fora dos problemas que você e Alice estão enfrentando. Aliás, por que vocês duas estão sempre com eles agora?

- É complicado, Nessie. Acredite em mim.

Renesmee não discutiu, apenas recostou-se nos travesseiros e não demorou nada para adormecer novamente, Bella preocupou-se, mas levando em conta o dia que teria pela frente era melhor que Renesmee passasse dormindo do que acordada zanzando pelo palácio com Jane Volturi à solta. Mas a vampira sabia que logo teria que dar explicações à filha, ela não conseguiria esconder muito tempo que agora era uma princesa juramentada aos Volturi ou que o pai e o noivo da menina estavam mortos.

Uma leve batida na porta atorou-lhe os pensamentos.

- Perdão, mas a presença das senhoras é exigida no salão dos tronos – declarou Giordano.

- Tão cedo? O julgamento não seria ao cair da tarde? – questionou Bella descontente.

- Provavelmente trata-se de outro assunto – explicou o cavaleiro.

- Vamos logo Bella, não temos escolha – disse Alice desanimada.

O Salão dos Tronos estava quase deserto, os Três estavam sentados em seus respectivos tronos como três estátuas de mármore. Eles passavam horas ali, na verdade, a idade avançada dos irmãos Volturi os tornava peculiares; tudo neles era lento, o pensamento, as palavras, o raciocínio... era como se Aro, Caius e Marcus, do alto de suas centenas de anos, tivessem adquirido a lentidão dos anos como as árvores que crescem lentamente, ramificam-se, desfolham-se num inverno e tornam a crescer novamente na primavera.

Mas Renata estava ali junto de Chelsea, assim como Jane e Felix. Todos vestidos em seus trajes escuros, todos com seus olhos faiscantemente rubros e suas faces indiferentes e entediadas... apenas Jane lançou seu habitual olhar assassino e frívolo em direção à Bella.

Elas fizeram uma rápida reverência à beira dos degraus e em seguida subiram para junto de seus mestres; Bella parou como uma sombra atrás do trono de Aro enquanto Alice esquivou-se para o lado de Marcus. Nenhum dos reis pareceu notar a aproximação das vampiras, na verdade, nem se deram ao trabalho de abrir os olhos e por vários minutos permaneceram assim e somente quase meia hora depois fizeram um sinal para os guardas. Bella se manteve o mais longe possível do olhar de Aro, ela ainda sentia uma náusea corroendo-lhe o estômago quando se lembrava do beijo que recebera na noite anterior.

Mas todos estes pensamentos evaporaram-se de sua mente no momento em que as portas do salão foram abertas e um vampiro surgiu caminhando elegantemente até os Reis. Bella sentiu o corpo retesar-se no momento em que colocou os olhos no rapaz e ao voltar a atenção à irmã, notou que Alice tremia levemente. Pelas portas pesadas do salão, entrou um rapaz alto de cabelos ruivos e olhos azuis, belo de uma forma estranha, tinha o rosto afeminado e delicado apesar de que uma cicatriz branca e fina cruzava sua face alva; e dificilmente teria mais de doze anos de idade quando fora transformado... mas não era isso que incomodou as irmãs Cullen, mas sim o que o vampiro-menino trajava.

Envergava uma armadura prateada ornada com arabescos de ouro, um saiote de couro cozido e os braços eram guardados por pesadas grevas de bronze. Sob o braço direito trazia o elmo arredondado com uma escova vermelha apontando no alto como uma crista... os pés trajavam pesadas botas de viagem: Mercador da Morte.

Balla sentiu um calafrio subir-lhe o corpo ao contemplar aquela armadura, lembrou-se de um cair de tarde onde um exército infinito atirou-se contra ela e sua família; lembrou-se de ter perdido amigos e seu marido numa batalha sangrenta e triste. Seu maxilar travou-se de ódio e só com muito custo conseguiu domar o impulso de descer os degraus até o soldado e cuspir-lhe na cara.

- Willian – disse Aro – O que o traz a Volterra?

O vampiro caiu sobre um joelho ante os degraus que antecediam os tronos, humildemente olhou para o alto e contemplou a face dos reis, seus olhos rubros causaram um temor estranho em Bella. Eram olhos velhos e não combinavam com aquela face infante, e continham um estranho teor que beirava a insolência, como se aqueles olhos fossem capazes de debochar daqueles três reis caquéticos sentados em seus tronos decadentes. Se Aro notava este brilho no olhar do Mercador da Morte, nada disse, apenas limitou-se a acenar para que o rapaz se erguesse novamente.

- Infelizmente não trago boas notícias, meu mestre Aro – disse o rapaz com uma voz leve e farfalhante – Vim a pedido de meu senhor Flávius Aurélius prestar conta a respeito da missão que Chelsea o incumbiu de resolver nas Filipinas. Os enviados de meu senhor Flávius falharam na captura de Vrau Urban.

- Falharam... – repetiu Aro numa voz tão afiada quanto o gume de uma espada, seu rosto tornou-se uma máscara de fria decepção.

- Foram enviados os melhores rastreadores dentre os Mercadores da Morte, meu mestre, mas, infelizmente, Vrau Urban possui um poder além daquele que prevíamos... os enviados subestimaram a capacidade do homem de prever a chegada de problemas. No momento em que os Mercadores pisaram na ilha, Vrau Urban simplesmente desapareceu, evaporou-se como névoa na manhã.

- Eu não imaginava que Flávius falharia uma vez mais – disse Caius desgostoso – Já basta ter batido em retirada no Canadá antes de subjugar em definitivo Carlisle Cullen e agora simplesmente permite que Vrau Urban fuja? Francamente, a competência do general frente aos Mercadores está me parecendo levemente em declínio; eu esperava mais de nosso exército.

- Meu senhor Flávius tem consciência da suma importância na captura deste fugitivo, meu mestre Caius – disse Willian – Ele manda avisar que já destacou um pequeno contingente para seguir os rastros de Vrau Urban e afirma que este larápio será capturado antes da volta da próxima lua.

- Avise ao general que este vampiro é uma prioridade atual, servo – disse Aro de forma ameaçadoramente letal – Vrau Urban é a chave para o paradeiro de Erestor. Ele é o responsável por ter ocultado o Velho de nós durante muitos anos; eu preciso que Erestor seja encontrado e para isso Vrau Urban deve ser capturado e nos trazido vivo. Vrau Urban é perigoso, é um terrorista, um anarquista, um baderneiro... está sempre zombando de nossas leis e cuspindo em nossa tradição; está constantemente alardeando pelos quatro cantos do mundo que nós temos de ser depostos e que os vampiros devem caminhar livres sobre a face deste mundo. É um revolucionário. Suas ideias são perigosas. E ele sabe sobre o paradeiro de Erestor que é uma ferida em nosso orgulho há séculos, este vampiro é um dos mais velhos e os segredos que ele encerra em sua mente são de inteira relevância para a sobrevivência de nossa própria espécie.

Bella pesou com interesse as palavras de Aro. Quem era Erestor intitulado pelo rei como “uma ferida aberta em nosso orgulho?”. Seria realmente este vampiro um dos mais velhos? E Vrau Urban? Quem seria este vampiro considerado tão ideologicamente perigoso aos Volturi a ponto de os Mercadores da Morte serem obrigados a interceder?

Mas tal curiosidade desapareceu da mente de Bella poucos momentos depois de as perguntas terem sido formuladas, afinal, este era apenas mais um dos vários tantos segredos que os Volturi guardavam. Agora, presa ali, Bella provavelmente ouviria centenas de outros segredos e assuntos sombrios que os reis mantinham... estes dois vampiros que os Mercadores caçavam provavelmente eram um assunto antigo e que a ela não interessava.

- Meu senhor Flávius será avisado da relevância desta missão – assentiu Willian – Vrau Urban será capturado e trazido com vida.

- Excelente – disse Aro – Você já deu seu recado, servo, agora parta e apresse-se para que este pequeno problema não se torne maior a ponto de perturbar nossa limitada paciência.

Antes de virar-se em direção às portas do salão, o Mercador da Morte olhou com interesse para Bella, Alice e Quill; seu olhar, como Bella notou, continuava sustentando uma insolente irônica... era como se aquele menino-vampiro soubesse de algo que Aro desconhecesse. Seja lá o que fosse Bella não gostou do rapaz chamado Willian. Havia algo de estranho naquele soldado, como se ele conhecesse o futuro que para ela era ignorado.

A princesa acompanhou com o olhar até o rapaz deixar o salão e depois notou que o silêncio se instaurou novamente como se o som tivesse sido proibido de estar presente ali; os Três caíram num estado letárgico e contemplativo. Aro fechou os olhos assim como Caius, mas Marcus continuava a encarar as portas duplas por onde o Mercador da Morte saíra com um olhar distante e pensativo.

Permaneceram neste silêncio modorrento por quase uma hora antes que Caius se dirigisse a Aro.

- Talvez Vrau Urban não tenha mais ideia do paradeiro de Erestor.

- Ele sabe – rebateu Aro abrindo os olhos – Vrau Urban sabe de muitas coisas e é isso que o torna tão perigoso. Ele e suas ideias revolucionárias e idealistas. Ele há de se explicar a nós sobre muitas das coisas que aprontou depois que deixou nosso meio... ele conhece os segredos do Livro Vermelho.

- Isso não é comprovado, você desconfia que ele leu o Livro, mas nunca tivemos prova o suficiente disso.

- Antes de partir ele mencionou o nome de Lycos...

- Eu sei – e desta vez havia uma impaciência clara na voz de Caius – Mas como poderia ele ter entrado no Cofre dos Segredos e lido o Livro Vermelho? Apenas você conhece o caminho para o Cofre.

- Eu e mais alguém – respondeu Aro num sussurro quase inaudível.

- Impossível – espantou-se Caius – Como Vrau Urban teria entrado em contato com Arian?

- Arian é um poderoso telepata, Caius. Saberíamos se ele conseguisse atingir a mente de alguém de fora de sua prisão? Caso ele tenha contatado Vrau Urban, poderia perfeitamente estar mancomunado com este larápio... Arian há séculos tenta escapar de seu calabouço; e, além disso, Vrau Urban pode ter ido até ele, sabemos o quando ele é escorregadio e perspicaz.

- Mas o que, em nome de todos os infernos, quereria Vrau Urban alguma informação sobre Lycos e, principalmente, porque ele há de estar escondendo Erestor?

- Ele tem Erestor – respondeu Aro decidido – E Erestor conhece muitos segredos, irmão, ele é um dos mais velhos. Ele detém em suas memórias lentas o paradeiro de Níneve e, consequentemente, sabemos que apenas Níneve conhece o lugar onde Lycos está aprisionado.

A estas palavras de Aro um silêncio pesado se seguiu, mas Bella notou o olhar atento que Caius lançou ao irmão e, além disso, viu que quase imperceptivelmente Marcus virou seu rosto indiferente para os outros dois. Seus olhos estavam luminosos e Bella teve a péssima impressão de que a máscara de tédio que Marcus usava era falsa... aquele olhar continha significados ocultos que demonstravam que mesmo que o vampiro sustentasse o seu habitual desinteresse e distração, ele estava atento à todas as palavras.

- De fato – disse Caius por fim – Precisamos urgentemente interrogar Vrau Urban, este vampiro têm muito que nos explicar.

Bella lançou um olhar inquisidor a Alice que lhe retribuiu com o rosto escancaradamente pensativo. Os pensamentos das princesas davam voltas em torno dos Três: O que seria o Livro Vermelho e o Cofre dos Segredos? Quem seria Lycos, Arian e Níneve? “Segredos sobre segredos em cima de segredos”, pensou Bella consigo mesma, “Onde há espaço para tantos mistérios, Aro? É a isso que se reduzem os Volturi? Um castelo repleto de segredos obscuros?”.

Mas mesmo com todas as indagações em mente, Bella sabia que aquele era um assunto que dizia respeito apenas aos três irmãos, e compreendeu que os Volturi não dividiam seus segredos para com seus servos... nem mesmo sua guarda pessoal. Aro, Caius e Marcus apenas compartilhavam o que era necessário, mas nunca o fundamental.

E com isso, depois desta rápida exposição de segredos obscuros, os irmãos novamente caíram em seu estado silencioso onde se transportavam para um local escondido dentro das próprias mentes. Três vampiros em três tronos sob uma condição estatuesca... e assim permaneceram dentro de seus sonhos antigos e lentos durante todo aquele dia; neste sentido Bella e Alice agradeceram pelo fato de serem vampiras, caso contrário teriam ficado exaustas de permanecerem em pé ali durante tantas horas.

A guarda toda ficava em silêncio e assumia uma postura semelhante ao dos reis, quietos como estátuas de mármore, geralmente de olhos fechados como se dormissem... o silencio fazia Bella se lembrar de um túmulo e isso a deixou triste. Na casa de Carlisle havia risos, alegria, vida... no castelo de Aro havia apenas o silêncio implacável, o frio das paredes de pedra e a morte rondando cada canto daquele palácio gigantesco.

Um frio tomou Bella quando ela notou, através dos poços de luz, que o sol já perdia sua força e a noite caia sobre o mundo, isso significava que elas estavam prestes a presenciar um julgamento. E isso, dada a natureza inclemente dos Volturi, indicava que um final trágico estaria a caminho. Bella se recordou de uma vez em que esteve ali como ré... nunca imaginou que algum dia estaria do lado dos juízes.

Justamente quando as luzes foram acesas no salão (e algumas tochas na parede que pareciam ser apreciadas pelos reis) as portas duplas foram escancaradas e por ela cinco guardas entraram conduzindo em meio a eles dois rapazes jovens e aterrorizados. O olhar dos dois garotos induziu mais uma onda de ânsia em Bella... ela poderia imaginar, no momento em que os dois pararam frente aos degraus dos tronos, a visão que tinham: três homens jovens olhando-os de forma implacável e atrás destes, mais pessoas com peles alvas como a neve e olhos rubros de sangue encarando-os com interesse.

Mas o temor completo chegou quando os rapazes notaram a presença de Quil no fundo do salão acorrentado com suas pesadas correntes brilhantes; a visão de um lobo gigantesco coberto em aço e ferro foi demais para os assustados meninos. Bella sentiu quando um odor ocre chegou até ela e só então percebeu que um deles havia urinado nas calças... o liquido de um tom amarelado escorreu-lhe pelas pernas encharcando as calças e empossou-se no chão junto a seus pés.

Caius suspirou com profundo desagrado.

Eram rapazes com talvez não mais que dezesseis anos. O da direita era alto e magro como uma lança, cabelos castanhos caíam-lhe rentes ao ombro e seus olhos de um azul vívido admiravam horrorizados os três reis. O da esquerda era menor e quase tão magro quanto o outro, mas tinha o cabelo da mesma cor e também os olhos eram azuis... Bella notou a semelhança na forma aquilina do nariz e na curvatura do rosto e deduziu de forma desgostosa que se tratava de dois irmãos.

- Vocês cometeram um crime – começou Aro e os meninos o encararam como se estivessem hipnotizados – Agrediram e violentaram duas moças pouco mais jovens que vocês no limite da cidade, estas meninas foram encontradas e hospitalizadas, mas estão em estado grave; a mais jovem das duas teve de passar por uma cirurgia delicada para retirada do útero... a mais velha perderá a visão de um olho. Eu lhes darei uma única oportunidade de se explicarem, de se defenderem... apesar de que não consigo conceber qualquer defesa possível num caso como este.

Os rapazes estavam próximos um do outro, seus corpos tremiam de medo, sabe-se Deus o que passaram desde que foram capturados... que horrores os guardas haviam imbuído em seus corações. E agora, ali, não conseguiram abrir a boca para emitir qualquer palavra que porventura pudesse explicar suas ações hediondas... e foi neste instante que Felix deu um passo a frente e berrou com sua voz possante e bruta.

- Falem, seus inúteis bandidos, antes que eu arranque suas línguas.

- Nós havíamos bebido muito... – começou o mais velho com os olhos esbulhados de terror – Numa festa...

- Vocês não parecem ter idade suficiente par ingerir bebidas alcoólicas – declarou Caius.

- Não senhor... não temos. Mas foi a bebida que nos deixou loucos, eu acho. Saímos da casa deste amigo nosso onde tomamos cerveja e vinho... quando vimos as meninas as convidamos para dar uma volta, mas elas não aceitaram e então...

- Forçaram-nas, espancaram-nas e violentaram-nas – afirmou Caius.

- Foi a bebida, senhor.. – balbuciou o mais novo – Podem nos entregar à polícia, eu não ligo de ficar preso, sei que mereço, mas, por favor, deixe-nos partir deste lugar assombrado.

Bella, como mulher, não deixava de sentir repulsa quando olhava os garotos. Como mãe não deixava de se enfurecer pelo ato de violência que as meninas sofreram, afinal, sua própria filha Renesmee fora vítima de um abuso destes por parte de Jane. Uma fúria fria se instalou em seu coração, como vampira ela sentia o desejo de sufocar aqueles dois fedelhos... mas ao mesmo tempo sentia pena dos meninos ao vê-los assim tão aterrorizados.

- Vocês não podem partir – declarou Aro numa voz monocórdia – Aqui cometeram o crime, em nossa cidade, e aqui pagarão por ele. Nós somos os senhores de Volterra, não seu prefeito ou sua polícia, somos nós que definimos as leis e o preço a se pagar quando estas leis são transgredidas. Vocês serão punidos... com a morte.

Houve alguns momentos de silêncio antes que o rapaz mais jovem caísse de joelhos chorando, o outro tentou segurá-lo em vão e apenas limitou-se a rir de forma desvairada; lágrimas de medo corriam por sua face e quando falou sua voz saiu arquejante e nervosa.

- Isso é uma brincadeira? É? Escutem, podem nos entregar a polícia agora. Já recebemos o susto e nos arrependemos de tudo... foi uma coisa estúpida... foi por causa da bebida... mas não faremos mais...

- Tolo – retorquiu Caius numa voz morta – Menino tolo, é um contraventor desde esta tenra idade, vocês quebraram regras desde o momento em que ingeriram álcool até quando violentaram as duas meninas. Não aturamos este tipo de violência dentro de nossos muros... vocês ouviram meu irmão: sua sentença é a morte.

O mais jovem que estava no chão soltou um ganido de horror quando os guardas agarram-nos com força, houve uma ameaça de grito de protesto por parte dos rapazes, mas sua luta vã morreu quando, com um puxão violento, Felix fez com que Quill ficasse em pé e o incitou a caminhar na direção dos dois garotos. Bella e Alice se olharam nervosas enquanto o gigante lobo caminhava lentamente para o meio do salão com sua armadura tiritante... poderiam os Volturi serem tão sanguinários a ponto de obrigar Quill a matar os dois moleques? O Quileute jamais aceitaria ceifar vidas humanas e quando Bella pensou em falar algo em protesto, Caius levantou-se de seu trono e seu rosto continha uma expressão de triunfo.

- Pare Felix... isso fará muita sujeira. Tenho em mente algo mais limpo – disse o ele olhando de soslaio para Bella – É uma excelente oportunidade de nossas duas princesas provarem sua lealdade a nós, não é mesmo? Consideremos isso sua iniciação como Volturis.

- Iniciação? – perguntou Aro

- Os Volturi não se alimentam de animais, irmão – respondeu Caius – Já é hora de as meninas Cullen deixarem de ser Cullen. Não é mesmo?

Por um segundo Bella esperou que Aro intervisse para que isso não acontecesse, mas o silêncio do rei mostrou que ele concordava com Caius; Alice lhe lançou um olhar tão aterrorizado quanto o dos meninos que a tudo assistiam como se estivessem presos num pesadelo horroroso.

- Meu mestre Caius? – perguntou Bella numa voz trêmula – O que temos de fazer?

- Exatamente o que é para ser feito, Isabella – disse Caius – Nós sentenciamos à morte estes dois transgressores e quem irá cumpri-la serão vocês duas.

- Mas nós não podemos... – esganiçou-se Alice de forma imprudente e neste momento Caius olhou para ela de forma curiosa. Os olhos de todos no salão foram colocados em Alice e ouviu-se um ganido de lamentação vindo de Quil.

- Não podem por quê? – perguntou Caius – Vocês fizeram o juramento, eu ouvi o voto de Isabella feito a Aro perante toda a corte e você fez seu juramento a Marcus. Se estiverem juramentadas a Volterra deverão seguir as leis de Volterra caso eu não esteja enganado... agora, se vocês não podem seguir nossas leis não terão serventia a nós e seremos obrigados a tratá-las como intrusas e prisioneiras.

- Mas... – começou Bella.

- Caius tem razão – disse Aro – Vocês juraram. Ou são Volturi ou não são e desconfio que nesta cidadela apenas os nossos aliados possam viver, aqui os que vivem livremente são nossos servos ou vazem parte de nossa corte, nós lhes estendemos um convite especial e as tornamos princesas. Mas compreendam que isso não significa que não devem seguir a nossa vontade como qualquer outro que habita nossa casa... infelizmente, os que não estão conosco estão mortos... ou aprisionados.

As palavras de Aro pairaram pesadas no ar, apesar de a voz do rei ter sido calma e compassada suas ameaças eram explícitas: se não obedecerem, morrerão ou permanecerão presas para sempre. Bella notou que a menção da prisão foi frisada como uma ameaça maior do que a própria morte... as catacumbas encantadas de Volterra sem dúvida seriam uma pena muito pior do que morte, morrer era fácil. Permanecer para sempre enlouquecendo de sede era inimaginável.

Bella sabia disto e o olhar de Alice para ela foi conclusivo: elas não teriam escolha. Se recusassem a ordem de Caius estariam demonstrando que seu juramento não valera nada e seriam punidas por isso; por um segundo Bella sentiu-se tentada a mandar Caius para o inferno, era preferível apodrecer numa cela eterna a matar um humano... mas aconteceu aquele momento raro na vida de uma pessoa, e este momento decidia tudo.

Quando tudo está perdido o tempo parece desacelerar, quando uma decisão importante deve ser tomada tudo parece ficar estático e a mente processa cada possível caminho que uma resposta negativa ou positiva viria a desencadear. Bella olhou para os meninos ali parados, ela sabia que uma ordem desta natureza partiria dos Volturi mais cedo ou mais tarde... mas estaria ela preparada para tirar a vida de um humano? Ela que nascera vampira por escolha própria e que jamais saboreara o gosto do sangue de uma pessoa...

Mas que alternativa teria? Seu marido estava morto, sua família desfeita, seu lar destruído e seus amigos assassinados... se ela se negasse a matar aqueles rapazes por princípio e por um ato moral e humano sua filha pagaria o preço. Renesmee seria atirada em uma cela de onde jamais tornaria a sair e pior, como era uma híbrida sua porção humana poderia simplesmente não suportar a sede e padecer antes que sua mente imortal se deteriorasse. Ali estavam dois malfeitores e até mesmo Edward drenara homens de má índole no passado, por que ela não poderia fazer o mesmo?

Seria justo que Nessie, Alice e Quill pagassem o preço de uma vida enclausurada a troco do erro destes dois jovens? Dois moleques irresponsáveis que violentaram meninas indefesas e inocentes?

Bella sabia a resposta correta para isso...

Sim. O certo seria ser morta ou presa ao em vez de trilhar o caminho Volturi. Carlisle, Edward ou Jacob não pensariam duas vezes e recusariam imediatamente uma ordem destas... seriam mortos ou aprisionados antes de matarem em nome dos três reis. Tirar vidas humanas através das leis de Volterra era tão errado quanto matar a troco de nada, tão errado quanto o crime que aqueles dois meninos cometeram.

Mas Carlisle estava alquebrado e Edward e Jacob estavam mortos. Era ela quem estava presa numa cidade de vampiros e seria sua filha a ser morta na sua frente caso ela recusasse a ordem... Bella endureceu o coração e soube que no momento em que permitisse que aquelas palavras deixassem sua boca ela teria virado as costas a tudo o que Carlisle lhe ensinara e a tudo o que ela própria acreditava. Ela sabia que sua parte Cullen morreria ali naquele salão ecoante e a tristeza de saber que não tinha escolha refletiu-se em seus olhos dourados quando ela encarou a irmã.

- Vamos Alice... – chamou Bella caminhando até a irmã e tomando-lhe a mão.

Alice a olhou e moveu os lábios para dizer algo, mas palavra alguma foi ouvida. Não havia nada a ser dito. E Bella viu o olhar da irmã tornar-se opaco como o seu próprio no momento em que tomou a decisão; aquela centelha de luz elétrica que sempre habitava o rosto de Alice havia desaparecido, sua energia doce e delicada de fada-menina tinha ido embora e agora tudo o que Bella viu foi a frieza de uma vampira e ela sabia que seu rosto também estava assim.

Os Três não se moveram. As duas princesas desceram os degraus num movimento fluído e hipnótico, os meninos deixaram de se debater quando as viram; deles se aproximavam dois anjos da morte em forma de beleza pura. A natureza amaldiçoara os vampiros com uma beleza inominável, era algo que beirava o pecado e caçoava do dom da criação... como se Deus tivesse criado os humanos belos e o diabo criado os vampiros que eram algo tão absurdamente perfeito que só poderia ser maléfico.

As vampiras com suas peles cor de neve, seus lábios rubros e suas curvas delineadas eram armas de sensualidade e luxúria; os olhos dourados das Cullen brilhavam na penumbra do salão como os olhos de anjos exterminadores, como dois poços de ouro liquefeito. Os meninos ficaram calados enquanto sua atenção permanecia presa no caminhar das duas princesas, olhavam quase que sedentos para as pernas de Alice que flutuava num movimento felino até eles. E quando desviavam a atenção era apenas para pousar na limpidez tranquila do colo de Bella e de seus ombros nus... o vestido longo que usava sussurrando segredos de seu corpo coberto.

Os rapazes nem ao menos perceberam que estavam sendo ludibriados pelos poderes de caça das duas vampiras que utilizavam a sensualidade pecaminosa de seus corpos para fazer com que eles perdessem a consciência dos fatos. Os guardas se afastaram pouco antes das princesas chegarem aos meninos que a esta altura já haviam captado no ar o cheiro doce das vampiras... um cheiro que mesclava mel com flores de cerejeira e um aroma picante de mulher. Eles estavam tão entorpecidos com as vampiras que nem mais medo sentiam... nem mais conscientes estavam de que as beldades que se aproximavam deles eram emissárias da morte.

Alice laçou o pescoço do rapaz mais jovem de modo delicado e afagou-lhe o cabelo enquanto sua mão deslizava suavemente pela garganta do menino, depois ela passou um dedo luxuriosamente pelos lábios do rapaz enquanto se preparava para matá-lo... o instinto de caça tomando conta de seu ser. Bella, por sua vez, passou uma mão levemente pelo queixo do mais velho enquanto se posicionava atrás dele, o rapaz virou o rosto para olhá-la e não havia mais medo em seus olhos... apenas desejo.

Bella deitou com gentileza o corpo do menino em seus braços e a garganta expôs a artéria pulsante como um homem oferece o membro vigoroso a uma mulher... Bella sentiu o sangue correndo no corpo do rapaz e o calor daquele líquido viscoso lhe encheu a mente de desejo e sede. Ela sentia o coração do jovem batendo acelerado, o cheiro salgado do suor que corria pelo corpo do rapaz... e sentiu quando suas presas afiadas tornaram-se maiores e mais aguçadas como facas afiadas.

- Eu não queria morrer – disse o rapaz para ela numa voz tranquila e triste.

- Eu sei querido, mas todos morrem um dia. Eu sinto muito. – respondeu Bella enquanto vagarosamente cravava as presas na pele macia do menino.

Uma onda de sangue quente inundou-lhe a boca... era absolutamente diferente do sangue dos animais. Era o mesmo que tomar uma taça de vinho tinto de finíssima procedência ao passo que o sangue dos animais assemelhava-se a um xoxo suco de uva vagabundo. Era algo inebriante e à medida que engolia aquele néctar vivo, Bella sentia uma força pulsante tomar-lhe o corpo, um deleite tão prazeroso que encontrava rival apenas nas noites de amor ardente com Edward quando o orgasmo lhe pulsava de forma incontrolável ameaçando romper seu corpo em espasmos de prazer. Era intoxicante, não era possível parar de drenar aquela liquido viscoso e grosso, denso e saboroso, aquele sumo puro era quase alucinógeno, pois no momento em que Bella drenava o rapaz ela passou a ouvir risos de criança brincando... o som da chuva nos telhados das casas, o vento das copas das árvores, águas limpadas correndo num rio tranquilo... era algo extasiante.

E ela não queria parar, não conseguiu parar até que começou a ouvir o som do coração do menino diminuir de intensidade tornando-se cada vez mais fraco, mas Bella não se importou, tudo o que importava era o sabor daquele sangue quente. Por que ela se alimentava de animais quando o sangue humano era tão perfeitamente doce? Bella não ouvia mais nada a não ser o som do coração humano fraquejando, não sentia mais nada a não ser o fluxo sanguíneo do rapaz começando a afinar e findar em suas veias... a pele tornando-se fria. E quase perto do fim o menino soltou um suspiro fraco como despedida do mundo, um mero farfalhar de respiração passou por seus pulmões antes de morrer...

... e foi neste instante que Bella ouviu a voz de Renesmee ecoando em sua entorpecida mente. Ela ergueu os olhos retirando a contragosto os lábios do corpo inerte do rapaz e ali, parada no limiar do salão, estava uma moça bonita cujo rosto lembrava o seu e por um momento não a reconheceu... ela largou o corpo do rapaz que deslizou para o chão com um baque surdo.

- Nessie? – chamou Bella com os lábios úmidos de sangue fresco.

- O que vocês fizeram? – perguntou Nessie num sopro fraco de voz.

- Renesmee – disse Bella sentindo a força selvagem do sangue ainda fazendo efeito em sua mente, uma raiva latente brotou-lhe repentinamente – Volte para a torre agora mesmo, nós conversaremos depois.

- Sobre o fato de vocês terem acabado de assassinar dois rapazes humanos?

- Não discuta comigo, Renesmee – reforçou Bella agora visivelmente alterada – Eu sou sua mãe e não lhe devo explicações, volte para o quarto.

- Você não é minha mãe – gritou Nessie, sua voz reverberando pelo salão e diante de um olhar impaciente de Caius – Minha mãe jamais mataria um humano...

- Eram dois estupradores! – retorquiu Bella gritando também – Malfeitores, até mesmo o seu pai levou a perdição a homens de má índole no passado. Estes dois humanos, se é que podemos chamá-los assim, agrediram e estupraram duas moças, meninas com seus quinze anos de idade que se dirigiam à escola. Uma delas está em estado grave no hospital e jamais será mãe algum dia. Esta é justiça que lhes foi aferida.

- Esta é a justiça dos Vampiros e não dos Homens. Está é a justiça de Volterra.

- Onde eles habitam.

- Mãe, a lei dos homens deve ser aplicada aos homens e a lei dos vampiros aos vampiros. Estes dois rapazes deveriam ter sido julgados num tribunal por seus atos, deveriam ter sido trancafiados em celas e de lá só saírem depois de estarem arrependidos por seus crimes bárbaros... mas a morte não é justiça.

- Eu não discutirei com você – e nesse ponto a voz de Bella era uma súplica e uma máscara de dor e sofrimento tomou seu rosto, era como se ela tentasse passar a Renesmee uma mensagem secreta, algo que não podia dizer em voz alta – Por favor, minha filha, volte para a torre e deixe eu e Alice cuidar destes assuntos.

- Em que foi que vocês duas se tornaram? – teimou Nessie – Vocês foram corrompidas por esta corte nojenta?

Bella soube, no momento em que Nessie disse as palavras, que aquela afronta não iria passar despercebida. Sua mente estava tão entorpecida que a discussão entre Caius e Renesmee parecia apenas um murmurar louco em seus ouvidos... e ela viu Aro erguer-se de seu trono e viu quando Felix correu para Nessie e quando Quill ergueu-se em fúria... e ouviu a si mesma gritar em desespero clamando por Renesmee.

E ouviu também Aro mandar Renesmee escolher... e da resposta corajosa de sua filha.

- Você pode possuir meu corpo e minha mente, ó Rei dos Vampiros, mas jamais possuirá minha alma ou meu coração – disse Nessie que parecia emanar de si própria uma luz cálida e desafiadora – Eu prefiro morrer mil vezes como uma Cullen... a viver um só dia como uma Volturi.

Bella fechou os olhos enquanto Chelsea descia em direção à Nessie, sentiu seu corpo entorpecido demais para tentar fazer algo, mas ao mesmo tempo sentiu um alívio porque pelo menos a filha não seria aprisionada. Mas as bravas palavras de Renesmee ainda ecoavam em seus ouvidos, mas eram palavras de uma criança, palavras de uma jovem que tinha muito a perder... para ela era diferente, sobre seus ombros pesavam as responsabilidades de uma mãe, que, por mera definição, era a maior carga do mundo.

E quando viu que Renesmee havia perdido a consciência própria e seu rosto assumira a expressão vazia sob o comando de Chelsea seu coração de mãe despedaçou-se... ela livrou Nessie de uma prisão eterna mas atirou-a em outro tipo de prisão. Alice estava ao lado de Quil segurando o grande lobo e seu rosto estava mortalmente desanimado; os reis a olhavam com interesse e Bella soube que precisava sair dali, precisava deixar aquele salão tumular em busca de ar fresco.

Bella nem se deu ao trabalho de olhar para alguém, ela sentia seu peito prestes a explodir de agonia e desespero... aquilo era demais, fora a gota d’água. Ela matara um rapaz humano na frente da filha, esquecera-se de quem era para obedecer à lei de um Volturi, e fizera isso sem nem pestanejar e sua desculpa era que não tivera escolha. No momento em que deixou as portas duplas ela ainda conseguiu ouvir a voz de Caius ecoar às suas costas.

- Não me recordo de ter dado permissão para ela deixar nossa presença.

Mas Bella não se importou, passou por Giordano sem olhá-lo e subiu as escadas de pedra como um cometa fulgurante, no hall de entrada cruzou a pesada porta e saiu correndo para os jardins sem se ater para onde ia. Queria apenas fugir de toda aquela dor, de todo o remorso que ameaçava lhe corroer o coração e só parou quando atingiu a muralha do palácio e encostou-se na pedra gelada laçando o corpo com os próprios braços e sentindo que lágrimas invisíveis escorriam por seu rosto. Com o peso do mundo nos ombros, Bella deslizou para o chão e ficou ali sozinha soluçando num choro seco e pesado de culpa.

Ela não soube quanto tempo se passou, se horas ou não, mas viu que as estrelas cintilantes já empalideciam aos poucos dando espaço para uma aurora gloriosa, continuava abraçada a si mesma no chão sobre a muralha quando ouviu passos em sua direção, ergueu os olhos esperando que Giordano estive ali para levá-la novamente ao seu quarto... mas tudo o que encontrou foi o olhar preocupado e vermelho de Aro Volturi.

- Isabella? – ele chamou numa voz cortês.

- Já estou retornando, não precisa se preocupar – disse Bella um pouco mais ríspida do que o que um rei estava acostumado a ouvir, mas Bella sentia tanta raiva que simplesmente esqueceu-se de que jurara lealdade a Aro e estava pronta a mandá-lo às favas com toda a sua corte amaldiçoada.

- Não, por favor, fique... eu estive preocupado com você.

- Preocupado comigo? – riu Bella de modo sarcástico – E há alguém neste mundo que seja digno de sua preocupação, Aro Volturi?

- Há – respondeu o rei levemente surpreso com o tom agressivo de Bella, mas, ainda assim, ele pareceu quase contente, como se fosse melhor aquela Bella agressiva do que a Bella letárgica de ultimamente – Você. Eu me preocupo com você, Isabella.

- E por quê?

- Porque a amo.

Ao menos isso serviu para deixar Bella sem palavras, ela encarou Aro que a olhava com de modo tranquilo e sereno, as palavras deixaram sua boca como um canto sussurrante do vento e a vampira simplesmente não confiou em seus ouvidos e ficou em dúvida sobre o que tinha escutado.

- Você o que? – perguntou ela.

- Eu a amo, Isabella – disse Aro novamente se aproximando – Por quê? Quem sabe? Quem é capaz de prever os segredos que o coração nos reserva? Por que eu, Aro Melchiorre Volturi, me apaixonaria por uma criança como você que nem ao menos tem meio século de vida completo? Foi por sua sagaz força de sempre me repreender e me confrontar? Por seu desprezo? Talvez pelo fato de que sempre fui cercado por bajuladores e por mulheres que me temiam e não por uma vampira como você que não teme nada em mim, pelo contrario, sempre me desafia e me evita?

- Você não é capaz de amar nada, Aro – disse Bella sem conseguir esconder o choque ante as palavras do rei.

- Não? Ah, mas eu já lhe contei tanto sobre mim, minha princesa. Já lhe contei sobre os sacrifícios que fomos obrigados a fazer por nosso povo e para manter o mundo dos humanos em paz... será que sou incapaz de amar? Não amo minha causa? Não amei tantas mulheres antes?

- Você só ama o poder.

- O poder... qual poder, Bella? O poder de ser obrigado a tirar a vida de dois jovens? Acha que isso me dá prazer?

- Você me obrigou a matá-los – chorou Bella que não pode fugir ante a aproximação de Aro uma vez que estava imprensada contra a muralha.

- Me perdoe – disse Aro e Bella ficou tão chocada com este pedido quanto pelo fato de ele ter dito que a ama – Mas era preciso. Você não conseguiria se desvincular do sangue animal sem ser obrigada a provar o sangue humano, e agora você sabe! Você conhece aquilo que Carlisle lhe privou desde que você nasceu para a vida vampira... aquilo que nos mantém vivos de verdade, ou será que não apreciou o sangue humano? Nós nos alimentamos de humanos, Isabella... e já lhe contei que não os matamos.

- Eu matei aqueles meninos, não consegui parar...

- Não conseguiu por falta de hábito, mas você aprenderá a provar o sangue dos homens sem matá-los e eu posso cuidar pessoalmente disso, me disponho a sair com você para caçar e lhe impedir de matar um humano quando você não conseguir se controlar. Você ouviu o coração deles parando, não é mesmo? Então, é neste ponto que se para e evita de matá-los... mas este não era o caso, eles eram malfeitores.

- Eram crianças.

- Que violentaram outras crianças, eu já lhe expliquei sobre as Leis. Elas existem para serem seguidas e para que o mundo se torne menos obscuro, menos anárquico. Olhe para o mundo, Isabella – e neste momento Aro segurou-lhe pelos braços e a olhou com olhos febris e intensos – O que os humanos fazem a não ser se destruírem? Eles devastam tudo, matam seus semelhantes e nada pode deter sua investida furiosa e insaciável... se houvesse leis mais rígidas para domá-los o mundo teria uma chance maior de sobreviver. Leis são necessárias, e sim, os Volturi tem um lema de “olho por olho, dente por dente” porque é necessário que seja assim! Não há outra forma de nos esconder se formos parciais demais... o que eu deveria ter feito com aqueles meninos? Prendê-los? Não, não resolveria... agora com o desaparecimento deles eu garanto que futuros estupradores não surjam em minhas ruas.

- Você destruiu minha família – dizia Bella sem forças, ela poderia novamente deslizar para o chão se não fosse as mãos fortes de Aro a sustentando – Você tentou me matar, eu deveria ter morrido em batalha... Jane queria me matar... Felix queria me matar... você matou meu marido...

- Eu não tive escolha – disse Aro desvairado – Eu os convidei para virem a mim, para morarem em Volterra como reis, príncipes e princesas... por que vocês não aceitaram? Diga-me Isabella, por que não aceitaram?

- Queríamos viver em paz... livres.

- Não há como viver em paz lá fora... você não entende. Não há como, com a onda que está por vir não haveria paz, uma onda que inundará o mundo todo em sangue e devastação, estariam mais seguros aqui comigo.

- Do que está falando? – perguntou Bella com medo.

- De algo que apenas nós sabemos... algo que afetará o mundo dos vampiros e transformara o mundo dos humanos em pó, algo para o que estamos nos preparando há séculos. Como eu poderia deixar vocês, Cullen de olhos dourados, com seus poderes fenomenais, soltos pelo mundo? Quando a onda viesse vocês seriam terríveis e eu não tive escolha, ou estariam comigo ou seriam uma ameaça muito grande... preferi eu mesmo destruí-los.

- Você está louco, Aro...

- Não – respondeu o rei ainda agitado – Não. Louco não. Cansado talvez, mas louco jamais. Talvez eu lhe conte, sim... talvez eu lhe conte. O motivo por não deixar vampiros poderosos a solta, por que não podia permitir que sua filha se unisse àquele transmorfo a fim de originar uma raça ainda mais poderosa do que os vampiros... havia o temor... o temor de não poder controlar tal raça, de eles se tornarem ainda mais terríveis depois que a onda viesse...

- Aro, que onda é essa? – perguntou Bella agarrando-se ao braço de Aro, sentindo um medo crescendo dentro de si com ainda mais força.

- A onda da mudança – respondeu Aro e seus olhos encontraram os de Bella e então ele soube que estava alucinado demais e se afastou da moça dando-lhe as costas.

- Tem a ver com Vrau Urban, Erestor e o tal livro Vermelho, não é mesmo? – perguntou Bella não contento a curiosidade e o medo – Com Arian e Nínive, Lycos e o Cofre dos Segredos e todo o resto que fora tratado no salão esta tarde? Quem são estas pessoas, afinal?

- É muito cedo para você saber destas coisas – disse Aro parecendo recuperar novamente a sobriedade – Muito cedo para eu partilhar os horrores de nossos segredos, dos motivos que nos tornam tão irascíveis, tão impiedosos e tão odiados. Nem sempre foi assim... nem sempre foi assim.

Havia tristeza na voz de Aro e Bella quase se sentiu impelida a ir até ele, mas não foi... ele ainda era o rei que dizimou sua família, mas de repente isto pareceu ter acontecido há milênios. Ele ainda era um Volturi. “E você não é?” perguntou uma vozinha ruim em sua mente.

- Pouco além da pradaria que antecede a cidade – disse Aro olhando para o céu que se acendia de luz, seus olhos estavam distantes e tristes – Havia um vilarejo, lá os camponeses faziam um vinho que se dizia ser de qualidade primorosa, em dias de chuva eu caminhava até lá como um camponês qualquer. Trajava-me de trapos e sujava meu rosto e ocultava meus olhos rubros com uma venda me fazendo de cego... foi lá que conheci um homem de bom coração chamado Aquino. Ele plantava uvas e a produzia um vinho doce e saboroso, gostava de conversar com ele... era um homem de hábitos e pensamentos simples, mas eu invejava sua simplicidade; Aquino era sábio em sua humildade e ouvi-lo me trazia tranquilidade, eu gostaria de poder partilhar a vida dele, já fazia três ou quatro séculos que eu caminhava sobre o mundo e me sentia desanimado com todo o peso sobre meus ombros.

- Ele já era velho quando o conheci, bem, velho para aquela época – continuou Aro sem desgrudar os olhos do céu – Contava cinquenta anos e éramos amigos há quinze, infelizmente fora um ano de muita chuva aquele, no campo eles eram obrigados a colher a uva fizesse sol ou chuva e Aquino contraiu pneumonia. Hoje este problema é tratado com facilidade em hospitais, naquela época era mortífera e eu fui visitá-lo justamente num dia em que se anunciava sua morte... vê-lo ali em seu leito, morrendo solitário me deixou com muita pena e eu decidi que não queria me dispor de um amigo tão querido. Assim sendo, contei-lhe tudo, retirei minha venda para que ele admirasse a vermelhidão de meus olhos e assumi minha verdadeira identidade como Senhor de Volterra e vampiro secular.

Aro silenciou por alguns momentos, mas Bella não o interrompeu, ela estava ali respirando com rapidez tentando sorver tudo o que lhe era dito, depois das palavras alucinadas do rei, depois de ele ter confessado seu amor por ela... aquela história a deixou sem entender o que Aro tentava dizer.

- Eu ofereci a ele a salvação – disse o rei de repente – Expliquei-lhe que poderia salvá-lo e que ele viveria ao meu lado por toda a eternidade longe da pobreza e da doença, disse-lhe que os séculos que viriam seriam os melhores de sua vida... que ele não precisava morrer, que eu não queria que ele morresse. Sabe o que ele me respondeu?

- O que? – perguntou Bella sem se conter, Aro a olhou e havia uma leve sugestão de sorriso em seus lábios, o rosto jovem do rei resplandecia aos primeiros raios de sol.

- Ele me olhou como se eu fosse um menino tolo e disse: “Você não quer que eu morra? Você é Deus, Aro? Não? Então você não pode impedir que eu parta. Você me conta que há séculos caminha sobre este mundo e que pode me tornar imortal como você, que eu não tornaria a conhecer a doença, a pobreza ou a morte... mas eu sou obrigado a perguntar, Aro, por que eu haveria de aceitar? Por acaso não sou humano e todo humano não deixa de viver um dia? Não, meu amigo, eu sinto muito... mas não me tornarei o que você é. Não é da natureza do homem viver mais do que o determinado por seu próprio corpo, tenha certeza de que sentirei sua falta onde quer que minha alma se encaminhe, mas o certo é partirmos deste mundo... ou ele nos enlouqueceria”.

- E dito isso ele partiu para o infinito... – disse Aro – E eu me recordo de suas palavras tantos séculos depois. Sabe, o vampiro que me criou o fez por sentir-se solitário... meu pai vampiro foi o criador de Volterra e ergueu este castelo para recheá-lo de pessoas imortais, pois, segundo ele, não podemos amar os mortais... e você sabe por que, Isabella?

- Porque eles partem para sempre e nós ficamos – respondeu Bella num sussurro.

- Exato. E nós ficamos sozinhos com as lembranças, vagando por este mundo e sendo obrigados a tomar decisões pelas quais somos constantemente amaldiçoados... eu não gosto de viver mais neste mundo, Bella... ao menos não sozinho. E sim, eu destruí tudo o que você amou porque acreditei que era necessário, porque tive meus motivos... e os detesto, estou farto deste fardo, mas não tenho escolha a não ser carregá-lo... e isto, talvez, seja uma espécie de nobreza, não é mesmo?

- Por que está me contando tudo isso, Aro?

O rei caminhou até Bella que não fez menção de se afastar, suas forças já haviam sido consumidas naquele dia exaustivo; Aro colocou suas mãos geladas nos ombros nus da garota e os olhos rubros do vampiro focaram-se nos olhos dourados da princesa.

- Eu quero que seja a minha esposa – disse Aro – Minha rainha. Isabella, Rainha de Volterra.

E dito isso a beijou.

E Bella sentiu como se estivesse sendo beijada pela morte uma segunda vez.

E novamente ela não se afastou, assim como da primeira vez que Aro a beijou, pois como da vez anterior simplesmente não teve reação ante o rei vampiro. Naquele dia terrível ela ouvira segredos sem fim, matara um menino com metade de sua idade e traíra sua filha... estava de tal forma confusa e sozinha que não reagiu diante da investida de Aro.

Mas a voz do vampiro ainda ecoava em sua mente turbilhonante, a última frase vibrando pelo ar como um eco reverberante e de mau agouro...

... Minha Rainha.

Isabella, Rainha de Volterra.

Notas finais
E a coisa fica complicada ainda mais... hahahaha.
Próximo Capítulo: O Inimigo de meu Inimigo...