Cancro & chaos
13 Josué
Esse capítulo pode ser ainda mais perturbador! Mesmo! Leia sabendo disso ou não leia. A escolha é sua. E o mundo, meu bem, é feito de escolhas em prática.
Vamos testar a sua memória! Ao sair do meu antigo trabalho, na esquina, eu virei-me e vi um homem trancando as dependências do estabelecimento. Qual era o nome dele? Vamos lá, 3 segundos para sua resposta... Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Josué!
Você é genial! Exatamente, Josué! Amo leitores engajados.
Enfim, aqui vamos nós após esse exercício de memória magistral. Vale dizer que tal trocadilho só vem como calmaria antes da tempestade. Lá estava eu entrando na parte mais violenta da cidade, com maior desigualdade de renda, portanto, altos índices de pobreza e elevados valores capitais acumulados desigualmente. É até sarcástico pensar que existe uma área com alto índice de violência computada alinhada à pobreza altíssima, como se não houvesse violência velada na parte rica da cidade; como se não houvesse grana preta ocultando os crimes daqueles que podem pagar. O lugar em que me encontra era o famoso logradouro onde a criança chora e a mãe não vê. Um pedaço esquecido pelos políticos, com exceção da parte financeira que diz respeito ao comércio de drogas e armamentos, essa tinha toda atenção do mundo aos embolsadores; a Vila Real é o local com maior fluxo capital sobre entorpecentes sintéticos e naturais, além dos recursos bélicos. Não importa se há trabalho escravo e infantil, não importa se custa vidas e meio ambiente, o quê importa, para eles, é o quão lucrativo será.
E os criminosos? Adivinhem quem a mídia chama de bandido? É, na maioria das vez, o cara com a arma na mão (geralmente pistola, fuzil e escopeta), pobre e, às vezes, tentam fazer com que pareça que até o crime tem cor; se é que me entende. Por qual grande motivo o político corrupto só é chamado de político e não de criminoso? Eles também empunham armas e agem na ilegalidade, ou na legalidade que eles decidiram assim afirmar. Uma curiosidade: algumas canetas esferográficas que tais políticos usam para assinar as suas sanções (geralmente para aumentar o próprio salário) têm as suas pontas (por onde sai a tinta) feitas de carbureto de tungstênio, metal usado em balas de revólver. Mera coincidência, né?
Entrei no conglomerado de extensos bairros. Havia crianças pequenas correndo, sujas, pelas calçadas deterioradas. Uma delas parou, pequena estatura, cabelo crespo, pele mulata, com o nariz escorrendo e a boca rachada; fitou-me e eu não entendi o motivo. Ela continuou a correr depois e eu fiquei petrificado, percebi que de alguma forma o apocalipse já havia chegado para eles e nenhum jornal havia me dito aquilo.
Casas com tijolos feitos de farinha de pão. Uma atmosfera sombria que me assustava. Eu parecia estar em Londres em plena revolução industrial ou nalgum lugar da Europa quando a peste negra despontou. Ratos, nocividade e um fedor nauseante.
Meus olhos estavam arregalados, era uma realidade lisa que eu não havia visto nem nos meus piores pesadelos. Dentro da cidade que eu morava, lá, em mais um coração dela e eu nunca havia entrado e visto tais atrocidades com os meus próprios olhos.
Minhas roupas brancas, agora molhadas, eram muito destoantes para aquele lugar e instintivamente, como se eu tivesse incluído num romance realista-naturalista determinista, joguei-me na sarjeta mais próxima e lancei a água enegrecida que ali estava parada, em mim. Sujando-me novamente. Meu asseio chamaria atenção? Talvez. Mas, eu não me sentia eu de roupas limpas. Freud explica.
A sujeira e o palavreado que eu ouvia enquanto passava por becos e vielas, tinha um certo aspecto característico, como se fosse pontos da cultura local. Os xingamentos, os trajes que tinham, unicamente, como adorno, a sujeira. Era o extremo do extremo e desde então, apenas o quê eu havia ouvido era algo sobre políticas afirmativas e de inclusão social para aquela população. Eu não via nada disso ali. Ternos eram desrespeitosos.
Continuei andando e uma menina de cabelo encaracolado, branquíssima com marcas de carvão ou graxa, olhos claros-cristalinos, passou correndo fazendo som de uma ambulância enquanto algum garoto ao longe gemia de dor, forçado ou não, eles pareciam brincar de auxílio. O conto de fadas deles.
Homens e mulheres andavam armados na maior normalidade. Um fio de tensão me percorria, como se eu soubesse que algo muito ruim aconteceria, sem saber quando ou onde. Eu só sabia.
Encostado numa parede, na periferia do meu olhar, havia um homem agonizando, levantava o indicador. Deduzi que pedia ajuda. Aproximei-me. Barba amanhecida, olhos fundos e delirantes, pálpebras tremulas e veias saltadas. Uma seringa ao lado. Estava mordendo a língua. Minhas entranhas requebraram. A ponta dos meus dedos gelaram. Soltei, inaudível: “Josué...”.
Alternando mordidas na língua e palavras, ele tentava dizer algo, nem me via, apenas dizia, enquanto gradativamente a sua voz findava, feito canto de pássaro no fim da vida.
— A canoa... Virou... Por... Deixá-la virar... Foi... Por... Causa da... Maria... Maria... Que não... Soube... Remar... Siriri... Pra cá... Siriri... Pra lá... Maria é... Velha... E quer ... casar... Se eu fosse... Um peixinho... E... Soubesse... Nadar... Eu... Tirava a... Maria... Lá do fundo... Do mar...
Uma melancolia indescritível abraçou-me. Josué, sempre tão forte e empenhado, fazia turnos extras quando precisava, trabalhava arduamente dizendo que queria a sua mobilete. Falava com os olhos brilhosos. Aquele não era o Josué que eu conhecia. Ele havia dado as suas tripas e o coração pelo trabalho, só para provar, indiretamente, a falácia que é afirmar que o trabalho dignifica o homem e basta você querer e batalhar que alcança o desejado. Just do it. Se fosse simples assim.
Se não houvesse a necessidade de sanar o pânico que acomete o ser humano moderno, se assim podemos chamar a agonia e o ser humano, ele teria gasto as suas despesas na mobilete desejada e não em heroína. Nós gastamos o nosso dinheiro para sanar esse pânico. TV à cabo, pornografia, revistas sobre famosos, amontoado de livros, gula, drogas lícitas e ilícitas, sexo irrefreável, fetiches doentios, imaginação utópica sobre mundos melhores, amores salvacionistas e criaturas celestes. Sem desmerecer a utopia e o escape, o problema é quando tal forma de driblar a agonia, torna-se método de vida vicioso.
Josué tinha um escape, ligeiramente, mais eviscerador.
A música que cantava trazia-me a sensação agônica da impotência. Maria afogou-se, pois, Josué não sabia nadar, só restou vê-la afundar e afundar...
Minha linha de pensamento sorumbática veio ser freada de modo brusco. Um som cortante e assustador. Um disparo, uma bala atingindo em cheio uma mureta ao meu lado. Abaixei assustado, o ouvido zunindo, corri para o beco mais próximo, dantesco, com a visão borrada, feito um astigmático sem óculos. Joguei-me entre os lixos que mofavam no mais profundo do beco. Logo percebi: o disparo havia iniciado um tiroteio de proporções horripilantes. Eu só conseguia ver balas voando de um lado, ouvia gritos histéricos que se findavam rapidamente do outro... Levei a mão aos ouvidos e fiquei sendo carcomido por uma espécie de medo paralisante. Por meio dos meus olhos semicerrados, avistei no centro da rua onde acontecia o tiroteio, uma mochila preta e vermelha... Rímel certamente não imaginaria que suprimentos seriam motivo de digladiação desumana. Parte de mim sentia-se profundamente culpada pelas vidas, que vi ao sair do beco, sendo escoadas para o bueiro mais próximo até se tornarem nada.
A criança que fez o som da ambulância passou correndo pelos disparos e tomou com uma das mãos, rasante, a bolsa e sumiu. Inesperadamente, não se ouvia mais disparos e cápsulas de bala tombando contra o chão. Foi como tempestade torrencial freada instantaneamente.
Evitando barulho, fui andando até a saída. Eu não entendia o motivo dos disparos findados; ou grande parte havia morrido ou algo mais havia acontecido. Para a minha surpresa, todos os atiradores, que não estavam mortos, estavam parados, eretos, olhando para algo no chão. Alguns seguravam firmemente a arma no punho, outros haviam deixado cair. Fui andando entre os corpos ensanguentados, os corpos perplexos e catalépticos, as almofadas de balas antes chamadas de corpos humanos... Passei pela última pessoa e me deparei com uma cena que nunca esquecerei.
Aqueles pequeninos olhos abertos, olhos os quais me lembravam o céu de outra terra, aqueles olhos claros-cristalinos. A boca espumava imóvel. O sangue se misturava ao asfalto. Uma mão aberta e totalmente calejada e ensanguentada. A outra mão afrouxada com a mochila entre os dedos. O brilho daqueles olhos perdiam-se no breu que acometia os meus. Levantei os olhos por um instante ao ouvir uma mulher aproximar-se correndo, desesperada e jogar-se ao chão, arrastando os joelhos que certamente rasgaram-se; tomou a menina nos braços, os cabelos encaracolados, da filha, no punho e começou a gritar, chorosa, enquanto todo o bairro silenciou-se. A TV à cabo saiu do ar, os atores pornôs pararam o ato, redatores de revistas sobre famosos estagnaram suas escritas, amontoado de livros foram queimados, gulosos gorfaram, drogas lícitas e ilícitas desceram pela goela abaixo, sexo irrefreável finalmente parou, os fetiches doentios deram asco e imaginação utópica sobre mundos melhores, amores salvacionistas e criaturas celestes foram abandonadas no abismo dos desolados.
— Não! Não! Minha filha! O quê você foi arrumar para mim?! — Puxou violentamente o cabelo do corpo já inanimado, ditava com raiva — Como eu vou arrumar comida para os seus irmãos pequenos?! Eu vou ter que vender o meu corpo! O meu corpo! — Apoiou a cabeça no peito perfurado da guria e chorou.
Não havia quem não se comovesse com a cena. A mãe puxou abrupta e raivosa a bolsa da menina, empunhou-a, olhou para o corpo, segurou o antebraço da guria e puxou-a pelo asfalto, arrastando-a. Saiu dando passos largos, como se marchasse rumo à depressão. Os guerrilheiros dispersaram paulatinamente e os mortos ficaram ao céu aberto, sem mortalha.
Olhei o Josué. Fui até ele. Passei a mão sobre as suas pálpebras e nem questionei os céus se ele havia morrido por causa da overdose ou por causa das múltiplas hemorragias.
Dentro de mim, eu não sabia mais o quê restava. Tempos atrás eu era um pacato trabalhador, tomando os meus remédios, sendo explorado por algum burguês com pinta de quem se importa... Num susto revogante, perdi casa, inconsciência, integridade e naquele momento perdi a mais preciosa pérola que se tem ou se pode ter: a vontade de viver.
Eu tinha uma casa dentro de mim. Ela foi demolida, pisoteada e usada para acender algum charuto gigante a qualquer humano que consegue roubar sem se preocupar se faltará fraldas aos velhos, brinquedo às crianças, cama e remédio aos doentes e felicidade aos semelhantes...
Decidi ir embora naquele dia, para sempre. Mas, o destino tinha outros planos para mim. O quê foi perdido, às vezes, pode ser achado novamente.
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