Cancro & chaos

4 Cavalos selvagens


Sorriso cavalar: a sensação ruim que havia acabado de me acometer dissipava-se no ar. Pessoas no parque. Nevava noite e elas estavam ali, sem meios eletrônicos, numa felicidade que me invadia como álcool em madrugada de exaustão.

Havia um lago no centro. Nos bancos, crianças noturnas, adultos insones e idosos lunáticos (lembre-se que lunáticos vem de Lua). Conversa animada e uma vibe de paz no meio do coração da cidade. Em arquiteturas de pedra, a felicidade geme; um gemido esotérico, sem a libido característica dos festivais à Baco, era mais uma felicidade das flores e não dos cães.

Meu conto hermético é pela abstração que é ser alegre num mundo que parece compactuar para o contrário.

Andei até o encontro dos atos ritualísticos, exuberantes em prol de manifestar a alegria. Protesto real.

Sentia-me como um cavalo selvagem, rebelando-se contra a tristeza que me atentava em cada curva, em cada campo aberto, em cada lágrima de alegria ou melancolia, aterrorizava-me a sensação de ter a felicidade; sempre me contaram que ela vivia longe, talvez, noutro país... Daí a vontade de sempre viajar. Ela precisa estar longe? A mando de quem? Enche a carteira de alguém? Felicidade fugidia, materializada em ídolos que caem. Preciso ser arquiteto; pelo menos sirvo para construir a minha própria felicidade.

Fiquei indeciso em qual grupo me inserir, todos pareciam intocáveis, sem bolhas de proteção, eles não precisavam, viam o mundo de uma forma diferente e aquilo mexia comigo de alguma forma estranha, no sentido positivo.

Inesperadamente, meu corpo se aqueceu e uma força invisível e intocável me elegeu para o lago (eu também não sei o quê isso quer dizer, eu só fui, determinado); sentia-me atraído por pérolas que eu não via, mas, surdia-me a certeza que embaixo daquela água estava a chave para o quê eu tanto buscava.

Comecei a andar em direção ao lago azul, todos os meus átomos respondiam em consonância. Algo dizia-me que ao entrar naquela atmosfera subaquática, os males que se passavam naquela noite, seriam findados, cortados em pedaços.

Entrei. Senti frio. Ao entrar no lago que de longe não parecia profundo e agora parecia um oceano a ser desbravado, enchi-me de coragem.

Será que todos os remédios que eu era forçado a comprar com o meu tempo, era para prevenir que houvesse momentos como esse? Em que a loucura bate forte e a realidade troca de roupa.

Senti uma insuficiência respiratória, voltei à superfície como se afogasse violentamente. Após a água descer pelos olhos e eu retomar a minha consciência, percebi: não havia mais ninguém ali, todos haviam partido e o terreno antes tão repleto e vivo, descortinava-se em mais um local sombrio em que a Lua havia esquecido de iluminar.

Saí molhado, por dentro e por fora, e a sensação que acometia os meus melhores sentimentos, havia partido para algum terreno longínquo. Uma vontade de chorar, de derreter, vazar pelo ralo mais próximo... Eu havia visto o quê não queriam que eu visse. Saltou sobre os meus olhos e diante tantas piruetas não pude negar a análise e o voto.

Pensamentos como: a escola serve para desaprender a pensar, os bancos não foram feitos para agilizar e o mundo é uma feira. Trabalho compulsório. Cuspes.

Surtos de lucidez são doloridos, contudo, necessários. Não há uma teoria da conspiração, há engrenagens contínuas e tangíveis, entretanto, travestidas de meios que nos fazem acreditar que sempre estiveram em vigor. A fome, a guerra, o consumismo, a invasão de privacidade, o terrorismo de estado. Vivemos no cúmulo da egolatria, convencidos de que o melhor para nós é o melhor para todos. Estamos iludidos o bastante para achar que isso tem algum nome sobre a velha dinâmica capitalista versus socialista. Enganamo-nos, não há um nome para isso, é apenas pacifismo, é apenas viver sem truculência. Não precisamos de outra rotulação. Rótulos nós pomos em produtos...

Desde quando você aceitou o mundo como ele supostamente é? Desde quando suas pílulas convenceram que o mundo não pode supostamente ser? Falamos tanto da mudança e ela repousa no orfanato, esperando ser adotada.

Veio mais, pensamentos que me bombardeavam e vieram ao seu encontro, leitor.

Ninam-nos com músicas apológicas à ideologia de que fomos criados para sermos governados. Os presentes nos “santuários políticos” são realmente respeitáveis. Tirando os roubos, corrupção, prazeres sórdidos e religiões de escape, são perfeitos; aí vem o susto: somos tão inferiores quanto eles, na nossa corrupção velada. Criticamos e falamos que existirá algo melhor. Tapamos a nossa subjetividade e falamos ao mundo. Somos antídotos de um mesmo saco. Se não mudarmos nossas propriedades-prioridades, como queremos que os outros sejam melhores?

O escroto desse sistema é que foi feito por seres humanos para seres humanos. A valorização detém-se em exaltar nossos defeitos, quando, na verdade, dizem, acobertadamente, que não somos capazes de sermos melhores e rebelarmo-nos contra o nosso próprio criacionismo, o qual tomou fórmulas catastróficas, dentro e fora de nós.

Enquanto secava e olhava o meu redor, pensei: o meio ambiente é um ótimo termômetro para enxergarmos a destruição ou a magnitude da intocabilidade. Você se vê nele?

Eu havia acabado de ser soqueado pela realidade. Já pensou? Será melhor nascer e morrer de olhos fechados?