Canarito

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Como a história ficou um pouco maior do que eu esperava, optei por dividí-la em capítulos, para os eu conforto, leitor. Neste primeiro capítulos conhecerem um pouco de Cristina, seus pais e sua amiga Mariana. Existem trechos em língua estrangeira espanhola na história, caso tenha alguma dificuldade me sinalize, por favor.

Era mês de Agosto, com seus dias que pareciam enormes e inúmeros. Aquele mês que o tempo fica indeciso entre as chuvas de inverno e o calor da primavera. Numa manhã de quinta-feira, durante uma passagem de enfermaria, quando eu já estava cansada demais e com fome demais para prestar atenção no caso do paciente que estava sendo discutido, percebi os cochichos empolgados que vinham do posto de enfermagem. Usei a desculpa de buscar outro par de luvas no armário para sondar o motivo da agitação.

Com um sorriso simpático no rosto para, eu esperava, disfarçar a curiosidade nos meus olhos me aproximei da técnica de enfermagem.

— Com licença, Luísa! Pode pegar a caixa de luvas para mim, por favor? – Disse, tocando seu ombro.

Luísa, sendo arrancada da conversa agitada, olhou-me espantada, enquanto processava meu pedido.

—Claro, doutorinha. – respondeu.

Eu me incomodava um pouco com o “doutorinha”. Afinal, eu ainda era apenas uma estudante, uma estagiária, mas com o tempo percebi que era uma forma carinhosa – quando não desdenhosa — da equipe se referir aos estudantes que circulavam aos montes pelo Hospital Universitário. A parte do tratamento desdenhoso sendo aplicada, em maioria, pelos próprios Médicos-Preceptores.

Afastando um pouco a cadeira de rodinhas para desbloquear a porta do armário, Luísa abaixou-se e logo voltou com a caixa de luvas de látex que me entregou.

— A visita já está terminando? – ela acenou para o relógio acima da balcão enquanto perguntava. Só então percebi que já eram 12h20.

— Sim. Faltam 3 leitos. Depois vamos só finalizar as evoluções e ajustar algumas prescrições. Mas acho que os Residentes já renovaram a maioria das prescrições.

Ainda assim, era muito provável que eu só estivesse liberada depois das duas da tarde. Principalmente com dois computadores com mal funcionamento na enfermaria. Eu teria que procurar um computador no 5º andar, se quisesse adiantar o meu lado. Enfim, seria mais uma tarde de folga que me era roubada pela metade.

— Porque o pessoal está tão empolgado assim? – Perguntei olhando rapidamente pro grupo de profissionais que conversava, enquanto passavam um celular de mão em mão. Ela deu um sorrisinho com o canto da boca antes de me responder.

— Uma notícia do Catraca-livre. Tem um navio-escola argentino atracando no porto. Vai ficar aberto para a visitação até o fim de semana. De graça.

— Por isso o alvoroço? – Perguntei, achando que visitar um navio poderia ser interessante, mas não merecia toda essa empolgação. Como se fosse um show muito esperado ou a estreia de um filme nos cinemas.

— Na verdade, o alvoroço é por causa dos Marinheiros Hermanos que vão estar circulando pela cidade. – Ela piscou de forma brincalhona.

— Ah, sim! – não pude evitar um sorriso divertido enquanto concordava. – Você vai visitar o navio?

Luísa soltou uma risada como um suspiro e abriu os braços para a enfermaria enquanto olhava para o teto, como se dissesse “Não, os planos para hoje só incluem muitas horas de plantão”. Levantei os ombros e fiz um bico.

— Boa sorte... – Dei um sorriso, peguei as luvas e deixei a caixa sobre a bancada. – Bom, deixa eu voltar para a visita ou o Dr. Peixoto vai tirar pontos na minha avaliação. – E me virei para sair do posto de enfermagem.

Enquanto me encaminhava para o quarto no fim do corredor, onde Dr. Peixoto se reunia com meus 3 colegas e 2 Residentes em volta do leito de Dona Conceição, peguei o celular e pesquisei o tal navio argentino no Catraca-livre. Todavia, tive que guardar o telefone antes de ler a notícia, porque Dr. Peixoto me encarou com olhos semi-serrados por cima da cabeça de Alana, que passava o caso da paciente, me repreendendo.

No fim da visita ainda tive que colher sangue do Sr. Augusto e levar às pressas para o laboratório no 2º subsolo. Descer e subir as escadas correndo era um esforço extenuante, mas era mais rápido do que esperar pelos elevadores que paravam de andar em andar, lotados de pacientes. De volta à enfermaria 2A, passei as pendências dos meus pacientes para Alana, que ficaria de plantão na enfermaria durante a tarde. Finalmente fui dispensada com uma assinatura da Residente no meu taxímetro às 14h26.

Eu já estava azul de fome. Tinha tomado café da manhã com o nascer do sol, praticamente, e na correria do dia não havia comido mais nada desde então, nem sequer tomado água. Por isso, voltar para casa à pé sob o sol brilhante da Bahia exigiu toda minha concentração, pra não ser atropelada ao atravessar os cruzamentos. Pelo menos eu morava perto do Hospital e não precisava pegar um ônibus lotado que iria dar mil voltas na cidade até chegar em casa. Bastava uma caminhada de 10 minutos, ainda que houvessem ladeirinhas e cruzamentos movimentados. Agradecia por isso todo santo dia.

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Para minha felicidade, ao entrar no apartamento senti um cheiro delicioso. Corri para o banheiro, gritando um “Boa tarde, Mari!” ao passar pela porta da cozinha. Tomei um banho rápido, vesti um roupa de malha bem folgada e prendi o cabelo volumoso em um coque. Uma das partes mais felizes do dia era me livrar da calça jeans apertada e vestir algo leve. Para ganhar um pouquinho de energia, peguei o frasco de alfazema e esfreguei um pouco do perfume nos pulsos e atrás das orelhas. Um ritual da infância do qual eu não conseguia me desapegar.

Meus pais estavam em Salvador para me visitar. Na verdade, minha mãe tinha agendado mais uma extensa semana de consultas médicas, e eu estava atolada de atividades do estágio. Ainda assim, era como se meu pequeno apartamento realmente parecesse um lar, em vez de uma residência universitária, quando meus pais estavam por perto. Eu estava sempre sentindo saudades deles. Mas naquele horário só estávamos eu e Mari em casa.

Mariana, minha amiga e colega de apartamento, estava na sala comendo um prato de macarrão com molho rosê e queijo, enquanto assistia pela 50º vez aos episódios de “Jane The Virgin”. Entrei na cozinha e percebi que tinha uma variedade de alimentos bem maior nas panelas sobre o fogão. Servi um prato com o arroz com pequi, galinha caipira cozida, andu, e cortadinhos de palma e maxixe. Uma refeição típica do interior, com sabor de casa. Era maravilhoso ter uma “comida de mãe” e tantas iguarias de vez em quando, quase uma regalia. Esquentei tudo no micro-ondas porque já estava frio e fui para a mesa na sala, acompanhar minha amiga.

—Mari, se tinha tanta comida, porque tu fez macarrão com queijo de novo? Vai ficar doente se continuar comendo assim todo dia... Devia aproveitar a oportunidade. – Repreendi, porque ela realmente tinha um péssimo hábito alimentar. E talvez até justificasse, com a loucura que eram os nossos dias, mas não quando um de nossos pais estava de visita e preparava nossa refeição.

— Eu comi, mas deu vontade de comer macarrão também, ué! – Ela disse sem tirar os olhos do celular e depois riu de alguma cena que ela já havia assistido dezenas de vezes. – Até parece que eu ia rejeitar um arroz com pequi e galinha caipira. Não sou louca!

— Painho e mainha saíram que horas?

— Pouco antes de você chegar.

— Hum... – Olhei o celular, ela estava assistindo de novo ao episódio em que as gêmeas criam o site sobre a Jane. – Porque você não assiste na TV?

— Eu estava vendo enquanto fazia o macarrão, assim é mais fácil.

Ah, claro... Alguém precisava apresentar outra série para Mariana. Ela simplesmente reassistia aos episódios de Jane em todo seu tempo livre, em um looping infinito, mas sem nunca assistir à última temporada. Jamais. Mari dizia que Jane havia sido sua primeira série, seu primeiro amor, e ela não queria que acabasse, e assistir ao último episódio seria como colocar um fim no relacionamento. Eu só podia rir quando ela começava com essa história. Eu havia assistido a “Jane The Virgin” por causa da insistência de Mari e realmente tinha gostado, maratonei as 5 temporadas em 1 mês, mas eu não compreendia o apego dela.

— Sabe que um dia vai ter que assistir à última temporada, né?

— Quando eu estiver preparada.

Ela já sabia como tudo terminava. Mariana era o tipo de pessoa que procurava spoiler sobre as coisas e, com frequência, tinha a língua solta demais para guardar as informações só para si, o que era um terror! E mesmo assim ela simplesmente se recusava a assistir à última temporada de fato.

Lembrei da notícia do navio e peguei o celular para ler, finalmente. Era um navio-escola, a Fragata A.R.A. Libertad. Desde 1963, anualmente, a embarcação fazia uma viagem que durava 5 meses, para que os graduandos da escola naval da Armada Argentina pusessem em prática seus conhecimentos sobre navegação, enquanto visitavam várias cidades portuárias do mundo. Desde que partira do Mar de Plata há 12 dias, o porto de Salvador era o primeiro destino da embarcação na viagem atual. Havia chegado na tarde do dia anterior e ficaria aportada alí até o domingo, quando partiria para as Ilhas Canárias. Durante esse período oa fragata poderia ser visitada das 14h às 17h, com entrada franca.

— Vai para faculdade hoje, Mari?

Mariana cursava jornalismo e tinha um horário que só ela era capaz de entender. Mas fiquei curiosa sobre o navio e talvez meus pais chegassem antes das 17h. Seria um passeio interessante.

— Não. Tive uma prova hoje, tenho outra amanhã. Só isso. – respondeu, desviando minimamente os olhos da tela do celular.

— Tem um navio-escola argentino no Terminal Marítimo do Comércio que está aberto pra visitação gratuita. O que você acha da gente ir dar uma olhada?

Mari era extremamente curiosa e descolada, poucas coisas a deixavam tímida ou sem jeito, bem o meu oposto. O convite chamou a atenção dela. Olhou pra mim com os olhos arregalados e brilhantes e eu já sabia a resposta. E então... um lampejo de terror passou por seu rosto.

— Mas o navio vai estar parado né? – Mariana amava o mar, mas tinha medo de embarcações porque já tinha sonhado muitas vezes que morria em um naufrágio, como o do Titanic. – Se não, nem pensar Cris!

— Vai sim! – respondi entre risos – E não se preocupe, vai ter muitos marinheiros lá, eles devem saber nadar bem, caso qualquer coisa aconteça. – Ela fez uma cara de brava para mim.

— Tudo bem. Vou perguntar pro Pedro se ele quer ir, tá?

Pedro era namorado de Mariana, era gente boa e os dois eram um casal muito fofo! Mas ela sempre me perguntava se podia chamá-lo para os nossos rolês, porque não queria me deixar de vela sem que eu concordasse. O fracasso romântico que eu era. Eu apreciava muito a consideração da minha amiga. E eles nem eram um casal chato e pegajoso, pelo contrário, eram muito reservados.

— Tranquilo. Vou ligar pros meus pais também. A gente quase nunca sai quando eles estão aqui, vais ser um programa bem cultural, acho que vão gostar.

— Beleza! – ela disse se levantando e recolhendo nossos pratos para levar para a cozinha.

Meus pais estavam em um consultório ali perto. Minha mãe já estava sendo atendida e logo estariam de volta. Mariana disse que Pedro não poderia ir porque estava se preparando para um Juri Simulado no dia seguinte. Era uma pena, de verdade. Então fomos nos arrumar. Eu nunca tive muita paciência pra ficar fazendo muita produção. Soltei o cabelo e dei uma arrumada nos cachos pra reduzir um pouco o friz, escolhi um vestido longo e soltinho e uma rasteirinha. Passei um protetor solar, um rímel e um brilho labial e já estava pronta. Tão ágil quanto eu, Mari também já estava pronta quando saí do quarto e ficamos assistindo a Jane, enquanto esperávamos meus pais chegarem.

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Saímos em direção ao porto, na Cidade Baixa, às 16h27. Não era longe, mas com o trânsito que se encontra em Salvador nesse horario eu realmente achei que não chegaríamos a tempo. Então, quando atravessamos o semáforo em frente ao Elevador Lacerda e, por trás dos prédios, eu já podia ver os mastros da embarcação, fiquei bastante apreensiva de termos dado viagem perdida e eu não poder conhecer aquele navio que já impressionava. Com certa dificuldade encontramos uma vaga para estacionar às 16h56. Não sei se era a expectativa ou o tempo quente e abafado, mas eu estava com calor e suando apesar do vestido de alças finas e costas quase nuas.

Atravessamos a rua, eu e Mariana meio andando e meio correndo, até alcançar o guarda que estava prestes a fechar o Terminal Marítimo. Seguimos um fluxo de pessoas pelos corredores até a área externa, no deque do porto. A embarcação era linda. Branca e longa, com uma cabine com dois andares no centro. As velas estavam recolhidas nos três mastros altos. E ao longo de seus maior eixo uma diversidade de bandeiras tremulavam com a brisa do mar, formando um arco através dos mastros. Em uma das extremidades da Fragata a bandeira do Brasil estava hasteada ao lado da bandeira Argentina.

Entretanto, o que me chamou a atenção a princípio foi o tamanho da fila de pessoas que aguardavam para subir na embarcação, enquanto uma multidão já andava para lá e para cá no deque da Fragata. Entre as pessoas, era fácil identificar os oficiais argentinos em seus uniformes impecáveis. Sem querer desanimar diante da possibilidade de não conseguirmos subir na embarcação fomos os 4 para o fim da fila, éramos um dos últimos grupos de pessoas a chegar e os portões de acesso se fecharam.

Já fazia pelo menos uns 40 minutos que aguardávamos na fila, que avançava em direção à embarcação de tempos em tempos. O sol reluzia no fim de tarde, próximo ao horizonte. Conversávamos animados e tirávamos algumas fotos para passar o tempo. Era um bela visão e, conforme chegávamos mais perto, a embarcação crescia como um monumento, flutuando preguiçosamente como se fosse muito leve, era realmente deslumbrante. Além disso, a vista do sol e do mar ali no porto era muito agradável, a luz brincava na superfície da água, brilhando como purpurina e reluzindo no azul que se misturava ao azul do céu no horizonte, que aos poucos ia sendo tingido de rosa e laranja.

Quando estávamos bem próximos das escadas de acesso, um grupo de mulheres à nossa frente parecia debater algo. Chamaram um dos marinheiros próximos para pedir alguma informação, mas estavam tendo alguma dificuldade de se comunicar. De repente, lá estava Mariana se metendo no assunto. Fui atrás tentando por limite na minha amiga, mas acabei sendo tragada para a conversa.

— Eu quero saber se posso voltar à prefeitura para bater meu ponto e depois voltar para ver o barco. – Dizia uma moça. E o marinheiro olhava pra ela com uma cara de quem não estava estendendo.

— No entiendo... ¿Puedes hablar inglés?

Por isso, Mariana tentava achar as palavra em inglês para passar o recado da moça,olhando para mim com olhos bem abertos, pedindo minha ajuda. E ainda que eu tivesse um pouco mais de conhecimento em inglês do que ela, fiquei meio travada na situação.

—She needs to go back to the... Town Hall... she Works there... it’s... it’s the end of... her shift. She wants to know if... she will be able to come back... and enter, because they’ve closed the gates.— Consegui dizer depois de gaguejar bastante e vasculhar a memória pelas palavras, gesticulando muito em meio às palavras, me sentindo repentinamente envergonhada.

O marinheiro fez uma cara de compreensão e por fim negou com a cabeça e deu de ombros. Olhei para a moça e disse que não seria possível. Ela olhou para a saída do Terminal e para as escadas da embarcação, já tão próximas de nós... Virou-se e saiu cabisbaixa para bater seu ponto. Eu respirei fundo, liberando o nervosismo daquela situação, quando me dei conta de meu pai com o celular sobre minha cabeça... filmando???

— Fala mais! Poxa... eu cheguei já estava no finalzinho, não consegui gravar direito... fala mais alguma coisa em inglês aí!

Olhei para ele com reprovação, cobrindo meu rosto com as mãos em seguida, certa de que estava ficando vermelha como a estampa do meu vestido. Então me lembrei do marinheiro e ergui o rosto para falar um “Thank you” bem rápido... E percebi que ele esticava a mão indicando que era nossa vez de subir a escada para a embarcação.

Só que não era uma escada. Era uma espécie de rampa, muito escorregadia e traiçoeira para subir enquanto a embarcação balançava suavemente com as marolas do porto. E eu amaldiçoei a minha escolha de vestido longo e rasteirinhas. As sandálias escorregavam e eu não sabia se usava as mãos para me apoiar no corrimão ou erguer a barra do vestido. Com medo de escorregar, coisa bem comum para mim diga-se de passagem, atravessei a rampa e alcancei o deque da Fragata.

Era ainda mais lindo ali! O sol já ia bem baixo no horizonte, lançando uma luz dourada sobre tudo e, enquanto avançávamos sobre o chão de madeira em meio a confusão de cordas, começou a tocar o Hino Nacional Brasileiro e reparei que quase todos os oficiais em volta assumiram postura cívica enquanto se dirigiam à bandeira do Brasil que era recolhida. Achei lindo, porém mais bonito ainda era o pôr-do-sol. Andei até a lateral e me escorei entre as madeiras e cordas para admirar um pouco. Meus pais logo ao meu lado.

— Cris, filha, será que você pode pedir uma informação em inglês de novo? Quero gravar. – Disse meu pai, surpreendentemente, sério.

— Está brincando né? De jeito nenhum, painho... eu fiquei muito nervosa.

— Deixa ela em paz, Carlos. – Repreendeu minha mãe. O que me surpreendeu, porque normalmente ela sempre incentivava essas coisas. – Vamos conhecer o barco, viemos pra isso.

— Mas todo mundo está pedindo informação, conversando com os oficiais. – Disse Mariana, sinalizando em volta. Realmente, alguns marinheiros davam atenção aos convidados, de todas as idades.

Caminhamos até a proa da Fragata e tiramos algumas fotos ali. Meus pais reproduzindo um estilo Titanic e eu sem conseguir conter a riso. Vagamos mais um pouco, observado os entalhes nas madeiras... as cordas pesadas... as ancoras expostas... Devia ser bem engenhoso navegar com uma embarcação daquele tamanho, com velas. E então me peguei pensando em como os povos antigos fizeram isso durante as Grandes Navegações e fiquei honestamente admirada.

Mariana já estava mais adiante, pedindo para tirar foto com duas oficiais mulheres que estavam elegantemente vestidas de azul marinho e branco. Fui até lá para tirar a foto da minha amiga. Ela posou ao lado das oficiais e logo que tirei a primeira foto uma nova música começou a tocar. As mulheres logo assumiram posição de “sentido” e olharam ao longe, percebi que se tratava do Hino Argentino, enquanto recolhiam a bandeira argentina. Todavia, Mariana que não chegou a mesma conclusão, ficou toda empolgada, fazendo posição e sentido também e me chamando.

— Cris! Cris! Tira a foto por favor!!!

Olhei para ela sem crer. E me segurei para não rir da falta de “desconfiômetro” da minha amiga. Tirei a foto e depois arrastei ela para longe, fazendo um respeitoso aceno de cabeça para as oficiais que continuavam impecáveis em suas posturas. Fomos para perto de meus pais, e me permiti rir da situação finalmente, quando vi que meu pai já estava rindo.

— Mari, você nem desconfiou né?

— De que?

— Elas prestaram “continência” pra Bandeira e pro Hino. Não era pose de foto, amiga.

— Ai, meu Deus... – Mas o espanto passou rápido. – Ah, quem liga!

Ficamos ali, ainda rindo de Mariana e apreciando um pouco mais toda a vista, que era algo bem exótico para mim. Nunca havia estado em uma embarcação assim antes. Só mesmo as canoinhas sem glamour algum na barragem da minha cidadezinha. Enquanto observava, notei um oficial próximo a um dos mastros, ele cantava desafinado em espanhol, sério e respeitoso. Parecia bonito, apesar do quepe obscurecer um pouco suas feições àquela luz.

— O que será que tem lá em cima? – Perguntou meu pai, apontando para o segundo andar da cabine no centro da embarcação. Algumas pessoas passavam para lá e para cá, mas o movimento já era bastante reduzido se comparado a mais cedo.

— Não sei... Nem sei como subir. – Respondi dando de ombros.

E começamos a caminhar naquela direção, quando o hino terminou. Eu e Mariana na frente, seguidas por meus pais. Quando, do nada, senti um puxão no meu cotovelo. Virei-me espantada para ver quem tinha me puxado daquela forma e dei de cara com mau pai segurando meu braço, o rosto cheio de expectativa.

– Filha, pergunte ao oficial como subimos lá, por favor. – Disse meu pai, parado de frente para um oficial. Não qualquer oficial, mas o mesmo que eu havia observado cantar desafinado há poucos instantes.

— Mas... mas eu não sei falar espanhol... – Disse engasgando.

— Pergunta em inglês então, ele deve saber. – Respondeu meu pai, já pegando o celular com a câmera ligada e me empurrando na frente do marinheiro. Olhei desesperada para minha mãe que ficou sem reação também. Eu nem fazia ideia de onde Mariana estava.

— Não pai, para! Pelo amor de Deus, que vergonha... – Levantei a mão na direção da câmera do celular, sem conseguir encarar o rapaz. – Eu não sei... eu não... eu...

— Tudo bem, eu posso tentar un Portunhol...