Canarito

5 Capítulo 5


Notas iniciais
“Y si pudiera mostrarte Que estando juntos ya no hay nada que falte” (Cristina - Sabastian Yatra)

Acordei antes do meu despertador tocar. Meu pai já estava de pé, havia coado o café e se aprontava para sair para o médico. Certifiquei-me de que ele não estava esquecendo nenhum dos exames e sentei no sofá da sala com os artigos para ler, até ele sair. No momento que a porta se fechou, voltei para o quarto e me arrumei o mais rápido que pude: calça jeans, uma blusa de viscose fresquinha e tênis, antes de Mariana acordasse e começasse o interrrogatório.

Mandei uma mensagem para Nahuel às 08h22, enquanto aguardava o uber, esperando que ele já estivesse acordado, mas não tinha obtido nenhuma resposta ainda quando cheguei à frente do Elevador Lacerda. Incerta do que fazer, caminhei em direção ao prédio histórico da faculdade de medicina, optando por esperar naqueles corredores familiares até ter uma resposta.

O prédio funcionava basicamente de forma administrativa, mas aos finais de semana permanecia com a parte do museu aberta aos turistas e, se desse sorte, também teria acesso à parte interna se algum simpósio ou aula da pós-graduação estivesse ocorrendo. Entrei e me sentei no jardim, olhando o celular para passar o tempo, esperando uma resposta... mas nada. Já teria desistido de esperar, não fosse pelo fato de ter me encontrado com minha orientadora pedagógica e termos começado a conversar, eram 09h30 quando recebi uma mensagem.

Nahuel: Desculpa a demora. Ainda está por aqui? Tive que cumprir umas tarefas. Fui liberado agora. Espero que não tenha se cansado de esperar e desistido.

Pensei na possibilidade de ignorar a mensagem, me rebelar e ir mesmo embora sem vê-lo. Surpreendi-me com essa amargura, mas mais ainda com a ansiedade que senti por causa pensamento rebelde de não vê-lo. Eu queria, afinal, vê-lo e muito. Com as batidas do coração ganhando velocidade, respondi. Pedi que ele me encontrasse na frente do prédio da faculdade. Então, quando ele chegou todo sorriso, joguei os braços em volta de seu pescoço e ele deu um rodopio me tirando do chão. Eu ri pensando o quanto aquilo era fantasioso e clichê e, ainda assim, estava acontecendo.

— O que você quer fazer? – Perguntei acariciando seus cabelos.

— Lo que quieras hacer tu. Apuesto a que tienes muchas cosas que te gustaría mostrarme.— Respondeu com um sorriso atrevido. Aquilo me encheu de um calor que com certeza não tinha nada a ver com o sol brihante na manhã de céu aberto.

— Quanto já conheceu do Pelourinho? Já visitou muitos lugares? Esse prédio, por exemplo? – Falei apressadamente, enquanto colocava aqueles pensamentos calientes de lado. Apontei para o prédio da faculdade.

— Muy poco. No visité ese. — Ele respondeu, vendo que eu tinha sido pega desprevenida com suas insinuações e beijando minhas mãos como se pedisse desculpas por qualquer excesso.

— Então, acho que podemos começar por aquí.

Decidi começar por um terreno mais conhecido até recuperar um pouco da minha segurança que foi desarmada pelo comentário despretensioso dele. Eu realmente estava muito enferrujada em termos de flerte. Dessa vez levei-o para conhecer um museu cuja história eu conhecia mais. A história da Primeira Faculdade de Medicina do Brasil, fundada em 1808 por Dom João VI.

Percorremos as salas com mobilias antigas, registros presos atrás de vidros, bibliotecas com livros muito antigos e frágeis, salas de congregações com as paredes lotadas de rostos de pessoas muito importantes, mas que eu não conhecia meia dúzia. A medida que avançávamos pelos corredores e escadas eu voltava a ficar à vontade. Pareceu natural quando Nahuel me abraçou por trás, enquanto apreciávamos a vista do mar em uma das sacadas, e não me sobressaltei quando ele afastou meu cabelo do ombro e depositou um beijo na curva do meu pescoço. Chegamos então ao salão nobre, um espaço altivo apesar da simplicidade.

— É aqui que eu vou me formar em menos de um ano... Parece tão estranho. É um momento pelo qual eu espero com muita... ansiedade. No entanto, a responsabilidade que isso traz... não me sinto... pronta para ser médica. – Eu relatei e ele me ouvia com atenção. – É confuso. Acho que... tenho medo. Medo de falhar...

— El miedo es tu enemigo solo si lo permites. Una persona muy sabia me lo dijo un día. Creo que eres preocupada y responsable, pero no tienes miedo.— Ele repondeu e em seus olhos vi uma espécie de confiança que me reconfortou. — ¿Has pensado en unirte como médica en alguna de las fuerzas armadas brasileñas?

— Não... nunca tinha pensado nisso até aquela conversa no dia do passeio na Fragata. E apesar dos uniformes serem realmente muito elegantes, especialmente os da marinha... Não acho que eu teria aptidão. Com certeza seria desclassifica na prova de aptidão física. – Eu comentei e rimos da minha falta de habilidade e força.

— De todos modos, creo que hará la diferencia donde quiera que vaya. – Ele disse, pressionando meus ombros e beijando o alto da minha cabeça. E eu me peguei pensando quais eram as chances de que voltássemos a nos encontrar no futuro, se eu me tornasse pare do corpo médico da Marinha Brasileira. Nunca havia pensado nisso. Não fazia ideia de como essas coisas funcionavam.

Refizemos o caminho, de volta aos jardins que estavam sendo restaurados. Clandestinamente, Nahuel colheu uma rosa vermelha, com um sorriso travesso iluminando seu rosto, e com cerimônia colocou a flor em meu cabelo, depositando um beijo demorado na bochecha do mesmo lado. Naquele momento eu precisei de determinação para conter a ânsia de beijá-lo ali, porque me pareceu muito estranho, aquele lugar, dentre todos. O que não fazia muito sentido, considerando que no meu ano de caloura eu havia beijado um ou dois garotos nas festas que aconteciam no estacionamento do mesmo prédio.

Então saímos dali e fomos caminhar pelo Pelourinho. Mostrei a ele as ladeiras onde os turistas ficavam observando o Olodum bramir seus tambores, a sacada do sobrado em que Michael Jackson esteve. Supunha que ele já tivesse visto aquelas coisas em seu primeiro dia em Salvador, mas podia apostar que ele não conhecia o que mostrei depois.

Alguns dos curiosos segredos daquelas ruas centrais, muito estreitas, com seus caminhos de pedras antigos: como havia praças escondidas atrás de fachadas de estabelecimentos em estilo colonial, de modo que você se surpreendia com a vista da cidade após atravessar a porta de uma casa e se descobrir no Largo Pedro Arcanjo. Ou mesmo que você pudesse chegar a outras ruas e praças ao subir longos lances de escadas, adornadas por muros com grafites e pinturas coloridas.

No alto da escadaria do Largo Tereza Batista eu contei pra ele como eram as festividades Juninas e como elas eram iguais e diferentes no interior, na minha cidade natal, e ali na capital. Como as noites de Junho, com suas temperaturas amenas, eram preenchidas com o calor do sertão através da música, das comidas, das fogueiras e das danças.

Aproveitando que o Largo estava vazio, pois só costumava ser mais movimentado a noite, usei meu celular para apresentar a Nahuel o que era forró. Tentei lhe ensinar alguns passos, mas ele realmente não tinha muito ritmo, da mesma forma que não era afinado para cantar. Nem mesmo o ritmo lento e íntimo de “Nosso Xote” funcionou e nós acabamos rindo descontroladamente, mas permanecendo nos braços um do outro.

— Me rindo. Soy un caso sin remedio.— Nahul declarou enterrando o rosto no meu cabelo em meio aos risos.

— Oxe! Realmente, você tem alguma dificuldade com ritmo, mas aposto que o sangue latino vai ajudar depois de um pouco mais de prática. – Declari, tentando encorajá-lo.

— Desearía que pudieras venir conozco. Ya sabes, un intercambio cultural, mantener a la tripulación en forma con algunas classes de baile. – Ele disse ao meu ouvido. Fazendo piada para disfarçar o tom suplicante da voz.

Estávamos evitando falar sobre como aqueles encontros em breve se tornariam apenas lembranças. Depois daquele final de semana, nossas vidas voltariam ao normal. Era absurdo sofrer com algo que tínhamos ciência desde o início, então foi como se fizéssemos um acordo silencioso de não mensionar aquela contagem regressiva.

Entretanto nossas palavras, nossas mentes e nossos corpos pareciam determinados a burlar esse acordo de vez em quando. Foi assim que ele levantou uma das mãos em concha até a lateral do meu rosto e me guiou até que nossos lábios se encontraram. Mais ansiosos e menos tímidos dessa vez. Eu sentia a respiração dele na minha pele, a língua traçando a curva do meu lábio inferior e isso fazia a minha respiração ficar irregular. De onde estávamos parados em pé, caminhamos juntos, tateando ao redor com uma mão enquanto a outra garantia que nossos corpos se mantivessem próximos, que nossos lábios não se desgrudassem no deslocamento, até encontrarmos uma das pilastras da praça.

O corpo dele pressionando o meu contra o concreto quente, as mãos deslizando pela lateral do meu corpo, curiosas, mas cuidadosas. E eu enterrei minhas mãos nos músculos discretos em seus ombros e costas, deslizando uma mão por sua nuca até os curtos fios de cabelo. Desejei que fossem mais longos para que eu pudesse me agarrar a eles, à medida que ele me puxava para perto.

Arqueei meu corpo para frente e para cima, quando uma de suas mãos pressionou minha lombar, sua pele tocava a minha onde o tecido da blusa havia subido, um calor se espalhando pelo meu corpo a partir daquele ponto, borbulhante como o magma quente correndo nos veios sob a crosta terrestre. Eu arfei contra sua boca e esperando que a reação fosse encorajá-lo mordisquei seu lábio inferior. Ele sorriu.

Sua outra mão segurava meus cabelos em um punho fechado na minha nuca e puxou minha cabeça com suavidade para o lado, enquanto seus lábios se desgrudavam dos meus, para distribuir beijos e mordidas ao longo do meu queixo, meu pescoço até a linha da minha clavícula esquerda. Perguntei-me o quanto ele sentia meus batimentos acelerados ou se percebia os tremores que percorriam meu corpo com um arrepio a cada toque dos seus lábios na minha pele. Então, escorregando a ponta do nariz pelo caminho, ele subiu novamente, os lábios encontrando o lóbulo da minha orelha. O perfume da rosa se espalhando quando seu rosto roçou a flor em meu cabelo.

— Canta para mi, canarito... – Nahuel sussurrou em meu ouvido com um suspiro.

— N-não consigo... agora... – Sussurei de volta, respirando superficialmente, soltando um gemido frágil no momento que ele beijou o ponto logo abaixo da minha orelha. Não conseguia pensar em nada, a não ser nele e o toque dele. Ele expirou pesadamente.

Ficamos parados, tão próximos como nunca estivéssemos, até nossas respirações sincronizarem. Com beijos delicados Nahuel percorreu a maçã do meu rosto até colar nossas testas uma na outra, ele suavizou o toque e liberou um pouco da pressão sobre o meu corpo. Após outra respiração profunda, depositou mais um beijo apaixonado em meus lábios e me envolveu num abraço aconchegante.

— Nunca debes perder tu voz, canarito.— Ele disse contra meus lábios. E então abrimos nossos olhos ao mesmo tempo. Vendo no olhar um do outro que o distanciamento futuro doeria de forma muito parecida para ambos.

Deixamos o Largo Tereza Batista já próximo do horário de almoço. Perguntei a Nahuel se ele tinha costume de comer comidas, pesadas, gordurosas, muito bem temperadas e diferentes. Ele Não dever ter entendido metade do vocabulário que usei, mas aceitou quando o convidei para almoçarmos uma boa moqueca de peixe com camarão e dendê. Todo aquele passeio tinha me deixado faminta. Fiquei feliz e aliviada quando Nahuel comeu elogiando muito o sabor da comida, nem todo turista estava preparado para aquele tempero e podia ser um pouco estranho ao provar pela primeira vez.

Para refrescar um pouco, sugeri que tomássemos um helado na sorveteria A Cubana. Descobri que ele era apaixonado por sorvete de menta, mas fiz questão que ele provasse alguns sabores como: umbu, coco verde, tapioca e cupuaçu. Foi divertido ver as caretas que ele fez com os sabores azedos, de longe os meus preferidos! Me servi de uma generosa bola de sorvete de maracujá e ficamos ali no mirante do Elevador Lacerda apreciando a vista.

Lá embaixo, no porto, a Fragata se insinuava entre os edifícios, com seus mastros de madeira muito altos. Imaginei como eu me sentiria da próxima vez que passasse por aquele mirante e não a visse mais ali. Senti um gosto salgado preencher minha boca e me obriguei a acreditar que era apenas efeito do sabor azedo-adocicado do sorvete, ainda que a sensação fosse muito semelhante àquela de quando engolimos um choro.

Como Nahuel tinha tarefas para cumprir, antes das visitas à Fragata que começariam às 14h, descemos juntos o Elevador Lacerda e nos despedimos em frente ao Mercado Modelo. Quando entrei em meu Uber, ele bateu no vidro da janela e eu o abaixei para perguntar o que era. Ele colocou o rosto para dentro e me roubou mais um beijo rápido, com sabor de menta. Depois se afastou do carro e acenou, então o motorista arrancou. Senti o gosto refrescante nos lábios por um bom tempo e, quando ele foi se dissipando, senti um pesar ao perceber que talvez essa tivesse sido a última vez que nos víamos.

Quando cheguei em casa Mariana e meu pai me encaravam com olhares traídos enquanto minha mãe e Laura fingiam que nada tinha acontecido, até me pegarem sozinhas por um momento e me perguntarem como tinha sido a manhã.

— Falo nada, ninguém nunca quer turistar comigo no Pelourinho. – Provocou Laura.

— Amiga, não se ofenda. Mas a situação toda foi bem... peculiar. Diamos que... já passou. – Eu disse, dispensando o drama de Laura e tentando reafirmar minha indiferença, eu precisava começar a lidar com o fim daquele fim de semana.

Passei o resto da tarde lutando para me concentrar nos estudos sem muito sucesso. Alana mandou mensagem perguntado se poderia ir lá para casa estudar. Eu disse que seria ótimo ter alguém pra revisar flash-cards e ela perguntou se minha mãe tinha trazido sequilhos do interior. Caí na risada com o fato de minha amiga não conseguir disfarçar que parte do motivo de ir para minha casa era pela comida.

Notas finais
“Y que, a pesar de la distancia, te voy a querer Sólo tienes que saber que yo quisiera quedarme Y, aunque no debo, sólo quiero llamarte Que repitamos las historias una y otra vez No sé...” (Cristina - Sebastian Yatra)