Canaban - O Grande Baile
1 A Festa
Notas iniciais
Onde raios estão os meus sapatos de baile?
Não é todo dia que Canaban resolve dar uma festa grande como essa. Minha cidade natal está fazendo aniversário e a corte resolveu convidar toda a Grand Chase para a cerimônia! Que grande honra me apetece o fato de acompanhar os meus amigos, companheiros de batalha em um baile na minha terra. Tanta coisa se passa pela minha cabeça, tantas oportunidades...
A corte está disposta a receber até mesmo alguns nativos de Serdin, o que indica muito bom humor da parte deles. Como você já deve saber, meu caro leitor, o ódio é recíproco: Serdin e Canaban se odeiam e só a força de algo maior é capaz de unir essas duas nacionalidades em um lugar só, por isso eu tenho para mim que o motivo dessa reunião não é só pelo aniversário do reino. Quero tanto acreditar que não há mais riscos...
... Mas primeiro de tudo, eu preciso achar o meu par de sapatos de baile. Onde diabos?! Azin deve tê-los pegado novamente. Aquele rapaz nunca aprende.
—
Finalmente, depois de algumas confusões na hora da saída e horas de viagem nas carruagens reais de minha terra natal, chegamos ao palácio! Tão belo e estonteante quanto eu me lembrava...
... Mas bem nesse momento, algo subitamente prende a minha atenção e me faz esquecer de toda a paisagem ao simplesmente deixar os sapatos de salto tocarem o chão enquanto segurava a saia do vestido para, cuidadosa e delicadamente, descer da carruagem que levava algumas das garotas da Grand Chase.
Ah, mas que bela princesa... Os cabelos brancos balançavam com o vento enquanto o azul claro dos seus olhos brilhava com a luz do Sol. O vestido longo azul marinho destacava ainda mais a sua pele tenra e um pouco morena. Peguei-me com os olhos vidrados por alguns segundos.
Algum dia serei digno de despojar da tão bela donzela, a reencarnação de Agnécia? De repente, o castelo de Canaban perdeu toda a sua beleza.
Depois de alguns minutos, sinto algo me cutucar pelo braço.
— Você gosta dela, né? Disfarça pelo menos, idiota! — Riu Sieghart, enquanto cruzava os braços e se colocava do meu lado. Ele não era muito fã de Canaban, mas tinha que estar presente de todo modo.
— Eu talvez nutra algum apreço. — Respondi, um tanto envergonhado por ter sido pego enquanto observava a... Por que não dizer donzela dos meus sonhos? Ela realmente era.
— Haha! Então talvez seja hora do engomadinho tentar chamar a atenção dela, não acha? — A ironia do moreno por vezes me irritava, mas dessa vez eu tinha que admitir que ele estava com a razão.
— Olhe para ela e olhe para mim, Ercnard. — Suspirei, desesperançoso. — Não tenho chance nenhuma com a portadora de tamanha beleza interna e externa. — Eu continuava a observá-la, dessa vez mais discretamente.
— Falando desse jeito, não vai ter mesmo não. — O imortal revirou os olhos. — Tente não começar a babar aí, certo? — Deu dois toques no meu ombro e foi acompanhar os outros chasers para dentro do palácio. Tive que ir junto, de todo modo.
Fomos recebidos com todas as tradições da gloriosa Canaban enquanto adentrávamos o enorme salão de festas, ricamente adornado com todos os tipos de flores e demais enfeites que você possa imaginar. Havia mesas estrategicamente posicionadas por todo o lugar, uma maior com diversos tipos de petiscos e bebidas e logo ao centro, claro, um grande espaço para dança. Valsa era a preferida da nobreza.
— Tentem usar a educação que vocês ao menos deviam ter. — Alertava-nos a comandante Lothos. — Não quero receber nenhuma reclamação sobre o comportamento de vocês. São guerreiros de respeito, ajam como tal. Espero que tenham trago as suas armas por precaução e que elas estejam muito bem guardadas.
Por mais que eu não precisasse desse aviso, sabia que ele era necessário para alguns da Grand Chase. A Tirfing estava embainhada e presa ao meu cinto.
Nobres e integrantes da corte de Serdin e Canaban enchiam aquele salão, juntamente com a presença da grande caçada. Fui cumprimentar alguns velhos conhecidos para tentar me distrair, mas as palavras de Sieghart ainda estavam na minha cabeça.
"Eu devia mesmo dizer o que eu sinto pra ela, é! Devia dizer que ela era a mais bela daquele baile, e realmente era! Eu não devia ter medo. Um guerreiro nunca foge dos desafios."
E foi pensando nisso que tomei coragem e caminhei até Lin, já tentando formar uma boa frase de início de conversa na minha mente. Mas tudo o que eu consegui dizer foi:
— O jardim lá fora está lindo, sabia? — E me coloquei ao lado dela, com o sorriso mais tímido possível.
"Mas que belo início de conversa, Erudon."
— Hm? O jardim? — Ela pareceu ficar confusa com o que eu disse de supetão, mas acabou soltando uma breve risada. — Boa noite pra você também, Ronan!
— Boa noite. — Tentei recuperar a compostura com um sorriso gentil. — O que faz aqui sozinha?
— Ah... Eu não sou acostumada com festas assim, sabe? — Disse ela, soltando um longo suspiro de tristeza. Confesso ter me incomodado com aquilo. — Pra começar, eu não sei dançar. — Riu brevemente, um tanto sem graça. — Acho tão lindo os casais dançando... — O olhar dela se perdeu no centro do salão e eu não pude deixar de notar o pequeno sorriso que surgiu nos seus lábios. Eu queria ser o motivo desse sorriso.
— Ora, não seja por isso. — Coloquei uma das minhas mãos para trás e me curvei, estendendo a outra para ela. — A bela senhorita me concede uma dança?
— Ronan! — Ela sorriu ainda mais, escondendo metade do rosto atrás de seu leque. Tive a impressão de vê-la rir nervosamente. — Você vai ter que me ensinar... — E timidamente, me deu a mão.
— Ensinar-te-ei o que quiseres. — Beijei a sua mão em sinal de respeito e delicadamente a levei para o centro do salão enquanto ela prendia o leque no braço através de uma pequena cordinha presa a ele. Então, nos posicionamos e eu passei a explicar a ela os passos da dança. Foram os meus melhores momentos naquela noite... Nunca o fato de estar com alguém foi tão especial pra mim. O amor é curioso, não?
— Já está pegando o jeito. — Eu sorri para ela. — Viu? Não é tão difícil.
— Com você me ensinando, realmente não é. — Ela riu, envergonhada. Ficava linda até mesmo com as bochechas um pouco vermelhas.
— Senhorita... — Respirei fundo. Era agora ou nunca. — Preciso te falar algo importante, já há alguns dias. — De repente, meu coração acelerou.
— O que é, Ronan? — Ela pareceu ficar preocupada. Foi nesse momento em que damos uma pausa na dança.
— Eu...
Minha fala fora interrompida com uma explosão enorme na janela principal do salão de festas. Uma risada feminina maligna percorreu o local enquanto os nobres corriam para longe, consideravelmente assustados.
— Para trás, senhorita. — Eu disse instintivamente enquanto a colocava no meu lado de maneira delicada. Quase esqueci que ela também era membro da Grand Chase.
— O que foi isso?! — Ela pegou o seu leque, surpresa.
"Acharam mesmo que se livraram de mim?! Tolos! Todos irão morrer pelas minhas garras agora!"
Aquela voz era inconfundível para mim...
Cazeaje.
— O quê?! Mas nós não a derrotamos?! — Exclamava Elesis não muito longe de mim, indignada.
— Pelo visto não. — Acho que essa foi a primeira vez, desde Astaroth, que vi Sieghart tão sério. — Não podemos ficar parados!
— GRAND CHASE, AVANTE! — Berrou a ruiva. — PAREM ESSA MALDITA ANTES QUE SEJA TARDE!
"Por que não brincam com os meus amiguinhos, Grand Chase?"
Uma orda de monstros começou a entrar pelo buraco na parede, causando ainda mais pânico entre os nobres. Alguns chasers executavam a tarefa de retirar todos os nobres dali o mais rápido possível enquanto outros já avançavam contra os monstros. Pude escutar uma das melodias da Amy tocando enquanto Azin e Jin já caprichavam nos seus golpes.
Eu e Lin não fizemos diferente: começamos a atacar os monstros com a aura maligna de Cazeaje. Não podíamos exagerar nos golpes para não danificar ainda mais a estrutura do castelo.
Como aquela bruxa ousa invadir o meu reino? Ela há de pagar por isso!
Pude vê-la entrar, caminhando calmamente, pelo grande buraco na parede enquanto observava toda a confusão que tinha criado. Eu jamais esquecera o poder daquele terrível sorriso irônico...
Sua risada ecoou mais uma vez pelo local. Quanto mais ela ria, mais os monstros pareciam ficar mais fortes.
Ela tinha um sadismo detestável.
A luta estava ficando difícil, mas logo os integrantes faltantes da caçada se juntaram ao grupo e, com muito custo e um pouco de sorte, conseguimos derrubar a orda de monstros. Cazeaje estava ficando bem impaciente com isso e resolveu avançar contra todos nós, com todos aqueles seus feitiços catastróficos. As coisas estavam começando a ficar difíceis de novo, mas não por muito tempo.
— Grand Chase, unam as suas forças. É hora de demonstrarem todo o poder que possuem! — Vociferava a Comandante Lothos, preocupada com o nosso estado atual. — Derrubem Cazeaje de uma vez por todas!
— Tolos... — Rosnou a bruxa. — Nunca irão me deter! Conquistarei toda Ernas e VOCÊS... — Ela apontou o dedo para nós. — Serão as primeiras formigas a serem esmagadas!
— Suas habilidades supremas, não importam o quanto sejam danosas! — Ordenou Elesis. — AGORA!
Aquela foi, provavelmente, a maior demonstração de poder em muitos milênios naquele castelo.
Cada chaser deixou a sua energia explodir em uma habilidade suprema, arremessada diretamente contra a bruxa. Ela tentou criar um escudo de proteção, mas esse escudo rompeu-se pouco tempo depois, tamanha foi a chuva de poder em cima dela.
Conseguimos desmoronar todo aquele salão, caindo exaustos no chão em seguida.
— Crianças... Malditas... — Ela mal conseguia ficar de pé. — Vocês ficaram mais fortes... Grandiel os deixou mais fortes... — E depois dessa fala, ocorreu o que eu mais temia na batalha inteira.
— A reencarnação de Agnécia... Cai junto comigo... — Ela ria insanamente enquanto criava um foco de poder roxo em uma das mãos. — O que será de vocês sem a força de uma deusa?
Olhei para Lin. Ela estava exausta demais para se mover e mesmo assim pôs-se de pé para tentar reagir.
— LIN! — Eu estava longe. O desespero tomou conta de mim.
— Digam adeus... — E a bruxa arremessou uma rajada de espinhos roxos enfeitiçados contra ela.
Não pensei duas vezes. Eu não podia pensar duas vezes.
Eu corri, a empurrei para longe, senti os espinhos perfurarem o meu corpo e mal pude escutar o meu próprio grito de dor.
A única coisa que consegui ver enquanto caía de joelhos era a faceta da bruxa, rindo insanamente.
— Ronan Erudon... Dando a sua vida para salvar Agnécia... Acha que isso vai te redimir?
As vozes estavam ficando mais distantes de mim. Havia sangue nas minhas mãos...
Meus olhos não aguentavam mais ficar abertos.
E no meio desse misto de dor e confusão, sinto alguém me tocar e escuto um choro. Um choro desesperado e desamparado. A voz me era conhecida.
Minha amada estava chorando por mim.
— Você não devia! Você não precisava! — Durante o meu momento de quase desmaio, eu a escutava falar, em prantos. — Muitas pessoas já morreram por minha causa... Eu não queria que você fosse mais um!
Aquela voz... Aquelas palavras. Ela estava me dando a força que eu precisava para levantar. Consegui lutar contra a minha própria dor.
Enquanto a albina chorava, eu delicadamente movi a minha mão na direção da dela e a apertei com fraqueza e delicadeza enquanto abria lentamente os olhos. Ela me olhou surpresa.
— O meu amor por você não me deixa morrer. — Foi o que eu disse, deixando um sorriso pequeno surgir no rosto. — Eu morreria por ti quantas vezes forem necessárias. E eu faria isso com todo o amor do meu coração.
— Como...? — Ela gaguejou.
— Bênção Divina... — Eu disse. Tinha feito esse feitiço antes de pular na frente dela.
— Como você...?! — Cazeaje teve a mesma surpresa. — MALDIÇÃO!
— A sua existência? É realmente uma maldição. — Disse Sieghart, já posicionado atrás dela. Aproveitara a distração para se reerguer e se posicionar. — Espero que goste da sua estadia no inferno. — E cravou a sua espada, coberta de chamas roxas, nas costas da bruxa. Ela soltou um grito agudo e se dissolveu em pura magia negra. — ... Sem ofensas, Lupus.
Os espinhos negros que estavam cravados no meu peito também se dissolveram e eu consegui levantar. Lin me abraçou forte.
— Eu te amo... — Ela sussurrou no meu ouvido, ainda em lágrimas. Aquele foi o melhor abraço que já recebi.
— Tenha certeza de que dessa vez a gente derrotou ela de vez, saco de ossos!
— Dessa vez eu juro que a gente conseguiu. Ou não.
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