Can I have this dance
4 Friendship
Notas iniciais
“Apenas dance
Vai ficar tudo bem
Coloque o disco para tocar e apenas dance. — Just dance”
Senti seu olhar pesado sobre mim o que me fez querer sair e comer no quarto, o que ele tanto olhava? Me distraio dos pensamentos notando uma das cadeiras vazias.
— Meu pai está no trabalho, Vitória? — pergunto.
— Sim, ele teve uma reunião de emergência agora no almoço, mas jantamos todos juntos — Ela sorri me tranquilizando e devolvo o sorriso.
— O pai da Gabriela é um produtor musical, Castiel! — Ele cutuca o ruivo. — Quem sabe essa não é a próxima grande chance de vocês? Depois de tudo o que aconteceu.
— Quem sabe. — Castiel diz sério não querendo tocar no assunto.
“Depois de tudo o que aconteceu.” O que será que isso quer dizer?
Castiel parecia contente em estar lá, mantinha as conversas com Vitória e os meninos e não estava tão mal humorado como de costume, será que ele era assim com a família?
Vitória estava animada perguntando sobre as novidades da escola e meu primeiro dia de aula, eu senti muita falta de momentos como esse na minha vida desde que minha mãe faleceu, me sentia muito grata por Vitória me proporcionar isso novamente.
— Seus pais sabem que você está aqui, Castiel? — Vitória pergunta sendo agredida pelos olhares de desespero dos gêmeos. — O que foi?
— Eu sou emancipado, então eles não precisam saber ou deixar de saber.
Tá bom, esquece a teoria da família, sabendo disso ele parece mais solitário do que mal humorado. Vitória sorri tentando amenizar a situação desconfortável até o fim do almoço.
— Mãe, vamos subir para fazer o trabalho, até mais tarde! — Ele se despede e vejo-os subirem as escadas.
Depois de ajudar Vitória com a louça e cansar de jogar com Armin, vou para meu quarto fazer as atividades de casa, no notebook tocava “Save The World – Swedish House Mafia”, e me permiti cantarolar enquanto terminava os afazeres.
— Que fácil! — Sorrio satisfeita, olhando as atividades completas.
— Você canta bem mal, não acha? — Ouço uma voz familiar invadir o quarto, era Castiel à porta. — Você deveria ser presa por assassinar músicas tão boas.
—O que você quer? — Reviro os olhos.
—O banheiro — Ele ri.
— Errou o caminho. Última porta no centro do corredor.
— Uma dica, não siga uma carreira de cantora, você vai falir.
—Sai daqui e não me amola!
—Você quem sabe, princesa. — Ele ri e vai embora, mas volta. — A propósito, belos seios.
Olho para minhas roupas e lembro-me do ocorrido mais cedo, onde ele me encarava na mesa de jantar. Sinto meu rosto ruborizar e me cubro com uma almofada.
— Sai logo daqui! — grito.
(...)
Amanheceu. Abro os olhos cansada tentando me lembrar onde eu estava. França, Ville Kiss. Às vezes preciso raciocinar um pouco antes da minha alma voltar para o corpo, de manhã. Me obrigo a sair da cama ao olhar o despertador, a rotina matinal é sempre a mesma. Após me arrumar, desço para tomar café antes de ir à escola, vejo Vitória, os gêmeos e meu pai à mesa, cumprimento todos e me sento.
A conversa entre Vitória e os meninos seguia animada. Eu observava quieta tentando não voltar os meus olhos para os panfletos e revistas que estavam com meu pai sobre a mesa, ele estava concentrado folheando as várias opções de professores de canto e cursos. Eu realmente esperava que aquilo tudo não fosse para mim.
— Querido, temos pouco tempo reunidos em família, não pode fazer isso depois? — Vitória pede, chamando atenção do meu pai
— Ah — Ele dispersa os olhos do que estava lendo e sorri. — Claro, eu só estou muito empolgado com esses novos programas de aula que encontrei para Gabriela.
— Como? — Me engasgo com o café e olho para meu pai, incrédula.
— Sim, arrumei ótimos professores para você, suas aulas iniciam semana que vem!
— Você é impossível, pai! Será que não tenta me entender? — Exclamei me levantando da mesa.
— Eu entendo, mas não vou deixar você jogar a sua vida e saúde fora como a sua mãe! Eu quero o melhor para você, filha.
— E quanto ao que eu quero? Minha vida está na dança. Eu não quero cantar.
— Eu vou contratar uma nova professora de canto, logo você pega o jeito.
— Você diz isso há sete anos, está querendo iludir quem? Eu já perdi as contas de quantas professoras de canto eu já tive. — Cruzo os braços. — Vitória, diz alguma coisa.
— Querido, acho que podemos pensar melhor sobre o assunto.
— Mas já está decidido! Suas aulas começam na próxima semana!
— Não estou acreditando! Isso é muito injusto! — Junto minhas coisas.
— Pra onde você vai? — Meu pai me pergunta.
— Pra bem longe daqui! — Grito.
Bato a porta irritada e sigo meu caminho até a escola sozinha, o som estridente nos meus fones me fazia esquecer a discussão que acabou de acontecer. Porque ele precisa ser assim?
— Bom dia, amiga! — Rosa vem me abraçar.
— Oi, Rosa.
— Nossa, que bicho te mordeu hoje?
— Eu não estou muito bem hoje, se eu começar a falar, não vou conseguir segurar. — Digo sentindo as lágrimas de raiva escorrerem pelo meu rosto.
Rosa parece perceber que eu desmoronaria ali mesmo, ouço o sinal da primeira aula tocar e Rosa me puxar para um lugar mais reservado para conversarmos.
Eu precisava desabafar. Rosa me ouvia atentamente enquanto eu despejava tudo o que estava sentindo, os anos de frustrações. Foram anos tentando parecer perfeita para meu pai, fazendo tudo o que ele queria, aulas de música, de canto, para dar a ele um resquício de esperança. Mas não aconteceu. Eu entendi, todos ao meu redor entenderam, menos ele.
Além da frustração de não ser boa o bastante para as expectativas dele, ele parece não entender que ainda que seja para ser animadora de festas, dançar numa fantasia por horas para ganhar o mínimo, eu prefiro a dança. Não me sinto apoiada, me sinto sozinha com um sonho cada vez mais distante.
Senti um fardo enorme sair nos meus ombros, tive essa conversa várias e várias vezes com meu pai ao decorrer de tantos anos, mas ali eu finalmente me senti ouvida e compreendida por alguém.
Eu também não tive amizades significativas no Brasil, mas com Rosa eu sentia que poderia ser diferente. No meio das minhas lágrimas e desabafos, Rosa me abraçou, como se pudesse sentir o que eu estava sentindo. Aquilo foi o suficiente.
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