Canções De Apartamento
8 08 - Pelo Interfone
Notas iniciais
Pelo Interfone
Sexta, 28 de fevereiro.
João estava mudado. Seu cabelo parecia mais comprido e os cachos mais grossos do que Cecília lembrava. O rosto, sempre tão definido, deveria estar branco e sem vida, mas tinha um brilho aceso e surpreendente toda vez que o rapaz sorria para algo que Luís falava. E Luís falava demais! Ana seguia as risadas com as suas próprias, o que incomodava a amiga na sua inquietação por notar detalhes no rosto de João. Por fotos, ele sempre parecia tão distante e tão igual.
Apenas ali, ao seu lado, realmente podia ver o quanto ele estava diferente daquele João que tinha deixado o Rio de Janeiro há meses. Quantos meses fazia? Cecília contou nos dedos naquele momento: oito meses!
– Era frio demais! – João falava, rindo e quebrando a linha de pensamento da moça. – Peguei noites e noites de neve, depois noites e noites que tinha que abrir as janelas de calor. O clima era louco, bem estilo São Paulo.
– Morreu de saudade do calor daqui. – disse Ana, abraçando o primo e beijando seu ombro com carinho.
Ele respondeu com ainda mais ternura, dando uma pontada de ciúmes em Cecília:
– Principalmente de você, minha maior saudade.
Chico e Luís se levantaram e caminharam até outra mesa, cumprimentando todos que passavam. Carlos e Martha se aconchegaram melhor nas cadeiras para poder conversar com o irmão dele e seu namorado, novos integrantes da família que sempre se reunia.
João viu tudo aquilo maravilhado e a moça o admirou abrilhantar o olhar para todos os cantos. Ele deu um sorriso tímido e inevitável, que tentou encobrir com a mão.
Parece comigo da primeira vez que vimos aqui, Cecília pensou, disfarçando também que queria sorrir. Estava feliz apesar de prestes a por todo o jantar para fora de agonia. Um vento mais frio entrou no bar, dando-lhe um calafrio.
– Conta mais, cara. – Carlos insistiu, brindando a própria cerveja na do rapaz. – O que anda fazendo agora? Volta quando para lá?
João deu entre ombros e franziu o cenho.
– Volto daqui uma semana ou duas. To esperando conseguir passagem mais barata, mas minhas férias só terminam em três semanas.
– E vai voltar tão cedo? – Cecília murmurou bem baixo, quase envergonhada das palavras que trocava com ele. E recebeu seu olhar cativo e escuro embaixo do chapéu. Aquele olhar era capaz de destruir se prestasse mais atenção. Cecília, entretanto, não ousou encará-lo por mais que dois segundos – Digo, vai passar suas férias por lá? E sua família?
– Mamãe pensa em ir comigo dessa vez, visitar a universidade e a Disneylândia.
Ana levantou as sobrancelhas com um zombar:
– A tia está velha demais? Qual foi a dessa ideia?
Ligeiramente, ele explicou que a mãe tinha um novo namorado mais novo, e os dois tinham combinado visitar a Califórnia durante as férias dele, mas havia esquecido que na verdade a Disneylândia ficava na Flórida. O tour seria pelo estado da Califórnia e Nevada, esticando até os parques contraindicados para sua idade, na Flórida.
A voz dele estava mais rouca e seu sotaque menos puxado. Provavelmente, tinha dado aulas demais no período em que estivera fora, enrolando a língua e falando demais para seu padrão de poucas e gentis palavras.
O desfile das escolas então começou sem chuva e sem muita emoção aos olhos de Cecília, que tentava não focar os pensamentos bobos e zonzos em todas as mudanças que notou no ex-namorado. O vento batia novamente, e seu sorriso quase inexistente se acuava nos pesos do rosto.
– Meu jovem, vamos fumar lá fora. Quer acompanhar? Estou morto de curiosidade sobre as moças no USA. – Luís disse, cutucando o ombro de João e o de Chico. Os dois mais velhos foram de imediato, mas o rapaz ainda tardou a levantar, recebendo um grito de Ana:
– Não vai fumar, vai?
Cecília estava tão compenetrada em seus pensamentos que nem sequer notou que ele saía para fumar, algo que nunca tinha visto fazer.
– Não vou. – ele respondeu, enfiando as mãos nos bolsos dianteiros da calça. – Vou acompanhar os dois para vocês fofocarem um pouco sem a gente por perto.
Não fumaria, isso já era confortante, ainda que sua cabeça estivesse tão confusa e repleta de pensamentos que não lhe permitia sair do delay de ficar com a boca entreaberta e os olhos vazios enxergando o nada.
– Ana, – Cecília começou assim que eles saíram de perto da mesa – eu estou mal com o João aqui. Não consigo agir naturalmente.
Como maneira de expressar desagrado e falta de paciência, Ana fez careta. Não queria sair dali, mas não poderia deixar a amiga sozinha. Bufou, e disse insatisfeita:
– Ta certo, vamos embora.
– Você não quer ir, né? – Cecília insistiu, transpassando uma carinha de vítima que Ana repudiava e não escondia. – A gente fica. Depois eu peço um taxi ou peço que minha mãe me pegue. Não vou te tirar daqui.
Ana revirou os olhos.
– Ah, fala sério, Cecília. Bebe aí mais uma, tu não precisa falar direito com ele!
As duas lançaram o olhar para fora do bar e viram que João ria com Chico e Luís, como se aquilo fosse rotineiro. A morena sentiu uma enorme pontada no peito e suspirou, voltando a cadeira para a mesa e pegando a própria bebida para ter algum gosto na boca seca.
Não que em seus sonhos o reencontro dos dois fosse calmo daquele jeito, sempre havia muito drama em todas as vezes que ela imaginou os diálogos na frente do espelho. Recitava para si mesma, para o próprio reflexo, músicas que diziam que estava diferente, que estava mudada, que tinha novos sonhos – os quais ela não tinha, então temia que ele perguntasse quais eram – e que ela ainda guardava tudo com carinho.
Tomou vários goles e mais outros, até sentir-se alterada. Não contou ao certo o que tinha bebido, mas sabia que era pouco para a embriaguez. Ana trocava insultos com Martha por conta do desfile da Mangueira, apontando todos os detalhes dos carros alegóricos com sarcasmo.
– Para de azucrinar, Ana! – Cecília resmungou com um sorriso largo. A outra a olhou de cima abaixo, ainda que estivesse sentada, e riu.
– Já?
Ela assentiu com um movimento de cabeça e, sem olhar ao redor, levantou, anunciando:
– Vou ao banheiro!
– Seja feliz. – Ana respondeu, voltando a prestar atenção na televisão.
Tentando não dar bandeira do próprio estado, a moça andou como se flutuasse. Seus pés percorriam o pequeno espaço entre a mesa e os banheiros e seus cabelos se arrastavam com o pouco de vento que fazia ali. Ela se olhou no espelho e percebeu que os cabelos, volumosos em seus cachos, estavam ainda mais armados, e disse palavras de injúria que costumava dizer. O sorriso para o espelho por causa dos palavrões foi engraçado, então riu e tirou uma mecha de cabelo que sempre insistia em cobrir sua testa amarelada.
Do lado de fora, o barulho era intenso, mas Cecília não se importou. Respirou fundo e imaginou que ligaria para um taxi e fingiria que passava mal. Seu olhar vago e seu rosto branco pálido já davam esta impressão.
Ana deve ficar aqui, ela pensou antes de abrir a porta do banheiro e sair sem olhar para frente. Sua mão ainda estava na maçaneta quando seu corpo se chocou com outro.
– Desculpa, Cecília. Não te vi. – a voz de João soou num embalo ritmado.
Ela lançou os olhos para o rosto do rapaz, só conseguindo fitar as sobrancelhas desarrumadas dele em cima do olhar baixo. Ele a encarava de volta sem hesitar.
– Tudo bem.
A voz dela saiu tão trêmula, logo se arrependeu de ter soltado as palavras.
Por que você não se move? Por que continua me fitando? Por que não fala? Por que não me tocou até agora? Por que não tentou me segurar?
Cecília piscava violentamente, enquanto João mantinha a calma e a desequilibrava. Quis desvencilhar por ver como ele ainda estava imóvel! Tinha passado uma eternidade e a mão dela ainda estava na maçaneta. E um sopro de vento chegou de repente, jogando o perfume que ela não se lembrava no seu rosto. Era o mesmo que sempre sentia.
– Cecília.
A voz dele interrompeu o pensamento e chocou a imaginação dela com a realidade.
– Hum?
João levantou a mão devagar, levando o calor da ponta dos seus dedos até seu rosto e retirando os três fios que tinham tomado de conta da bochecha da morena. Ele não estava acuado entre os ombros e não mudava a expressão ao recitar:
– “Vou beijar-te agora. Não me leve a mal. Hoje é carnaval”.
Aquela frase ecoou no interior de Cecília e tirou todo o seu ar. O peito apertou e a respiração se afagou. O gosto amargo da cerveja já não era nada, e nenhuma gota de saliva parecia ter para matar aquela sede repentina.
– Isso não tem graça. – ela disse, séria, desviando o rosto para o lado.
João, entretanto, não deixou que ela mudasse o foco do olhar. Arrastou a atenção dela de volta para ele com a mão no seu queixo, até que pudesse ver o olhar esperançoso e o sorriso medroso dele.
– Não quero que tenha. – respondeu ele com a voz rouca. – Estive desejando isso a noite toda.
Se não fossem as batidas altas do coração da moça que inibissem qualquer outro som, talvez ela o tivesse beijado. Se não fossem os olhos abertos e perplexos, talvez ela o tivesse beijado. Se não tivessem sido as pernas fracas, talvez ela o tivesse beijado. Se tivesse bebido mais um pouco, talvez ela o tivesse beijado. Se o mundo estivesse mudo, ela o teria beijado com certeza. Porém, o mundo ainda girava e outra voz voou pelo corredor do bar e caiu nos ouvidos dos dois jovens.
– Cecília?!
Ambos se viraram para a mesa e viram a última pessoa que poderia aparecer ali, exibindo com postura convencida sua roupa de marca e seu jeito convencido.
– Vocês convidaram o Daniel? – João murmurou, retirando a mão e encarando o outro rapaz que chegava e franzia as sobrancelhas.
– Não acredito que ele veio. – ela disse entredentes, ficando vermelha como nunca tinha lembrado ficar.
Não era possível acreditar que Daniel estivesse ali, se aproximando dos dois com calma. Ele vai ficar enciumado, pensou Cecília. Por que está aqui?
– Ana falou que você estaria aqui, então tive que vir. – Daniel disse quando chegou ao lado dos outros dois. Seu olhar era animado e seu passo inquieto, parecia que não havia visto nenhuma faísca acontecendo entre a namorada e seu ex – Afinal, que tipo de namorado eu seria se deixasse minha namorada ir para um bar numa sexta feira de carnaval, não é? E aí, João, voltou quando para o Rio? Deve estar cheio de histórias para contar.
Cecília e João ficaram imóveis e sem reação. Ele tinha feito questão de mencionar que estava junto a Cecília como se quisesse marcar território.
E marcou.
– É, cara, estou mesmo. Estava falando pra Cecília que tinha assistido aquele filme, sabe? Ah, só um instante, o Luís ta me chamando ali! Ana!
João fugiu, coçando a cabeça e mergulhando entre os ombros.
“Vou beijar-te agora...”. As palavras bateram no interior dela outra vez, antes de sua atenção se voltar para raiva de Daniel. Então, soltou a maçaneta da porta do banheiro.
– Por que você veio? – ela disse, amarga.
– Vim te ver, amor. – disse pela terceira vez a palavra “amor” naquelas duas semanas de relacionamento sério não assumido no facebook. – Algum problema? Ou o João já te fez companhia o suficiente?
– Isso foi rude, Daniel.
Ele riu e disse:
– Rude é você não querer me deixar entrar na sua vida e ficar de papo com o ex porque eu não estou... Porque você me pediu para não vir. Sabia que ele ia vir?
– É carnaval, lógico que ele viria para cá. – respondeu, revirando os olhos. – Não precisa ter ciúmes.
– Ah, então você sabia que ele estava no Brasil, Cecília?
– Sabia, mas você já pode parar com o ciúme! – ela se exaltou e disse alto sem perceber que algumas pessoas tinham escutado.
Daniel suspirou e passou a mão no cabelo.
– Como não?
Sem dar resposta, Cecília deu de costas para ele e foi até a mesa, despedir-se de todos. Luís e Chico reclamaram como ela ia cedo, Ana não entendeu até ver Daniel plantado no seu calcanhar, Martha e Carlos se despediram com rapidez, mas, por último, João falou um “até logo” fraco e envergonhado.
Ele não fazia ideia que eu estava com Daniel, Cecília pensou.
Acabou indo para casa no carro do namorado com uma expressão rabugenta por todo o percurso. O rapaz odiou aquilo. De que adiantava ter a garota se ela não o amava? A palavra amor o deixou mal em todas as tentativas que teve de chamar a atenção dela. Não seria capaz de trazê-la para perto naquela noite, o que resultou num trajeto silencioso.
Quando chegaram à frente do portão do prédio dela, Daniel segurou sua mão e disse:
– Me desculpa?
Cecília suspirou. Era melhor desculpa-lo de algo que ele não tinha culpa? Pela primeira vez ele se mostrava mais sensível, o que ela sempre quis, porém não a deixava feliz escutar aquilo. Na verdade, enchia de angústia.
– Eu desculpo... – disse ela, devagar. Abriu a porta do carro, mas foi segurada novamente pelo rapaz.
– Eu te amo.
Alguma música deveria ter tocado no fundo, ou algum calafrio deveria tê-la tocado. Não houve emoção e nem remorso por parte dela por mentir para si mesma pela segunda vez.
– Eu também te amo.
Ela deu um passo para fora do carro e sentiu que o corpo pesava mais que o normal, caminhando lentamente para dentro do prédio numa infelicidade e paranoia que ela insistia em engolir pelas palavras que João falou minutos atrás. Era muita crueldade ficar com aquilo preso em mente, ele apenas recitava palavras como adorava fazer.
Provavelmente, não se falariam por dias. Provavelmente, não se falariam nunca mais. A forma como ele tinha encarado Daniel e tinha se deixado encarar de volta, tinha sido perturbadora.
“Vou beijar-te agora. Não me leve a mal. Hoje é carnaval”. De onde ela conhecia aquela música? Ultimamente, estava desligada do próprio amor pelas melodias que tanto cantarolava.
Quando abriu a porta de casa, sentiu falta do barulho dos irmãos. Nenhum dos três estava em casa, deviam ter saído para ver filme com os amigos. Os três conseguiam ocupar a casa como mais ninguém! A mãe, onde estaria? Cecília a procurou no quarto e na cozinha, mas nem sinal. Não havia bilhete nem mensagem no celular. Ela estava completamente só em casa.
Tenho que parar com essa paranoia. É bom que eu pare, estou ficando zonza de sono já.
Não aguentou ver televisão nem mesmo comer o resto do almoço que a mãe tinha queimado por acidente. Sentou-se no sofá e se deixou levar pelas músicas que tocavam no celular. Estava enjoada e tinha vontade de chorar, mas não sabia o motivo. Tinha cansado da melancolia que a assombrava e procurava sempre mudar. Nenhuma lágrima escorreu pelo seu rosto até que cochilasse no sofá.
TRIM
Um barulho soou e Cecília acordou. Era o interfone que tocava incessante e lhe tirava ainda zonza das almofadas. Que horas seriam? Ela tinha realmente dormido?
TRIM
Correu para atendê-lo, decidida a tomar um banho logo em seguida para poder dormir.
– Alô?
– Cecília? – a última voz que ela esperava ouvir soou do outro lado da linha, rouca e serena como sempre foi e como a moça lembrava ter escutado há muitos meses pelo telefone. Era ele! Seu coração pulou e seu rosto formigou como nunca ela havia imaginado que formigaria.
Um turbilhão passou pelo seu corpo antes que ela pudesse pensar em falar qualquer coisa. Pensou em desligar no mesmo instante o interfone. Então se perguntou como ele estava ligando pelo interfone? Por que ele foi bater na sua casa daquela maneira? Após aquele encontro desastroso com Daniel... Daniel ficaria chateado se soubesse que João estava ali.
João estava ali! Ela deveria descer para conversarem? O que deveria dizer?
– Cecília. – ele continuou antes que ela respondesse – Fala... Fala alguma coisa...
– Por que você está no interfone?
Ele passou um instante quieto e suspirou, respondendo:
– Eu queria te ver, mas não tive coragem de subir. Queria perguntar o que foi aquilo no Boemia.
Entretanto, Cecília não respirava direito. Parou de escutar a respiração dele pelo interfone e se desconcentrou do que ele falava e do que ele havia perguntado. O celular ainda tocava na sala alguma bossa nova irreconhecível.
– Fala, Cecília... Fala...
– Falar o que? – ela perguntou devagar.
João suspirou e recitou:
– Fala pra ele que ele é um sonho bom e que mudou o tom da tua vida, aquele tom que eu disse que você tinha, lembra? Aquela aquarela das tuas cores. Diz pra ele que ele mudou o tom para algo mais vivo.
– João, assim você vai me fazer chorar. – Cecília respondeu com pesar, mas não quis chorar. Sentiu um peso no peito e no abdômen antes de perder o tato das mãos por um momento. – Não vamos falar do Daniel, por favor. Não faz isso comigo.
– Então fala pra ele do disco do Tom Jobim que você ama, do seu apelido de fraquinha e de mim. Fala que eu te amei e te perdi, que ele não pode repetir isso. Aí você pode chorar.
– João, por que você ta falando isso? Você ta bêbado?
Foi quando os olhos dela se encheram de lágrimas. Antes estava enjoada por seu comportamento e por tudo que havia causado, mas ali pensava que tinha magoado o rapaz além do que ela mesma aguentava.
– Fala pra ele que a vida é um balão que nem você me falou um dia quando sua perna quebrou e você filosofou para me prender do seu apartamento. Eu não fiquei ali, então fala pra ele cuidar do seu coração. Aí você pode chorar.
A voz dele desapareceu no ar, ainda mais rouca, mas com peso de tristeza que ela mesma não conseguiu suportar. Foi quando chorou, escorrendo lágrimas que não queriam parar de descer.
– João, o que eu posso fazer? – ela balbuciou e soluçou, vendo-se em seguida no reflexo do vidro de um móvel da cozinha e sentindo ainda mais vontade de chorar pelo que fazia com o rapaz.
Cecília ficou quieta, tentando evitar que ele percebesse seu choro pelos fungados que ela segurava ao máximo. Ouviu um suspiro dele e esperou que ele dissesse algo. Entretanto, não disso por um longo momento. Então ficou zonza e bateu o interfone na parede, gemendo de agonia interna.
– Cecília... – João falou pelo interfone e ela voltou a coloca-lo no ouvido. – No dia em que nos conhecemos, escutamos Dindi do Jobim. Ai, Dindi, se soubesses o bem que eu te quero, o mundo seria, Dindi, tudo. Dindi, lindo.
Ele realmente estava bêbado, falando daquela maneira e recitando aquela música. Só poderia estar bêbado.
– Eu vou desligar, João.
João soltou uma risada pelo interfone. Onde ele estaria para falar assim? Para falar pelo interfone?
– Ah, Dindi, se tu soubesse como machuca esse teu descaso, tu não amaria mais ninguém.
– Mas eu não am...
Cecília ameaçou dizer que não amava Daniel, mas aquilo só machucaria mais João, pensou. Aquilo só a faria parecer uma pessoa pior, seria o fim do fim.
– Ah, Dindi... – ele disse num suspiro prolongado e melancólico – Se tu soubesses, não contaria isso para ninguém, para mim e para ele também.
Do lado de fora, a porta do elevador se moveu. O interfone ficou mudo. Do lado de dentro, ela adormeceu com os olhos doloridos e inchados.
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