Notas iniciais
E estamos em clima de carnaval! Que beleza! E o que combina mais com o carnaval do que romance e boemia? kkkk. Ok, sem comentários. Espero que gostem do cap, boa leitura!

Domingo, 10 de fevereiro.

Chuviscava no Rio de Janeiro. Chuva fraca era um sinal ruim no carnaval, sempre fora, mas, por sorte, era pouca água. Quem estava na Sapucaí já se remexia à espera das tão famosas e adoradas escolas de samba. As cores, os ritmos e a beleza das lantejoulas com glitter, tudo era belo e causava arrepios de tanta felicidade.

A felicidade, e que felicidade dos brasileiros! Amontoados, suados, pintados, imprensados, cansados, animados... Estavam todos felizes para aquela grande noite no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Então vinha o frio, mas não havia ócio. Havia movimento e fervor. Havia tudo misturado e desatenção com nada ao mesmo tempo.

Porém, não muito longe dali, os dois passeavam pela Av. Rio Branco. O passeio era assustadoramente tranquilo, apesar do perigo àquela hora. E quando a chuva se iniciou, correram para ficar debaixo de qualquer teto. Não podiam ficar parados.

Ali havia um lugar escondido, entrando em qualquer rua desconhecida e correndo em desespero para fugir da chuva. Não se lembraram ao certo em que rua entraram, sequer sabiam onde iriam parar, mas as luzes calmas, o cenário em sépia e o som de marchinhas calmas foram notados só depois que subiram as escadas da entrada do barzinho. Um barzinho, que conveniente!

– Quer continuar aqui ou prefere que eu vá buscar o carro? – João murmurou, sacudindo os braços por causa dos pingos.

Cecília, entretanto, não deu atenção. Olhou intrigada para o lugar que estava milagrosamente aberto. Tudo era convidativo.

– Que lugar interessante. – ela disse.

– Gostariam de uma mesa para dois? – um senhor falou, chegando perto dos dois com calma.

Ambos passaram o olhar pelo estabelecimento e perceberam que não estava vazio. Muito pelo contrário, havia gente de todo jeito que conversava e ria abertamente. A moça não resistiu e lançou seu charme para João, que acabou rindo.

– Sim, vamos querer uma mesa.

Quando viu, Cecília ria animada, sibilando sem som um “Obrigado” extenso.

Sentaram-se num lugar próximo à parede de tijolos envernizados e escutaram que começava a tocar uma marchinha qualquer do Braguinha. A mesa era pequena, própria de bares, e todas as cadeiras eram próximas por conta do tamanho do lugar. Era um lugar aconchegante para um carnaval desastroso como aquele.

– Não ficou chateada por não ter dado certo a festa, ficou? – João falou logo que pararam para se entreolhar. Ela nada respondeu. – Nós rodamos várias vezes atrás de vaga para o carro e nem o prédio dele encontramos.

– Não se preocupe, não fiquei chateada nem nada! – ela falou alegre – Ta vendo esse lugar? Parece muito gostoso. Vamos aproveitar aqui, é melhor do que a festa do amigo da Ana.

Ele sorriu de canto e tentou virar o rosto para disfarçar como aquilo tinha sido repentino e involuntário. Chamou o garçom com o cardápio, mas sequer deu espiada e já pediu as cervejas para os dois.

Aquela era a primeira vez que estavam sozinhos, sequer perceberiam algo acontecer ao redor. Dois senhores de idade se levantaram e começarem a cantar uma música desconhecida para os dois, enaltecendo uma escola de samba. Foram aplaudidos por todos do bar. Eles também riram com a cena e bateram palmas sem hesitação.

O ambiente lhes era estranho, mas todos ali pareciam conversar entre si.

– Esses dois são amigos há muito tempo. – um homem disse ao lado de Cecília e João – Acreditam que já desfilaram como mestre-sala? Os dois?

Cecília pestanejou e viu os passos delicados e precisos que eles faziam enquanto cantavam. Passos lentos e velhos, mas bonitos.

– E por que estão aqui? Com esse amor às escolas, achei que fossem assistir ao desfile. – João falou quase pigarreando com a voz rouca.

– Nunca vieram aqui antes, não é? – o homem disse, tomando um gole da própria bebida e inclinando a cadeira para se aproximar de Cecília que negou a pergunta com um movimento de cabeça – Sejam bem-vindos à Boemia do Rei. Aqui somos todos amigos!

Uma mulher ao seu lado acabou por bater-lhe no joelho com a própria bolsa, fechando o rosto.

– Família, amigos não. Família! – ela brigou e seu acompanhante riu.

– Luís! Luís vem aqui! – o homem chamou um dos velhos que andou sorrindo abertamente e dançando seus pequenos passos de pouco em pouco.

– Em que posso lhes ajudar, meus jovens? – o velho disse ainda dançando.

– Esses aqui são novos! Estavam impressionados com a sua dança.

Ele fitou os dois jovens e se animou imediatamente.

– Se perderam pra achar esse lugar? – o sambista, Luís, gargalhou de gozação, enquanto Cecília e João se entreolharam – Estou falando sério, só quem sabe que aqui fica aberto no carnaval vem.

João soltou um fungado e disse, apontando para a visão da porta:

– Culpa da chuva.

– Chuva maravilhosa... – Cecília falou maravilhada, chamando a atenção de João, de Luís e do casal da mesa vizinha.

Os dois fizeram um brinde com as garrafas de cerveja que chegaram, chamando Luís e seu amigo para acompanharem. O ambiente não de simples calma familiar, era bem mais!

Luís lhes explicou que o dono do bar era extremamente velho e gostava de juntar os amigos todos os carnavais para beber numa mesa qualquer, em qualquer lugar. A tradição se tornou tão assídua que, em 1984, quando o sambódromo fora inaugurado, os amigos construíram o bar naquele beco perdido na Av. Rio Branco. A folia se tornou boemia para os velhos, deixando o lugar aberto nos carnavais.

Tomaram outra rodada quando o desfile de alguma escola querida no bar começou, algumas pessoas contavam o samba-enredo junto. Em uma televisão grande passava toda a transmissão das escolas, acentuando o brilho com a qualidade de imagem e som. Brindaram uma vez e pediram outra rodada quando a Mangueira passava. O casal da mesa ao lado tinha as bandeira verde e rosa, então vibraram mais que todos, cantando a música e atentando à cada detalhe.

Cecília dançava na própria cadeira, animada com o jeito do casal, começando a perder as contas das cervejas que tomava. João contava, entretanto, rindo e se certificando de que ela não passaria da terceira! Mas passou, chegou na quarta e não parou de gargalhar de besteiras.

– É melhor tomar cuidado com ela, rapaz. – o amigo de Luís falou, mas ela não lhe escutou.

– Ele tem razão, Cecília, é melhor ir com calma. – João riu, passando a mão no rosto dela para retirar uma madeixa castanha dos olhos.

– Querida Cecília, guarde para amanhã! – Luís bateu a mão na mesa – Amanhã tem Grande Rio!

O outro velho pigarreou, soltando rápido:

– Beija-Flor é melhor...

– Parem de discutir sobre qual é melhor e convidem logo o casalzinho pra vir amanhã também! – o cara da mesa falou, interrompendo o olhar ameaçador dos velhos amigos – Está claro que a Mangueira vai superar todas nesse ano.

Eles se entreolharam e caíram na gargalhada. João apenas se controlou para não complicar ainda mais a situação, aproximando-se de Cecília e cochichando para ela:

– Nesse momento, nos fazemos de desentendidos.

Mas quando percebeu, estava próximo demais dela (mais do que queria pelo menos) e começou a encarar seu rosto. Estavam estáticos, inaptos de qualquer movimento! Até que Cecília se aproximou lentamente, antes de saltar a cabeça para trás de imediato.

– Caralho, eu sou fraca pra bebida mesmo... Que horas são? – ela balbuciou, fazendo careta.

– Quase duas da manhã. – ele respondeu, endireitando-se na cadeira. – Já quer ir?

– Ir?! Já?! Ainda não são nem duas horas.

Cecília sorria tranquilamente, flutuava em seus próprios pensamentos, e João não evitou achar graça naquilo.

– Vou acabar tendo que te carregar, fraquinha. – ele falou.

– Vai acabar em coma alcoólico com quatro cervejas, menina. – Luís caçoou, tomando um gole da sua – E então, casal, vocês vem amanhã? São bem vindos aqui, não é Carlos?

Carlos era o cara da outra mesa, os dois entenderam quando ele assentiu com a cabeça.

– O que me diz, Cecília? Está consciente o suficiente para aceitar sair comigo outra vez? – João disse depressa, mirando a feição risonha da moça.

– Eu não estou bêbada, só alegre. – ela falou piscando os olhinhos claros – Eu venho se você me trouxer.

– Vocês são namorados mesmo? – o outro sambista perguntou.

Cecília riu involuntariamente. Talvez fosse a bebida ou a animação do momento, mas aquele riso constrangeu o rapaz por completo.

– Não, essa é a primeira vez que saímos juntos!

Assim, tanto o casal quanto os dois senhores sentiram uma imensa pena de João, vendo-o se afundar entre os ombros enquanto ela ria boba.

– Então eu tenho chance? – Luís caçoou para não perder o momento e evitar que ela percebesse o efeito que tinha sobre o rapaz. – De qualquer forma, acho melhor João acompanhá-la para casa, não acha, meu jovem? Senão eu mesmo a ajudo a chegar em casa!

– Acho melhor é você calar a sua boca, velho tarado. – a acompanhante de Carlos resmungou.

Todos riram.

– Eu posso chegar tranquilamente em casa. – Cecília insistiu.

– Se eu deixasse você tomar mais uma cerveja, aposto que iria ver você tentando subir no balcão. – o rapaz zombou e os velhos abafaram o riso – Vamos, eu te levo pra casa antes que a Ana me ligue preocupada.

Despediram-se de uma vez quando finalmente a Mangueira terminou o desfile. Carlos e sua noiva, Martha, convidaram novamente para apareceu à noite para o último dia do desfile. Luís e o outro velho, Chico, agradeceram a presença deles com um tipo dramático de despedida, beijando a mão de Cecília e recitando devagar:

– “Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo, e eu para sempre te leve...”

– Cecília Meireles. – ela sibilou e agradeceu com um sorriso.

Estavam tão ocupados em conversar e rir que nem perceberam que a chuva já estava passando, havia apenas pequenos pingos e um céu feio e nublado que Cecília não evitou em curtir quando sentiu o vento bater.

E ali, vendo como ela estava andando devagar bela em meio às gotas escassas, João sentiu algo lhe atingir. Um sopro lhe bateu forte como bateria num simples graveto ou numa montanha, e tudo que lhe chamava a atenção era o balançar do cabelo dela, a amostra dos dentes brancos e um ritmo de música imperceptível que misturava a tropicália ao carnavalesco.

– Não quero ir para casa... – ela murmurou, balançando a cabeça e levantando os braços. Estavam próximos ao carro e o máximo que ela desejava era matar o tempo.

João segurou-lhe a mão e a rodopiou no meio da rua, ouvindo seu riso estridente e agradável. A batida veio outra vez e ele a puxou para perto devagar, escutando cada passo estalar com o salto dela sobre o chão, até que chegasse à sua frente. Encararam um ao outro no fundo dos olhos com outro baque, sentindo as próprias respirações.

Poderia ela ver a disritmia entre o coração dele e o batuque da Rio Branco? Saberia ela que a luz do poste iluminava justamente seus olhos? Caberia a ela apenas decidir o que fazer com o jovem depois que ele passou novamente a mão pelo rosto dela para prender alguns fios de seu cabelo atrás da orelha.

– É carnaval, Cecília. – ele falou baixo e a voz saiu mais rouca que o normal.

– É carnaval, João... – Cecília riu-se imóvel.

– “Vem moreninha, vem tentação. Não andas assim tão sozinha, que uma andorinha não faz verão.” – João recitou devagar, quase chegando ao ritmo da marchinha.

Ela desvencilhou e entreabriu a boca para dizer algo, mas nada saiu. Desviou de imediato o olhar para um lado, sentindo o rosto formigar por inteiro e a garganta secar. João segurou seu maxilar e sorriu. E aquele sorriso calmante e simples arrancou um dela própria, quando a distância entre seus rostos diminuía e ela sentia-se obrigada a fechar os olhos.

Um beijo fechou a noite na Av. Rio Branco. Um beijo deixou todos os baques e batuques inativos. Um beijo fez o mundo girar. Um beijo embriagou mais que qualquer bebida. Um único beijo que deveria ter sido interminável, mas apenas findou para que pudessem se entreolhar outra vez com o medo da rua àquela hora. Riram e entraram no carro de imediato, beijando-se outra vez. E outra vez na frente do prédio dela. E outra vez no elevador. E outra vez na porta do apartamento. E outra vez apenas na segunda-feira à noite antes de entrarem com cores e fitas na Rio Branco.

Não era mais um beijo. Eram os beijos que pulsavam os corações e as palavras não ditas de amor entre João e Cecília naquele carnaval.

Notas finais
Lista das músicas do capítulo: 1. TIMIDEZ - Cecília Meireles (não é música, mas vale a pena conferir o poema todo!) 2. UMA ANDORINHA NÃO FAZ VERÃO - Braguinha E o romance está no ar, own. Próximo capítulo temos Vagalumes Cegos ♥