Canções De Apartamento
1 01 - Tempo de Pipa
Notas iniciais
Tempo de Pipa
Sábado, 26 de janeiro.
Era finzinho de tarde em Botafogo, e tudo o que vinha na cabeça de Cecília era a calmaria. Músicas em especial que ela escutou no carro ficaram presas em seus pensamentos. Teve o impulso de cantarolar, interrompendo o discurso entediante de Daniel sobre como seu carnaval seria maravilhoso, sobre como a banda que tocava era ridícula, sobre como a sua turma se formaria cedo e sobre como seus amigos eram engraçados. Ele achou estranho que a moça estivesse cantarolando, mas ignorou, continuando a conversar sozinho.
Por algumas vezes, Cecília desviou o olhar e analisou o lugar em que estavam, era bonito demais para ele ter escolhido. As grandes mesas eram rústicas, trabalhadas de várias formas diferentes, enquanto no teto havia várias lâmpadas pequenas que vez ou outra piscavam. Era um bom bar, divertidíssimo apesar da companhia.
A atenção voltou para Daniel. Tentou falar algo, retrucar algum comentário, mas era quase impossível, ele não interagia, apenas jogava tudo para que ela concordasse.
Desejou do fundo do seu peito que alguma coisa ali mudasse, ou pelo menos a música fosse mais parecida com a que escutava antes. Algo mais antigo, menos modismo.
A música mudou para “Samba de Uma Nota Só”.
Então riu sozinha, imaginou o quão boba parecia ao pensar aquilo: uma pseudoculta.
– Do que está rindo? – Daniel indagou meio embaraçado.
– Não é da sua história, só me lembrei de uma coisa. – ela tentou se explicar, ainda rindo.
– Ah, sim. Imaginei. Mas, voltando ao que eu dizia, esse carnaval vai ser foda, muito melhor que o do ano passado. Os caras vão levar todo tipo de bebida para a casa do Fernando, e o melhor é que é mais ou menos perto da Sapucaí, então vamos escutar todo o barulho.
Não conseguiria escutar nada da Sapucaí da casa de Fernando, disso ela tinha certeza, mas assentiu com a cabeça. Pretendia demonstrar o desinteresse, mas não conseguiu. Daniel driblou seu humor.
– É, eu estou animada pra esse carnaval. – ela admitiu com calma.
– Porra nenhuma, Cecília. Por você, o carnaval era debaixo de chuva para dormir. Você odeia samba e pagode!
Cecília revirou os olhos e disfarçou o desagrado com o comentário. Queria chuva e calma, lógico, mas sempre gostou do carnaval, das cores e do samba. Queria que ele percebesse seus gostos antes de pensar em beijá-la naquela noite, tinha certeza de que tentaria.
Daniel começou a brincar com a comida da entrada, principalmente as bruchettas, chegando a batucar na mesa com os dedos o ritmo que a banda tocava.
– Gostando do som? – ela caçoou numa tentativa de puxar assunto. A fome tinha passado e a conversa deveria salvar sua noite.
– O baixista é um merda. – Daniel riu, apoiando o braço nas costas da cadeira – Deixa eu subir lá e mostrar como é pra tocar...
– Se eu te deixar subir, não te levo pra casa.
Ela riu sozinha. Deixava que ele falasse bobagens e falasse mal de quem quer que fosse porque pensava ser a melhor maneira de deixar fluir a situação. Ocupou-se em pensar nas melhores perguntas. Daniel ameaçou falar algo, mas fora interrompido magicamente pela própria surpresa. Ele fitou a entrada do restaurante e abriu um enorme sorriso enquanto acenava e berrava:
– Ana! Aqui! Ana!
Há mais de quarenta minutos eles esperavam Ana chegar. Quando os dois a viram começar a saltitar na sua direção, jogando os cabelos negros e lisos de um lado para o outro, riram. Talvez pela aparição exagerada dela, nenhum dos dois tenha notado que era seguida por um rapaz.
A música mudou outra vez: “O Bêbado e o Equilibrista”.
– Desculpa a demora! Fui deixar algumas coisas do meu pai na casa do meu primo e acabei trazendo ele comigo.
Nesse momento, os dois olharam para trás dela, vendo um rapaz mais alto que Daniel curvado entre os ombros. Seu jeito era meio desengonçado e sua expressão era indefinida, parecia se acuar debaixo do chapéu que usava para cobrir os cabelos negros e cacheados.
– Olá. – ele falou com a voz grossa e rouca, chamando a atenção de Cecília.
– Daniel e Cecília, este é meu primo João. – Ana o apresentou, estava mais calma. – Estes aqui são meus amigos da faculdade, são bem legais.
Cecília chegou pouco perto do rapaz e logo simpatizou com seu olhar meio acanhado e com o beijo que lhe deu na bochecha. Sentiu seu perfume, era gostoso.
Os quatro sentaram-se à mesa casualmente e se ocuparam em se observar. Não era próprio para a situação aquele silêncio, mas tudo mudou quando Daniel e Ana passaram a jogar seus assuntos infinitos um para o outro. A moça Cecília ficou parada, ainda fitando o lugar na sua própria quietude. Vez ou outra parava para escutar os comentários da conversa, apenas escutar, e outra vez sorria para João como forma de quebrar o gelo.
A música mudou novamente.
– “Dia Branco”... – ela murmurou, sorrindo involuntariamente. Fitou Daniel e Ana, mas nenhum dos dois pareceu ter escutado seu comentário.
Antes que pudesse voltar para seu próprio mundo, Cecília virou o rosto dando de cara com uma risadinha simpática de João, enquanto dizia:
– Ótima música, eu concordo.
– Geraldo Azevedo. – Cecília completou, deixando a cabeça pesar para o lado e reparando melhor na expressão do rapaz. Achou bonitinha a maneira como olhava e principalmente como mordia a própria boca para não cantar com o vocalista da banda do restaurante. – E então, João, o que você faz da vida?
Ele lhe fitou com os olhos grandes e negros.
– Faculdade de matemática. Vou me formar esse ano. – João disse, abrindo um sorriso – E você? Jornalismo com a Ana?
Cecília assentiu com a cabeça, chegando a bater um pouquinho na mesa com o ritmo da música.
– Fadada a uma vida de miséria, procura infinita pela verdade e chantagem de traficantes dos morros do Rio. – ela tentou fazer daquilo uma piada, mas não saiu como o esperado. Ficou em silêncio um instante até que ele franzisse a testa e soltasse uma gargalhada. – É melhor eu esquecer essa história de puxar assunto, estou perdendo o jeito.
– Está indo melhor que eu, pelo menos. – João admitiu para confortar-lhe e endireitou a coluna, sentindo apenas o estralo. – Restaurante legal esse. Costuma vir por aqui?
– Não, é a primeira vez que venho. – disse ela, passando a visão mais uma vez pelo lugar. Percebeu que em uma parede tinham vários enfeites coloridos, retratos de balões e fitas caindo ao lado. – Achei essa decoração muito bonita.
Ele acompanhou seu olhar, rindo em seguida.
– Gosta dessas coisas? Balões de ar quente?
– Nunca andei em um, mas fiquei sabendo que vai acontecer um festival na semana que vem. – Cecília sorriu, apoiando o rosto com a mão – Incomum, não? Balões de ar quente...
Então outra música começou, fazendo com que os dois deixassem a cabeça flutuar na melodia.
– “Partido Alto”. – João falou rapidamente, batendo o dedo indicador na madeira e se recostando nas costas da cadeira.
– É mesmo? – Cecília tentou parar para escutar a música e se situou – E não é que é! “Pois pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me botar cabreiro...”
– O que estão fazendo? – Daniel indagou um tanto incomodado.
– “Na barriga da miséria, nasci brasileiro. Eu sou do Rio de Janeiro!” – Cecília e João cantarolaram em uníssono para o rapaz, em seguida rindo com a expressão embaraçada dele.
Ana prestou atenção nas risadinhas dos dois e também se divertiu.
– Os dois estão descobrindo os mesmos gostos, só isso. – ela falou.
– Ah, sim... – Daniel sibilou, enquanto Ana pousava a mão no seu ombro. Estava incomodado com a situação, Cecília estava bem solta. Solta demais até com apenas algumas trocas de palavras.
Os dois acertaram a outra música e riram. Pediram a comida e acertaram a próxima e a seguinte. Os pratos chegaram e mais três músicas se foram. Passaram do samba para a MPB, viajando pela ciranda e pelo blues.
– Hum, sabe o festival de balões? – João chamou a atenção da moça depois de tomar um gole da própria cerveja – O pai de Ana vai estar por lá, então você bem que podia aparecer.
– Que ótima ideia! Vamos, vocês tem que ir! – Ana falou entusiasmada.
– Até pode ser... – Daniel disse, fitando Cecília com o canto dos olhos. Esperou que ela mesma se intrigasse na possibilidade de ele ir, queria que ela perguntasse como antes estava fazendo. Mas não o fez. – Que dia vai acontecer o festival?
– Semana que vem, dia 2 de fevereiro. – João falou com calma, olhando para o rosto da moça de cabelos castanhos cheios de caracóis e frisados – Você vai, Cecília?
Ela piscou algumas vezes os olhos, tentou lembrar-se de algum compromisso, aula ou aniversário. Não havia nada primeiramente ou era sua vontade de ir que estava apenas crescendo. Não teve como resistir, então assentiu com um sorriso involuntário.
A noite se seguiu tranquila e mais músicas vieram à tona para os dois, apertando sempre mais a mente de Daniel.
Quando chegada a hora de ir embora, levantaram-se ao mesmo tempo e seguiram até a frente do restaurante com conversas que já não se resumiam ao carnaval, mas abrangiam música, cinema, risadas estranhas e detalhes chamativos do restaurante. A qualidade da comida foi um dos principais assuntos, mas já era tarde
– Então nos vemos dia dois, certo? – João disse, hesitando descer as escadas. – Você me liga se for.
– Eu ligo, pode deixar. – Cecília falou com calma, retirando as chaves da bolsa.
Daniel observou o jeito dela e baixou a cabeça, seguindo até o lado de Ana já fora do restaurante.
– Até lá, te vejo depois...
– É, nós vamos. – Cecília riu.
João se aproximou do corpo dela, pousando a mão debaixo do seu cabelo e um beijo na sua bochecha num estalo calmo, mas não saindo do seu lado. Seu hálito caiu na pele dela quando soltou um risinho.
– “Dindi” do Tom Jobim... – João falou e fitou o olhar da moça, retirando a mão do seu rosto que, foi sem querer, ao encontro do seu braço. Um toque ligeiro que o fez retirar de imediato a mão e desviar o olhar do rosto da moça. Ela carregava uma bolsa com várias fitas coloridas penduradas como chaveiro, usou-o para escapar da situação – Fitas. Interessante. Morenas ficam bonitas com as cores das fitas.
Cecília retribuiu com um sorriso. A música estava começando ao fundo do restaurante e eles se afastaram devagar.
Troca de telefones feita e foram embora em seguida. Deixaram Botafogo com seu clima e seus restaurantes e barzinhos.
Domingo, 27 de janeiro.
“Olá, como vai?” a mensagem chegou ao seu celular e o nome de João vinha junto. Cecília riu e respondeu rapidamente, enquanto esperava no drive thru de uma franquia de lanchonete qualquer: “Eu vou indo e você? Tudo bem?”.
“Tudo bem. Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?”. As palavras chegaram e ela riu. Demorou um instante para responder, estava pegando a comida. Pensou até em parar a música, mas Chico Buarque merecia seu respeito. Respondeu: “Tudo bem. Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo… Quem sabe?”.
Quarta-Feira, 30 de janeiro.
– Anda de conversa com o João que eu sei. – Ana caçoou, saltitando para o lado de Cecília enquanto ela terminava de colocar a senha do cartão de crédito. – Não tente disfarçar, Cecília!
Ela revirou os olhos, comentando:
– Nós só estamos conversando, nada demais.
Daniel franziu a testa ao lado das duas de imediato.
– Ele parece um drogado, sem ofensas, Ana.
As duas soltaram risinhos até que Cecília saísse de perto dos dois para acertar os últimos detalhes da entrega do colchão que acabara de comprar. O rapaz a acompanhou com o olhar cada vez mais pesado.
– Achei que vocês dois fossem ficar juntos. – Ana comentou séria – Sempre do lado um do outro...
– Eu também achei. Nós sempre conversávamos e ela me escutava, fazia perguntas e se interessava pelo que eu fazia. – Daniel falou e baixou a cabeça. – Achei que ela quisesse mais do que só a amizade pela maneira como chamava minha atenção.
– E você? Chamava a atenção dela? – Ana murmurou, abrindo os olhos como bolas de bilhar – Por acaso você dava atenção ao que ela falava?
Sábado, 2 de fevereiro.
Era manhã, estava cedo demais e as nuvens ainda deixavam o azul do céu devagar. O céu do Rio de Janeiro estava embaçado e deliciosamente místico ali. Havia cheiro de terra, o campo era amplo para o festival. Belíssimo, tudo estava belíssimo!
Carros e mais carros chegaram ao lugar, sempre tomando cuidado para ficar longe dos donos de balões que há muito ali estavam, desenrolando os tecidos, movendo as cestas com o fogo de um lado para o outro ou até trocando informações uns com os outros. Algumas famílias chegaram a fazer piqueniques em volta do parque. O belo eram as cores.
Tudo parecia ser calmo, principalmente com João e Ana ali, ajudando o Sr. Gonçalves a arrumar o aro de metal da parte de cima do balão. Mas a atenção do rapaz se voltou de repente no instante em que Cecília veio caminhando na direção deles com sua saia longa e camisa folgada, batom vermelho e pele alva que apenas brilhava com a pouca luz do sol. Estava bela.
De início, não se cumprimentaram. Ela e Ana estavam animadas e passaram um instante juntas. O Sr. Gonçalves também foi ao seu encontro, mas João permaneceu ali, parado a observá-la. Entreolharam-se depois de um longo tempo, cumprimentaram-se e sentaram-se lado a lado em cima do capô do carro do pai de Ana quando o festival começou.
Onde estaria Daniel? Ele pensava, mas não tivera coragem de perguntar. A maneira como a via observar os balões era bonita. Mais que bonita, era adorável.
Cecília percebeu o olhar e sorriu para ele, chegando perto e cantarolando:
– “Coração bola, coração balão, coração São João”. – então apontou para um balão colorido com vários corações coloridos. – Só consegui pensar nessa música quando vi aquele ali.
Ele assentiu com a cabeça, tentando lembrar-se de onde era a música.
– É, é bonito. Aqui tem o melhor vento, é bom por isso... – João disse, recostando-se com o apoio dos cotovelos.
Observou como ela continuava ali, meio curvada. Olhava para o céu, impressionada, enquanto seu cabelo rodopiava com o vento, embaraçando os cachos. Acabou por abraçar as pernas, apoiando a cabeça nos joelhos.
– Da próxima vez eu faço um passeio. – Cecília disse para si mesma.
– É caro, mas vale à pena. – ele assentiu, saindo da posição de conforto e parando ao seu lado. – Cadê o chaveiro das fitas?
Lentamente, Cecília virou-se. Retirou da bolsa se tecido couro um estojo com o chaveiro pendurado, o chaveiro da fitas coloridas, colocando ao lado de seu rosto e rindo.
– Está falando desse aqui?
Ele pegou as fitas e colocou penduradas no pescoço da própria Cecília. Cada uma tinha pelo menos 25cm então ficaram caídas sobre o osso da clavícula, colorindo ao redor do rosto da moça.
– Já disse que você fica legal com esses coloridos?
– Eu gosto, colorem meus dias. – ela falou, deixando as fitas onde estavam.
Poderia ser o clima, poderiam ser os balões ou talvez o toque das fitas, mas algo estava acontecendo ali naquele capô de carro. E o tempo que passava e o vento que os deliciava... Isso e apenas isso importava: A calmaria e o conforto dos dois.
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