Canção da Sereia
45 A mulher da floresta - Parte 1 - RS
Notas iniciais
Lancey
Nora dormiu o dia todo. Eu fiquei até umas duas da tarde deitado. Peguei um colchão em outro quarto e dormi nele. Eu deveria ter dormido na cama, ela nunca iria perceber. Mudou de posição apenas uma vez. Chequei sua respiração por umas cinco vezes. Então, finalmente, não aguentei mais ficar deitado.
Escrevi um recado e coloquei ao lado da cama.
O bilhete dizia que eu estava lá embaixo e a porta estava trancada e que eu voltaria para vê-la em uma hora. E eu fiz isso. Voltei as três, depois as quatro, então as cinco. Ela ainda dormia. Não a acordei, imagino que toda essa coisa de transformação sugue muito dela.
Gideon e Megan são os únicos na casa. Os outros saíram, aparentemente George queria se arriscar a achar a caverna. Encontrar o resto dos ossos era uma distração para ele no momento.
Gideon, por sorte, ou por ordens, não tocou no assunto.
– E a arma da Nora? — Eu pergunto a ele antes da checagem das 18 horas.
– Esta com Willian, acho que ele pretende devolver quando conseguir falar com ela.
Ah claro. Um agrado para fazer as pazes! Espero que Nora tenha mais cérebro do que ele imagina.
Verifico Megan antes de subir. Ela está no sofá, lendo. Ou fingindo ler. Está sempre olhando sobre o livro, para a parede de vidro. Ela está a espera. Com exceção de Kall, não me importo se os outros não voltarem. Será um favor.
Consigo algumas frutas e pão para Nora. Dessa vez vou acordá-la. Tenho medo que ela volte a se transformar hoje. Tenho que prepará-la pra isso, caso aconteça. Mantê-la bem alimentada, forte. Quando coloco o pé no primeiro degrau escuto o grito dela. A comida cai toda. Subo apressado. Gideon esta atrás de mim, tenho certeza.
A primeira coisa que vejo ao chegar ao andar de cima é a porta do meu quarto aberta. Porta que eu tranquei e chequei antes de sair.
Nora
Miau. Miauu.
É o Sardinha. Acordo obrigada. Me sento bem lentamente. Meus olhos parecem conter areia e meus músculos doem, parece que corri uma maratona no dia anterior. Olho a volta, estou no quarto de Lancey. Ele não está aqui. Retiro a coberta grossa que tem em cima de mim, estou suando. Também, deve estar uns quarenta graus nesse lugar e eu com essa coberta de pelo.
Encosto o pé em algo mole e me assusto. É um colchão. Lancey dormiu no colchão. Por que eu não espero nada diferente dele? É claro que ele me daria espaço. Sem pressão. Um pequeno sorriso nasce em meus lábios. Estou feliz, apesar dos pesares.
Encontro um par de sapatilhas. Não são minhas, devem ser de Megan. As visto.
O miado continua insistente. A porta está meio aberta. Um pequeno vão, que dá perfeitamente, para Sardinha passar. Me espreguiço caminho pra fora. Passo a mão pelos olhos ramelentos tentando me livrar da sensação de areia. O corredor está vazio. Menos mal. Tenho medo de me deparar com George. Quem sabe o que ele faria comigo.
O miado vem do meu antigo quarto. Quarto que dividi com Willian. Quarto cheio de lembranças. Não sei se Lancey limpou o banheiro, se não, deve estar bem assustador agora.
Vou pro lado oposto, pro banheiro. Lavo o rosto, ajuda a me despertar um pouco. Então finalmente volto minha atenção para os miados insistentes. Ele deve estar com fome.
Está escurecendo lá fora... não posso ter dormido tanto tempo...
Entro no quarto, está como ontem. Com coisas quebradas e cama desfeita. Os miados vem de baixo dela.
– Vai me fazer abaixar com toda essa dor, seu gato danado?
Me ajoelho ao lado da cama. Os miados param e escuto as unhas de Sardinha arranhar o chão. Estico apenas meu braço e tento senti-lo. Sinto uma pontada no dedo.
– Sardinha!
Tiro minha mão e vejo meu dedo com uma gota de sangue.
– Arranhou a mamãe, seu cretino! Peludo de uma figa!
Ele não vai facilitar. É extremamente sentimental. Eu não o alimentei, agora ele está dando o troco!
Me inclino mais, para poder ver em baixo da cama. Mas, não chego a olhar. O miado volta, dessa vez de trás de mim. Giro minha cabeça lentamente e vejo Sardinha perto da porta. Engulo seco. Tem algo em baixo da cama. Algo que arranhou meu dedo... Meu gato mia mais alto e por fim corre pra fora do quarto.
Os sons de madeira sendo arranhadas me arrepiam. Está em baixo da cama. Seja o que for. Me afasto lentamente, ainda de joelhos. Estou a uns dois metros da porta. E se eu correr? Mas pode não ser nada... Mas e se for?
Os sons vão ficando mais fortes, mais próximos. Seja o que for está saindo de baixo da cama, eu posso sentir sua aproximação. Engatinho de ré, mais rápido, mas sem tirar os olhos da sombra que se precipita através dos babados da colcha da cama.
Oh deus! Misericórdia...
O silêncio que fica me lembra de ataques de feras que vi em documentários. Sempre há silêncio antes do ataque.
Menos de um metro da porta. Eu não quero morrer!
Sinto a porta com meu pé.
A colcha mexe e então uma figura humanoide saí de lá. Rastejando. Eu grito e tento me levantar para fugir, mas as mãos podres envolvem meus pulsos. É a mesma criatura do pier, só que... mais podre... como um cadáver.
É tão forte. Eu caio de cara no chão enquanto a criatura deixa sons horríveis escapar de seus orifícios no rosto, ou o que sobrou dele. Continuo gritando e me debatendo. Bem que aquela coisa do grito agudo de ontem poderia voltar a funcionar.
A criatura me puxa com força e rapidez para baixo da cama. Puxo meus braços de volta, mas não tenho forças.
Lancey
No quarto antigo, semi enfiada em baixo da cama e sumindo com rapidez. Assim encontro Nora. Eu me lanço no chão, segurando suas pernas agitadas.
Megan está gritando e me ajuda. Gideon empurra a cama com um chute e deixa a vista a terrível criatura do pier. Ela tem a carne podre e cheira terrivelmente. Tem as duas mãos envolvidas nos pulsos de Nora e a puxa para um buraco na parede. Gideon atira várias vezes, mas a criatura continua puxando a Nora, que grita e se debate desesperada. Tento segurá-la com todas as minhas forças. Não posso perdê-la assim.
Gideon para de mirar no peito e na cabeça, atira nos braços. Um deles se parte e com o puxão que Megan e eu damos, a outra mão a deixa ir. A criatura no entanto, tenta pegá-la de volta e começa a sair do buraco. Se arrasta até nós com apenas um braço.
Megan já está em pé. Puxo Nora pela pernas pra fora e só quando estamos longe é que a ajudo a levantar. Descemos as escadas apressados, com Gideon vindo atrás. Ainda há sons de tiros, o que significa que ainda estamos sendo perseguidos.
– Pra despensa! — Ouço Gideon.
Não faço a menor ideia de onde fica a despensa, mas deve ser na cozinha.
Megan passa a frente, e nos guia. Nora mal consegue me acompanhar, eu praticamente a estou carregando.
Ouço os miados de Sardinha e então ele passa apressado por nós. Garoto esperto!
Megan passa pela cozinha e pega um pequeno corredor que eu mal havia reparado antes. No fim dele há uma porta, ela entra, arrasto Nora pra lá. Gideon vem logo atrás e fecha a porta com tudo. O cômodo está escuro.
– Tem... um puxador em algum lugar. Esta pendurado. — Megan diz entre soluços. Nora não está melhor que ela. Ela treme em meus braços e sei que se soltá-la, ela não irá ficar em pé.
Levanto uma mão, enquanto a outra a sustenta. Sardinha entrou também, esta miando. Uma batida violenta na porta causa pânico geral.
– Está tentando entrar, esta tentando entrar! — Gideon grita de algum lugar.
Passo a mão pelo ar, até sentir uma cordinha, então a puxo. Ao acender a luz o escândalo é ainda maior.
No fim do pequeno e apertado corredor, cheio de prateleiras, há uma mulher. E pelos gritos gerais, acho que todos podemos vê-la. Ela apenas nos encara. Está parada, com as mãos caídas ao lado do corpo. Usa um vestido rosa encardido e rasgado nas barras. Deve ter uns 50 anos talvez, os cabelos são brancos e os olhos castanhos. Em seu rosto há desenhos feitos de alguma espécie de tinta branca. Ela abre lentamente um sorriso, mostrando os dentes pontudos e podres para nós.
Nora então começa a chorar bem sonoramente, se agarrando a mim com todas as suas forças de um lado e Megan do outro. Nem sei qual a braço ou se ataco a mulher, ou se grito. Ou sei lá o que. Quer dizer, gritar pela histeria das garotas, porque eu não tenho medo da mulher. Eu a reconheço. Vejo em seu semblante o que a habita. Helena.
As batidas continuam.
Puxo Megan para trás de mim. Gideon está ocupado tentando segurar a porta com seu corpo contra a criatura, de um braço só agora.
– Vai nos ajudar, Helena? — Pergunto sem tirar os olhos dela.
A mulher leva o dedo ao lábio e dá um passo pro lado. Mostrando um buraco de um metro mais o menos. Ela aponta para lá.
– Eu vou por último! — Gideon diz enquanto ainda estou debatendo se é ou não seguro. Aparentemente ele decidiu que essa mulher é menos perigosa que o monstro lá fora. Empurro Megan e Nora pelo buraco, Sardinha já deu no pé. Onde quer que esse túnel nos leve, ele não deve ter achado tão perigoso quanto ficar.
Gideon não vai conseguir sair. Olho a nosso redor. Não há nada pra bloquear a passagem. Ou talvez... começo a chutar o ultimo andar da prateleira até que vá ao chão. Pego a tábua e escoro na fechadura da porta. Corro pro túnel e Gideon vem logo atrás. Helena já não esta mais ali quando entro.
Alguns metros a frente encontro Nora em uma espécie de ataque do pânico. Justo quando o barulho da porta indo pelos ares invade nossos ouvidos.
– Nora, continua. Aquilo não vai desistir! Continua.
Ela passa a mão no rosto úmido e se força a continuar. Eu vou atrás a empurrando. Os tiros recomeçam atrás de mim.
– Rápido! — A voz de Gideon fala com desespero. Logo consigo ver a “luz no fim do túnel”. Megan já está fora e ajuda Nora a sair. A luz que nos direcionava pra fora vem de uma tocha. Tocha que é segurada por Helena em seu novo corpo.
Gideon consegue sair. E logo uma mão está se colocando pra fora.
– Corre! - Helena diz sem mover a boca. Ninguém mais parece ter escutado. Talvez a voz esteja em minha cabeça. Assim como as direções. Sei exatamente para onde ir.
Pego a mão de Nora, a puxo para o meio da mata que está a nossa frente, dou um última olhada para o túnel. Me pergunto a quanto tempo isso esta ai... e quantas pessoas fugiram por ele, ou quantas coisas entraram...
Megan está ofegante, perdendo velocidade. Eu a pego pela mão. Corro com cada uma das garotas em um lado, seguindo as coordenadas desenhadas em minha mente.
Passo pela arvore branca uma vez. Duas. Três. Quatro vezes. Na quinta eu viro a esquerda. Olho para trás, Gideon ainda está nos acompanhando. Eles estão tão nervosos que nem perceberam a corrida em círculos. Isso faz parte do feitiço para não encontrarem a feiticeira...
Logo eu posso ver a casa que procuro. A casa da mulher da floresta.
A casa de Helena.
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