Canção Vintage (Crânio & Magrí - Os Karas)
29 Um Caso Irresolúvel - Parte II
Notas iniciais
1995
— Eu já me decidi, Magrí. Eu quero você. Você quer se casar comigo?
Magrí arfou e arregalou os olhos quando a belíssima pedra do anel reluziu ao sol. Sentiu as mãos tremeram e os olhos encherem d'água. Não conseguia articular e encarou o namorado que sorria para ela com ternura. Finalmente, ela pode abrir a boca rindo como uma criança:
— É claro que eu vou me casar com você, meu amor! Ah meu Deus eu vou surtar!
Crânio gargalhou enquanto colocava o anel no dedo delicado de Magrí. Beijou a mão agora não mais da namorada, mas sim noiva! Ela se jogou nos braços do rapaz e encheu o rosto dele de beijos. Os dois riam felizes como há muito tempo não faziam.
Passado alguns instantes, Magrí fitou o noivo deitado de novo na areia. Se aproximou fazendo carinho na testa dele. Havia uma coisa que a perturbava:
— Mas, meu amor... E a oferta do MIT? Você recusou?
— Sim — Crânio sorriu fracamente — Mas eu já tenho outros planos assim que terminar o mestrado. Para a sua alegria, vou dar aula por um tempo aqui no Brasil.
Os olhos de Magrí brilharam. Há muito tempo que ela tentava convencer o rapaz para ser professor, mas Crânio sempre resistia dizendo que não levava jeito para coisa. Magrí sempre discordou disso, alegando que seria um desperdício de talento se ele não lecionasse, e seria bom para o currículo (fabuloso) dele.
Ela o beijou nos lábios rindo:
— Então eu estava certa o tempo inteiro? E você finalmente cedeu! Ha! Eu sabia!
Crânio revirou os olhos sem deixar de sorrir. Bem, Magrí também esteve certa em muitas outras coisas... Inclusive em uma discussão na época do Colégio Elite em meio a um caso medonho...
***
Crânio se recostou na parede sem fôlego, e com calor pelo jaleco branco que tinha "pegado emprestado" de um dos funcionários do IML. Era noite alta, quase madrugada.
Tinha conseguido também um crachá de um funcionário esquecido, e ninguém percebera o engano. Estava em tempo de encontrar a ala dos corpos prontos para autópsia. O rapazinho não estava nem um pouco animado pela visão que teria do corpo de Charles Duarte, mas não era hora de sentir náuseas.
Atravessou um corredor quase vazio de cabeça baixa e olhando pelo canto do olho para as placas nas portas que passava. Parou em frente a uma porta no fim do corredor, que parecia ser o que procurava, porém, trancada.
Crânio suspirou, olhou para os dois lados para assegurar que ninguém estava observando, e fingiu para a câmera de segurança que procurava uma chave do bolso do jaleco. Se não fosse pela situação delicada, ele simplesmente arrombaria a porta, mas tinha que ser cauteloso e não podia deixar rastros.
Retirou do bolso um dos grampos de cabelo de Magrí, que acabara ficando com ele sem querer todas as vezes que acompanhava a menina nos treinos da ginástica olímpica. Pensar nela fez com que Crânio franzisse a testa e suspirasse. Talvez era hora de voltar atrás e parar de ser teimoso?
Estava pensando naquilo após entrar na sala, e enquanto procurava pelos gaveteiros o corpo do ex-aluno do Colégio Elite — talvez levaria mais tempo do que esperava.
Até que ao abrir a quinta gaveta da letra C teve o desejo atendido.
— Meu Deus...
O que Crânio viu era muito difícil de descrever. Um garoto jovem, saudável, da mesma idade dele, que tinha um futuro brilhante, teve a vida interrompida de forma brutal. As marcas pelo corpo de Charles não eram comuns. O rosto desfigurado e parte da pele faltando, dentre outros terríveis detalhes, foi uma visão que Crânio jamais esqueceria. Não sentiu medo, mas sentiu revolta pela injustiça cometida.
Leu rapidamente alguns documentos atrelados no gaveteiro, pegou alguns que haviam a mais, e saiu apressado com o coração batendo no peito.
***
Um dia antes, Colégio Elite – 10:30 da manhã
— Ajudar é diferente de ser um xereta e querer bancar o Sherlock! — Dani estava quase sibilando — Fica fora disso!
Dani esperava que tivesse um dia mais tranquilo. É claro que estava errada quando encontrou a última pessoa do mundo que a procuraria. Ele estava com uma expressão muito séria, e pela primeira vez, não ficou feliz em vê-lo.
Miguel refletiu e fitou a menina à sua frente estudando-a. Nunca tinha parado para prestar atenção nela em todo aquele tempo que a conhecia, e para o seu espanto percebeu que mal havia trocado mais do que meia dúzia de palavras com Dani. Não era de se espantar a resistência da garota em ajudá-lo.
Deveria agir de forma mais honesta e não tratá-la com tanta descortesia... Mas Miguel não pode parar de pensar em como também estava sendo manipulador, quando se aproximou e colocou as mãos nos ombros da menina de forma delicada.
— Por favor, por favor, Dani. Eu preciso que você me ajude.
A garota pareceu engolir em seco pela proximidade. Ela tinha dificuldade em manter o contato visual.
— Não há nada o que eu possa fazer — disse ela quase sussurrando — E o que Henrique me contou não é nada que a polícia não saiba.
Miguel sabia que ela estava mentindo para despistá-lo. Suspirou.
— Há vidas que possam estar correndo risco com esse caso. Pense, Dani. E se Charles não for o último? Se mais algum aluno for encontrado morto?
— Não vai acontecer nada com nenhum aluno do Elite, é a família dele que...
Dani parou abruptamente querendo morder a língua. O rosto de Miguel ficou ansioso.
— O quê? O que tem a família dele?
Por fim, Dani se viu derrotada e contou a história que ouviu sobre a família de Henrique e Charles e o seu ancestral que fez um pacto com um demônio à lá Fausto de Goethe.
Miguel ficou calado o tempo inteiro enquanto ela falava apenas refletindo de testa franzida, e sem deixar de soltá-la, o que não ajudava a garota a manter o raciocínio e a pose.
— Você pode pensar o que quiser, Miguel. Mas eu não duvido de mais nada...
Ele a encarou.
— Há mais alguma coisa?
Dani mordeu o lábio. Havia uma coisa que talvez seria o suficiente para levá-la a depor como testemunha, e era isso que Henrique estava pedindo a ela minutos antes.
— Eu vi Charles... Bem, eu não sei explicar quem era — ela bateu o pé em frustração — Mas me parece que uma pessoa conversou ou ameaçou Charles no portão da casa um dia antes dele aparecer morto. Somente eu vi, porque eu estava indo para lá ver o Henrique. Foi o que eu estava dizendo a ele.
Miguel apertou um pouco os ombros de Dani como se quisesse arrancar a informação dela de qualquer maneira.
— Quem, Dani? Como era essa pessoa?
— Eu não vi direito, mas... Mas me parecia ser uma mulher. Eu sei que ela deixou o Charles muito abalado.
Toda aquela história não fazia o menor sentido na cabeça de Miguel, e o caso estava ficando mais complicado do que esperava. A garota parecia pálida e cansada. Resolveu que era melhor deixá-la fora de tudo aquilo.
— Está tudo bem com você?
— Está, não se preocupe. Estou apenas com dor de cabeça.
Não deixava de ser verdade, porém não era somente isso e Dani sabia bem.
— O que o Henrique queria com você?
— Por que está tão preocupado com isso? Não me venha com desculpa esfarrapada sobre ser presidente do Grêmio, e blá, blá, blá.
Miguel pensou por alguns instantes antes de responder. Não iria cometer os mesmos erros que cometeu com a Peggy — mesmo que no fim tudo deu certo. E bem, tinha que admitir que fez o que fez por interesse egoísta na filha do presidente americano. Teria que ser mais cauteloso dali para frente com o segredo dos Karas.
— Eu faço o que eu acho o certo a ser feito, Dani — disse de forma solene — Mesmo que isso me custe muito caro. E acho que você deveria fazer o mesmo. Não tenha medo.
Ele sorriu fracamente e deu beijo na testa da garota antes de se retirar. Foi algo fraternal, sem intenções ocultas, mas o suficiente para deixar Dani tonta e sem sentir o chão.
***
Na manhã seguinte, Magrí não foi para escola. Ao contrário, resolveu ir visitar a mãe de Charles antes de fazer qualquer outra coisa. Crânio havia ligado quase de madrugada para dizer que tinha chegado em casa bem do IML, e só assim ela conseguiu pregar o olho.
Pensar no garoto fez com que refletisse se não estava sendo muito infantil com toda aquela história da festa... Apesar de achar que ainda tinha um pouco de razão, ela pensou se não estava querendo forçar o namorado a fazer algo que ele não se sentia confortável? Ele jamais a forçou a fazer absolutamente nada, por que então ela tinha que fazer isso?
Já tinha chegado no portão da casa da família de Charles quando ouviu alguém chamá-la da calçada. O rapazinho que ocupava os seus pensamentos surgiu. Magrí sorriu com carinho ao vê-lo, e quando se cumprimentaram com um leve beijo, a menina percebeu que Crânio estava com uma expressão muito cansada e... Parecia assustado?
— Está tudo bem, meu querido?
O garoto carregava uma pasta azul embaixo do braço e balançou a cabeça em negativa. Delicadamente a levou para um lugar mais reservado. Sussurrou.
— Eu sinceramente não sei com o que estamos lidando, Magrí. Eu consegui tirar algumas cópias do laudo médico de Charles e passei a noite lendo — ele mostrou a papelada com as mãos um pouco trêmulas — E tudo é muito horrível.
Magrí segurou o rosto do rapazinho com preocupação. Nunca em todo aquele tempo que conhecia o namorado, o tinha visto tão acuado.
— Eu não entendo nada do que está escrito. O que o assusta tanto?
Crânio respirou fundo.
— Sabe de quê Charles morreu? Ataque cardíaco.
— O quê? Isso não faz sentido.
— Não mesmo — ele balançou a cabeça — Mas isso é o de menos. Você deveria ter visto os ferimentos no corpo dele. Ele teve o fígado e o estômago perfurados, parte da cabeça dilacerada, enfim... Melhor não dar mais detalhes. Mas há uma coisa que você precisa saber.
Crânio contou a história que a irmã narrou para ele na noite anterior. Magrí arregalou os olhos assustada.
— Se isso for verdade mesmo, nós fizemos a maior besteira em ter mandado o Chumbinho para cá sozinho!
Crânio a abraçou.
— Não consegui falar com ele ontem à noite, por isso vim para cá. Não quero que entre lá sozinha para falar com essa mulher.
Magrí o apertou no abraço. Era tão bom estar assim com ele e saber que o garoto queria protegê-la — mesmo sem saber como faria isso. Os pensamentos anteriores à chegada dele retornaram.
— Meu querido, sobre a festa... Sei que não é uma boa hora, mas...
Crânio deu-lhe um beijo carinhoso e a apertou junto a si.
— Eu sei, tá tudo bem. Mais tarde conversamos.
Magrí deveria estar preocupada com todo aquele caso, e de fato estava. Mas não conseguia deixar de pensar como era bom estar em sintonia com o seu Crânio novamente.
A situação, porém, era preocupante. Como se luta com uma coisa de outro mundo? Isso estava fora de tudo o que os Karas haviam enfrentado. Será que conseguiriam?
***
Na noite anterior, 22:45
Chumbinho não soube exatamente o que aconteceu. Por longos e tenebrosos segundos, achou que iria morrer ali mesmo naquele jardim. Contudo, o que quer que estava vindo na direção dele se assustou com as luzes de um carro que atravessava as alamedas. A coisa recuou e Chumbinho se viu à salvo. Ou quase isso.
Uma mulher alta de longos cabelos loiros desceu do veículo e encarou Chumbinho apertando os olhos.
— Quem é você? O que quer aqui?
O garoto pensou rápido. Aquela só podia ser a mãe de Charles. Fez a melhor cara de choro que conseguia.
— D-desculpe, senhora. Eu era amigo do seu filho que morreu, e... e... — ele baixou a cabeça.
A mulher franziu os lábios e a expressão, que antes estava zangada, suavizou-se para um rosto mais triste.
— Qual é o seu nome, meu querido?
— Pode me chamar de Chumbinho.
— Prazer, Chumbinho. Caso não saiba meu nome, é Agnes. Entre para comer alguma coisa, é bom ter companhia — Ela acenou para que Chumbinho a seguisse em direção à casa — Mandei meu filho mais novo para casa de um velho amigo, para ele ficar longe de toda essa loucura.
Chumbinho a acompanhou sem pestanejar. Não fazia ideia de como conseguiria sair daquela situação, mas estava muito agradecido por Agnes ter salvado sua vida — mesmo sem ela saber.
***
Na tarde do dia seguinte no Colégio Elite, somente Calú estava presente no forro do vestiário. O rapazinho estava preocupado com os amigos não terem aparecido para a reunião de emergência máxima. O jovem ator já estava para descer do forro, quando ouviu que alguém havia aberto a tampa do alçapão. Para o seu alívio, Miguel surgiu pelas sombras.
— Poxa, até que enfim alguém apareceu!
— Onde estão os outros, Calú?
— Era isso que eu ia te perguntar, Miguel. Estou aqui há quase uma hora esperando!
Miguel passou a mão nas têmporas em preocupação. Não poderiam perder tempo, mais do que já haviam perdido.
— Vai ser só nós dois mesmo, Calú. Deve ter acontecido alguma coisa. Por enquanto, conte o que você descobriu.
O rapazinho tirou um bloco de anotações do bolso da jaqueta.
— Não consegui muita coisa, Miguel. Aquele tal de Henrique é muito esquisito e difícil para cooperar, mas ele me disse algo que achei importante: ao que parece, Charles teve um encontro com alguém um dia antes de ser encontrado morto que posso ter alguma influência nisso.
Miguel levantou a cabeça e encarou o amigo.
— Isso confirma o que a Danielle havia me dito ontem. Por isso que pedi que você conversasse com ele para ver se ele também dava essa informação. Não disse nada na reunião anterior, porque queria ter certeza que isso possa nos ajudar.
Calú fez uma expressão brincalhona.
— O que você fez para arrancar essa informação dela, hein Miguel?
O rapazinho demorou para responder.
— O quê? — o líder dos Karas piscou.
Calú riu alto.
— Ela foi muito boazinha em te ajudar, e eu duvido que se fosse eu ela teria dito alguma coisa para mim. Às vezes você não enxerga o que está na sua frente, chefinho.
Miguel franziu a testa, enquanto Calú continuava rindo. O que o amigo estava querendo dizer?
— Não é hora para brincadeiras, Calú. Temos que agir rápido.
O rapazinho contou a história que Dani havia lhe contado sobre a família de Charles. A narração deixou Calú bem impressionado.
— Então.... Eu não duvido de nada e você sabe disso. Se essa coisa, ou melhor, o capiroto está atrás dos membros da família, isso quer dizer que o Chumbinho...
— Eu sei. Mas eu acredito que ele esteja bem, Calú. Temos que acreditar.
O garoto acenou, mas com uma expressão preocupada.
— E quanto a Crânio e Magrí? Onde eles estão?
A expressão de Miguel se azedou um pouco, mas Calú não percebeu. Porém a preocupação com o bem estar dos dois era maior do qualquer coisa.
— Vamos torcer para que estejam bem. Alguma coisa os atrasou — o garoto suspirou e balançou a cabeça — Não consegui mais nenhuma informação na delegacia que possa nos ajudar.
— E o que vamos fazer agora sem os outros?
Calú não escondia a preocupação.
— Eu vou ligar na casa de Crânio, Magrí e Chumbinho assim que sair daqui — respondeu Miguel com determinação — Não os vi hoje em nenhuma aula, então acredito que não vieram para escola. Se eles por alguma razão estão em casa, vou pedir para que nos acompanhe.
— Para onde?
— Para a casa da família de Charles. A nossa investigação vai continuar por lá.
***
Chumbinho foi tratado na casa da família do falecido Charles como se fosse um velho conhecido que havia voltado de uma longa viagem. A Sra. Agnes o tratou com o carinho de um filho oferecendo comida, uma cama confortável e todas as preocupações de uma mãe. Até achou que ela exigiria que ele retornasse para casa na mesma noite e fosse para a escola na manhã seguinte, mas não foi isso o que ocorreu.
Antes de dormir, Chumbinho ligou para os pais para tranquilizá-los inventando que iria dormir na casa de um colega. Acordou ainda cansado naquela manhã.
— A senhora deve estar muito aflita, não é? — disse ele a mesa do café da manhã tardio.
Agnes suspirou.
— Muito. Eu não sei o que é dormir há quase uma semana. Não é fácil perder um filho, ainda mais de um jeito tão estranho...
Chumbinho acenou com tristeza. Apesar do cansaço, o rapazinho estranhou que Henrique não tinha retornado para casa ainda... Mas resolveu não comentar nada com Agnes para não preocupá-la mais. Talvez o rapaz tenha ligado e falado com a mãe, sem o caçula dos Karas ter visto.
A campainha da porta tocou e dois adolescentes aguardavam no hall, disse o mordomo. Procuravam pelo amigo que chamavam de Chumbinho.
— Ah são meus amigos, sim! Puxa acho que eles não esperavam eu estar aqui.
Por alguns instantes a expressão de Agnes ficou estranha, fria como pedra. Contudo, logo a expressão se desfez como gelo, e ela sorriu com doçura. Se Chumbinho não estivesse tão apaixonado por Natália, teria trocado a sua musa de devoção por aquela mulher.
***
No hall, Crânio e Magrí se olhavam com apreensão e ansiedade. Havia um quadro na parede do hall que chamou a atenção dos dois: era de uma bela mulher de cabelos loiros presos em um elegante coque, feições delicadas e um sorriso cálido. Deveria ser a mãe de Charles e Henrique.
A mulher do quadro apareceu no hall para recebê-los. Havia algo nela, porém, que deixou o casal com a pulga atrás da orelha. Eles só não sabiam dizer o que era.
— Bem-vindos, meus queridos. Querem comer alguma coisa? O amigo de vocês já está vindo, ele está terminando de tomar o café da manhã.
— Não muito obrigada, senhora — Magrí respondeu — Só viemos vê-lo e depois iremos para casa. Coisas da escola.
A menina não escondia o alívio de saber que Chumbinho estava bem, e que a mãe de Charles o acolheu sem desconfiar de nada.
— É bem curioso que vocês sendo alunos mais velhos tenha amizade com um menino bem mais novo — Agnes comentou sentando-se — Não é algo comum.
Crânio forçou um sorriso. Aquela conversa não o estava agradando.
— Conhecemos o Chumbinho fora do Elite. Longa história.
Agnes sorriu.
— Por favor, sentem-se.
O casal de Karas se sentaram, mas não conseguiam esconder a impaciência. Chumbinho bem que estava se empanturrando de café da manhã pela demora.
— Como a senhora está nessa manhã? — Crânio perguntou delicadamente — Sei que estamos sendo intrusos na sua casa, mas nós podemos ajudar se precisar de alguma coisa...
A expressão da mulher tornou-se triste.
— Não acho que há o que se fazer. Meu pobre Charles, meu menino! Eu não consigo nem se quer dormir, ainda mais que o pai dele não para mais em casa depois disso...
Magrí ficou curiosa pela informação, mas tentou disfarçar o melhor que pode.
— O pai? Acho que nunca o conheci ou o vi na escola...
— Ele é muito ocupado, não tem muito tempo para os filhos...
Crânio se remexeu no sofá e estava com uma expressão que parecia que tinha visto uma alma penada. Magrí o fitou pelo rabo de olho com preocupação. O garoto fez um gesto para ela continuar conversando com Agnes como se nada tivesse acontecido.
— Meu marido está fazendo tudo o que pode, mas até agora nada sobre a pessoa que fez isso com o meu filho! — Agnes suspirou.
— O detetive Andrade vai pegar o responsável, pode ter certeza, senhora — Magrí a tranquilizou.
Crânio continuava mudo estudando Agnes, mas por sorte, a mulher não notou a súbita mudança no garoto — exceto Magrí. A menina continuou:
— Alguém ameaçou vocês? Charles chegou em casa contando algo de esquisito?
— Nada, minha querida. Nada de anormal que eu possa me recordar agora.
O gênio dos Karas finalmente falou:
— A senhora conheceu a minha irmã mais nova, eu suponho? Ele já veio aqui várias vezes. Uma menina um pouco mais baixa que Magrí, cabelo vermelho, com um pouco de sardas no rosto?
Agnes franziu a testa pálida.
— Não me recordo da sua irmã, meu querido...
— Que pena... — Crânio murmurou sem expressão.
De súbito, ele segurou a mão de Magrí.
— Acho que é melhor nós irmos, não é, meu amor?
— Mas e o Chumbinho...? — a menina olhou para o namorado confusa.
— Eu não entendo porque o amigo de vocês não veio ainda — Agnes espiou o corredor que levava a sala de jantar — Será que ele foi para o jardim achando que vocês estariam lá?
Crânio levantou-se puxando Magrí.
— Sim, sim, vamos procurá-lo no jardim. Chumbinho adora pregar peças, não duvido que não seja mais uma dele. Muito obrigada, senhora.
O rapazinho apertou a mão de Agnes com delicadeza, mas Magrí viu que a expressão dele continuava carregada. O que havia de errado com Crânio?
***
Miguel e Calú não tiveram dificuldades em pular o muro do casarão e se espreitarem pelo enorme jardim, que mais parecia um labirinto. Os dois esperavam encontrar os amigos primeiro antes de se anunciarem para os donos da casa, mas não estavam tendo muita sorte.
— Não encontro nenhuma pista deles, nem nada, Miguel — Calú suspirou — Você acha mesmo que eles estão na casa?
— Não tem outro lugar, Calú. Você viu eu ligando para casa deles e a empregada dizendo que eles foram para escola. Mas a gente sabe que eles não estão no Elite. A mãe do Chumbinho disse que ele passou a noite na "casa de um amigo".
O ator dos Karas balançou a cabeça.
— Eu não entendo... Você acha que a coisa os pegou?
— Não, eu tenho certeza que não. Mas porque eles ainda estão lá?
Mal eles terminaram de conversar, passos soaram pelo jardim com Magrí e Crânio surgindo entre as folhagens. Os dois pareciam estar discutindo algo muito sério, pois Miguel ouviu Magrí dizer:
— Você tem absoluta certeza, Crânio? Meu Deus, se for verdade...
Os dois se calaram quando viram Miguel e Calú. O último se aproximou:
— Até que enfim vocês apareceram! Cadê o Chumbinho?
— Não há tempo, Calú. Chumbinho está em apuros!
As vozes de Miguel e Calú ressoaram em uníssono, enquanto Magrí olhava aflita:
— O quê?!
— Nós precisamos encontrá-lo e cair fora daqui! Agora! — disse Crânio.
Magrí se aproximou:
— Crânio acha que...
A menina não teve tempo de terminar a fala. Agnes surgiu com uma expressão de pavor no rosto em direção a Miguel e Calú. Lágrimas escorriam das belas feições, e ela segurou o braço de Miguel.
— Me ajude... Por favor, está atrás de mim, me ajude...
— Senhora, eu...
Ela saiu correndo com um grito pavoroso pelas ramagens do jardins com Miguel e Calú no encalço dela.
Crânio gritou desesperado:
— Não! Voltem aqui vocês dois! Idiotas!
Magrí acalmou o garoto.
— Crânio, vem, não há nada que possamos fazer agora...
— Mas Magrí, é uma armadilha...
A garota segurou o rosto dele com carinho.
— Nós sabemos. Mas temos que achar o Chumbinho agora e torcer para que ele esteja bem.
Crânio segurou as mãos dela com carinho.
— Você acredita em mim? — o rapazinho não escondeu a ansiedade — Na hora que ela disse que não conhecia a minha irmã, e mencionou o pai de Charles e Henrique, eu sabia que havia algo de errado. Aquele quadro no hall e aquela mulher não são a mesma pessoa!
Magrí acenou com veemência.
— Sim. Acredito sim que aquela mulher não é a verdadeira Agnes, e estranhei também aquele quadro. Achei que apenas o pintor era ruim, mas agora sabemos que não. Onde quer onde a verdadeira Agnes estiver, Chumbinho também estará com ela.
CONTINUA
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