Canção Vintage (Crânio & Magrí - Os Karas)
35 Teorema da Puberdade
Notas iniciais
O ano letivo só estava começando, mas os burburinhos nos corredores do Colégio Elite já indicavam que 1986 seria um ano letivo agitado para os alunos e a direção da escola. Alguns alunos, atarantados num canto do pátio, disparavam as últimas bombásticas notícias.
— Vocês viram o que deu no jornal da cidade? Querem fechar o Elite!
— Fechar porquê? Eu não quero ir para o Logos, já estudei lá e achei horrível!
— Não sei direito, me parece que os acionistas não estão mais se entendendo… E a escola está com dívidas. Muita gente saiu ano passado.
Uma aluna com óculos de aros grossos balançou a cabeça com leve desdém.
— Não é só por isso. Muitos pais tiraram os alunos daqui por causa daqueles casos esquisitos de sequestros e assassinatos nos últimos anos!
— Mas não foram tantos assim, foram?
— Como não? Não se lembra dos alunos sequestrados e da tal droga da obediência?
— Ah é verdade… Mas já faz tanto tempo.
A menina retomou a conversa com os dois colegas. Suspirou alto.
— Não só esse caso, mas do prof.º Elias! Não lembram dele? Ele trabalhou aqui na escola!
— Nossa, verdade! Foi tão estranho aquilo tudo…
Um dos meninos bateu na própria testa e arfou:
— Não só o prof. Elias, mas o professor de drama , esqueci o nome dele agora…
— Profº Solomon Friedman — respondeu a menina com o seu ar de superioridade.
— Isso, ele mesmo! Ele apareceu morto no camarim do teatro daqui do Elite!
— E a professora Iolanda? Esqueceram dela?
— Sem contar a filha do presidente sequestrada aqui também — um dos garotos franziu a testa — Realmente há algo de muito estranho aqui no Elite.
— Vocês acham que a escola é amaldiçoada?
A menina de óculos revirou os olhos, mas os outros colegas pareceram preocupados com a pergunta do menino. Mas ela não podia negar que havia algo mesmo de errado com o Elite com todas aquelas histórias de sequestros e assassinatos em um espaço curto de tempo. Será que a escola ia declarar falência e fechar, como diziam os jornais? Seria uma pena se o colégio fechasse… Ela gostava de estudar ali.
Crânio estava a par dos rumores, mas não teve tempo de pensar muito sobre aquilo, pois tivera uma conversa bem esquisita com a professora orientadora naquela manhã. Não sabia bem dizer o que sentia — nunca foi lá muito bom nisso, mesmo convivendo com Magrí — mas podia dizer que estava um pouco nervoso. O garoto nunca se sentiu assim com as próprias capacidades acadêmicas, porém a orientadora garantia que ele se sairia bem. Era a chance dele de terminar o ensino médio mais cedo do que todo mundo.
Contudo… Crânio suspirou. Qual era o problema? Por que aquilo o perturbava tanto?
Precisava conversar com Magrí. Só ela saberia dizer porque ele estava tão confuso e o que havia de errado — tinha sim algo de errado naquilo. Ou não?
Crânio andou distraído até a porta do ginásio da escola, imerso naqueles pensamentos. Quando chegou, porém, foi desperto por uma cena que o pegou de surpresa.
Magrí estava gritando com alguém e chorava com raiva. Ela bateu a porta do ginásio enquanto alguém vociferava para ela pelo ultraje. Antes que Crânio pudesse dizer qualquer coisa, e não ajudou que estava tão chocado pela cena, Magrí cravou os olhos nele.
— Por que você está olhando para mim desse jeito?! Eu juro que se eu voltar lá dentro eu vou...
— Magrí?! Que diabos está acontecendo?
A menina estava arfando com o rosto vermelho coberto de lágrimas. Ela não sabia se sucumbia à raiva ou a tristeza. Por fim, a tristeza venceu e ela começou a chorar copiosamente. A imagem era tão desoladora que Crânio não pode deixar de se aproximar para consolá-la. Já tinha visto a garota com raiva várias vezes, mas não naquele nível tão selvagem, não parecia com ela mesma — era como se alguém a tivesse induzido a fazer aquilo.
O rapazinho a abraçou e Magrí chorou mais ainda.
— O que aconteceu? O que foi aquilo?
Ela fungou e deixou as lágrimas caírem sem responder. Crânio ficou cada vez mais aflito.
— Magrí? Olha, você tem que me contar o que está acontecendo, eu estou...
Ela o empurrou bruscamente dizendo:
— Me deixa em paz antes que eu mate alguém.
E saiu apressada deixando um confuso namorado de boca aberta, sem nem ao menos dar-lhe tempo para dizer qualquer coisa. O comportamento dela era tão anormal que deixou Crânio muito assustado.
***
O resto do dia passou como que para um borrão para o gênio dos Karas. Magrí parecia ter desaparecido, pois não viu a namorada o resto do dia. Quando deu a hora de ir para casa, ele a procurou no meio dos alunos no portão do colégio, mas nem sinal dela.
Caminhando distraído, Crânio viu Natália indo na direção oposta onde ele estava. Sem perder tempo, o garoto correu até ela.
— Natália!
A menina se virou e estacou no lugar. Crânio acenou indicando que queria falar com ela em particular. Natália disse alguma coisa para a amiga, que permaneceu onde estava enquanto que ela caminhou para perto de Crânio. Pela expressão da moça, o rapazinho deduziu que ela já sabia o que ele ia perguntar.
— Você poderia me dizer, pelo amor de Deus, o que aconteceu com a Magrí hoje mais cedo e onde ela está?
A garota suspirou e pareceu que estava corando, o que deixou Crânio ainda mais confuso com toda aquela história.
— Olha Crânio... Eu prometi a ela que ficaria quieta e não ia te contar nada, porque ela sabia que você viria atrás de mim. Mas a verdade é que não é nada grave, você não deve se preocupar... Foi coisa de momento.
Crânio ficou indignado.
— Coisa de momento? Natália, eu e você conhecemos a Magrí tempo o suficiente para sabermos que ela não é de fazer chilique!
Natália mordeu o lábio e parecia cada vez mais nervosa e sem graça. Por que ela estava cada vez mais vermelha?
— Você não entenderia, eu acho — ela murmurou como se querendo que Crânio não ouvisse.
Por fim, ela recomeçou:
— É melhor você conversar com ela, sabe? Por causa da...
Ela parou bruscamente e ficou mais vermelha como um tomate.
— Por causa da...? — Crânio indagou — Por causa de quê?
— Hãa... Nada não, não importa. Sério, Crânio. Esquece isso, deixa a poeira abaixar e depois você conversa com ela. Por favor.
Crânio balançou a cabeça, mas acabou se resignando a ficar no escuro sobre toda aquela história. Natália parecia que não ia ceder, porém se ele a pressionasse um pouco mais... Não, a pobre garota já parecia querer sair correndo dali.
Despediu-se de Natália ainda mais preocupado do que antes. Estava claro que a menina escondia alguma coisa dele que a deixava bem sem graça. Mas o que poderia ser? Será que era algo grave? Será que Magrí estava doente, com algum problema de saúde sério? Será que alguém a machucou? Será que ele tinha feito alguma coisa que a irritou? Mas o quê? Não se lembrava de ter feito alguma coisa.
Lá no fundo ele estava um pouco chateado pelo jeito que ela o tratou, mas a preocupação com ela era muito maior, muito mais séria do que um desentendimento.
***
Em casa, o rapazinho não conseguia se concentrar nos estudos e nem nas leituras. Tentou ler um capítulo do O Médico e o Monstro, mas a mente insistia em vagar para Magrí, por mais que estivesse muito envolvido no enredo sombrio.
A mente desacelerou por alguns instantes enquanto ele relaxava no sofá da sala. Sonhos e imagens confusas do acontecimento daquela tarde ainda o perseguiam. Até que deu um pulo do sofá quando sentiu um cutucão no ombro.
— Ei dorminhoco, eu quero assistir TV!
A cabeça de Crânio se virou para a irmã parada ao lado dele com uma expressão irritada. O livro caiu no chão e o garoto sentiu os olhos lacrimejarem pelo sono interrompido.
— Não se pode nem mais dormir nessa casa — resmungou enquanto pegava o livro.
— Isso não é hora de dormir, a não ser que você esteja doente. Tá doente, maninho?
Dani nem esperou o garoto responder. Pegou o controle da TV e empurrou as pernas dele para fora do sofá para ela se sentar.
— Tem outro sofá ali do outro lado, sabia?
Dani sorriu com malícia.
— Eu sei, mas esse é o meu lugar no sofá. Ache um para você.
Crânio sabia que ela só estava fazendo aquilo para atazaná-lo (como de costume), mas estava tão absorto nos próprios pensamentos que permaneceu em silêncio. A menina percebeu que havia algo de errado, pois tirou os olhos do filme que começava e encarou o irmão, falando de forma séria:
— Tá tudo bem com você?
O rapazinho suspirou. Era improvável que a irmã soubesse mais do que Natália, porém precisava desabafar sua preocupação.
— Não sei, Magrí gritou comigo e estava histérica hoje de manhã. Eu nem disse nada...
Dani levantou a sobrancelha.
— Gritou, é? Desde quando ela dá showzinhos? — ela franziu a testa.
— Não é só isso. Falei com a Natália no final das aulas e ela parecia esconder algo de mim sobre o que ocorreu com a Magrí... Ela brigou feio com alguém. Mas por que ela não quer me contar?
Dani ficou em silêncio por alguns instantes pensando nas palavras do irmão. De repente, num estalo, ela voltou os olhos para ele de novo franzindo a testa e mordendo o lábio inferior.
— Como ela estava quando a viu? Consegue se lembrar?
— Ela estava muito nervosa, não parava de chorar. Quando fui tentar consolá-la, ela se irritou e foi embora.
Dani não respondeu de imediato. Parecia estar concentrada em alguma ideia que ocorreu-lhe naquele momento.
— Talvez seja stress… Você ficou sabendo dos rumores sobre o Elite?
— Ouvi vagamente alguns comentários. A escola vai mesmo declarar falência?
Dani balançou a cabeça com uma expressão triste.
— Ninguém sabe, está tudo uma loucura. Mas não duvido de nada. Alguns pais querem tirar os alunos de lá depois de tanta desgraça.
Crânio se revoltou. Adorava o Elite, mesmo com todos os seus problemas, e saber que a escola poderia fechar para sempre o atormentava.
— Não podem fazer isso, eles têm um contrato com o colégio que vai até o 3º ano do ensino médio.
— Eles não se importam de pagar multa, Crânio. E convenhamos, a direção da escola vacilou muito com todos esses casos de sequestro e assassinato. Não culpo alguns pais de quererem tirar os filhos de lá. Talvez seja isso que irritou a Magrí...
Crânio não tinha muita certeza. O geninho dos Karas não aceitava de jeito nenhum a ideia do Elite fechar, e sabia bem que os outros Karas também não aceitariam. Estranhou o silêncio de Miguel, o presidente do Grêmio Estudantil a respeito daquilo tudo. Por que não convocou os Karas ainda? O que ele estava esperando?
Aquela era mais uma preocupação para Crânio, além do caso da Magrí. Pensou muito a respeito e só podia concluir que ou ela estava doente, ou ela brigou feio com alguém. Prof.ª Carmen, talvez? Porém Magrí nunca brigou com nenhuma professora até onde sabia.
Deixou Dani na sala vendo TV e pegou o Médico e o Monstro para tentar finalizar o livro no jardim. Fitando a capa um pouco macabra da história, um lampejo de pensamento cruzou a mente do geninho, que o fez arregalar os olhos.
E se Magrí tivesse libertado seu pior alter ego, como o Dr. Jekyll? Talvez a pessoa que viu era o “Mr. Hyde” dela!
Tudo se encaixava perfeitamente! A rejeição a ele, a raiva, a histeria… Magrí fez alguma coisa que libertou o seu pior lado. Cabia a Crânio trazê-la de volta a si e prender o alter ego malvado dela no seu devido lugar. Para isso traçaria um plano de ação.
No jardim com um bloco de papel escreveu rapidamente:
Plano para Prender o Alter Ego Maligno da Magrí:
Conheça o inimigo — Já conheci. Ela (?) me odeia, é raivosa e grita bastante. Chora muito também. Não posso me aproximar;
Prepare uma armadilha — Err isso não vai ser fácil. Não quero machucá-la e não acho que há um soro para reverter o quadro clínico como no livro… Humm, mas talvez chocolate a deixe calma por alguns minutos?
Magrí Normal x Alter Ego — Comparar as reações com os itens anteriores. Se não funcionar…? O que eu vou fazer?
Lá no fundo da sua mente, ele achava que estava sendo em parte absurdo, mas toda a situação era absurda. Era a única coisa que poderia fazer. Situações desesperadas pedem medidas desesperadas.
Antes mesmo que se levantasse para executar o seu minuciosíssimo plano de ação, digno de um Kara, Crânio se espantou quando deu de cara com o objeto dos seus pensamentos à sua frente. O garoto já se pôs em guarda. O alvo já estava se aproximando.
O alvo, porém, estava tão belo com os cabelos ao vento pela brisa do verão, que Crânio sentiu sua determinação enfraquecer. Magrí sorria um pouco envergonhada e acanhada, parecendo hesitar se aproximar do garoto. Ela parou a uma curta distância do banco que ele estava sentado no jardim, torcendo as mãos e com a cabeça baixa.
A visão amoleceu quase que por completo o coração de Crânio. Ela parecia tão inofensiva, tão dócil… Mas não podia se enganar, podia? A qualquer momento, o Alter Ego Maligno poderia se soltar e Crânio tinha que ser forte para detê-la e prendê-la se for necessário.
— Oi querido — disse ela suavemente — Eu estou te atrapalhando?
Com o sorriso mais inocente que conseguia imergir, ele balançou a cabeça e murmurou um não. Magrí pareceu desencorajada pela distância dele, e timidamente deu mais um passo. Crânio franziu a testa, e segurou o bloco de papel e o livro com um pouco mais de força.
Quem era aquela menina? A Magrí ou o Alter Ego Maligno?
— Olha, sobre hoje de manhã… eu… bem…. preciso te contar uma coisa.
O coração do garoto se apertou. Será que ela vai admitir alguma doença crônica? Será que ela vai revelar sobre o seu “Mr. Hyde”? O que deveria fazer, pelo amor de Deus?
Ela se aproximou mais e pela distância, podia tocá-lo com suas delicadas mãos. Mas pela primeira vez em todo aquele tempo, Crânio se esquivou do carinho no cabelo, o que deixou Magrí magoada. A menina fez um beicinho, porém não culpou o garoto. O comportamento dela pela manhã foi censurável.
Crânio, com um olhar desconfiado, perguntou:
— Você… Você se lembra do que fez pela manhã?
Magrí franziu a testa.
— Sim… creio que sim. É disso que eu quero falar com você. Me perdoe por ter gritado, mas foi que…
Crânio a interrompeu:
— O que você comeu no café da manhã?
— Hã… Café e pão — Magrí fez uma carranca — Crânio, que diabos de perguntas…
— Quando foi que eu nasci?
— 15 de janeiro de 1970, mas…
— Ou ime veco. O que eu acabei de dizer?
Magrí abriu e fechou a boca tentando conter a indignação. Traduziu de forma mental a frase em TENIS-POLAR, e respondeu entre a vontade de beijar e estapear o namorado:
— Eu amo você. — ela riu — Eu também te amo, seu besta! Mas o que raios...—
Ela parou e fitou o livro e o bloco de papel que Crânio segurava. De repente, Magrí caiu na risada, mas ainda mantendo uma leve expressão de raiva. Ela pegou o livro e deu na cabeça dele.
— Seu bobo! Eu não acredito que você achou que eu tinha um "alter ego maligno"!
— Mas Magrí, todos os sintomas apontavam para isso!
A menina revirou os olhos e esfregou os têmporas. Ficou vermelha como um tomate em meio à risada.
Magrí se sentou ao lado dele no banco do jardim e tomou-lhe as mãos com um leve suspiro. Com a cabeça um pouco baixa, ela sussurrou:
— Crânio, sabe aquelas aulas de Biologia sobre anatomia do corpo humano que você reclamava que eram muito chatas?
O rapaz acenou um pouco sem graça ao se recordar das aulas com assuntos constrangedores. Magrí franziu o lábio e apertou a mão dele, continuando como se estivesse falando com uma criança:
— Então… A taxa de hormônios femininos mudam quando...
Ela suspirou e sussurrou no ouvido dele. O rosto de Crânio ficou em brasa pelo o que eu ouviu. Definitivamente há coisas na vida que não precisava saber detalhadamente. Quando Magrí o fitou novamente, ela caiu na gargalhada de novo.
— Eu esqueci completamente disso — ele murmurou se sentindo envergonhado pela ideia estúpida do "alter ego".
— Agora você sabe, meu bem — Magrí riu mais ainda — Mas eu deveria dar na sua cabeça de novo por ter pensado isso. Eu não viro um monstro, tá bom?
Crânio acenou concordando querendo que um buraco se abrisse e ele pudesse se enterrar nele. Magrí continuou como se estivesse falando do tempo:
— Até porque eu sou muito bem controlada quando estou assim, só foi hoje que aquela professora estourou minha paciência. Mas das outras vezes ninguém reparava que eu estava…
O garoto pigarreou e se remexeu no banco. Eram muitos detalhes para ele dar conta de uma coisa que para ele, sendo um garoto, era difícil de imaginar e entender. Ele ouviu a suave risada da namorada que deitou a cabeça no ombro dele.
— Ok, ok. Não vou tocar mais nesse assunto se o deixa tão desconfortável. Mas não era só por isso que eu estava fora de mim hoje…
O garoto apertou as mãos dela com carinho. A menina continuou:
— Você conhece a prof.ª nova de ginástica, né? Prof.ª Carmen é muito rígida além do aceitável..
— Sei sim, ouvi outros alunos reclamando dela. O que ela fez com você?
— Ela está pegando muito no meu pé e me pressionando bastante para eu ganhar a medalha de ouro na próxima olimpíada e sair vencedora no campeonato nacional esse ano. Ela acha que isso pode ajudar a reerguer a escola.
Crânio se revoltou esquecido do desconforto:
— Mas isso é um absurdo, Magrí! Ela não pode jogar tudo nas suas costas assim!
Ela acenou em aflição e a voz soou triste:
— Eu sei disso, por isso eu explodi. Mas há mais coisas: meus pais fazem parte do grupo de pais e responsáveis que querem tirar os filhos do Elite.
Os dois se fitaram. Crânio não escondia a indignação, enquanto que Magrí deitou a cabeça no ombro dele de novo deixando algumas lágrimas caírem. Ele a abraçou com carinho.
O casal permaneceu em silêncio. Era um começo de ano muito conturbado, e o silêncio do resto dos Karas — ou melhor, do líder — deixava a situação pior. Havia também a conversa com a orientadora naquela manhã que o deixou mais nervoso...
Não havia como negar que não era mais crianças, que passaram por perigos terríveis desde quando os Karas foram formados. E os desafios da vida pela frente? Conseguiriam superá-los? Os Karas sobreviveriam às turbulências de crescer, as diferenças entre eles, o ciúmes…?
Imerso naqueles pensamentos melancólicos, de repente, Magrí começou a rir de novo. Crânio revirou os olhos, mas deixou escapar um risinho.
— Ah meu bem, eu nunca vou esquecer disso! Depois sou eu que assisto filme demais! Deixa eu contar isso para sua irmã e para o Calú…
— Nem ouse! Por favor, Magrí, você pode rir à vontade, mas não conta para eles!
O desespero na voz de Crânio só fez Magrí rir mais ainda até às lágrimas. Em seguida, Crânio riu de novo:
— Eu sempre quis ser desde criança um excêntrico super-herói, como o cientista maluco. Acho que me impressionei demais com o livro.
— Você acha, é? — Magrí beliscou a bochecha dele — Mas não foi dessa vez, Dr. Brown! Deixe suas habilidades para pessoas realmente perigosas.
Crânio a olhou de lado e soltou:
— Como se você não fosse, né? Monstrinho!
— Ei! Monstrinho?!
Antes que Magrí o xingasse, ele saiu correndo pelo jardim com ela logo atrás, rindo feito duas crianças. No fundo, ainda guardavam aquela doçura infantil que o tempo jamais apagaria.
Fale com o autor