Canção De Sereia - HIATUS
1 Prólogo
Notas iniciais
UN MOMENT, S'IL VOUS PLAÎT = UM MOMENTO, POR FAVOR
Bonsoir Mademoiselle = Boa noite senhorita
Monsieur = Senhor
Excusez-moi Madame = Desculpe-me a Sra.
Paris, França, janeiro 1946
Pela segunda vez naquele dia, Renesmee lavava as roupas do marido. Ou melhor dizendo, do ex marido. Fazia pouco menos de 8 horas que ele saíra de casa, alegando que estava apaixonado por outra mulher e que iria viver com ela, e mesmo assim Renesmee insistia em manter restias de esperança dentro de si. Acreditava que a noite chegaria, e como forá em todas elas após o retorno de Pierre da guerra, ele iria entrar pela porta dos fundos, com a roupa cheirando conhaque e à perfume de mulher, o casaco em uma das mãos, e na outro o costumeiro cigarro. Iria sentar em sua poltrona, ligar a tv e gritar para Nessie levar uma cerveja até ele, depois – mais bêbado do que chegará em casa – iria arrastar a esposa até o quarto e usaria de seus direitos como marido, até a dor de cabeça bater, obrigando-o a virar para o lado e dormir. Renesmee não entendia porque não se incomodava com o fato da roupa de seu marido cheirar a perfume de mulher, talvez fosse pelo cheiro não ser aqueles “baratos” que os maridos de suas vizinhas costumavam voltar fedendo para casa, e que por muitas vezes ela era obrigada escutar suas vizinhas reclamarem.
“Perfume de mulher”, pensará ela com repulsa. Depois de tantas noites atendendo aos pedidos grosseiros do marido, a ex-Senhora Renesmee Carlie Noellen havia se cansado do cheiro daquelas roupas. Era a segunda vez naquele dia chuvoso de janeiro que ela lavava as poucas roupas deixadas pelo marido. Pierre chegara por volta das 6 horas da manhã em casa, estava eufórico, mas não de uma forma boa, estava nervoso. Nessie relembrava da cena que ocorrerá a poucas horas e esfregava cada vez mais forte as roupas, já sentia suas mãos doloridas, mas a raiva que estava sentindo naquele momento superava qualquer dor física.
Pierre entrara correndo em casa, todo molhado e dessa vez sem o cigarro e o casaco. Renesmee levantou do sofá onde passará a noite inteira esperando o marido chegar e correu até o quarto na procura de entender o motivo do atraso. Entretanto a direção de suas perguntas mudaram de “onde você estava”, para “o que você está fazendo?”.
- Estou te deixando. – disse Pierre com os sapatos sujos de barro e a camisa branca sobrepondoa calça. Pierre percorria o pequeno espaço do quarto, pegando seus pertences e os jogando dentro de uma pequena mala.
- Pierre, o que você está dizendo? Onde você esteve a noite toda? – dessa vez Renesmee retornou a pergunta de início, mas não obteve resposta de nenhuma que fez – PIERRE! ME RESPONDA! VOCÊ SÓ PODE ESTAR BÊBADO!
Sra.Noellen atravessou o quarto e pegou no braço frio e molhado do marido, o olhar obstinado que recebeu a fez largar o braço imediatamente. Foi inevitavel conter as lágrimas, enquanto Pierre continuava a recolher suas coisas, Nessie sentou na ponta da cama e desatou a chorar. Estava catatônica, e vasculhava em sua mente, onde havia errado tanto para a situação chegar aquele ponto. Ela era fiel, fazia tudo o que ele mandava, até havia parado de trabalhar na fábrica de tecidos após o término da guerra e o retorno dele.
- Por favor Pierre, porque você está fazendo isso? – ela suplicou pela última vez entre soluços e lágrimas salgadas;
- Por favor mulher! – gritou Pierro – Eu não estou morrendo, estou apenas te deixando. Não suporto mais essa vida medíocre. Depois da guerra as coisas só decariam, não encontrei emprego, e você não é mais a mesma, — Pierre pegou a mala, e um casaco dentro do armário , parando na frente da mulher e a olhando sem comoção nenhuma – você vive triste e cabisbaixa, cansei da mesma comida todo dia, cansei da rotina, eu cansei de você. Encontrei alguém que me satisfaz em todos os sentidos.
Inutilmente tentou bloquear a lembrança de sua mente, e lá estava ela novamente soluçando e deixando as lágrimas caírem sobre o tecido fino do vestido. Largou as roupas, a torneira jorrava água, que batia na padre escura do tanque e molhava tudo ao seu redor, Nessie sentiu as pernas fraquejaram pela primeira vez naquele dia. Sentiu o piso gelado contra suas costas e deixou-se ir para o chão. Seu mundo tinha virado de ponta cabeça, nunca pensou que passaria por aquela situação, e nunca havia precisado pensar nela – seus pensamentos transitavam entre o que sua família e sociedade iriam dizer, e o que ela iria fazer naquele momento. Voltar para casa era uma hipotese fora de cogitação, seria uma afronta para si mesma, e uma vergonha para os pais perante a sociedade. Arranjar emprego seria praticamente impossível, justo quando os homens estavam de volta da guerra, e a mão de obra deles era mais valorizada e mais bem paga que a feminina.
Estava escurecendo e Renesmee continuava sentada no chão, com o olhar fixo no nada. Não fechará a torneira, não atenderá a campainha, nem ao telefone, a casa agora cheirava a bolo de baunilha queimado. Nessie se espantou com o fato de seus pensamentos migrarem todos para seu futuro, e não para o abandono. A campainha tocou novamente, e ela sabia quem era — por ser tarde da noite, só podia ser um convite para Pierre -, pensou duas vezes se atender a porta era uma boa opção; não estava apresentavel naquele momento, mas a curiosidade para finalmente ver o convite, era maior que sua vontade de ficar sentada. Em meio a tropeços, passou a mão na roupa amassada, amarrou o cabelo, tirou as sapatilhas molhadas e colocou uma pantufa e correu até a porta.
- UN MOMENT, S'IL VOUS PLAÎT! – gritou ela atrás da porta, enquanto terminava de colocar alguns grampos em seus cabelos .
Ao abrir a porta deparou-se com um senhor de estatura mediana, olhos claros e cabelos grisalhos, puxados devidamente para trás, vestia um smoking preto e sapatos que reluziam a luz da varanda. Atrás dele tinha outro senhor, segurando um guarda-chuva acima de suas cabeças, este era alto, mas vestia-se da mesma forma. Constatou que os senhores deveriam ter em média uns 50 anos e estavam a trabalho.
- Bonsoir Mademoiselle Noellen. – cumprimentou o senhor da frente curvando-se – O senhor Pierre está em casa?
- O senhor Noellen ainda está no trabalho. – surpreendeu-se com a naturalidade que disse aquilo.
- Madame não posso voltar com o convite em mãos, — explicou o senhor com olhar de suplica – espero que não se importe de entregar ao Sr.Noellen quando ele chegar?
- Sem dúvidas. Mas do que se trata? – Renesmee pegou o convite em mãos e ficou admirada com o requinte do papel, os arabescos que rodeavam as bordas, a fita de cetim vermelha usada para manter o convite fechado, e as letras garrafais em dourado.
- Hum – os dois senhores entreolharam-se -, apenas diga ao seu marido que a cantora foi embora.
- Cantora! Então se trata de um bar? – indagou curiosa – Porque ela foi embora?
- Infelizmente, ela fugiu com um dos nossos clientes. Às 23horas um táxi estará a espera de seu marido. Agora se me permite Madame.
Renesmee sabia que aquilo era um pedido de saída, consentiu com a cabeça e os dois senhores foram embora. Ela pode sentir o nervosismo que emanava deles dois, e pode sentir também seu sangue congelar quando monsieur disse que a cantora do Plaisir Château – nome do cassino que estava escrito na capa do convite – fugiu com um dos seus clientes. Se monsieur sabia o nome e endereço de onde morava, presuma-se que Pierre era frequentador do lugar. Nessie sabia que a possibilidade de Pierre e a cantora tem fugido juntos eram grande, ou como também podia apenas ser uma coincidência. E ela estava disposta a descobri qual era.
Naquela noite Renesmee tomou um longo banho, colocou seu melhor vestido: um tubinho preto que ia até a altura dos joelhos e depois descia rodado até metade da panturrilha. Jogou uma echarpe por cima dos ombros e colocou seu melhor sapato, fez uma maquiagem leve, mas carregou no batom vermelho que constratou com seus cabelos ondulados na cor cobre. Se olhou no espelho e não reconheu a si mesma. Fazia anos que não se vestia, que não se arrumava daquela forma. Seu ex-marido não lhe dirigia um elogio sequer, fazendo-a perder o encanto por manter-se bonita.
As 23horas em ponto desceu as escadas de sua casa na direção do táxi. Um senhor baixinho e gordo a esperava do lado de fora.
- Excusez-moi Madame, mas o convite era para Sr. Pierre! – disse o motorista abrindo a porta do carro para Renesmee. Via-se na expressão de seu rosto que ele não sabia o que dizer, e o que fazer. Não estava acostumado a levar mulheres para o cassino, e muito menos mulheres desacompanhadas. Renesmee pensava que aquela situação não era apenas embaraçosa para o motorista, mas como para si mesma. Conhecia a fama do Plaisir Château, e sabia que sua clientela era completamente composta por homens. Já sentia suas mãos suarem frio por debaixo das curtas luvas preta que usava.
- Monsieur Pierre não está em casa hoje. – disse Renesmee entrando no carro – Essa noite quem irá, sou eu!
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