Canção Da Morte
21 Capítulo 21 - A Montanha dos Mortos
Aquiles sabia que precisava sair daquela situação o mais rápido possível. Suas costelas doíam e ele começava a sentir o ar sendo expulso de seus pulmões. Ele abriu seus olhos por alguns momentos e viu seus amigos. Ryu, Dante, Cleon e Ichiro. Sim, o cavaleiro de Áries, protetor da primeira das doze casas. Um guerreiro com técnicas poderosíssimas, algumas das quais o próprio Aquiles já havia visto. Então uma idéia surgiu em sua mente. Aquiles lembrou-se de quando era apenas um aspirante a cavaleiro de Athena. Nessa época Zaru já possuía uma armadura de bronze e era treinado por Ichiro. Ele lembrou-se de quando viu Ichiro modificando uma antiga técnica para treinar seu aluno. Foi naquele dia que nasceu o Cubo de Cristal. Uma jaula de onde ninguém conseguia sair e foi exatamente o que houve com Zaru. O cubo era feito puramente do cosmo do cavaleiro de ouro e obedecia as suas ordens, quando Ichiro queria aumentar o espaço interno ele só precisava pensar, funcionava do mesmo modo se ele quisesse diminuir o espaço e esmagar o que quer que estivesse dentro. Futuramente o próprio Ichiro aprimorou a técnica, sendo capaz de transportar coisas com o cubo, não importando a distância.
Mas será que ele poderia por seu plano em prática? Será que poderia livrar-se das teias de Aster e ainda prende-la em sua armadilha? Mesmo que fosse improvável, ele precisava tentar. O jovem cavaleiro percebeu que desde que estava preso Aster não tirou os olhos dele, ele sabia que não era por sua beleza exuberante. Essa técnica exigia concentração, concentração total. Sua mente agia rápido, ele sabia que o tempo não era seu aliado nessa luta. Mas como atrair a atenção da amazona para outro lugar? Ele lembrou-se dos últimos treinamentos com Maximus, treinamentos que o faziam chegar a exaustão, um treinamento que nenhum de seus colegas conhecia e que achariam desumano se ele contasse, mas ele sabia que seu mestre tinha razão. Era preciso que ele ficasse forte e que desenvolvesse uma interação maior com as correntes de Andrômeda. Elas precisavam fazer parte de seu corpo, e não apenas serem objetos controlados por suas mãos. Ele olhou para baixo e viu uma de suas correntes caída, era a oportunidade perfeita. Ele não podia deixar que aquela sensação que tanto o incomodava e tirava-o do sério atrapalhasse seu desempenho.
Sorrateiramente ele moveu suas correntes em direção a parede mais próxima, Aster estava concentrada nele e não viu o leve movimentar dos elos que nem faziam barulho quando tocavam uns nos outros. A corrente chegou até a parede e se esgueirou como uma cobra até o segundo andar, lá havia uma janela, por onde ela saiu e chegou ao terceiro andar através de outra janela. E assim foi até que chegasse ao último andar, costurando por entre as janelas, ora fora, ora dentro do templo. Aster continuava concentrada esmagando o cavaleiro que vacilou por um momento, e deixou sua corrente fraquejar, mas ela não caiu, já estava firme e bem presa no alto da torre. E então ele puxou. A corrente tencionou e criou uma resistência grande, Aquiles aumentou o cosmo e forçou mais ainda. Ele sabia que conseguia, ele já havia conseguido, era algo fácil e que seria feito com facilidade.
Do alto do segundo andar, Hyoga e Ichiro já haviam percebido a estratégia de Andrômeda, os jovens por outro lado estavam apreensivos pelo fim da luta e não olharam para outro lugar senão para o jovem Aquiles pendurado no teto. E então veio um tremor, no começo acharam que era apenas um vento forte que havia passado. Mas depois se repetiu, com ainda mais força. E então o templo inclinou. De alguma forma o templo começou a inclinar, surpreendendo a todos. Aquiles soltou um grito de dor quando o templo começou a se mover e Aster caiu de lado e escorregou para a parede. Os cavaleiros no segundo andar tiveram que se segurar para não cair, com exceção de Hyoga que parecia não se importar muito com isso.
Com Aster caída e distraída, a técnica foi desfeita e a rede de teias de aranha se rompeu e o cavaleiro caiu no chão. O suor corria por seu rosto e sua expressão denunciava a dor que ele sentia. A corrente de sua mão esquerda ainda estava voltando de sua expedição pelo templo de Jamir e a única opção era usar sua mão direita, algo que era realmente difícil para o rapaz canhoto. Ele lançou sua corrente na direção de Aster que estava se levantando, quando ela percebeu jogou-se para o lado, a corrente dobrou-se num ângulo de 90º e continuou a persegui-la dessa vez pelo outro lado, a menina correu para o outro lado e a corrente repetiu o mesmo movimento, dessa vez indo para trás da amazona depois de dobrar-se. Essa era sua oportunidade, ela correu na direção de Aquiles, mas a corrente estava lá para intercepta-la, essa era a outra que ela tinha visto na janela e que já havia retornado para seu mestre, ambas correram para o mesmo lado, o único que ainda havia em aberto, mas as correntes se uniram antes que a menina pudesse sair do quadrado formado por elas. Não, não um quadrado. Um cubo. A cada lado que se formava, uma película de cosmo preenchia o vazio entre uma corrente e outra e assim o cubo foi sendo formado. Agora já não havia o que fazer. Aster estava presa. Gradativamente os lados foram se aproximando e aprisionando ainda mais a garota.
- Desista! – disse Aquiles.
Ela sabia que não poderia lutar. Não havia como fugir. O Cubo de Andrômeda era uma técnica de captura tão poderosa quanto o seu Casulo da Aranha. Então ela relaxou seus músculos. Com o olhar cabisbaixo ela parou de lutar e se rendeu à vitória de Aquiles. Segundos depois o cavaleiro liberou-a da prisão e retraiu suas correntes. De seu ponto de observação Hyoga anunciou o fim da luta e a vitória de Aquiles.
Dante foi o único que permaneceu no segundo andar. Cleon e Ryu foram os primeiros a descer para apoiar o colega que parecia prestes a desmaiar. Kizumi ignorou todos os vivas dos cavaleiros e levou sua amiga para outra sala, onde poderia se recuperar. Ichiro deu os parabéns ao jovem e imediatamente após exigiu que Hyoga entregasse o que fora pedido.
- Aguarde mais alguns momentos. Em breve terão o que procuram. — respondeu o velho.
- Ei velhote! – gritou Dante. – Você ainda me deve respostas! O cosmo azul e o cosmo rosa simbolizam o que?
- Azul, meu jovem, – Hyoga concentrou-se e o templo voltou a sua posição natural, enquanto o corpo do homem era envolvido por uma aura azulada. – é a cor do dever. Aqueles que são fiéis a uma causa tem o cosmo azulado para demonstrar isso.
- E o rosa, — Ryu virou-se para Aquiles – é a cor do amor não é? É essa a cor que representa o cosmo dos apaixonados, estou certo? – Aquiles sorriu.
- Você se apaixonou a primeira vista pela amazona? Cara, você é louco? – perguntou Cleon.
- O que posso fazer? Ela é bonita. Muito.
- Devo concordar. A beleza é uma das qualidades da minha família. – falou Ichiro, o que provocou risadas em todos.
Hyoga e Ichiro estavam no alto do templo de Jamir. Eles estavam conversando há longos minutos e pelo teor da conversa ficariam muitos mais. As mudanças que estavam acontecendo, os desafios que apareciam, tudo era tão novo para Ichiro e tão comum para Hyoga. A primeira Guerra Santa pode ser sua última advertiu Hyoga. Se você chegar a ver duas, considere-se sortudo, muito sortudo. Sortudo, por ser um fantasma? Perguntou Ichiro. Ele havia percebido que Hyoga não sofreu com a rápida inclinação do prédio, e por instantes Ichiro viu os pés de Hyoga e eles não tocavam o chão, ele flutuava dentro daquela capa de mestre do templo.
- Sim. Mesmo em espírito podemos fazer a diferença nessa guerra. Pelo mesmo é o que esperamos.
- E então? Onde está o verdadeiro mestre? – perguntou Áries.
- Está descansando. Ele é um homem velho sabe? E pensar que eu o conheci quando era apenas um garoto. – Hyoga tirou a vestimenta de mestre e deixou a capa cair de seus ombros. Por baixo ele vestia uma calça de cor preta, botas laranja e uma camisa azul. – Ah, bem melhor. Já não aguentava usar toda essa roupa, não sei como o Kiki consegue. É muito quente sabe? Mesmo em espírito podemos conservar nossos sentidos, eu ainda sou capaz de alcançar o sexto sentido. Mas então, aquele esquentadinho... Está tudo bem com ele?
- Dante? Ah sim. Ele só é meio enérgico. Não tem muita paciência sabe?
— Não estou perguntando sobre ele. Quero saber sobre aquele meu amigo no Santuário. Nunca achei que ele chegaria tão longe. Grande Mestre, haha. Certamente não faz o estilo dele. Depois você pode levar o garoto para o Kiki, ele o mandará para sua missão. Já instruí Kizumi a acompanha-lo. Não esperem que eles retornem. Partam amanhã pela manhã. – Hyoga começou a tremeluzir e desaparecer aos poucos. Certamente partindo para outro lugar.
- Espere! Antes tenho mais uma pergunta. Sei que não é da minha conta. Mas quando restaurei a armadura de cisne, antes que Cleon a vestisse eu vi coisas. Responda-me: o que realmente houve na Casa de Libra? – Ichiro pareceu envergonhado, mas sua voz denunciava o deboche.
- O que aconteceu cavaleiro, foi um amigo salvando a vida de outro. Se não fosse por Shun, eu teria morrido com certeza. – ele virou-se para o cavaleiro e desapareceu no ar, logo após a primeira brisa.
Dante entrou pela porta com receio. Kiki era o segundo mais velho servo de Athena vivo, perdendo apenas para o Grande Mestre. O conhecimento que ele possuía era muito grande, seu poder era assustador até mesmo para o cavaleiro de Fênix. O velho estava sentado no fundo da sala, Kizumi já estava lá dentro esperando junto com seu trisavô, segundo ela essa era sua relação com o homem que era o bisavô de Ichiro, embora estes dois não fossem muito próximos. O homem olhou para Dante e sorriu.
- Pensei que nunca fosse vê-lo novamente! É bom que esteja aqui! – exclamou o velho.
- O senhor me conhece? – perguntou Fênix.
- Claro. Há tantos anos que já nem lembro.
- Vovô, esse não é quem o senhor está pensando. Escute, nós precisamos chegar ao Submundo. Quanto mais próximos de Asfódelos, melhor.
- Estou fraco minha filha. Não posso mandar os dois tão longe. Posso coloca-los no pé da montanha. É o que posso fazer.
- Ótimo então. Se não há outro jeito.
Ela parou ao lado de Dante, com uma cara de poucos amigos. O rapaz não sabia por que ela tinha tanta raiva dele, mas preferiu ignorar. Ele estava partindo em missão de resgate. Uma missão para salvar Hikaru, um dos poucos amigos que ele teve em seu tempo no Santuário. Kizumi segurou sua mão e o cavaleiro pareceu não entender.
- Precisamos chegar juntos, entende? – explicou a garota.
Dante começou a suar. Ele sentia o calor da mão de Kizumi, sentia as batidas do coração dela e ouvia sua respiração, mesmo que fosse suave. O velho olhou para eles e levantou uma das mãos.
- Preparados? – ele sorriu. – Isso vai doer. – ele olhou para Dante. – Mas se você não a trouxer de volta, garanto que vai sentir uma dor muito maior. – raios surgiram em suas mãos. – Extinção Estelar! – gritou o velho.
Dante fechou os olhos e sentiu uma forte dor percorrer seu corpo, era como se vários raios pequenos atingissem-no simultaneamente. A mão de Kizumi fechou com mais força sobre a sua e ele correspondeu apertando os dedos da amazona em sua palma. Então a dor parou e ele abriu os olhos.
O cavaleiro de Fênix viu pessoas. Milhares de pessoas em várias filas diferentes, todas caminhando. Todas indo em direção ao topo da montanha. Kizumi havia soltado sua mão e já tinha colocado a Armadura de Prata de Grou. Dante seguiu sua companheira e vestiu a Armadura de Bronze de Fênix. As pessoas continuavam sua marcha para o alto do monte. Seus rostos estavam pálidos e apáticos. Sem expressão. Pareciam hipnotizados, como se estivessem em um transe. Dante não conseguia desviar o olhar deles enquanto caminhava.
- Não se preocupe com eles, não farão nada conosco. Eles ficam apenas andando em direção ao topo. É a marcha dos mortos. Esse é o primeiro castigo pelo qual eles passam aqui embaixo. – Kizumi já estava chegando ao topo.
- Onde estamos? – perguntou Dante. – Este é o Submundo?
- Esta é a primeira parte. Um lugar totalmente desagradável. Estamos no Monte Yomotsu.
- E como acharemos Hikaru? – Dante parou e olhou para o buraco que havia no alto do monte, onde as almas dos mortos caíam na escuridão.
De repente um pequeno facho de luz apareceu na escuridão do Submundo. Centenas de metros à frente vários raios de luz voavam pelo ar. Algo que Dante conhecia bem. Relâmpagos luminosos que atingiam o inimigo tão rápido que não era possível fugir.
- Acho que você tem sua resposta. – disse Kizumi.
- Mais do que isso. Agora eu tenho esperança.
Eles deixaram os mortos para trás e correram na direção da luz.
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