Canção Da Morte

1 Capítulo 1 - Peixes, Rosas e Melodia


Como ela tinha conseguido? Karen não parava de se perguntar como sua irmã levara aquele colar e a caixa sem ser notada. Aquela era uma das muitas vezes que o orfanato levava seus internos para algum tipo de programa cultural, talvez para tentar fazê-los esquecer de como é ruim ser órfão. Em nenhuma das outras vezes Karina tinha se comportado assim. Mesmo sendo pequeno, aquele museu possuía um sistema de segurança e também homens que vigiavam todas as peças que estavam em exposição, mas eles simplesmente não a impediram de sair com aquele “pequeno presente” em suas mãos, nem se preocuparam se aquela caixa era a mesma do museu, pareciam indiferentes, atordoados, hipnotizados.

Ao chegarem ao orfanato, ela perguntou para sua irmã mais velha porque havia roubado aquelas coisas.

– Quem roubou o quê? Está louca menina? Isso sempre me pertenceu! Bem, pelo menos a caixa é minha.

– E o colar? – perguntou a irmã, interessada.

– Ele é de outra pessoa, alguém que preciso encontrar.

– Para devolvê-lo? – a jovem queria saber mais.

– Sim, minha querida para devolver ao seu legítimo dono. Mas eu não creio que possa fazer isso agora, preciso me certificar de que nossos planos serão bem sucedidos. – ela olhava pra cima enquanto falava, como se falasse com alguém maior do que ela. – Eu não tenho certeza, mas acredito que Athena se levantará em breve, não podemos permitir que ela reapareça antes de nosso imperador Hades. – Karen não entendia nada, porém podia notar que quando a irmã falava em ‘nós’ não estava se referindo as duas. – Eu preciso de alguém que saia e procure por ele, alguém que não levante suspeitas, alguém que possa cuidar de si mesmo e me manter informada da situação para que eu tome as devidas providências.

– Pode deixar irmã! Eu sempre te ajudarei no que você precisar! Mas nós não temos autorização pra sair do orfanato sozinhas, como vamos procurar essa pessoa?

– Não se preocupe, logo tudo vai mudar, nós sairemos daqui e seremos grandiosas! Ouça o que te digo, se me ajudar seu nome estará entre os principais de um novo mundo que surge. Lembre-se disso: um novo mundo está surgindo!

Um mundo novo está surgindo, sussurrava Karen enquanto dormia; agora num susto havia acordado ainda com aquelas palavras ecoando na mente. Já fazia um ano desde que ela tinha saído daquele orfanato, ela tinha completado dezesseis anos de idade e não podia ficar mais naquela instituição, crianças que não eram adotadas até os dezesseis anos deveriam encontrar seu caminho sozinhas. Felizmente a irmã não precisou passar por isso, Karen ainda se lembrava do dia em que um homem estranho veio para adotar Karina, um sujeito alto, forte, com os olhos e o cabelo prateados. Seu olhar era diferente de qualquer outro, totalmente sério, penetrante, fatal. Karen foi com ele sem nenhuma preocupação, como se o conhecesse há séculos... Talvez conhecesse.

Antes de partir sua irmã lhe pediu que cumprisse a promessa que tinha feito, pegou das mãos do homem um telefone celular e disse:

– Assim que encontrar o verdadeiro dono do colar me ligue. O número já está gravado no telefone. Não se esqueça Karen. Sua missão é muito importante.

Ela havia esquecido. Não se importava mais com nada que não fosse ela mesma, havia passado por muitos desafios e perigos neste tempo longe da irmã. Felizmente estava a salvo agora, pelo menos era o que ela pensava.

Um dia voltando do trabalho que havia conseguido num pequeno mercado das redondezas, indo para seu quarto num hotel barato que cobrava um preço bem menor que o seu salário, ela presenciou uma briga de rua entre dois rapazes, eles estavam em uma praça escura discutindo sobre alguma coisa quando um deles a viu, imediatamente ele se moveu como se fosse ao seu encontro, mas foi impedido pelo outro que o segurou pelo braço, sem delongas ele virou-se e desferiu um golpe contra o seu adversário, que desviou numa velocidade impressionante, Karen achou que havia enlouquecido, porque quando o rapaz se moveu ele parecia ter asas, ela havia visto por pelo menos um momento asas negras ao redor dele. O outro agora estava de costas para ela, que não sabia se ficava ou fugia, escolheu a primeira opção, pois se fugisse poderia ser seguida pensou ela.

– Ponha a armadura! – Gritou o jovem das asas negras.

– Não preciso dela para detê-lo, Benu! Vou vesti-la quando tiver um oponente à altura! – zombava o rapaz de cabelos azulados e sorriso debochado.

– Então você morrerá esta noite, insolente! E a deusa estará em minhas mãos! – ele olhou para Karen por um instante, depois voltou o olhar para seu oponente.

Deusa? Pensou ela, quem são essas pessoas? Que deusa é essa de que falam? Será estão lutando por minha causa?

– Nunca! – seus pensamentos foram interrompidos pela voz firme do rapaz que parecia seu protetor.

Benu investiu contra ele com força e velocidade incríveis, mas por maior que fosse a quantidade de golpes que aplicasse, nenhum surtia efeito no jovem que parecia dançar no ar para fugir das investidas de seu inimigo, que continuava a tentar feri-lo, porém só lhe provocava risos.

– Isso é tudo que você tem? Um cavaleiro de bronze tem mais poder que você!

Ao ouvir essa afronta, Benu fez algum tipo de mágica, pois algumas correntes negras apareceram ao redor daquele bravo lutador, levando-o para um chafariz que havia na praça e prendendo-o ali.

– Agora você não poderá fugir de meus golpes Peixes! Prepare-se para morrer! – Dizia ele com um ar vitorioso.

– Impossível! Nenhum daqueles que vieram antes de você tinham poder pra isso!

– Esses são novos tempos, meu caro. Os poderes que temos são os mesmos, entretanto ganhamos a liberdade para incrementar algumas coisas.

E ele partiu em direção ao garoto, agora acorrentado, ainda atônito por ser pego de surpresa, sua mão fechou-se e ele desferiu o soco. Karen fechou os olhos para não ver aquela cena, mas os abriu assim que o ouviu a risada de Peixes ecoar pelo local. Ao abrir os olhos ela não conseguia acreditar no que estava vendo. Uma barreira tinha parado o golpe de Benu, mas não uma barreira qualquer. A água que estava no chafariz saiu de lá e agora formava uma parede na frente do Peixes, ela podia ver a mão de Benu dentro daquele volume de água.

– Bom que você falou! Não pensou que era o único com truques novos, pensou?

Ele se libertou das correntes e usou a água como um escudo no seu braço direito, ele encarava seu inimigo com um ar superior, a água parecia obedecer a sua vontade. Ele, porém, pareceu mudar de ideia e devolveu-a à fonte.

– Como você fez isso? Você não tem poderes para controlar a água! – gritava seu adversário com raiva pela façanha que acabara de ver.

– Ora, o cosmo pode controlar qualquer tipo de matéria. Mas eu particularmente tenho mais afinidade com elementos relacionados com a minha constelação. Você ainda tem muito pra aprender, seu fraco!

Enquanto falava ele olhou para os pés de Benu, como se esperasse que algo surgisse dali, ao perceber o que aconteceria o sujeito pulou a três metros de altura, fugindo de um mar de pétalas de rosas que brotavam do chão abaixo de si, mas a gravidade parecia não ter efeito nele, pois ele permaneceu no alto e ao ser iluminado pela luz da lua, Karen pode admirar o uniforme que ele vestia, uma armadura de cores negra e púrpura, que refletia a luz que incidia sobre ela, de suas costas saíam duas asas imensas que lhe permitiam voar a qualquer altura que quisesse, sua cabeça estava coberta por um capacete que não permitia nem que ela visse seus olhos, mas ela sabia que ele via tudo que acontecia. Em determinado instante Benu olhou para o terraço de um dos prédios que os cercavam, parecia pensar se continuaria no combate. Decidiu fugir.

– Nós teremos nossa batalha Peixes! – dizia ele enquanto voava cada vez mais alto, até desaparecer na escuridão do céu noturno.

Ela ainda o observava quando o lutador vitorioso aproximou-se dela tão rápido quanto desviava dos golpes do seu inimigo.

– Olá Athena, desculpe por essa briga, mas estive procurando por você durante bastante tempo.

– Athena? Quem é Athena? Eu me chamo Karen.

– Por enquanto, mas se você vier comigo tudo será esclarecido, todas as respostas lhe serão dadas, sua verdadeira identidade será revelada.

Todas as respostas? Ela gostaria muito de tirar algumas de suas dúvidas, mas não podia confiar naquele estranho, mesmo que ele estivesse tentando protegê-la ela não podia arriscar, além do que havia uma coisa que ela não queria abandonar, ou melhor, alguém.

– Sinto muito, mas eu não posso ir com você eu não te conheço e não quero deixar este lugar. Vá embora!

– Por favor, nós precisamos muito da sua ajuda! Um novo mundo está surgindo e...

– O que você disse? – aquelas palavras entraram em seu subconsciente e trouxeram lembranças de tempos passados, de uma pessoa importante em sua vida, lembranças de uma promessa.

– Um novo mundo está surgindo. Você deve saber muito bem disso, você tem dons que poucos mortais possuem, ou você vai negar que viu aquelas asas nas costas de meu pequeno desafeto? Nem todos podem ver nossas armaduras. Você foi escolhida para encarnar a deusa Athena, a salvadora da terra nesta Guerra Santa.

Sua mente estava cada vez mais confusa, embora algumas coisas que ele dissesse fizessem sentido. Kida sabia que possuía alguns dons, ela não negou que tinha visto aquelas asas e a armadura. Mas aquelas palavras... Ela queria saber se aquele jovem conheceu sua irmã, queria alguns esclarecimentos sobre o que acabara de presenciar.

– Deixe-me perguntar: quem é aquele com quem você lutou?

– Bom, eu não sei o nome dele, mas pelas suas características ele era o espectro de Benu, a estrela celeste da violência. – ele explicou como se fosse a coisa mais simples do mundo.

– Como? Estrela celeste? Espectro? O que é tudo isso?

Então ele começou a explicar sobre uma guerra que existe entre dois deuses, desde muito tempo atrás, falou-lhe que esses deuses possuem servos humanos, guerreiros que os ajudam a travar as batalhas. Os cento e oito espectros das trevas e os oitenta e oito cavaleiros da justiça. Disse também que tanto Hades quanto Athena precisam de corpos humanos para trazer a Guerra Santa para esse mundo e que ela era o corpo que a deusa havia escolhido nesta geração.

Por mais incrível que fosse a história, ela acreditava nele, como se já conhecesse essa história; Karen conseguia sentir a verdade nas palavras do Peixes. (Essa era outra dúvida que ela tinha)

– Você me disse que é um desses cavaleiros de Athena, mas me responda o seu nome não é Peixes, ou é?

– Não, claro que não. Peixes é a minha constelação protetora, é o meu signo, por assim dizer. Geralmente nós somos conhecidos pela armadura que vestimos, cada uma representa uma constelação, a minha é a de Peixes. Meu nome é Azore. – ele explicou bem calmamente, com um sorriso que ele não conseguia esconder.

– E se aquele cara é tão mal, porque fugiu de umas pétalas de rosas? – ela perguntou curiosa.

– Se você soubesse o que elas podem fazer, teria medo também. Aquelas não são pétalas de rosas comuns. Elas pertencem a rosas envenenadas, muito belas, porém mortais, apenas eu sou imune a esse veneno e se eu tivesse conseguido prendê-lo, já estaria morto a esta hora, mas a hora dele chegará.

Karen caminhava para casa, depois de rejeitar o convite de Azore de ir com ele para uma espécie de Santuário. Ela não podia partir, tinha que cumprir a promessa que fez a Karina, não podia abandonar uma pessoa que entrou recentemente em sua vida, mas que era muito importante para ela.

Abel era o vizinho mais bonito do mundo, segundo Karen. O rapaz era apenas um ano mais velho que ela, era um ótimo amigo, um músico que ela adorava ouvir e alguém com quem ela queria estar na maior parte do tempo. Ao chegar à escadaria do prédio, lá estava ele sentado, esperando por ela, com sua flauta na mão, como em tantas outras noites.

– Você demorou hoje hein, tudo bem? – perguntou Abel preocupado.

– Tudo bem sim, apenas conheci um novo amigo. – respondeu.

– Hm.

Ela conhecia muito bem aquele olhar: ciúmes.

– Ora, não se preocupe bobinho. Não sabe que eu só tenho olhos para você? – disse com um risinho.

Ele não respondeu, levou a flauta à boca e começou a produzir uma melodia suave, que logo se espalhou pela noite. Karen sentou-se na escada ao seu lado e observava-o tocando sua música. Ele parecia muito confiante; sua habilidade era de um músico muito experiente, seus olhos estavam fechados demonstrando seu domínio sobre o instrumento, seus cabelos brancos davam a ele uma aparência mais madura, mais velha. Tocou durante um bom tempo e depois parou, estava na hora de ir para casa. Levantou-se para sair e Karen o acompanhou, deu-lhe um abraço e ao olhar para seu rosto recebeu algo que estava esperando há bastante tempo: um beijo.

Ela retribuiu o gesto e despediu-se subindo para seu quarto, ao chegar a janela para ver seu querido indo embora, percebeu uma figura estranha sobre o telhado de um prédio.

Era um homem forte, trajando uma vestimenta dourada. Seus cabelos avermelhados balançavam com o vento e a luz do luar parecia um holofote mirado diretamente para ele. Ele não demonstrava nenhuma emoção, seu ar era austero, sem preocupar-se com nada, porque nada pode ameaçá-lo.

Perdeu o medo daquele sujeito quando viu que Peixes se unia a ele em sua vigília noturna. Talvez fosse por isso que o tal do Benu fugiu, não poderia derrotar os dois, pensou ela. Fechou a janela, tomou um banho, comeu alguma coisa e foi dormir. Deitou-se e adormeceu, ao som de uma suave melodia e com o aroma de rosas.