Campus Esmeralda [primavera]
4 Vanila
Notas iniciais
Era dez para as nove da manhã, no café comemos torradas com suco e eu deixei Camila na escola.
Então fui ao campus e estacionei ao lado do ônibus, dessa vez ele chegou primeiro. No caminho para o prédio o zelado Ivo chamou minha atenção — dona Vânia — ele não conseguia pronunciar meu nome, era imigrante alemão, fazia vem o seu serviço e ja era um homem de idade mantendo os longos bigodes loiros de trabalhador — aquele menino está parado lá na frente outra vez.
— Sheldon — era de suspeitar, fazia uma semana que as aulas retornaram e aquele gótico ainda se recusava a entrar, mas como seu pai o registrou como interno ele não tinha como voltar. Enfim, fui novamente ao portão gradeado e dessa vez pedi para Ivo não me seguir, sai pela portinha lateral e caminhei até ficar uns dois passos dele.
— Não vai tentar me convercer hoje? — ele questionou, sua aparência era algo peculiar, pircing na boca rimel preto, cabelo espetado com as pontas tingidas de vermelho, trajes desgastados, todo em preto e vermelho e o mais curioso eu descobri na noite anterior e era isso que me fez sorrir.
— Eu não sou sua mãe para ter que cuidar de você — admito que foi um golpe baixo, ele se irritou, pegou sua mochila e já ia me dando as costas — eu andei lendo a sua ficha e descobri algo interessante.
— Que eu fui expulso por roubo?
— Não — daquilo eu já sabia, até mais do que ele poderia imaginar, o coitado foi bode-expiatório e se deixou pegar — sua mãe e seu pai são muito semelhantes. Ele me olhou integrado, procurou em minha séria expressão alguma veia cômica, mas jamais iria encontrar, antes mesmo dele questionar eu respondi e não demorou para finalmente ele entrar no campus.
— Sim, seu irmão mais novo está aqui, Sony também foi largado e odeia tanto a mãe quanto você.
Aquele dia foi carregado, no meio da tarde recebi uma ligação da escola da minha filha, ela sofreu um acidente na aula de artes e se sujou inteira, precisei deixar meu posto para resolver isso, mas ao descer as escadarias uma estranha movimentação me intrigou. No meio do pátio uma roda densa de alunos estava gritando e atirando objetos, inspirei profundamente e com exímia habilidade os atravessei e flagrei Sony e Sheldon se engalfinando como ouriços disputando um formigueiro. Ao meu lado Carlos foi o primeiro a perceber minha presença, claro que fui eu quem deixei, pois precisava de sua força para separar aquela briga, ele e Ivo puxaram os garotos cada um para um lado e com um limpar de garganta todos me viram e deixaram o patio.
— Os dois para a detenção! — e pedi a Ivo para olha-los.
Quando contei a minha filha estranhei, pois ela já sabia — Emy me mandou fotos pelo celular.
— Maldita tecnologia, no meu tempo cartas levavam uma etrnidade, mesmo com carteiros viajando de montaria — era muito gostoso fazê-la rir, Camila é minha vida e a ver toda pintada de creme me fez também rir, parecia uma coelhinha toda fofinha. Mas voltando ao Campus eu não quis a levar, eu não gistei nada dela ter fugido para aquela festa e de ter bebido, ela tem só 14 anos, mas como pude argumentar, no campus tem um garoto da mesma idade que passou em primeiro nas provas e tirava as melhores notas em materias que eu nem conseguiria começar a raciocinar.
— Senhora — eu era viúva, mas Ivo não sabia, assim que entrei na detenção quem diria, Sony e Sheldon não estavam sozinhos.
— Roger por aqui novamente — ele era homossexual e sempre parava na detenção por motivos banais.
— O que eu posso fazer diretora, sua presença é como uma droga.
— Guarde suas piadinhas para você — ele se virou para Sheldon e mandou-lhe uma sobrancelhada, mais ao fundo haviam três corriqueiris, Jethro que ainda pagava por seu ato de inveja e seus amigos Saulo, um garoto enorme para alguem de 20 anos e Dave, apesar do nome é uma garota que mais parecia um moleque do hip-hop, sempre de lenço na cabeça e camisas regatas que mostravam mais do que nosso código de vestimenta poderia permitir — então os vândalos que danificaran o carro da professora Big foram pegos.
— A culpa foi dele diretora — Dave falou — quem mexe com um, mexe com todos.
Respirei fundo e só mencionei — para começar é "ela", e se querem mesmo ficarem juntos podem aproveitar, pois vão passar muito tempo aqui. Sony fugiu do meu olhar, na verdade escondia seu olho roxo, mas eu não podia me deixar levar, teria de ficar com eles até o inicio da noite sem reclamar.
De uma forma resumida essa é minha pacata vida, mas algo de estranho naquele dia a fez mudar, tantas horas na mesma sala que Sheldon me deu um grande mal estar, por algum motivo aquele garoto esquisito me fazia pensar, e ouvindo o ronco da minha filha naquela noite eu comecei a questionar se havia sido uma boa ideia mesmo tê-lo aceitado com o seu histórico escolar.
Fale com o autor