Campus Esmeralda [primavera]
6 Jhetro
Notas iniciais
— Uhuul! — eu quase fiquei rouco quando berrei em pelos pulmões, descendo a ladeira mais íngreme, atravessando diis cruzamentos com carros freiando pertinho de mim, chacoalhando toda a bicicleta sem freios nas madeiras do pier, e por fim, voando da rampa para dentro do mar, Saulo mergulhou em seguida, a bike dele passou pela minha cabeça, mas o gordo despencou depois da rampa.
— Cara! — ele disse cuspindo água salgada — Dave tinha que ver isso.
— É... Afinal, porque ela não veio?
Já nadando até minha bicicleta o ouvi responder em voz alta — ela ainda ta na enfermaria, perdeu muito sangue no mato.
— Fracote! — eu falei mesmo e repito se quiser — vai ser difícil ganhar os jogos de verão com ela.
— Relaxa Jhetro, ela sai amanhã — a gente já estava na areia.
— Amanhã é segunda, não dá para treinar dia de semana seu idiota!
— A diretora ainda não te liberou dos castigo?
— Não.
— Bem feito — eu nem acreditei quando ele disse isso.
— Porra mano, achei que você estava do meu lado.
— Eu estava até você chamar o Carlos de negro — sério, ele dizia isso sem nem me olhar na cara, estavamos na areia, sentados e ele já mandava um cocô gelado goela abaixo, eu nem consegui começar o meu.
— Porquê? Ele se acha o centro do universo e tem um bando de retardados para inflar o ego dele.
— Isso não justifica seu preconceito — eu nunca vi ele daquele jeito, e é claro que eu fiquei completamente indignado.
— Preconceito? Que preconceito? — juro eu não estava mesmo entendendo e me senti um merda quando ele respondeu.
— Minha mãe é negra, logo eu sou mestiço, e o jeito com que você chamou o cara ficou claro que isso te incomodava — ele é zagueiro, estava lá quando discuti com o bolsista.
— Eu ainda não consigo entender, porque chamar alguém pela cor da pele é ser preconceituoso? — o jeito com que ele me olhou foi o pior.
— Sério? — ele jogou o cocô no mar.
— O que?
— Essa pergunta é seria mesmo? Você realmente não sabe? — eu o respondi balançando a cabeça e ele riu — cara isso é um alívio, tudo o que você precisa fazer e falar isso para a diretora e ela vai te tirar do castigo.
— Sério? — tá, quando vi que havia imitado ele nós rimos muito. Na boa, mesmo tendo feito o que ele disse e ouvido o maior sermão da minha vida eu não consigo aceitar essa ideia, como é que as pessoas se ofendem tão facilmente?
Na segunda Dave ainda estava de cama e eu fui vê-la, ela era branca, mas estava bem mais que o normal, tomando soro na veia e rindo ao me ver todo sem jeito.
— Soube que pediu desculpas lá com o Dreads.
— Nem me lembre, a treinadora fez disso um espetáculo, colocou a gente no meio de campo — eu olhei de relance o prontuário, acho que é esse o nome que dão aquela prancheta que explica a doença do doente, mas não entendi nada — vem cá, você vai ficar quanto tempo mais nisso daí?
— A doutora disse que hoje eu já posso ir para casa, foi engraçado ver meus pais preocupados comigo, acho que isso serviu de algo — ela estava diferente, eu não sei dizer o que, mas havia algo estranho nela.
— Você ainda não me disse o que aconteceu.
— E vai continuar assim — patada maldita, lógico que ela riu em seguida e tratou de me contar, mas admito que merecia essa para aprender a não ficar me intrometendo em assuntos dos outros — as putas do dormitório pegaram minhas roupas o jogaram pela janela, daí eu sai pelada pra pegar e bum! Um balde de água caiu perto de mim, eu, eu... Eu não me lembro bem o que aconteceu depois.
Eu fiquei assustado, parecia que estava tudo bem até aquele momento, pareceu que uma forte dor de cabeça apertou ela bem na hora do balde e depois de falar ela deitou, eu tive de sair depois, porque o sinal bateu e o que mais me intrigou veio depois, logo do lado de fora no corredor. Sheldon o cara que entrou atrasad era o único que vinha pelo corredor, todo de preto o desgraçado, eu até caçoei — ei, você não sente calor?
O filhinho de papai riu de mim e me ignorou, eu tentei passar-lhe o pé para tropeçar, mas o maldito se equilibrou numa só perna como se nada tivesse acontecido.
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