Campador
1 One-Shot - Campador
Notas iniciais
– Campador –
Por: Inori Dragneel
A jovem mulher que rouba o pobre órgão pulsante do nobre campador e nem faz questão de entregar o seu em troca.
Toda noite, depois de me abster da luxúria, eu passava andante pela mesma rua mal iluminada.
Ah, a doce bela.
Encostada no peitoril esperando a brisa fresca passear. Em meados da madrugada, eu encontrava os seus balançantes fios dourados encantando o luar. Aos meus fios ruivos, nunca chegariam perto de tamanha formosura e pureza. Deixei-a para trás rapidamente.
Queria eu, poder acariciá-los e beijá-los durante o resto de minha vida.
Ajeito minha gravata esfarrapada, engolindo a seco meu desejo de ir até ela. De repente, sinto seus olhos pesarem sobre mim. Ouso o barulho de um tímido riso. Corei dos pés a cabeça. Como uma mulher poderia fazer isso comigo? Sim, ela conseguiu captar minha vergonha de tal forma que me assustou. Movido pela coragem e pela instigação da curiosidade, volto uns dez passos. Sento em um banco em frente à sua janela. De modo despojado, avanço com um sorriso galante.
-Esse tipo de conquista não me convém, apenas me divertem. Creio que esteja perdendo seu tempo aí.
Mais uma característica lhe era atribuída: a sagacidade.
-Certamente já deve ter me visto por essas bandas várias e várias vezes.
-Sim, todas as madrugadas. No mesmo horário, da mesma direção. Com os mesmo estilos de roupas. Realmente, você deve amar uma noitada. – ela observou.
-Então quer dizer que fica a minha espera, debruçada na janela?- perguntei.
-Em nenhum momento lembro-me de ter dito isso, senhor. – retrucou um pouco raivosa. Contorno a situação envolvendo-a em outro assunto.
-Senhor? – balanço a cabeça em negação – Possuímos quase a mesma idade. Não precisamos tratar-nos de tal forma. Chame-me de Natsu.
-Não acho que você tenha olhos tão afiados assim, Natsu. – ela arqueou a sobrancelha, duvidosa.
-Bem, sua beleza deixa transparecer a verdade. Apenas isso. – dei de ombros como se fosse nada. As bochechas dela rosearam rapidamente, gerando uma pequena combustão. Em seguida, pude escutar um “hum” bastante discreto.
-Então, não vai me dizer seu nome?
-Lucy. Lucy Hartfilia.
Parei e pensei um pouco.
-Um belo nome, afinal. Ficariam perfeitos em um par de alianças. – afirmei risonho.
-Deixe de bobagens. – ela abanou as mãos em descaso.
-E se não fosse bobagem? E se eu lhe pedisse agora mesmo em casamento? O que faria?
-Recusaria, ora essa. Por que aceitaria um pedido desses de um estranho? Só pode ser maluco. Nem mesmo sei de onde você é.
-Meu nome completo é Natsu Dragneel. Nasci oito de janeiro de mil novecentos e noventa e três. Sou daqui mesmo de Minas Gerais. Curso engenharia mecatrônica. Solteiro e interessado em você.
-Só pode estar fazendo hora com a minha cara. – enfureceu-se.
-Sim, você esta certa. Estou fazendo hora com você. Não no que eu disse agora, mas na parte de casar. – concordei – Porém, muitas caem nessa minha conversa e acham que encontraram o amor de sua vida. Às vezes é angustiante.
-Mas por que faz isso a elas?
-Por quê? Porque eu sou um campador. Sou um incansável homem em busca de aventuras amorosas. Apenas isso.
-Que patético! E essas “aventuras amorosas” têm como objetivo arruinar o amor dessas pobres mulheres? Só a pena me resta. – ela abanou as mãos mostrando-me um olhar cortante de repulsa.
-Você pode estar adquirindo os piores adjetivos de mim. Mas veja só, faço isso para encontrar meu amor verdadeiro. Cansei de esperar. Resolvi tomar alguma providência. Se o amor não viesse até mim eu irei até ele.
Lucy riu em deboche. Porém, eu permaneci igual. Sério, sem resquícios de brincadeira. O que eu dizia era mais pura verdade. Eu estava tão machucado quanto às garotas com quem eu ficava. É tão difícil assim?
Eu só quero um amor.
-Não sente nada ao iludir essas mulheres?
-Sinto. Sinto tanto, que nem imagina. Mas sabe de uma coisa, a maioria delas me procura. Em busca de carinho, respeito, conforto. Por causa de violências que sofriam. O total descaso, abandono. Elas se sentem vazias, entende?
-Talvez eu não entenda como elas se sentem. Já fui casada e fui muito feliz ao lado dele.
-Casada?! Tão jovem? Que desperdício. – essa havia me pegado de surpresa. Droga.
-Como disse, já fui. – ela se entristeceu – Ele faleceu há três anos. O sentimento de vazio, abandono... eu os compreendo muito bem. O mau presságio o levou muito prematuramente de mim. Os sonhos foram despedaçados. Mas não cai em desespero como elas a procura em conforto no sexo, bebidas ou algo parecido.
-E a violência? Já pensou sobre isso? Elas são maltratadas. Não as culpo de suas atitudes.
Acabei entrando em um assunto muito relativo. Nada a ver do que havia pensado. Como vou conquistar uma mulher desse jeito? Céus! Estou tão enferrujado na conquista assim?
-Ok, ok. Não conheço a situação delas, devem ter sofrido muito. Mas não pense que cai nesses seus argumentos de distribuição do amor e mais. Tem outras formas delas tratarem desse assunto, a justiça como exemplo.
-Vamos para outro assunto, por favor. – supliquei.
-Então vamos direto ao ponto. Não estou a fim de você e desista.
-A palavra desista não existe para mim.
-Pois trate de adicioná-la em sua mente e aceite. Não caio na sua, galanteador. – ela concluiu.
Com o clima mais agradável, investi mais fundo.
-Por isso me interessei por você, Lucy. Você é estranha. Sempre que passo por esta rua, está tão distante. Os pensamentos longes, com a visão perdida. O que você tanto pensa?
-No meu amor perdido.
-Quer que eu o encontre para você? Olha, não o perdemos à toa. Talvez, sirva para pensarmos que seja para que outra pessoa o encontre e participe de sua vida.
-É fácil dizer sem entender. Não sinto mais capacidade de amar.
-Não diga isso, Lucy. O amor é sempre uma renovação, por mais eterno que seja. A cada segundo ele precisa ser vivenciado mais, mais e mais. Sem pudor algum. Uma pessoa sem capacidade de amar é como se ela estivesse morta.
-Você diz como se me conhecesse tão bem.
-Posso não conhecer, mas quero. Não se apague assim. Você não pode querer meu amor agora, entretanto, um dia vai querer. Prepare-se, eu não vou lhe largar tão cedo.
Ela soltou uma gargalhada alta e extravagante, podendo acordar os vizinhos mais distantes.
-Foi bom lhe conhecer, Natsu. – ela disse, desencostando do peitoril e fechando a janela.
E foi assim. Lucy, simplesmente, me deixou ao relento. Abri um sorriso por dois motivos, porque sabia que ela estaria a sua janela na próxima noite.
Abri um sorriso, porque sabia que em um futuro próximo ela não ficaria encostada na janela a espera de uma brisa fresca da madrugada e, sim, ansiando a minha chegada.
Orgulhoso como sou, fui andando sob a luz do luar. Vagando pelo meu caminho de volta para casa. Chamem-me de ingênuo por ter me apaixonado apenas de vista e estar amando por uma pequena conversa.
Achei o amor.
Lucy, a ladra.
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