Camp Semitrouxa
14 Explosão Causa Intriga [Remake 2018]
Os raios de sol atravessaram a janela do chalé 11.
A luz, em alguns tons de branco e dourado, penetrou com força em cada vértice da cabana, preenchendo as brechas que a escuridão outrora havia tomado. Em meio à ela, numa cama gasta, uma campista foi atingida.
Se mexendo de um lado ao outro, balançou o móvel inteiro até se dar conta que era dia. Abriu os olhos devagar pra ter certeza que os mesmos não seriam queimados, e com o pesar do sono sussurrou:
— Eu mereço.
Victória Lovegood – ou Vic, como é conhecida – é líder do chalé 11.
Nestes pelo menos 10 anos de acampamento, – se me permite dizer, anos cansativos – havia adotado uma rotina. Sempre a esta hora do exato amanhecer, por volta das cinco da manhã, acordava para um banho quentinho. Tentava fazer o máximo de silêncio pra não acordar os irmãos (a não ser que estivesse estressada o suficiente pra fazer questão de acordar todos).
Pulou da cama. Era difícil não o fazer sem tropeçar em alguma cria de Hermes, eles surgiam como coelhos, e em consequência ela meio que se sentia na obrigação de cuidar de todos eles. Mas justo por ser filha dele, manipulava seus pés com tanta destreza como uma bailarina, era fácil passar por essa multidão.
Ela começou a caminhar em direção ao banheiro até sentir um odor muito forte. Olhou pro lado e observou uma de suas irmãs encolhidas na manta de frio na parte superior do beliche.
— Caralho Isabella, você comeu porcaria ontem a noite ou você morreu? – falou tapando o nariz, e enfim seguiu.
O barulho de água escorrendo pela pia era notório do lado de dentro. Parou em frente a porta e deu duas batidinhas leves pra não assustar ninguém.
— Alô, alô? – perguntou.
— Oi meu amore. – alguém respondeu.
Ter uma namorada que se comunica por memes é essencial.
Mands abriu a porta com a cara toda suja de pasta e tentou um sorriso. As filhas de Apolo costumam resplandecer no brilho matineiro, mas andar com uma lâmpada ambulante não era de todo ruim.
— O quê achou da noite? – perguntou Vic.
Mands cospiu a pasta na pia, e pôs-se a enxaguar a boca para responder.
— Foi ótima. – disse agarrando o pescoço de sua parceira com delicadeza enquanto entrelaçava os dedos por seus cachos – Todas elas são quando você tá comigo, nem sei porque ainda pergunta. – puxou para um beijo e Vic se afastou.
— Direitos iguais, não aceito um beijo sem antes eu escovar os dentes também, já não basta a Isabella de podre.
— Adicionar nota mental de não deixar ela comer feijoada às sextas a noite. – e riu.
A líder do chalé fez todas as necessidades enquanto Mands dava licença. Até a hora do banho.
As duas se puseram em baixo do chuveiro enquanto a água quente corria por ambos os corpos, traçando detalhes que só elas conheciam e desfrutavam. O primeiro beijo do dia era importante, era suave, sem pressas, sem interrupções, MUITO MOLHADO rs, e um dos mais atiçantes. Mas como elas não estavam a fim de acordar todo mundo logo agora se conteram um pouco.
— Se eu deixasse você continuava sem vergonha na cara nenhuma. – falou Amanda.
— Eu? Me respeita garota que eu- é verdade.
— Mas agora eu preciso ir. – pronunciou entre risos segurando o rosto da outra – Vou voltar pro chalé e cumprir umas tarefas. Obrigada por hoje a noite, sério, eu precisava disso.
— Aberto pra você na hora que quiser, o chalé é claro.
As duas começaram a dar risada e a filha do deus do sol ficou um pouco vermelha.
— Você não existe. E mais uma coisinha
— O quê?
E foram interrompidas por uma explosão ao longe.
—A-ah mas o quê?!
Elas se vestiram e correram até a janela, tentando escutar o máximo possível.
— Jack seu canalha! – alguém berrou – Já disse que odeio quando você faz isso!!
Vic rapidamente agarrou sua adaga que ficava por baixo do travesseiro e a colocou na bainha.
— Sempre causando confusões. – diz desapontada – Tenho que resolver tudo. O que você aprontou dessa vez?
Sua namorada se despediu mais uma vez e foi para o chalé 7, Lovegood foi até o local da confusão. Era estranho tantas pessoas estarem acordados àquela hora, mas isso foi o mínimo até avistar a fumaça saindo da entrada da cabana de Hefesto.
— VOCÊ SABE O QUANTO DEMOROU PRA CONSTRUIR ESSA COISA? CLARAMENTE NÃO, NÉ? – gritou André, um dos desenvolvedores.
— Realmente não, e nem me interessa muito já que pra mim não vai servir de nada. – gira uma de suas facas pelos dedos – Como irei adivinhar pra onde meus brinquedos vão? Eles tem quase vida própria! É um charme, digamos.
Seus olhos, numa mistura de diversão e desafio, quase como os das próprias crias de Hermes, olhavam sem medo para o filho de Hefesto. Mas é aí onde você se engana. Jack não tem ligação com o deus mensageiro. Em sua realidade, era filho de...
— Quione. – intrometeu-se Victória – Pelas profundezas do Tártaro, você já começou cedo hoje?
O olhar dele de retorno foi de culpa instantânea. Não demorou muitos segundos pra ele voltasse a estreitar as sombrancelhas e continuasse a discutir.
— Eu não comecei nada, só estava passeando!
— Você quer que eu acredite que você não mirou na minha guitarra? Sabe o que isso faria? Ele teria vários efeitos e animações de som e neon! Você estragou a minha oportunidade da vida de arrasar no concerto de primavera!
— Ah, – respondeu com indiferença – o que você vai fazer? Jogar uma engrenagem em mim?
André tirou um pequeno cabo do bolso da calça, quando clicou no botão do centro, ele se expandiu e virou um bastão, com outro clique, duas pontas de bronze celestial surgiram, uma em cada lado, uma lança dupla decorada com símbolos gregos, suficientemente grande para derrubar um hipopótamo sem muitas dificuldades.
— Um pouco mais que isso, filho da deusa gelada.
Sem levar desaforo pra casa, o menino semideus bufou de ódio e seus olhos ficaram azuis tão claros que quase se tornaram totalmente brancos. Uma rajada de vento frio soprou com mais força.
A chaminé do chalé 9 ferveu.
Neste momento Vic interviu.
— VOCÊS DOIS! – gritou, atacando com a adaga entre eles com força suficiente pra rasgar o tempo-espaço — PAREM JÁ COM ISSO!
Os extremos se acalmaram um pouco.
— Ele atirou uma faca no meu troféu da música, e simplismente explodiu! Eu passei dois dias construindo isso! Você tem ideia de como é difícil programar um instrumento pra atirar chuvas de papéis em formato de corações e bolhas ao mesmo tempo que ele toca um solo de Lynyrd Skynyrd?
— Eu não fiz nada! O som dessa coisa estava irritando as vibrações da minhas lâminas finas, precisas e polidas! Elas foram certeiras, o que tenho a ver? – respondeu incrédulo – Aliás, você usa sua adaga nos dedos muito bem. – completou com admiração.
— Bom Jack, eu sei muito bem como usar meus dedos. E sobre isso André, eu vou falar com Quiron, Jack tem que ser castigado.
— E fica por isso mesmo? Só um castigo? E minha guitarra? Eu quero processá-lo em nome dos deuses!
— Ai, por todas as mais sagradas criaturas! – exclamou Lovegood – Eu não sei! Você quer que eu faça o quê? Que eu construa a droga de uma guitarra nova e torta pra você, ou que coloque o garoto pra trabalhar aqui e explodir o resto do chalé? Se eu fosse você, e se eu me irritar eu realmente não gostaria de ser, começava logo a construir outra guitarra ou ter outros planos. O festival de primavera é logo aí, e você precisa de algo pra fazer o show por você, né? Caso contrário não estaria tentando construir um milagre acústico. Vamos Jack. – puxou pelo braço do menino. – Precisamos conversar com um centauro.
O dia só tinha começado.
• • •
Mands caminhava ao chalé 7 contornando por trás.
Não havia uma sensação tão maravilhosa quanto a de ser revigorada pelos raios da manhã após uma noite cansativa com sua namorada, se é que me entendem.
Elas costumavam fazer isso às vezes, apesar de nem todos concordarem com a ideia de semideuses dormindo em chalés alheios. Mas se não fossem assim, ela fariam o quê? Uma noite no riacho?!
"Um, boa ideia, adicionar nas notas mentais".
Estando muito perto da confusão causada pelo filho de Quione, ouviu os três discutindo assim que Vic chegou para apartar a situação. Ela tinha criado um certo vínculo com o menino devido o mesmo ter passado muito tempo no seu chalé quando ainda era indeterminado. Ele nunca teve uma personalidade muito estável, ainda mais quando passou a viver sozinho na cabana 23. Mas eram coisas a se superar, ela tinha que aprender a dividir Vic com o restante do acampamento inteiro, uma vez que era o braço direito do diretor.
Hoje em especial, devido a esta situação inicial, ela estava tão aérea que mal lembrou que era seu aniversário.
Mands entrou pelos fundos do chalé com cuidado, mas não tinha muito o que temer. Desde alguns verões suas irmãs foram desaparecendo, indo embora, aderindo a vida de mortais, encontrando novos caminhos. Isso não a surpreendia. Apenas vínculos verdadeiros seguravam as coisas no acampamento, era muito fácil se desprender de uma vida de responsabilidades. O bom é saber que as melhores ficavam.
Naiara, sua irmã mais nova, penteava seus cabelos enquanto decidia que roupa iria vestir hoje.
— Graças aos deuses você chegou. Acha que fico melhor com um uniforme comum do Camp, ou com a manga caidinha?
— Céus! Você fica bonita de qualquer jeito garota, para e vai fazer alguma coisa de útil.
— Adoro a maneira que você me estimula. – riu e decidiu enfim a comum. – Como foi a noite?
Mands se jogou na primeira cama que viu.
— Maravilhosa, ela nunca nega fogo. – suspirou.
— O que combina exatamente contigo, você é o próprio Kilauea.
— E eu te dei liberdade pra falar assim comigo? – joga um travesseiro na cara dela. – Você tem que me ajudar com o presente dela.
Naiara calou um pouco e encarou a irmã.
— ZEUS! Hoje é aniversário dela né? Você não parava de falar disso. O que você vai dar pra ela?
— Supresinha. – ela riu. – Mas temos que dar uma escapadinha pra cidade.
— Oi?! Sem essa. – negou com a cabeça – Eu marquei de treinar hoje com a Gabriela.
— Ai me poupe. Você treina sempre, sem contar que ela parece ter um bom gosto pra compras, podemos levar ela.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Está insinuando que eu não tenho? Porque se for isso...
Mands pigarreou.
— "Acha melhor eu usar uma blusa comum ou caidinha", então né.
Ela passou algum tempo refletindo.
— Tá, mas se a gente for fazer mesmo isso, como que vai ser? Você já pensou?
— Você acha que eu não pensaria?! Se achou tá certa, não sei.
— Nós claramente precisamos de ajuda.
— Você acha?
De súbito, a porta começou a soar batidas.
— Naiara? – Gabs falou.
— Bom, nossa ajuda chegou.
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