Camp Half Blood
13 Capítulo 13
Notas iniciais
A multidão enlouquecida gritava, pedindo por sangue. Higor se posicionou num lado da arena e Rebeca no lado oposto. Eles se encararam, e havia uma certa tristeza em seus olhares, misturada a resignação, raiva e medo. Higor levantou a espada e tentou acertá-la em Rebeca, que desviou e tentou um ataque lateral, sendo logo repelida. Ele atacou-a por cima, e ela se jogou no chão, rolando para longe. Era claramente percebível que ele era mais veloz que sua oponente, e ela sabia disso. De repente, um leve tremor fez sacudir um pouco a terra, e três sulcos se abriram no chão, se pondo no caminho de Higor e o atacando, enquanto ele revidave ferozmente, e Rebeca levantava do chão, sacando a espada.
- Ele parece lutar com garra. E tem mais velocidade e força que Rebeca, mas em compensação, ela é filha de Hades e tem um poder muito grande. — Ingrid sussurrou, concentrada na luta.
- O que o faz lutar com tanta garra é o fato de que ele não luta apenas para salvar a própria pele, e sim para voltar para o Acampamento e reencontrar a Ana. — Comentei, sem tirar os olhos da arena. — Ele vai fazer de tudo para cumprir seu objetivo, não importa o que tenha de fazer.
- Nesse caso, ele vai matar a Rebeca na primeira oportunidade. — Ingrid completou, com uma expressão sombria no rosto.
Meu coração apertou. Não era justo que algum dos dois morresse. Não era justo que o sangue de nenhum semideus, humano ou monstro se derramasse naquela arena apenas para que um público fantasma se divertisse vendo assassinatos desnecessários. Eu precisava fazer alguma coisa, então olhei de canto de olho para nossos captores. Eram três ciclopes, e nós estávamos num grupo de cinco(ainda que algemados e imobilizados). Nesse momento, Rebeca fez um corte na bochecha de Higor e levou um chute, caindo para trás. Uma raiva imensa se apossou de mim, e eu tive uma reação instintiva. Olhei para minhas mãos, algemadas, e para a corrente com a qual fui arrastada da minha cela até ali. Uma das pontas estava presa às algemas, e a outra estava solta, arrastando no chão. Segurei a corrente com uma das mãos, e usando-a como chicote, acertei o olho do ciclope mais próximo de mim, que gritou de dor, levando a mão ao olho, e o chutei na barriga, derrubando-o para trás e o deixando inconsciente. Um outro ciclope me acertou no rosto com um soco, e eu caí sentindo o gosto de sangue na boca. Ele me puxou pelo cabelo e me suspendeu, fazendo-me sentir uma dor lancinante. Fiz um enorme esforço para não chorar, e o ciclope ria da minha cara de dor. De repente, ele me soltou, com um grito, e desmaiou, Atrás dele, Ingrid estava com as mãos estendidas e havia acabado de dar-lhe uma descarga elétrica.
Ainda faltava um ciclope para nós. Lá fora, Higor fazia uma sequência de ataques(um pouco apelativos demais) para cima de Rebeca, que defendia o melhor possível, mas estava quase cedendo, e seria o seu fim. O ciclope veio andando em nossa direção, e eu olhei para Joy, Raul e Carlos. Se nos pegassem, iriam achar que eles também estavam envolvidos na rebelião, e iriam sofrer as consequências do nosso ato impensado. Eles estavam em choque e sem nenhuma reação. Rezei mentalmente ao meu pai para que protegesse-os,pois eu havia feito o meu melhor. Acorrentada daquele jeito era impossível alcançar minha lanterna-machado, e o ciclope tinha uma faca na mão. Quando ele desferiu um golpe no meu ombro, fechei os olhos e esperei pela dor. Curiosamente, não senti nada e quando abri os olhos, não havia sofrido nada, pois a faca ricocheteou em meu manto. Claro! Como eu pude esquecer? Eu ainda vestia o manto da pele do Leão de Nemeia, que provavelmente ainda era indestrutível. Urrando de raiva, o ciclope se voltou para Ingrid, e ao levantar a mão, foi atingido por uma flecha nas costas. Gritando de dor, ele se virou, e lá estavam Gigi, Roniara e Ana Paula, que havia disparado a flecha, e já estava com mais uma engatilhada no arco. Gigi fez um gesto com a mão, e videiras se enrolaram ao redor do monstro, exalando um cheiro forte de vinho do porto, que fez o monstro ficar confuso e cantarolar coisas sem muito sentido(exatamente como a Ingrid depois de duas latas de coca-cola). Roniara levantou a lança e a enfiou na barriga dele, que gritou, sendo silenciado pela Ana, com uma flecha na garganta. Ele tombou, ainda sangrando, e começou a se desfazer em areia.
Arfando, elas se aproximaram. Roniara me mandou esticar as mãos e quebrou minha corrente com a lança. Alonguei os braços, contente por poder movê-los decentemente, enquanto ela partia as correntes do resto do grupo.
- Mas que diabos vocês estão fazendo aqui? — Ingrid perguntou.
- Longa história, tia Ingrid. — Gigi respondeu.
- Vocês contam depois. — Ingrid falou, desesperada, e virou-se para Ana Paula. — Ana, o Higor está lutando com a Rebeca lá na arena! Pelo amor dos deuses, vai tirar ele de lá!
- Como é que é? Por que eles estão lutando? — Ana parecia não entender.
- Só tira eles de lá, AGORA! – Ela gritou, e Ana disparou na direção da arena, junto com a Roniara. Ouvimos um barulho atrás de nós e nos viramos. A mesma Amazona de alguns minutos antes estava de volta, dessa vez com mais duas, uma loira enorme e uma ruiva igualmente enorme. As três tinham a mesma cara de raiva e ódio, e estavam de espada em punho. Pus a mão no bolso de trás e alcancei minha lanterna.
- Joy, me ajuda a ir pegar as mochilas, elas estão num galpão perto dos calabouços, lá embaixo. – Falei sem tirar os olhos das Amazonas. – Ingrid, segure as três espiãs demais aqui, pode ser? Voltamos logo.
- Vocês não vão a lugar algum. – A morena que parecia ser a líder falou, com uma voz ameaçadora.
- Joy, prepare-se para correr. – Falei, ignorando a Amazona. Fechei os olhos e tentei me concentrar. Imaginei um círculo de fogo ao redor delas, prendendo-as. À medida que minha concentração aumentava, ouvi o crepitar do fogo. Quando abri meus olhos, vi que o círculo havia funcionado, embora o fogo chegasse apenas até a altura dos joelhos das guerreiras, que praguejavam. Gritei para Joy, e nós duas corremos. Descemos algumas escadas, tomando o cuidado de nos escondermos dos ciclopes que estavam de guarda, passando pelos corredores. Quando chegamos ao corredor dos galpões, diminuímos o passo, para poder esquadrinhar melhor a área. Em muitos daqueles galpões, estavam monstros aprisionados para serem jogados na arena, e alguns gritavam, outros choramingavam, mas a maioria apena nos abservava pelas brechas da pequena janelinha que havia nas portas. Chegando ao galpão de armas, peguei minha mochila laranja e a pus nas costas. Eu estava quase saindo(e deixando o trabalho pesado para a Joy) quando lembrei-me de uma coisa. Parei na porta e disse:
- Joy, siga de volta para lá, eu vou pegar uma coisa e já vou.
- Eu vou com você, Mary.
- Não, eu preciso pegar uma coisinha só e já vou. Ingrid ficou sozinha com as Amazonas, ela precisa de você, vá pra lá!
- Ok, mas trate de vir logo! – Ela falou e disparou pelo corredor, voltando para a arena. Ajeitei minha mochila nas costas e ativei minha lanterna, que logo se transformou em um machado. Continuei seguindo o corredor, até chegar ao último galpão, onde eu havia ficado presa. A grande porta de ferro estava fechada, e eu derreti a fechadura e a arrebentei. Lá dentro, o dragão parecia dormir, e quando entrei ele abriu os grandes olhos amarelo-dourados para me encarar. Respirei fundo e me aproximei devagar, sem fazer movimentos bruscos. Ele olhava fixamente para meu machado, e parecia cauteloso.
- Eu vim te libertar. Mas só se você prometer que não vai devorar a mim nem aos meus amigos. Entende o que eu falo? – O dragão revirou os olhos, como se dissesse “acha que sou idiota?” e se pôs de pé. Ele era enorme, e eu ainda estava receosa quanto a libertá-lo, mas não podia voltar atrás agora, então engoli meu medinho, me aproximei dele e arrebentei suas correntes. Ele se sacudiu e se esticou, como um gato preguiçoso, e começou a bater as asas, esticando-as. Depois desse alongamento, ele baixou o pescoço para que eu subisse no seu torso.
Quando me acomodei, ele correu, veloz como um raio, e arrebentou a parede, saindo no corredor com um estrondo. Me segurei firmemente, enquanto ele corria, destruindo os ciclopes que estavam de guarda. No corredor perto da arena, ouvi o barulho de metal contra metal e lembrei do resto do grupo. Dali para a frente, o corredor era muito estreito para que o dragão continuasse correndo, então ele deu um pulo e arrebentou o teto, alçando voo. Pedaços de concreto acertaram minha cabeça, e fiz uma anotação mental de xingar o dragão por isso depois. Lá de cima era possível ver a arena. Esqueletos invocados por Rebeca lutavam contra uma manticora, enquanto Higor, Ana, Roniara e Carlos lutavam contra um exército de ciclopes, Raul lutava com a Amazona ruiva, Joy com a loira, e Ingrid com a morena.
Lá embaixo! – Gritei para o dragão. – Eles precisam de ajuda!
Ele baixou e deu um voo rasante sobre os ciclopes, que gritaram e se desconcentraram na batalha, e depois pousou com um estrondo. Ele rugiu e todos na arena nos olharam. Fiquei de pé em cima dele, com um sorriso triunfante e observei os olhares incrédulos da minha equipe. A manticora correu e deu um bote no dragão, que soltou uma rajada de fogo, queimando-a em pleno ar, e dando uma dentada no pescoço queimado dela, sacudindo-a e estraçalhando. A Amazona com quem Ingrid lutava parecia extremamente chocada. Ingrid aproveitou a chance e desferiu uma descarga elétrica nela, que deu um grito e foi atingida com um golpe da lança de Ingrid na barriga.
- Há! Toma essa, Xena! – Ela gritou, enquanto retirava a lança e o corpo da Guerreira tombou, jorrando sangue do ferimento. Na mesma hora, Raul falou para a ruiva com quem lutava:
- Desculpe, querida. Eu sei que você está amando lutar comigo, mas eu preciso ir. – Ele estalou os dedos, e uma fumaça negra envolveu a Amazona, e enquanto ela golpeava o ar às cegas, ele cortou-lhe a garganta.
- Vocês querem fazer o favor de vir logo? Eu não tenho o dia todo não! – Gritei, impaciente, pois sabia que eles tinham condição de acabar aquilo logo, e estavam apenas enrolando nas batalhas.
- Dá pra você esperar um pouquinho, Mary? – Higor reclamou, cortando a cabeça de um dos últimos ciclopes. – Se quer que a gente acabe logo, vem ajudar!
- Não, obrigada, estou terceirizando o serviço. – Gritei de volta, rindo. Olhei para o lado, e um grupo com cerca de 50 Amazonas estava vindo na nossa direção. Apontei-as para o dragão, e ele soltou fogo na direção delas, que pararam de marchar e foram se proteger com os escudos. Ele sacudiu a cauda na direção delas e as derrubou como pinos de boliche. Nesse momento, a Amazona loira deu um gritinho, enquanto Joy fazia ela se enrolar em ramos de trepadeiras espinhosas, sangrando-a aos poucos. Depois de alguns segundos, os ramos espinhentos chegaram ao pescoço dela, e ela parou de gritar e se debater. Enquanto isso, o último ciclope foi derrotado, e os campistas vieram correndo na direção do dragão, que baixou o pescoço para que todos subissem e se acomodassem, perante o olhar chocado do público. Quando o dragão levantou voo, o sol ainda estava alto, e refletia suas escamas amarelo-canários, que tinham um efeito furta-cor e reluziam em tons de laranja e lilás. A multidão gritou ensandecida, pelo show que havíamos dado, e pela quantidade de sangue que havia sido derramado ali. Acenamos e logo deixamos para trás aquele circo de horrores.
Fale com o autor