Camp Half Blood
14 Capítulo 14
Notas iniciais
A noite já havia caído. Eu procurava um lugar seguro para pousarmos, mas estávamos em meio ao nada de pedras, riachos e árvores. Suspirei e virei-me para o grupo, com minha cara de retardada, procurando o momento certo para falar. Carlos dormitava num canto; Ronny e Gigi cochichavam, rindo; Ana Paula e Higor se abraçavam,sorridentes; Ingrid vegetava, como de costume, perdida em pensamentos que a levavam para sabe-se lá onde; Joy e Raul filosofavam sobre qual dos dois era o mais lindo; Rebeca olhava o chão lá embaixo, e parecia preocupada com algo, e eu "guiava" o dragão, mas na maior parte do tempo ele ia para onde queria, ignorando meus conselhos, mas eu queria manter a pose de quem tinha tudo sob controle, então continuava lá, "guiando-o". De repente, um pequeno pensamento passou pela minha mente, e eu perguntei:
— Pessoal, só tem uma coisa que falta ser explicada: Como diabos vocês três nos encontraram? — Olhei diretamente para Ana, Gigi e Roniara. Gigi abriu um sorriso e respondeu:
— Eu e a Ronny estávamos planejando fugir e encontrar vocês, em parte porque ela ficou com saudades do Higor, e em parte porque eu queria rever vocês e estava me sentindo abandonada. Só que a Ana descobriu e estava dando o maior esporro na gente, quando vocês mandaram aquela mensagem de Íris e foram sequestrados por ciclopes. Aí fomos até a Rachel, que é o oráculo, e enchemos o saco dela até ela fazer um desenho do lugar onde vocês estariam e fugimos, até ir parar naquele estádio abandonado. Entendeu?
Olhei para ela, incrédula e balancei a cabeça, tentando absorver as informações. Ana perguntou:
— Ô Mary, esse dragão tem algum nome?
— Er... Na verdade não, não sei que nome se dá a um dragão.
— Que tal Rex? ou Totó? — Ingrid gritou do nada.
— Que tal você se jogar daqui? Ingrid, é um dragão, não um poodle.
— Eu sei, mas é fofinho!
— Vai dormir, vai. — Revirei meus olhos para ela, que fez uma cara emburrada. — Pensei em algo tipo Daemon ou Lucifer, mas acho que não fica muito legal... sugestões?
— Ana lindona! — Ana Paula gritou.
— Que tal Sirius? — Raul falou e eu sorri. Era um nome perfeito para ele. Meio coisa de nerd jogador de Magic,mas perfeito para um dragão. Ele grunhiu, e pareceu ter gostado do nome. Ingrid logo começou a reclamar:
— Eu quero dormir! Dá pra descer um pouquinho, Mary?
— Eu tô procurando algum lugar, mas não tem nada por aqui. – Falei olhando para baixo e procurando algo entre as pedras. Naquele local, geralmente haviam muitas casas, por ser uma área turística, onde muita gente ia passar as férias, mas eu não conseguia achar nenhuma. De repente, visualizei uma luz no fim do túnel: Em meio ao nada de pedras, riachos e pequenos arbustos, havia uma casa, relativamente grande e com um primeiro andar. E o melhor: sem nada nem ninguém ao redor, o que nos permitia chegar com o dragão sem causar um pânico na vizinhança, já que a névoa não esconderia um animal tão grande.
— Uma casa no meio do nada? Isso me cheira a monstro. – Ana Paula declarou. Raul sorriu e respondeu:
— Prefiro encarar monstros a ficar planando em cima desse jacaré. Minha bunda já tá dolorida, eu tô morto de fome e quero dormir. O que vocês acham?
— Eu acho que ninguém precisava saber de como você está ou não. – Joy revirou os olhos.
- Eu acho que não me importo. – Raul rebateu.
- Ah, danem-se. – Roniara falou. – Por favor, vamos descer e descansar um pouco? Por favorzinho?
— Tô com sono. – Gigi comentou. Minha barriga já havia parado de roncar, e agora rugia de fome. Com tantas reclamações, decidimos descer e entrar na casa. Se houvesse algum monstro, acabávamos com ele, e depois íamos dormir. Dei uma ordem a Sirius, que começou a baixar, até pousar levemente. Todos desceram e eu o mandei embora, para caçar. Quando precisássemos dele, daríamos um jeito de fazer uma fogueira. Alisei seu focinho e mandei ele ter boa sorte na sua caçada. Ele simplesmente bufou com indiferença e levantou voo.
Virei para o grupo e miramos a casa. Parecia absurdo que alguém mantivesse uma casa no meio do nada apenas para passar férias em contato com a natureza, principalmente de modo tão luxuoso, com um jardim na frente, coberto por grama verdinha, e um portão de ferro em estilo colonial, dando uma estética confortável à casa. Joy abriu o portão, e já ia entrar, quando Ana falou:
- Joy, espera. – Joy se virou com um olhar interrogativo. Ana pegou uma pedra do tamanho do seu punho e a jogou no jardim. Como nada aconteceu, ela entregou sua mochila ao Higor e foi andando delicada e furtivamente até a porta da casa. Lá, ela fez um sinal e todos a seguimos. Ela apontou para uma caixinha metálica embutida na parede e uma câmera embutida num canto do teto, onde uma luzinha vermelha piscava.
- Um alarme. – Higor sussurrou e jogou as mochilas dele e da Ana em cima de mim, se aproximou da caixa, e ficou observando, depois abriu a caixa e ficou observando o monte de fios, bastante compenetrado. – Preciso de uma tesoura ou alicate...
— Eu tenho! – Dei um gritinho e levei um tapa do Raul e um “shhh!” do resto do grupo. Alisando o braço onde havia levado o tapa, joguei tudo no chão e abri minha mochila. Pus a mão nela, e mentalizei uma maletinha de ferramentas, que logo tirei e entreguei ao Higor.
Ele a abriu, tirou um alicate e me devolveu. Ficou alguns segundos olhando os fios, até Ana apontar um vermelho e ele cortar. Todos ficaram se entreolhando, esperando o que iria acontecer, mas a luzinha da câmera apagou e a fechadura deu um estalo. Ana girou a maçaneta e abriu a porta, fazendo uma mesura e dizendo:
— Bem vindos à minha mais nova humilde casa. Fiquem à vontade! – Todos riram e entraram, exceto Carlos, que esperou um pouco na porta, olhando para o jardim. Passei por ele para entrar e senti uma aura estranha emanando dele, algo incômodo. Repentinamente, senti um vento frio, que atravessou o lugar, e tive a familiar sensação de que algo estava errado. Suspirei e ignorei minhas sensações estranhas, entrando na casa. Lá dentro, era tudo muito simples, mas ao mesmo tempo de muito bom gosto, com um toque de anos 70 no lugar. Na sala haviam três grandes sofás, e Roniara, Gigi e Ingrid já estavam acomodadas em dois deles e se esticavam e espreguiçavam, porém Roniara estava de cara feia e parecia de mau humor, o que logo se explicou quando olhei para o outro sofá e vi Ana e Higor se agarrando, e o barulho do Raul vasculhando a geladeira. Dei um sorriso maléfico e atirei as três mochilas que eu carregava em cima do casal apaixonado, falando:
— Mas que pouca vergonha de vocês! Nessa missão devem voltar dez pessoas, e não onze! Sem contar que eu não sou burro de carga pra ficar levando as malas de vocês!
— Sou uma moça de família, não sou obrigada a ver essas baixarias, e nem as meninas – Ingrid falava tapando os olhos de Gigi e Roniara. Eu não aguentei e gargalhei alto, sendo seguida pela Ana e pelo resto do grupo, exceto Ronny, que continuava emburrada.
— Mary, não vão voltar onze pessoas, vão voltar doze! – Higor disse sorrindo.- Pretendemos ter gêmeos, ou roubar os seus quando você os tiver.
— Epa, que história é essa de gêmeos? Nem pensar, não quero crianças. – Ana protestou, e os dois começaram um longo debate sobre ter ou não filhos. Revirei os olhos e fui atender ao chamado do meu estômago, que estava desesperado, procurando por comida. Chegando na cozinha, encontrei Raul saindo, com um prato cheio de sanduíches e com a boca cheia. Abri a geladeira e lá havia um grande estoque de comida, o que significava que os donos da casa haviam passado por ali recentemente, ou que pretendiam passar um fim de semana por lá. Eu já havia descartado a possibilidade da casa ser algum tipo de armadilha, pois além de não termos sido atacados ainda, no hall de entrada haviam molduras com fotos de alguma família feliz, com um pai, uma mãe e três crianças dentuças, que apesar de muito feias, definitivamente não eram monstros. Achei uma lasanha congelada e depois de esquentá-la no microondas, a pus num prato e voltei para a sala.
Carlos agora estava lá, sentado no sofá e mudando os canais da televisão, o que me fez lembrar de uma coisa relativamente importante. Exclamei:
— Pessoal! Temos que mandar uma mensagem de Íris para o Acampamento!
— É verdade! – Ingrid deu um tapa na própria testa. — Onde tem uma torneira?
— No banheiro,imbecil.
— E por acaso vão caber dez pessoas em um banheiro, sua retardada?
— Você é pequena, Ingrid. Cave em qualquer canto. — Carlos falou, com uma voz fria e distante.
— EU NÃO LHE PERGUNTEI, ARIEL! — Ela agora gritava,e parecia muito irritada.
— Mas eu quis me meter. — Ele respondeu indiferente.
— Alguém aí quer sanduíche de atum? — Raul falou com a boca cheia, alheio ao clima de briga que pairava no ar. Eu olhei com uma cara de "sério? você quer morrer?" e ele deu de ombros. Ingrid falou, sarcástica:
— Claro que quero, Raul. mas só se for eletrizado... Uma enguia talvez? — Era possível ver as faíscas em sua mão, e Carlos respondeu:
— Ótima escolha, Ingrid. Seria uma pena se ela acabasse sendo afogada...
— Está insinuando alguma coisa?
— Claro que não, apenas levantando hipóteses. — Eles se encaravam, e parecia que uma guerrinha entre os dois semideuses de maior prestígio do Acampamento ia acontecer. "Céu e Mar entrarão em conflito..." De repente, um verso da profecia voltou à minha mente, e percebi que ela estava se concretizando. Quando o clima de tensão já era insuportável, ouvimos a voz da Joy falando da cozinha:
— Ó deusa, por favor aceite essa oferenda... Mostre-me Gikah, no Acampamento Meio-sangue. — Quando todos percebemos que era uma mensagem de Íris, corremos para a cozinha e nos amontoamos por lá.
Gikah apareceu no refeitório, comendo algo que parecia ser pizza. Ao ver a mensagem de Íris, gritou algo como "SEUS IDIOOOOOOOOTAS! AINDA ESTÃO VIVOS?" com um sorriso enorme de felicidade, e logo três outros campistas vieram e ficaram postados atrás dela. Uma garota, de estatura mediana, longos cabelos com castanho claro, e outra garota morena, de longos cabelos pretos e um sorriso caloroso, logo me chamaram a atenção, por parecerem familiares.
— Giulia? Iohanna? Mas o que diabos vocês fazem no Acampamento? — Eu as conhecia. Quando ainda era órfã, sem saber de minha natureza meio-sangue, ganhei uma bolsa de estudos na Academia para moças Clarion, uma escola rica e cheia de débeis. Giulia e Iohanna eram da mesma classe que eu, e certamente não tinham uma boa imagem da garota que dormia em quase todas as aulas, vivia brigando, e tinha notas péssimas em cálculo. Elas pareceram me reconhecer, e Hanna falou:
— Mary? Você é semideusa?
— Não, ela é um hipopótamo bailarino. — Gikah retrucou.
— A gente entendeu, Gikah. — Giulia revirou os olhos.
— Vocês a conhecem, meninas? — O garoto falou pela primeira vez. Era muito pálido, de cabelos muito pretos e meio bagunçados, e tinha olhos igualmente pretos. Sua aparência era a de alguém sombrio, e estranho.
— Sim, ela estudou com a gente, Wesley.
— Olha, o Wesley tá super deprimido por eu ter saído um pouco do Acampamento! — Higor gritou do nada, e o garoto chamado Wesley olhou com desprezo.
— É, sem você aqui, não tenho como completar minha meta. Ainda quero sua cabeça como enfeite para o meu chalé. — Ele respondeu e Higor gargalhou.
— Own, ele me ama tanto que quer minha pessoa enfeitando aquele chalé.
— Ah,é? Vem aqui pra gente ver isso.
— Calem a boca, ou eu vou castrar os dois! — Ingrid gritou. — Bem, Gikah, nós só ligamos pra dizer que tá tudo bem,certo? Temos que dormir, já passa de meia-noite.
— Okay, mas tentem não fazer merda no resto da missão, certo? — Gikah deu seu sorriso do mal para nós e desfez a mensagem. Uma vez desligados, fomos nos organizar e dormir. Ana dividiu seu saco de dormir com o Higor; Roniara e Gigi foram para os sofás; Ingrid arrumou colchões para o resto do grupo e eu dormi coberta pela minha pele de Leão de Nemeia. Um pouco antes de dormir, tive uma sensação estranha, a de que algo muito ruim estava prestes a acontecer. Suspirei e pus meu machado-lanterna, Aerys, ao meu lado, entrecoberto pelo manto, e fechei os olhos, pedindo aos deuses que essa sensação fosse apenas neurose. Mas mais uma vez, meu instinto estava certo. E eu logo ia descobrir o porquê.
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