Camomile
1 Único
Notas iniciais
Bem essa one é dedicada a Ayume, ou como é conhecida no nyah Aphrodite Laclair, e bem por isso em princípio seria uma angst, porém eu confesso que sou muito dada ao romance. Daí surgiu isso.
Espero que gostem.
Música de acompanhamento: Instrumental ver.(http://www.youtube.com/watch?v=Id5zaY8ILao) ou vocal ver.(http://www.youtube.com/watch?v=BYI5SA2JiUc)
Um trovão cortou o céu nublado de Manhattan e mais por medo do que por frio, Carson se encolheu sob os cobertores permitindo o suave cheiro de lavanda que eles exalavam tomar suas narinas. Era uma terça-feira de uma semana qualquer em Setembro. O relógio cuco na parede da sala a séculos marcara meia noite, e mesmo muito cansada, a filha de Dionísio não conseguia pregar os olhos.
Essa era a razão do chá de camomila fumegando ao seu lado, no criado-mudo feito de mogno que fora presente de seu pai, assim como todo o jogo de quarto e a decoração do mesmo. Os olhos azuis presos em um ponto qualquer do teto branco perolado, a mente vagando por um lugar distante janela a fora.
Não era a primeira nem a última vez que ficaria perdida em seus pensamentos indecorosos relacionados a ele. Mas era a primeira vez que estavam tão fortes, tão vividos. Se ela gostava de Voluptas? Claro, isso não era segredo. Como não amar seu padrinho caloroso que está pronto a morrer por você a qualquer hora?
O segredo, o verdadeiro, é aquele que envolve os lábios rosados e pequenos sobre os dela. Que é relacionado a um beijo indevido e extremamente prazeroso. O segredo é que Carson ama seu padrinho, não como alguém mais velho que cuida de si e simplesmente é como um segundo pai, mas sim como alguém cujo o cérebro só aceita como homem.
Com um suspiro pesado a menina fechou os olhos e rodopiou na cama afundando o rosto no travesseiro que cheirava desesperadamente como ele. Porque afinal de contas os cabelos vermelhos tingiam o branco da fronha pela manhã do dia anterior. Isso não ajudava em nada no trabalho árduo que era doutrinar sua mente. Ele era seu protetor não seu pretendente. Ela não podia, não tinha o direito de desejá-lo como homem. Se proibia diversas vezes de fazer isso.
Mas a culpa era dele, afinal. Porque todas as vezes que os lábios finos e róseos se abriam em um sorriso de dentes brancos e alinhados, o coração da garota dos vinhos latejava. Todas as malditas vezes em que ele sussurrava seu nome, ele falhava uma batida. E por Zeus, ela era obrigada a retirar forças do império de Hades para não agarrá-lo.
Era injusto com ela já que amar é muito complicado, veja bem, mas amar alguém como Voluptas é uma missão impossível. Por regra, um deus é sempre bonito como o diabo. Ou mais do que isso. E Voluptas simplesmente extrapolava essa regra. Sem mencionar, você sabe, todo aquele carisma e a sua essência natural baseada no prazer.
A garota gemeu entre os lençóis ao recordar de Afrodite rindo de sua cara durante o baile de inverno no acampamento meio-sangue, aos doze anos. Porque foi exatamente nesse dia que ela se deu conta do quão estupidamente a fim do seu padrinho se encontrava.
Encolheu-se mais sobre a cama. Parecendo uma bola de meias.
— Se está com tanto frio assim deveria fechar as janelas.
A menina apertou os olhos e mordeu os lábios com um pouco de força antes de afastar o cobertor dos olhos e abri-los, tendo a visão do ruivo recostado na parede listrada, do outro lado do quarto.
Ele não tinha o sorriso de sempre no rosto e os olhos também já não brilhavam como sempre. Os braços cruzavam-se altivamente sobre o peito musculoso, os lábios se esmagavam em uma linha fina e reta, demostrando seu caos interno. Mas pouco importava pois caos algum era maior do que o dela.
— Não é como se eu não gostasse da sensação que o ar gélido me causa, você sabe. — Ela respondeu em um tom baixo e calmo.
Carson empurrou os cobertores e sentou-se sobre o colchão, evitando olhar nos orbes verdes-claros de Voluptas. As pantufas — Cabeças de elefantes grudadas em chinelos abarrotados de frufru— foram retiradas debaixo da cama e calçadas antes de começar a caminhar para a cozinha.
O Apartamento era razoavelmente grande para uma solteira habitar, mas como fora presente de Aline era de se esperar um exagero no tamanho. Com dois quartos, cozinha, sala de star e jantar mais banheiro, era fácil sentir-se sozinha.
Os móveis eram de grande maioria feitos de madeira pura, e as paredes eram cobertas de tintas claras. E todas as vezes que Carson se perdia em pensamentos, todas as vezes que seus olhos se fixavam num ponto qualquer daquelas paredes as memórias deles pintando aquele apartamento inteiro, sozinhos, felizes e unidos, todas aquelas malditas memórias preenchiam sua mente feito uma enchente, e de forma tão rápida e desajeitada que doía o cérebro. E também doía o coração, e mais tardar os olhos, pelo tanto que chorava.
As mãos delgadas juntaram com rapidez sobre a bancada da cozinha os ingredientes para o preparo de outra infusão de camomila, e se esticaram junto a todo o corpo para capturar o bule que sua mãe —Mais alta do que Carson — cismava de guardar na prateleira mais elevada. E então um punhado de dedos se acomodaram sobre sua cintura, puxando-a de forma que voltasse a apoiar os pés totalmente no chão. A mão que não a segurava foi de encontro ao objeto para lhe entregá-lo em seguida. E toda a situação era uma malvada ironia.
Pois mesmo inconsciente Voluptas estava ali, mas uma vez mostrando a ela, dizendo que deveria pôr os pés no chão. Que eles nunca dariam certo, que eles não era certos. Não dessa forma. Mesmo que isso nunca tenha deixado os lábios aparentemente macios do deus, ela sabia que ele pensava isso. Ela sabia que ele tinha mais conhecimento sobre seu coração do que a própria.
Finalmente os azuis chocaram-se com os verdes e as dúvidas, as mágoas, todo aquele lixo sentimental se expôs nos olhos de ambos. Por um breve momento Carson pôde ter certeza de que seja lá quem constatou que os olhos eram a janela da alma, tinha razão.
Era a primeira vez que Voluptas era tão aberto com ela mesmo sem abrir a boca. E ela não sabia como reagir a isso.
— Finalmente — Ele resmungou baixo, próximo a seu ouvido.
— Finalmente o que?
Um sorriso leve tomou as feições do rapaz e outra vez o coração humano falhou. As mãos de Voluptas traçaram caminho até seu rosto, mantendo-o firme defronte ao seu.
— Você olhou para mim. — Ele respondeu suave. — Você tem me evitado, veja bem.
— Não tenho, não. — Carson retrucou esquecendo-se por um minuto que eles estavam próximos demais e que a situação era estranha. Que estava aparentemente brigada com ele. Ela retrucou naquele breve minuto como a antiga Carson e isso fez com que o deus alargasse o sorriso.
— Sim, você tem. — O sorriso morreu nos lábios pequenos — Eu te fiz algo? Se não me disser não poderei corrigir.
Os azuis fixaram-se nos verdes outra vez, de forma intensa. E por um longo tempo ouvia-se somente as respirações tranquilas de ambos. Carson suspirou, desvencilhando-se das mãos cálidas sobre o rosto e caminhando até o filtro.
— Carson...
— Não é algo que você possa mudar. — Ela respondeu ríspida. — Porque não é nada com você.
— Mesmo? — Ele indagou sarcástico. Os braços voltaram a se cruzarem na linha do peitoral. — Então me olha nos olhos e repete isso. Olha para mim e rosna dessa mesma forma novamente, diz que o problema não é comigo.
Menina dos vinhos acendeu o fogo e depositou o bule sobre a chama, respirando lentamente para se acalmar. Voluptas já ostentava um sorriso de vitória quando a mesma se virou, ficando frente a frente com ele. A voz saiu baixa, calma e cortante.
— Você não é a razão dos meus problemas. — Ela encarou os olhos verdejados uma última vez antes de caminhar até a porta que permitia acesso pela cozinha e abri-la. — Agora caí fora, eu preciso dormir.
A sobrancelha ruiva se arqueou sobre os olhos miúdos do rapaz e ele se pôs a caminhar em direção a saída, entretanto dois passos de distância do que seria considerado fora do Apartamento, o rapaz girou os calcanhares e num ato de ímpeto puxou a afilhada pelo pulso.
Nada no mundo poderia explicar aquele momento ou aquelas sensações. Porque quando as mãos de Voluptas foram parar debaixo da parte de cima do seu pijama, ou até mesmo quando por impulso, tomado pela raiva momentânea o deus colou seus lábios sobre os dela, Carson soube a razão dele ostentar o título de “Dos prazeres” após o “deus”.
A pele formigava nos pontos onde os dedos hábeis tocavam. A respiração já não era mais lenta, as mentes já não raciocinavam.
Ela não pôde lutar contra o turbilhão de perguntas e emoções que golfaram no seu cérebro quando sua língua era preenchida pelo gosto de mel que a boca dele tinha. E se algum dia ela desconfiava sobre haver algo mais viciante do que gosto de uva, ela agora sabia que sim.
Você não é a razão dos meus problemas, ela voltou a murmurar, deitada sobre o corpo do ruivo que por um fio de teimosia ainda não pegara no sono. É a solução de todos eles.
Voluptas apertou a menina sobre sim com um orgulho crescente no peito e mesmo que sua vontade fosse de beijá-la mais um centena de vezes ele se ateve a lançar uma ordem.
— Vá dormir Carson — Ele rezingou. O sorriso largo escondido na cabeleira castanha, tragando o aroma de macela disseminado por eles.
Pois de tanto se refugiar nos efeitos calmantes da erva Carson adquiriu sua essência. Por fora e por dentro. E se tudo corresse bem a relação deles também seria feito camomila.
Notas finais
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