Camisa de Vênus

1 Capítulo Único


Notas iniciais
E se você estiver se perguntando quando é que eu vou parar de escrever fanfics de Death Note, a resposta é NUNCA.

ǂ CAMISA DE VÊNUS ǂ

ǂ CHARBITCH ǂ

Prezado ℒight,

Meu nome é ℒ ℒawliet. E esse é o meu epitáfio. Se você estiver lendo isso agora, é porque seu perverso plano deu certo. Tentarei ser o mais sincero possível em meu relato, mantendo, obviamente, o imenso respeito que possuo por ti. Antes de continuar, dou-lhe o direito de pular seu Carnaval. Jogo-lhe humildemente os confetes sobre os ombros, pois você me venceu. Entretanto, não lhe escrevo unicamente para lhe dirigir felicitações – não sou tão idiota assim. Você me conhece, eu sou um mau perdedor por natureza, derrubo o tabuleiro no chão quando o adversário me dá xeque-mate. De toda maneira, minha mais recente derrota caiu serena em meu coração. Não te odeio, pelo contrário, te amo! Escrevo-lhe porque gostaria de fazer uma ou duas considerações sobre esse amor, coisas que, por insegurança minha, nunca tive coragem de dizer em vida.

Em respeito a nós, leia-me. Não me deixe morrer. Não me deixe morrer.

~*~

❝Eu desço dessa solidão

espalho coisas sobre o chão de giz

Há meros devaneios tolos

a me torturar❞.

~*~

Estou sozinho. Meu mundo se pintou em cores tristes, perdeu sua textura e sabor; tornou-se mero dissabor. Espero descer a escadaria do inferno em breve; quiçá subir a do paraíso, tão somente quando já houver me purificado desse amor manchado. Imploro-lhe de joelhos em seu altar: não se compadeça de minha má sorte, pois não mereço o beijo dos anjos enquanto estiver de dedos atados aos do demônio. Seu toque, ah! Macula-me a alma, suja-me as roupas brancas, causa-me desgosto, enoja-me! Não me orgulho disso, embora também não me arrependa.

Por ora, resta-me apenas agonizar, ruminando o passado. Quando sua pele se uniu à minha naquela noite chuvosa, eu soube que meu espírito estava marcado para sempre. Seu veneno escorreu de sua língua perniciosa e pingou em minha garganta; agora sou impuro como chão riscado de giz. Nossa fantasia infantil deixou de ser apenas capricho ardiloso para se tornar gentil pecado. Lançamos dados viciados, enrolamos nosso destino em fitas de sangue. Brincamos de amarelinha até nossos pés tocarem o céu, profanamos o paraíso. Nossa selvageria me consumiu por completo. Queimei na combustão mais plena, até a última reserva de oxigênio. Agora, sou apenas cinzas de meu amor.

Impiedosa que é, a chuva não tardou em lavar o nosso chão de giz. Seus olhos não mais se viram nos meus. Na velocidade da luz, com a frieza de uma nevasca, destrutivo como um raio cósmico, decepou-me as transparentes asas da ilusão. Quando abracei os lençóis vermelhos de seda, era apenas um corpo – o meu – deitado em minha cama. O seu não estava mais lá. O sal de minhas lágrimas inundou o deserto de meus lábios incolores. Eu me perguntei – juro que me perguntei! – se algo havia mudado dentro de você depois do que fizemos. Infelizmente, eu já sabia que não. Giz é um material lavável, quão momentâneo é seu rastro deixado! Jamais fomos tinta a óleo. Somos giz. Giz desbotado.

~*~

❝Fotografias recortadas

em jornais de folhas

amiúde❞.

~*~

Você conhece muitas idiossincrasias minhas. Sabe que devoro doces compulsivamente, que meu guarda-roupa nunca muda, que desprezo meias, sapatos e afins. Sabe que seguro objetos apenas com a ponta dos dedos, que sempre me sento numa posição nada confortável, que meu estilo de luta é semelhante à capoeira. Sabe também que quase nunca durmo, tampouco me banho ou penteio os cabelos. Porém, talvez você não conheça a minha mais secreta mania:

Eu coleciono fotografias.

Em geral, as que guardo são de jornais. Páginas policiais, para ser mais exato. É a melhor forma de organizar os casos que estou investigando. Nada como me deparar todas as manhãs com uma teia de imagens grotescas, a fim de jamais me esquecer da gravidade a que pode chegar a crueldade humana.

No entanto, com o passar do tempo, as fotografias de crimes foram aos poucos sendo substituídas por fotografias suas. ℒight Yagami... É piegas dizer, mas sua beleza é o crime mais dantesco que já testemunhei. Sempre que o seu nome saía no jornal, quase sempre apontado como o melhor aluno do Japão, eu recortava a sua cara lambida para afixar em meu quadro de crimes. Estranhamente, o seu olhar arrogante harmonizava muito bem com as fotografias de corpos mutilados da página policial. E era justamente quando minh’alma contemplava o Frankenstein dos meus recortes que eu assumia silenciosamente para mim mesmo: você e eu tínhamos tudo para ser um crime perfeito.

~*~

❝Eu vou te jogar num pano de guardar confete

Eu vou te jogar num pano de guardar confete❞.

~*~

Eu vou te esquecer. Prometo. Numa gaveta bem funda, na mais esquecida estante de meu inconsciente. Você será aquele livro repleto de traças e poeira cujas páginas eu jamais me atreverei a abrir outra vez. Não só porque estarei morto, mas também porque, ao morrer, sei que estarei te matando dentro de mim.

Todos sabem que, quando o Carnaval se vai, os confetes e serpentinas são guardados sabe-se lá onde. As máscaras e fantasias são, por um bem maior, sucateadas, para que os limites da realidade jamais se percam. Confesso que é tentador, pra não dizer perigoso, desprender-se permanentemente do mundo concreto. E eu já quis muito isso. Nada como o mundo das ideias, aquela sagrada utopia na qual meus sonhos estão livres dos meus erros. Sei que nela eu encontraria um lar no seu peito e chamaria o seu nome quando estivesse sofrendo. Ainda que na realidade você me quisesse morto, eu me confortaria no sabor agridoce da mentira. Seria nosso eterno Carnaval, com direito ao mais desesperado beijo de Pierrot e Colombina.

Todavia, sei que nosso futuro seria tão apaixonante quanto incerto. Amores não possuem raízes quando nascem para ser efêmeros. E o nosso, tal qual o Carnaval, nunca teve talento para durar para sempre. A beleza dele reside em seu prazo de validade. Mesmo assim, eu ainda o repito mil e uma vezes em minhas lembranças. Os confetes continuam aqui... reluzindo dentro de mim.

Vou te jogar fora, vou te jogar fora!

Mas não agora...

~*~

❝Disparo balas de canhão

É inútil

pois existe um grão-vizir❞.

~*~

Você é o grão-vizir, o líder, o chefe de governo. É você que dá as cartas. Não digo com relação ao mundo, pois tenho certeza de que o seu próprio ego o derrubará no futuro. Digo com relação ao nosso trágico caso. Você não é o deus do novo mundo, mas é o deus do meu mundinho particular. Aqui, em meu coração, você é quem manda, admito. Basta uma noite de volúpia em seus braços para que eu não veja em seu rosto a figura de Kira, o assassino cruel, mas sim a de ℒight Yagami, o homem que eu amo.

~*~

❝Há tantas violetas velhas

sem um colibri❞.

~*~

Você é o colibri que pousa em minhas violetas apáticas. Elas rejuvenescem e se tornam vívidas quando seu frágil biquinho as beija sem pudores. Outrora minhas flores te cobriram com pétalas macias e te banharam em meu mel, doce e fugaz como a primavera. Eu te protegi em meu leito e te ofereci abrigo em meu corpo durante a chuva.

Contudo, depois que o sol exibiu seus primeiros raios pela manhã, o colibri – oh, ingrato colibri! – foi-se num só bater de asas, sem sequer de despedir. Suas belíssimas penas abandonaram para sempre o nosso ninho. Com isso, minhas dependentes violetas perderam o brilho, murcharam num espaço de instante. Suas pétalas perderam a maciez, o viço e a delicadeza, suas folhas tornaram-se amareladas e quebradiças. Velhas, renegadas e sem pássaros para enfeitá-las, perderam seu perfume característico. Até flores de plástico conseguiam ser mais gloriosas do que as minhas. O jardineiro, portanto, ao ver que não havia mais salvação para seu canteiro, ceifou todas as violetas e as enterrou... no cemitério da saudade.

~*~

❝Queria usar quem sabe

uma camisa de força

ou de Vênus❞.

~*~

Estou ficando louco. No pior sentido da palavra. A angústia e a agonia firmaram amizade vitalícia comigo. Estou condenado, massacrado, agora sepultado. Esse amor nunca me permitirá descansar por completo. Sinto que logo eu, o homem mais racional e analítico do mundo, estou prestes a me tornar mais insano que o bobo da corte. Sou o adolescente sem perspectiva que pula do décimo sexto andar, sou o drogado que é empurrado à força para dentro de um hospital psiquiátrico. Sou a mulher que se tornou careca porque não consegue parar de arrancar os cabelos da cabeça. Eu sou todos os transtornos listados no DSM-5, do mais comum ao mais raro, do mais aceitável ao mais repulsivo. Tudo isso graças a você, que me roubou o discernimento, a prudência e o sossego.

Está tudo junto e misturado. Não mais posso confiar em meu próprio pensamento, pois ele agora me prega peças. Constantemente ouço vozes, não raro a sua voz. Questiono o tempo todo a minha própria identidade, se é que já não a perdi. Meu sentimento beira a esquizofrenia, tanto que às vezes também me questiono se nosso amor realmente existiu. Talvez você nunca tenha se deitado comigo, talvez tenha sido apenas um sonho. Mas eu prefiro morrer acreditando que um dia você esteve de fato dentro de mim. Eu prefiro dar meu último suspiro crente de que não preciso de uma camisa de força, pois meu sonho de fato se realizou, inclusive usamos uma camisa de vênus... Não usamos?

Diga-me que aqueles gemidos foram genuínos. Diga-me, e eu finalmente poderei decretar o ato final de nossa tragédia, sem rancor algum.

Foram genuínos?

~*~

❝Mas não vou gozar de nós

apenas um cigarro

nem vou lhe beijar

gastando assim o meu batom❞.

~*~

Eu não fumo. Também não uso maquiagem. Mas meu batom aqui é metafórico, tal qual meu cigarro. Bem sabe do que estou falando. O batom é minha energia vital; representa as forças que uno para te amar com toda a minha alma. É a entrega que te ofereço sem esperar nada em troca.

Você até que gostaria, mas meu batom não é infinito – e eu me cansei de gastá-lo em seus lábios. Neles desperdiço o meu tempo, o meu sentimento e a minha sanidade. Prefiro me preservar, mesmo que no fundo eu queira, mais do que tudo, saciar esse desejo masoquista de te atar a mim.

Quanto ao cigarro, sua fumaça tóxica é nosso sexo, nosso gozo, o tesão em meus olhos quando você entra em mim. Mas não quero apenas um cigarro. Minha filosofia é de extremos: ou morro de câncer de pulmão, ou jamais fumo em toda a minha vida. Em suma, não quero apenas uma noite sem significado, uma noite que ambas as partes fingirão nunca ter acontecido. Se eu não puder te ter para sempre aqui comigo, prefiro a castidade.

~*~

❝Agora pego um caminhão,

na lona vou a nocaute outra vez❞.

~*~

Pegaria qualquer meio de transporte para escapar de mim mesmo agora, desejosamente para escapar de você também. Carro, caminhão, bicicleta, trem, avião, dirigível... Eu comeria os quilômetros até dar a volta ao mundo. Quanto mais longe de sua toxicidade, melhor.

Infelizmente, sou um lutador peso pena quando se trata de sentimentos, enquanto você é um peso pesado. Sua frieza é invejável. Você facilmente me encontraria, onde quer que eu estivesse. Pudera, meu cheiro é inconfundível, pois meu desgosto é pútrido como carniça. Nós dialogaríamos desconfortavelmente, até que você perdesse a paciência. Suas luvas de boxe impiedosamente arrancariam sangue e dentes de minha boca, marcando meu coração com hematomas permanentes. Eu hastearia a bandeira branca no mastro da minha dissimulada humildade, mas você não teria clemência, posto que jamais perderia a chance de me dar seu golpe final.

Não há pelo que lutar quando a guerra já está ganha.

~*~

❝Para sempre fui acorrentado

no seu calcanhar❞.

~*~

Lembra-se de quando eu te algemei a mim? Você provavelmente compreendeu minhas segundas intenções. Eu confesso: queria uma desculpa para me deitar na mesma cama que você. Era uma armadilha. Eu me acorrentei a você para tentar a sorte, para descobrir se minha loucura era correspondida. Não se tratava mais de uma batalha épica entre o detetive ℒ e o criminoso Kira, mas de um desejo proibido do pequeno ℒawliet pelo seu primeiro amigo ℒight.

Certa noite, quando estávamos algemados, você me disse que tinha frio, e que as cobertas não te mantinham aquecido. Eu lhe perguntei se um abraço meu poderia melhorar a situação. Você hesitou, mas aceitou. Ao sentir seu perfume de limão tão próximo de minhas narinas, não esperei nem mais um segundo. Cheirei seu pescoço. Você levou um susto, mas algo me diz que seu corpo todo arrepiou naquele momento.

Depois, me perguntou o que estávamos fazendo. Eu disse a você que aquilo se chamava amor. Dei-lhe um beijo sereno nos lábios. Você me empurrou. Eu exigi que você parasse de fingir que não me desejava. Eu jamais te beijaria se não houvesse reciprocidade. E eu já sabia de tudo. Você me dirigia olhares discretos enquanto eu comia meus doces. O lamber de seus lábios sedentos era uma confissão silenciosa. Seu maior desejo era ser os donuts que eu lambia, ou os sorvetes que eu chupava. Eu me incomodava com a repressão que você exercia sobre o próprio desejo, logo te fiz reconhecê-lo.

Meu bem, quando selei meus lábios nos seus, eu te libertei. Assim que seu coração se deu conta disso, você me puxou de volta, pois não podia negar os apelos de sua carne. Beijou-me profundamente, enquanto tirava com gentileza a minha blusa branca.

— Você promete que não vai contar sobre essa noite pra ninguém? O meu pai, ele... Ele não entenderia... – sussurrou você.

— Não se preocupe, ℒight. Eu protegerei o seu nome... por amor – prometi docemente.

~*~

❝Meus vinte anos de boy,

that’s over, baby

Freud explica❞.

~*~

Morro agora como um jovem adulto, pois nunca tive direito a uma adolescência comum. Sou um prodígio desde que me entendo por gente. Cálculos intricados e investigações pesadas sempre fizeram parte da minha rotina. Precocemente maduro, nunca frequentei baladas, nunca me embebedei, nunca me meti em confusão por vontade própria. Por conta disso, meus impulsos juvenis ainda queimam dentro de mim, implorando para sair. Devoro muitos doces no presente porque não pude fazê-lo quando era criança. Amo-te agora com toda a minha fúria interior porque jamais tive tempo para me apaixonar no passado. Intenso e pouco durável; esse é o amor adolescente, por coincidência também é nosso amor! Quando estou em seus braços, sinto todo o vigor de quem mal completou a maioridade, ainda que eu já tenha passado dos vinte. É a vivacidade adolescente: única e incandescente, embora efêmera.

No entanto, não posso me render a um capricho de garoto como se ainda tivesse idade para isso. Meus vinte anos de boy? That’s over baby! Eu sou velho demais para você, Freud explica. Quem sabe não estamos chafurdados numa espécie de complexo de Édipo? Quem sabe não sou a figura paterna que você gostaria de ter, aquela que te livraria de todos os seus temores e agruras? Confesso que me apeteceria, mas esqueça, estou delirando novamente! Não tenho idade para ser seu pai. Não sou tão velho assim.

Se bem que se eu não sentisse tanto desejo sexual por você, gostaria que você fosse meu irmão caçula, aquele que eu embrulharia todas as noites numa manta quentinha, a fim de proteger de todo o mal do mundo. Eu te daria de beber e de comer, te daria um lar e um abraço todos os dias, até que a última célula de meu corpo se apagasse. Seríamos little boys um do outro, galopando despreocupadamente ao longo de nossos eternos vinte anos, sem obrigações chatas ou problemas inconvenientes. Uma pena que o relógio não nos permita congelar esses fragmentos de infinito.

Depois de um tempo, criei consciência do quanto me faz mal tentar (re)viver minhas vontades fúteis. Decidi que esse delírio artificial já não me cabe mais. E, querendo ou não, eu precisei crescer muito para tomar essa decisão.

~*~

❝Mas não vou me sujar

fumando apenas um cigarro

nem vou lhe beijar

gastando assim o meu batom❞.

~*~

Pra que sujar minha pele alva, ou rasgar o algodão de minhas roupas mais uma vez, se sei que você não se lembrará de nada disso pela manhã? Pra que gastar meu batom em lábios de quem fingirá demência no dia seguinte, afirmando que nunca fomos nada? Você agora é só alguém que eu conhecia, não lhe devo mais nem um beijo ou toque sequer. Eu costumava ser sua ida e sua volta, sua partida e seu destino, sua ousada decolagem e seu pouso suave. Mas agora, sou apenas alguém de quem você deve manter distância. Sou, acima de tudo, aquele inimigo pelo qual você deve manter respeito, no mínimo um pouco de educação, forçosamente uma cortesia ou duas. Não somos mais amantes. Mas não se preocupe, nosso segredo estará a salvo. Ele morre comigo hoje.

~*~

❝E quanto aos panos dos confetes

já passou meu Carnaval❞.

~*~

Foi-se o baile de máscaras, as fantasias caíram por terra. No momento, deparo-me com sua verdadeira face, sem tirar nem pôr. Não existe no mundo maquiagem ou cirurgia plástica que cubra uma personalidade defeituosa. Quer você goste ou não, vejo-te de cara limpa – e não gosto nem um pouco do que vejo. Você não é o bom moço que seus beijos certa vez tentaram demonstrar. Você me odeia, odeia-me amargamente. Você me torturaria lentamente se pudesse. Você escreveria meu nome no Death Note centenas de milhares de vezes até que as páginas se acabassem. Você me derrubaria a qualquer preço, sacrificaria sua família toda por isso. Porque o garoto Yagami, aquele por quem eu me apaixonei, foi morto e substituído por Kira. Você é o Kira, negue a todos, mas não negue a mim. Eu passei a vida inteira te acusando de ser o Kira e vou morrer te acusando de ser o Kira. Porque nosso Carnaval chegou ao fim, já tirei o bloco da rua e joguei meu abadá no lixo. Os confetes agora não estão em lugar nenhum para serem encontrados. Mas se eu pudesse – ah, se eu pudesse! – entulharia todos os confetes na sua boca até te matar de asfixia. Digo isso porque te odeio tanto quanto você me odeia. Mas te amo. E como te amo!

Por falar em amor, eu sei que você vai me matar não só porque eu me pus no caminho de Kira, mas também porque você não quer admitir para si mesmo que gosta de garotos. Admita: eu sou a personificação do que você mais odeia em si mesmo, o único ponto fora da curva que o radar do seu autocontrole não pode captar. Pois saiba que não adianta me matar. Pensa que sou o único garoto atraente do mundo para você? Eu não sou o que você deve temer. Você é o que você deve temer. Um dia você amará outro homem. Só espero que ele não tenha o mesmo destino que eu. Seus amantes não merecem pagar pela culpa que você sente ao se deitar com eles. Deixe-os em paz. Cada um com a sua batalha interior. Destrua a própria insegurança antes de pensar em destruir os outros. Antes de me julgar, condene-se.

~*~

❝E isso explica

por que o sexo

é assunto popular❞.

~*~

Quem não ama falar sobre sexo? Confesso que não compreendia por que era um assunto tão amado por todos. Eu era virgem, mal me masturbava. Cheguei a pensar que era assexual. Porém, quando me deitei com você, descobri a verdade: sou demissexual. Isso significa que só sou capaz de sentir atração sexual por quem amo ou admiro. Considerando que o meu primeiro amor foi você, é óbvio que minha primeira vez também teria que ser com você. Você me perverteu como ninguém. Agora penso em sexo a cada cinco minutos. Você é um deus na cama e sabe disso. Uma pena que provavelmente não seja demissexual como eu. Você transaria com qualquer um se isso significasse atingir seus objetivos. Não me espantaria se descobrisse que você só transa com a Misa para que ela continue te ajudando. É cabível, visto que seu egoísmo transcende os limites do real.

Às vezes me pergunto se você começou a flertar comigo porque realmente me desejava ou se foi apenas para me atrapalhar. Minhas deduções concluem o pior, embora meu coração deseje o oposto. Talvez você seja apenas um psicopata charmoso, completamente incapaz de sentir algo legítimo. Quem sabe decidiu me seduzir para que eu sentisse compaixão por você, para que meu pulso não fosse tão firme com você. Quem sabe se deitou comigo para que eu me distraísse das investigações e deixasse escapar algum detalhe importante sobre o caso Kira. Mesmo que todas as evidências apontem para isso, eu espero que não. Eu rezo todos os dias para que tudo isso tenha sido verdadeiro para você. Porque foi verdadeiro para mim. Você me ensinou o que é sexo, fez-me amar o sexo. Não me faça odiá-lo. Não me faça te odiar. Já é o suficiente conviver com a dor de ser morto pelo homem que eu amo. Não preciso de mais dores para levar para o túmulo.

~*~

❝No mais,

estou indo embora❞.

~*~

Acabou. Reforço isso um milhão de vezes se for preciso. Estou partindo para sempre, pois já sei de todo o seu plano – e infelizmente não posso fazer nada para impedi-lo. Coincidentemente está chovendo torrencialmente essa noite, assim como naquela nossa noite de pecado que você diz nunca ter existido. Hoje é o meu último dia de vida, não há escapatória, ouço o sino todo o maldito tempo. Estou falido. Eu só queria voltar no tempo. Como não posso, eu só queria te beijar uma última vez. Dê-me essa graça, dê-me, oh, apenas dê-me, eu te imploro de joelhos dobrados e braços atados. Conceda-me o beijo da morte. Eu te amarei para sempre, eu te amarei para sempre.

Por favor, diga que vai se lembrar, prometa que vai se lembrar de mim. Quando comprar doces, lembre-se de mim, quando desvendar um mistério, lembre-se de mim, quando amar intensamente outra vez, lembre-se de mim. Se for para ser lembrado por alguém, que seja por você – e somente por você. Que todos me esqueçam, que meu nome seja apagado da história, que eu não tenha significado nada para o mundo. Mas que eu tenha, por Deus, que eu tenha significado algo aí dentro de você. Porque são os nossos momentos que eu reproduzo no escuro, são as nossas graças e desgraças que dão sentido à minha existência, são os seus beijos que preenchem e tingem o branco do meu vazio.

Prometa que vai se lembrar de mim quando estiver morrendo, que verá minha imagem desfocada quando os seus olhos estiverem se fechando. Prometa que, quando a sua última sinapse se desligar, vai se despedir de pouquinho em pouquinho do que um dia fomos.

Prometa. E eu irei em paz.

Em síntese, por mais que as tribulações da vida te deixem abalado e resignado, não se esqueça de nosso chão de giz. Não permita que ele se apague. Não permita que eu me apague dentro de você. Mantenha-me vivo, mantenha-me vivo em sua memória. E eu te juro, juro pelo que ainda resta de minh’alma em frangalhos, que estarei sempre ao seu lado, olhando as estrelas quando todos já tiverem desistido de olhar.

Com amor,

ℒ.

♥

Notas finais
Gostou? Deixe um comentário, um favorito e uma recomendação. Aproveite também para checar as minhas outras histórias de Death Note. Grata pela atenção.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!