Caminhos para o coração
6 You must remember this part. II
Notas iniciais
“Sem você a vida pode parecer;
Um porto além de mim;
Coração sangrando;
Caminhos de sol no fim;
Nada resta, mas o fruto que se tem;
É o bastante pra querer;
Um minuto além;
Do que eu possa andar com você...”
Caminhos De Sol
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Chicago Med (terça, 14/5 – 7:10 a.m)
Maggie Lockwood
—Mas o quê...??? – interrogo, franzindo o cenho ao ver Reese e Will praticamente se atirando debaixo da bancada da ilha principal na emergência onde estou– Posso saber o que significa isso? – questiono-os, levando as mãos a cintura, mas antes que eles me respondam, entendo o que se passava.
—Maggie, viu a doutora Reese ou o doutor Halstead? Pensei que eram eles entrando, mas acho que me enganei – Monique interroga, olhando em volta e arqueio a sobrancelha.
—Não os vi hoje – minto, apoiando uma mão ao balcão – Quer falar com eles? – pergunto, notando, pelo canto do olho, Daniel se aproximar e antes que entregue os dois, o impeço – Nem pergunte! – me adianto, erguendo a outra mão quando abre a boca – Monique!?! – volto atenção a garota novamente.
—Não é nada sério. Apenas fiz o mapa astral deles e queria mostrar além de contar umas coisinhas que conversei com uma amiga, mas pode esperar. Ficar para o almoço, quem sabe – diz ela, indo para o vestiário.
—Mapa astral?? – é Daniel quem pergunta, olhando os dois “fugitivos” sob o balcão.
—Então ...- Reese começa, se levantando com cuidado, Will a seguindo – Monique anda com algumas idéias meio maluquinhas ultimamente! – conta, arrumando a roupa.
—Sobre?? – inquiro, arqueando novamente a sobrancelha.
—Ela cismou que Connor, Reese e eu temos algum tipo de ligação cósmica, aquele lance de vidas passadas e reencarnação, e quer provar por A mais B que está certa – Will completa, fazendo uma careta gozada.
—E para isto fez o mapa astral de vocês?? – Daniel reinquire, tão confuso quanto eu.
—É o que parece – Will responde, sentando-se com um sorriso maroto no rosto – Fica procurando ligações, coincidências em nossas vidas e coisa e tal, nos enchendo de perguntas, criando mil teorias de como somos almas gêmeas...Os três!! E eu nem sabia que se pode ter mais de uma alma gêmea!! Sempre ouvir dizer que existia apenas uma em nossas vidas – comenta, abrindo os braços.
—Pode haver sim, mais de uma – escutamos, Daniel pondo-se de lado, permitindo-nos ver Claire Rhodes, que se aproximara sem que a notássemos – Este é um engano comum. Pensar que existe apenas uma alma gêmea e que está refere-se apenas ao amor. Visão romantizada e reforçada pelo cinema – diz, fazendo uma careta. Perecia cansada – Na verdade há diversos tipos de almas gêmeas segundo a crença do Espiritismo. Um amigo pode ser sua alma gêmea sem necessariamente se envolverem romanticamente, ou um parente muito próximo ou mesmo um amor de vidas passadas que regressa por alguma razão, a teria mais difundida em nosso meio. Teoricamente, estas almas se reencontram devido terem uma ligação forte ou algum tipo de pendência, o Carma – conta, massageando o pescoço, reforçando minha impressão.
—Hum. É espírita senhorita Rhodes? – doutor Charles pergunta, olhando-a curioso.
—Não, mas tive um namorado que era – responde ela, um sorriso triste no rosto – Usou isto como desculpa para terminar comigo. Disse que meu carma era pesado demais e estava interferindo na aura dele! – relembra, amarga, sacudindo a cabeça como para espantar alguma lembrança ruim – Águas passadas – garante – Estou indo em casa tomar um banho e comer algo. Depois passarei no trabalho e volto para ficar com meu pai – avisa – Poderia pedir a uma enfermeira que permaneça com ele por favor? – pede, me olhando diretamente.
—Claro – me prontifico – Aviso doutor Rhodes quando ele chegar? – pergunto. Desde que o pai fora internado uma segunda vez, ele quase não saia daqui.
—Sim, por favor. E por falar nele, gostaria de convidar vocês para uma pequena comemoração que estou organizando mais tarde. É aniversário do Connor e não quero deixar passar em branco mesmo ele não querendo festejar. De novo – convida, baixando o tom no final – Será algo simples, naquele bar que costumam frequentar. Já falei com o proprietário e acertei tudo. Se puderem comparecer agradeço. Um irmão está precisando relaxar um pouco em boa companhia – elogia, sorrindo fraco – Podem convidar mais alguém com quem ele tenha amizade aqui além de vocês e Miss Goodwin, com quem já falei – pede, acrescendo rapidamente – Excerto a doutora Bekker – frisa.
—Certo. Estaremos lá – Daniel se adianta, Sarah, Will e eu concordando com acenos.
—Obrigada. Até mais tarde então – despede-se, saindo.
—Ela parece muito cansada – Reese comenta, seguindo-a com o olhar.
—E deve estar. Mal tem saído de perto do pai mesmo ele tendo toda assistência, dia e noite, incluindo do próprio Connor– Will lembra, enrugando o cenho – Até parece que não confia na equipe do hospital – reclama.
—Ou talvez em alguém aqui dentro já que o digníssimo senhor Cornélius Rhodes é a própria simpatia personificada e tem ganho alguns admiradores por conta desta sua estadia demorada! – comento, os fazendo rir.
—Pois é. Os filhos são gente boa, mas o pai...!! – Will exclama, fazendo outra careta gozada.
—Ah, então acha o doutor Rhodes uma boa pessoa afinal?! – Daniel questiona, rindo.
—Eu nunca disse que não era – defende-se ele – Apenas que é meio arrogante e metido algumas vezes – completa.
—Uhum... Igual alguém que conheço!! – o provoco.
—Não sou não!! – defende-se novamente.
—Ela não disse que era você! – Daniel comenta, não o deixando responder – A conversa está boa, mas é hora de fazer algumas visitas para liberar leitos e pacientes. Sarah, venha comigo e depois quero sua opinião numa coisa – avisa, ela se adiantando para o seguir.
—E não esqueça minha paciente Daniel. Tratamento seis. Foi realizar alguns exames e assim que retorna bipo vocês – Will lembra-o.
—Ok – ele anui, acenando, saindo com Reese a seu lado.
—Vai levar presente para o Connor? – pergunto, fazendo-o me dar atenção.
—Vou. Minha presença – brinca, levantando-se – Tem algo pra mim? – quer saber.
—Tratamento dois. Queda numa pista de skate – respondo, entregando-lhe o tablet.
—Leve, para começar bem o dia – comenta, saindo com seu habitual sorriso bobo e rio, me voltando ao escutar as vozes de Nat e Connor.
—Soube que agendaram a cirurgia de Sophie para depois de amanhã – ele pergunta, parando do lado oposto ao que estou – Como Philip está lidando com isto? – quer saber, pegando um dos tablets sobre o balcão.
—Bem, eu diria, apesar de mal termos nos visto estes dois últimos dias. Os pais da falecida estão na cidade e ele ainda não contou a eles sobre nós – Nat responde e sinto pena ao pensar em Will.
—Entendo. Bom, se tiver chance diga-lhe que está tudo correndo dentro do programado e os exames pré-operatórios dela estão ótimos. Vai acalmá-lo um pouco, acredito – pede ele, distraindo-se um segundo e chamo atenção de Natalie, avisando sobre seu aniversário.
—Direi. E quanto a você, como esta? – ela pergunta o fazendo erguer o olhar do tablet – Um passarinho me contou que hoje é seu aniversário!! – diz e me faço de desentendida quando se volta para mim.
—Um passarinho de cabelo negro, longo e muito curioso, suponho!! – exclama, me dirigindo um olhar divertido.
—Não sei de nada!! – brinco, erguendo as mãos.
—Algum plano para mais tarde? – Nat pergunta enquanto me aproximo mais deles.
—Uau! Está super curiosa hoje não? – ele brinca, nos fazendo rir — Não havia planejado nada, mas Robin me ligou convidando para um jantar...
—Humm... jantar!! Estão bem próximos estes dias! Uma reconciliação a caminho??– pergunto, curiosa.
—Apenas um jantar entre amigos, nada romântico e sim, estamos próximos por conta da operação da mãe dela, nada mais – afirma – Não fiquem teorizando nem vendo coisas onde não existem! – exclama, piscando para nós antes de sair.
—E não é assim que as coisas costumam começar? Amizade? – Nat inquere, me olhando e rindo.
—Pois é – anuo, assustando-a ao estapear minha testa – Se ele vai sair com Robin vai estragar a surpresa que a senhorita Rhodes está preparando no Molly’s – lembro.
—Que surpresa? – Nat pergunta.
—Ela vai fazer um jantar simples, só para os amigos mais próximos. Avisou a pouco...E eu esqueci de avisar que ela foi em casa – suspiro, pegando meu celular, enviando-lhe uma mensagem.
—Talvez seja melhor avisar a Robin. Eles podem passar por lá e depois irem comemorar sozinhos, como ela planejou – Nat sugere.
—Boa idéia. Farei isto assim que a vir – digo, o toque do paiger nos tirando do momento folga – Ambulância chegando – aviso e nos pomos de prontidão, deixando a família Rhodes de lado por hora.
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Connor (12:22 p.m)
—Seus exames estão ótimos, pai. Precisará seguir com a reabilitação cardíaca por mais algum tempo, mas arrisco dizer que pode receber alta entre hoje e amanhã – comunico, encarando-o.
—Até que enfim! Cá para nós, este cozinheiro não sabe preparar um ovo pochet como se deve e pelo dinheiro que venho doando aqui, deveria estar tendo tratamento de hotel cinco estrelas! – reclama com sua empáfia habitual.
—É, já está recuperado! – exclamo, balançando a cabeça negativamente – De qualquer forma, terá de seguir as instruções e prescrições do doutor Latham após sair. Ele talvez vá recomendar que comece fazer alguns exercícios – comento – Bem, vou indo. Tenho dois pacientes para serem liberados. Passo mais tarde para ver como está e falar com Claire – aviso, lhe dando as costas.
—Connor – chama e me volto – Antes que se vá.... Feliz aniversário! – exclama, me deixando momentaneamente mudo – O que? Chocado por me lembrar? – inquere, rindo torto.
—Admito que estou sim – confesso, me aproximando mais de seu leito.
—Olha, confesso que quase esqueci – admite, rindo francamente – Mas sua irmã cismou de fazer uma faxina grande algumas semanas atrás, bem antes de me sentir mal, a fim de doar algumas coisas e enquanto Carlotta estava limpando o sótão encontrou aquela sua antiga máscara das tartarugas ninja! – conta.
—Do meu aniversário de sete anos?? – me espanto.
—Essa mesma – confirma e rio.
—Uau!! – exclamo, me aproximando mais um pouco – A mamãe sabia que adorava aquele desenho e fez o bolo do Donatello para mim. Sozinha – lembro – Ela planejou tudo, cada mínimo detalhe...
—Quer dizer sua babá – ele me interrompe e o encaro.
—Não, quis dizer a mãe. Ela quem planejou...
—Sua mãe não planejou nada. Ela estava em mais um episódio de depressão naquele dia. Ficou no quarto, deitada, por semanas – afirma, tranquilo.
—Não é assim que me lembro das coisas – insisto, seu riso cínico me irritando.
—É? – inquere e nos encaramos por um breve segundo sem nada dizer – Não me surpreende – diz, por fim, ainda rindo, o que só aumenta minha irritação. Podia sentir mais a discursão a caminho.
—O que quer dizer com isto pai? – quero saber, tentando me controlar.
—Apenas o de sempre: você sempre me considerou o pai ausente e sua mãe uma santa! – responde, prosseguindo sem me dar chance falar – Estou te dizendo que não era bem assim. Foi sua babá quem planejou não apenas este, mas a maioria de seus aniversários, e eu paguei, como sempre – assegura – E sua mãe sequer apareceu na...
—Por que sempre faz isso? – o corto – Por que sempre que falamos nela, a deprecia? O que ganha com isso pai? – interrogo.
—Mas não faço isso Connor. Eu apenas...
—Faz sim! Sempre fez. O tempo todo, todas as vezes que o assunto vem à baila! – sustento, alterando levemente a voz, ele fazendo o mesmo.
—Não diria que dizer a verdade seja depreciar alguém – argumenta – E quanto a mim? Como acha que me sinto em relação a isto? Ser depreciado por você sempre...
—Depreciado por mim? Está de brincadeira pai!! Quem me afastou a cada dia? Quem nunca, Nunca, estava presente quando precisava e não me fale do maldito episódio de minha prisão novamente!! – relembro, aquela altura mal conseguindo me controlar – Quem nunca valorizou nada do que fiz e sempre zombou de minhas escolhas? — ataco.
—Zombei? Por ter-lhe mostrado as escolhas errôneas que fez tantas vezes, seja com aqueles seus amigos inúteis, seja com esta profissão ridícula, ou no campo amoroso, onde nem preciso falar o quão infelizes suas escolhas têm sido, considera que zombei de você?! Po tentar abrir-lhes os olhos e chamar a razão estou te depreciando, é isto Connor? – rebate
—Minha vida, minhas decisões! Era seu dever me apoiar e respeitar, sendo elas erradas ou não, e não tentar me derrubar ou me controlar para fazer o que queria!! – devolvo.
—Sempre quis o que era melhor para você. Para os dois!! – retruca.
—Queria o que Você julgava ser bom, não o que nós queríamos!! – rebato, nossa discursão sendo interrompida pela chegada de Ava, que estanca em meio a porta entreaberta.
—Hã... Eu volto depois – diz, fazendo menção se retirar.
—Não. Você fica – ordeno, olhando-o – Estou de saída – digo, passando por ela sem ao menos perguntar que fazia ali posto que Latham dissera que a manteria, como Claire queria, longe do caso.
Naquele momento não estava nem aí para este detalhe. Tudo que queria era sair dali o mais rapidamente possível. Corro pelo corredor para não perder o elevador parado naquele andar, entrando no último minuto. Ainda vejo minha irmã parada em frente ao quarto, me olhando surpresa, antes de as portas fecharem.
Bem que tento não pensar no assunto, mas não consigo. Inconscientemente me pego forçando a memória em busca de ratificar minhas verdades guardadas na mente e no coração durante anos. Por conta disto, tomo a decisão de ir em casa (na casa dele, quero dizer) encontrar respostas.
—Maggie, estou saindo para almoçar. Irei um pouco mais longe que o habitual resolver uma situação. Caso precisem de mim ligue e virei o mais rápido possível – aviso enquanto me dirijo a saída, escutando seu “Ok” antes de cruzar as portas da área de triagem.
Visto o casaco, caminhando apressado para meu carro, jurando baixinho que iria esfregar na cara de meu pai a verdade sobre aquela data em especial. Para meu alívio e sorte, o trânsito estava tranquilo e chego relativamente rápido a casa de meu pai, hesitando um segundo antes de tocar a campainha, Carlotta vindo atender prontamente.
—Connor! – exclama, sorrindo sincera.
—Olá Carlotta. Como vai? – pergunto, abraçando-a.
—Bem, obrigada. Entre – convida, pondo-se de lado – Até parece que adivinhou – diz, se voltando para mim após fechar a porta e enrugo o cenho – Pedi a senhorita Rhodes seu número para ligar e lhe dar os parabéns – elucida e sorrio, aceitando seu abraço – Parabéns. Saúde, paz e muitos anos de vida para você meu querido – deseja, me deixando emocionado.
—Obrigado – agradeço, afastando-me – Carlotta, sabe onde posso encontrar algum álbum de família? – pergunto, direto já que não tinha tempo a perder.
—No escritório de seu pai tem alguns – diz, me conduzindo até lá. Me pego lembrando a noite em que descobri como Ava conseguira o financiamento para a sala hibrida – Era isto que procurava? – Carlotta questiona, me tirando do devaneio, estendendo um álbum grosso com capa em couro.
—Sim, isso mesmo. Obrigado – confirmo, segurando-o com um sorriso no rosto, sentando-me na poltrona, meu riso morrendo devagar na medida em que o folheio – Carlotta, sabe me dizer se há outros álbuns? Entre mil novecentos e oitenta e oito e noventa e quatro? – pergunto, ela se voltando e vasculhando a estante alguns minutos antes de responder.
—Não vejo nenhum. Por quê? – quer saber.
—É que...bem, há poucas fotos de minha mãe aqui – digo, escutando-a suspirar.
—A pobre senhora!! – lamenta, fazendo com que a olhe – Ela não fazia por mal, Connor, mas na maior parte do tempo não era ela mesma. A doença, sabe – afirma e enrugo o cenho, voltando a passar as páginas – O que está te incomodando meu querido? – pergunta após um segundo, pondo a mão em meu ombro.
—Meu pai...ele disse que ela não estava em meu aniversário, nenhum deles e acabamos discutindo, para variar – conto, fechando o álbum – Acho que terei de pedir desculpas a ele – reconheço, suspirando.
—Bem, não é que ele não tenha estado em nenhum, mas infelizmente na maioria de seus, assim como em alguns de Claire, estava em crise. Essa doença é terrível. Destrói famílias – lamenta novamente e noto que ela evita falar a palavra depressão.
—Por que não lembro disso? Por que sempre lembro dela comigo? – questiono-me em voz alta.
—Porque era assim que desejava e como aconteceu algumas vezes talvez tenha sido isso apenas que guardou, os momentos bons junto a ela – diz, afagando meu cabelo carinhosamente.
—E quanto ele? Meu pai estava presente quando ela não estava? – quero saber.
—Algumas vezes – revela – Ele era muito ocupado naquela época. Vivia na e para a loja – conta.
Ou seja, prover a casa e nos oferecer todo o luxo que o dinheiro pode oferecer era mais importante do que a presença física, o carinho, a atenção não tinham importância para ele!!— Obrigado Carlotta. Me ajudou muito – agradeço, levantando-me – Posso levar comigo? Mando de volta por Claire – peço.
—Claro que pode. É tão seu quanto de sua irmã, meu querido. Pode ficar com este se quiser. Aviso ao patrão quando ele voltar – diz, me acompanhando até a porta – Foi muito bom ver você de novo. Apareça mais vezes. Se não por seu pai, por Claire. Ela ficou tão feliz quando voltou a se aproximar. Ai, de repente, se afastou novamente. Sente sua falta – comenta, sorrindo gentil.
—Farei isto – digo, lhe beijando a face – Até Carlotta – despeço-me, minha cabeça girando num turbilhão de emoções envolvendo não apenas meu pai e eu, mas agora, depois do que ouvi, as decisões que tomei recentemente e novamente me pego lamentando minhas escolhas.
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Chicago Med (15:22 p.m)
Narrador
—Mais uma vez, obrigado por terem vindo e desculpem todo este inconveniente – Will pede, caminhando entre Sarah e Daniel – Não sei como puderam transferir minha paciente sem meu aval! Estava escrito no prontuário que deveria esperar avaliação psicológica antes de encaminhar para cirurgia – resmunga, irritado.
—Sem problema doutor Halstead. Erros acontecem em qualquer lugar – Daniel Charles afirma.
—Mas o Med anda abusando de cometê-los ultimamente – rebate o ruivo, bufando – Essa política nova implantada pela Garrett que está atrapalhando tudo por aqui! Contenção de despesas? Pois sim! Até parece que ela quer destruir o Gaffiney – reclama, fazendo o Psiquiatra sorrir torto.
—As vezes tenho essa impressão também – assume ele, pensativo.
—Não acredito que alguém possa querer destruir o próprio local de trabalho – Sarah comenta.
—Isso porque, apesar de tudo que vivenciou no último ano, ainda se mantém pura, de certa forma – Daniel diz, sorridente – É uma crente, Sarah e acho que sempre será, no que dou graças. É reconfortante e refrescante trabalhar com alguém de espírito puro, especialmente, nos dias de hoje, onde o ser humano em si é relegado a segundo plano. Foi está uma das razões que me fizeram trazê-la para a Psiquiatria – confessa ele.
—Hum, pensei que tivesse sido por ser o seu gesto de caridade do mês!! – brinca a médica.
—Oh, isso também! – devolve Charles, no mesmo tom, Will rindo junto com eles.
—Notou como esta palavra nos persegue ultimamente? — inquere o ruivo, desviando de um enfermeiro que passava apressado – Espírito – esclarece ao notar que esperavam a conclusão de seu pensamento – E tudo graças a nossa mais nova exotérica do pedaço: Monique! – exclama, apertando o botão do elevador.
—Ela falou com vocês ou conseguiram escapar? – pergunta o Psiquiatra, mas antes que qualquer dos dois pudesse responder, têm sua atenção chamada por Claire Rhodes, que surge em meio ao corredor, agoniada.
—Socorro! Alguém me ajude, por favor! – pede, o trio correndo a seu encontro.
—O que houve? – Will pergunta, já seguindo-a de volta ao quarto do pai.
—Meu pai está passando mal! – responde, apontando o homem sobre a cama.
—Que aconteceu? – Daniel pergunta enquanto Sarah e Will adiantam-se a examinar Cornélius Rhodes.
—E-eu não sei. Estávamos conversando. Ele parecia bem. Aí fui ao banheiro e quando voltei já estava suando, tremendo e reclamando de formigamento tontura e com sono! – relata, pondo-se de lado para dar passagem a enfermeira que adentrava apressada, os médicos trocando olhares tensos.
—Hipoglicemia!?! – Sarah cochicha, encarando Will.
—Ele não é diabético.... até onde sei – cochicha o ruivo de volta, ficando ainda mais tenso ao escutar o comentário de Claire.
— Não entendo! Fiquei ausente uns vinte minutos. Talvez um pouco mais...e ele...ele estava bem quando sai – diz ela, agoniada.
—É o tempo padrão no qual a insulina começa surtir efeito!! – Sarah exclama, mantendo o tom baixo, recebendo novo olhar mais tenso de Will, ambos notando-a aproximar-se.
—É melhor que fique um pouco distante senhorita, para não atrapalhar – Daniel sugere, a retendo, o som de alerta dos aparelhos deixando a todos tensos.
—Ele está fibrilando. Pode ser um ataque – Will alerta, Sarah iniciando o procedimento de ressuscitação de imediato ao mesmo tempo em que o médico puxa o desfibrilador, pondo-o para carregar – Lucy, 1mg de epinefrina – ordena, a jovem enfermeira atendendo-o.
—Carregado – avisa ela após haver injetado a medicação.
—Afastar – Will comanda, Sarah interrompendo os procedimentos de reanimação, erguendo as mãos permitindo-o aplicar o choque, ambos olhando o monitor. Nada acontece – Recarregar em duzentos e cinquenta joules – ordena o ruivo, Lucy obedecendo-o ao passo que Reese retomando as massagens.
—Por favor, não o deixem morrer! Por favor, por favor!! – Claire implora, chorando copiosamente amparada por doutor Charles.
—Carregado – Lucy avisa novamente.
—Afastar! – a ordem é outra vez dada fazendo com que a médica erguer as mãos de novo, aguardando novo choque, olhando o monitor. Nada – Recarregar em duzentos e setenta, mais 1mg de Epi! – comanda Will, encarando Reese, que recomeçara as massagens impondo maior força e intensidade, os dois cada vez mais tensos.
—Epi aplicada – Lucy avisa.
—Quanto tempo? – Will pergunta.
—Dez minutos – responde a enfermeira.
—Will...- Reese sussurra.
—Eu sei... Afastar!!– comanda o ruivo antes mesmo de a enfermeira avisar, aplicando novo choque.
—Mais o que está acontecendo aqui? – escutam Latham dizer vindo para junto deles, postando-se perto de Sarah, outra voz se fazendo ouvir no quarto segundos depois.
—Claire? Pai? O que houve?? – Connor interroga, aflito, o som de algo caindo pesadamente ao chão ecoando pelo ambiente.
—Connor, papai...ele...ele – Claire responde, tentando segurar o irmão, que se esquivando, indo postar-se entre Will e Lucy, olhando de um para outro.
—Sinais? – Will pergunta, ignorando os questionamentos feitos, retendo o ar ao ver Sarah negar com um movimento curto de cabeça – Epi e recarregar em trezentos! – ordena, Sarah retomando as compressas com o mesmo vigor de antes, mantendo a constância dos movimentos – A terceira é boa, não é o que dizem? – indaga, olhando para Connor.
—Que está acontecendo aqui? – Ava Bekker surge, abrindo a boca, estupefata ante o quadro.
—Epi aplicada.... desfibrilador carregado – Lucy avisa.
—Vamos lá senhor Rhodes, me deixa pagar minha dívida com seu filho!!– Will murmura antes de olhar Sarah, acenando, a médica mais uma vez cessando as compressas e erguendo as mãos segundos antes de o ruivo aplicar mais um choque, aguardando, ansioso, em silêncio como todos a volta – Vamos.... vamos, vamos, vamos, vamos! Não seja um sacana filho da ....- corta o xingamento ao escutar o som ritmado ecoar no quarto silencioso fazendo com que Reese levasse dois dedos ao pescoço do empresário, localizando o ponto de pulsação.
—Temos pulso!! – comemora, soltando o ar que reterá nos pulmões ruidosamente, fechando os olhos, Will fazendo o mesmo, apoiando as mãos ao leito, o suor escorrendo por seus rostos.
—Batimentos normalizando.... ritmo sinusal.... Ele voltou! – Lucy comemora.
—Graças a Deus!!... 2,5 miligramas de Dobutamina... quanto tempo? – Will lembra, seu olhar buscando o relógio, um calafrio percorrendo sua espinha antes mesmo que a enfermeira responda.
—Dezenove, quase vinte minutos – relata ela, aplicando a medicação pedido pelo médico.
—O que isso quer dizer? – Claire quer saber, aproximando-se do irmão – Connor, o que isto quer dizer?? – insiste, sacudindo-o posto que permanecia estático.
—O cérebro de seu pai ficou quase vinte minutos sem receber oxigenação adequada – é Latham quem explica, fazendo-a voltar-se para ele – O que significa dizer que pode estar em coma e vir a ter sequelas quando sair. Se sair – explica o cirurgião, inclinando-se sobre o leito, realizando alguns testes rápidos – As pupilas estão reativas, mas os reflexos não – constata — Manterei acompanhamento rigoroso e se precisar solicitarei avaliação da Neurologia – avisa.
—Neurologia?? Então, meu pai está... Morto??? – pergunta ela, chorosa.
—Não!! – Connor retruca de imediato, saindo do torpor, segurando-a firme, fazendo com que o encarasse – Ele Não está morto! Está em coma e vai sair – diz, categórico, desviando seu olhar para Latham por alguns segundos, dando atenção a irmã novamente – Nosso pai é forte... e teimoso. Vai sair dessa e ainda achar um jeito de me culpar! – afirma, arrancando um sorriso nervoso – E mesmo que tenha sequelas, estaremos aqui, você e eu, lado a lado, para ajudá-lo mesmo que isto me custe perder o resto de sanidade que ainda tenho – brinca novamente, conseguindo mais um sorriso fraco – Venha aqui – abraça-a, afagando o cabelo carinhosamente, deixando um beijo no topo de sua cabeça – Ele vai ficar bem – reforça, murmurando um “ Obrigado” por sobre a cabeça dela para Will e Sarah, que sorriem fraco, afastando-se juntamente com Latham, Daniel e Ava, o Psiquiatra agachando-se rapidamente, colhendo algo que vira no chão com um lenço, levando ao bolso do jaleco, dando uma última olhada nos irmãos antes de fechar a porta do quarto.
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Daniel Charles (16:06 p.m)
—Doutor Latham, que aconteceu? – escuto Sharon perguntar ao se aproximar da ilha de enfermagem da Cardiologia, aonde nos encontrávamos, acompanhada por Miss Garrett – Fui informada pela enfermeira chefe do setor que o senhor Rhodes estava em parada cardiorrespiratória – relata, dirigindo seu olhar a Sarah e Will, que enxugavam os rostos com toalhas de papel.
—Que faz aqui em cima doutor Halstead?? – Miss Garrett questiona de forma pouco amistosa e para evitar um mal-estar maior, responde antes que o faça.
—Uma paciente do doutor Halstead foi enviada para cá antes que pudesse realizar a avaliação que ele me pedira, por isto se viu obrigado subir conosco — relato, ainda assim não conseguindo evitar que Will responder a altura.
—E até onde sei, nada impede um médico do PS vir a qualquer setor do hospital. Ainda – alfineta, claramente irritado.
Não poderia lhe tirar a razão afinal faz parte da equipe, o que lhe dá o direito de ir e vir por todos os setores se ou quando necessário. Era estranho ela fazer este tipo de questionamento, o que somente servia para reforçar as teorias que andavam se espalhando pelos corredores nos últimos meses: ela parecia querer enfraquecer a unidade existente na equipe (que por sinal anda bastante abalada) e com isto acabaria por comprometer a qualidade do atendimento. Entre outras coisas.
—Não disse que não poderia estar aqui. Apenas estranhei sua presença já que isto significa dizer que a equipe do PS está momentaneamente reduzida – defende-se, encarando-o e novamente intervenho para apagar mais um provável incêndio.
—Certamente. E nem o doutor Halstead, nem a doutora Reese ou eu mesmo, pretendíamos nos demorar mais do que o necessário, porém fomos em socorro a senhorita Rhodes – argumento – Estou certo que isto justifica nossa demora – completo, me voltando para Latham ao escutá-lo falar.
—Ainda não sei o que aconteceu ao senhor Rhodes. O último relatório me passado pela doutora Bekker no final da manhã dizia estar tudo bem com ele...
—E estava!! – Bekker adianta-se antes que ele terminasse de falar – Todos os sinais, tudo estava conforme o esperado ou teria reportado ao senhor – afirma, parecendo desconfortável com algo.
—Estou certo que sim doutora Bekker. Não estou questionando sua avaliação – garante ele, sério – Mas algo aconteceu entre sua visita e agora a pouco e precisamos descobrir o quê a fim de evitar novo quadro, o qual não creio o senhor Rhodes irá resistir – alerta e aproveito a “deixa”.
—Talvez isto possa nos ajudar a entender o que aconteceu – digo, retirando a seringa de meu bolso.
—Uma seringa?? – Sharon inquere, me olhando confusa.
—Onde encontrou doutor Charles? – Will pergunta, enrugando o cenho.
—No quarto, próximo aonde estava o desfibrilador. Quando o puxou, vi ela rolar para o canto da parede. Peguei quando saiamos – revelo, buscando com o olhar algo onde pudesse guardá-la – Judy, poderia me arranjar um saquinho plástico? Destes que colocam amostras para o laboratório – peço a enfermeira, ela me atendendo.
—Como uma seringa pode esclarecer o que houve ao senhor Rhodes? – Garrett contesta – Aliás, isto serve para mostrar o quanto os enfermeiros de nosso quadro andam desatentos e relaxados em serviço! Não recolher material usado ao local adequado é falta grave passível de punição – declara, irritada – Se acontece de ser um fiscal ou algum parente de paciente a encontrar ou mesmo fotografar, seremos multados e notificados pela vigilância. É simplesmente inadmissível este tipo de erro – discursa.
—Concordo plenamente – anuo, pondo a seringa no saco entregue por Judy, lacrando-o – Mas, neste caso, agradeço a falha – digo, recebendo olhares confusos.
—Ainda não entendi como isto pode nos ajudar, doutor Charles – Sarah confessa e sorrio-lhe.
—Simples, minha querida. Com qual quadro encontramos o senhor Rhodes tão logo atendemos ao pedido de ajuda de sua filha? – inquiro.
—Hipoglicemia – responde, direta.
—Hipoglicemia? – Latham repete, surpreso – Impossível! Cornélius Rhodes não é diabético – relata, me encarando.
—Sei disso – respondo, sustentando seu olhar – Mas foi exatamente um quadro de Hipoglicemia que encontramos, confirmado, no decorrer do atendimento, pelas informações passadas pela senhorita Rhodes – afirmo, tranquilo – Aliás, sugeriria passar usar soro...
—Glicosado! – Will adianta-se, caminhando apressado de volta ao quarto sem se importar com as presenças de Bekker, Latham e principalmente, Garrett.
—Mas o que ele pensa estar....
—O senhor Rhodes estava no final de uma convulsão e antes, segundo relatado pela senhorita Rhodes, conforme doutor Charles acaba de dizer, reclamou de formigamento, tontura e sonolência, o que claramente condizia com quadro de Hipoglicemias– Reese a corta (me surpreendendo, não nego, posto que parecia retrair-se quando na presença dela) e novamente aproveito a deixa.
—O que nos leva a utilidade desta seringa – faço-os voltarem sua atenção para mim novamente – Como já foi dito, duas vezes – friso, ajustando meu óculos ao encarar a doutora Bekker – Nos deparamos com um quadro de Hipoglicemia, o que obviamente levou o senhor Rhodes a beira da morte – dramatizo só um pouco – O que nos leva a perguntar: como é possível alguém que não é diabético ter uma crise Hipoglicemica? – questiono-os na intenção de eu mesmo responder, mas Will o faz antes.
—Recebendo uma aplicação de Insulina – responde, parando a meu lado – Está achando que alguém neste hospital tentou matar o pai do Connor? – pergunta, direto.
—Como assim matar? – Garrett interroga, tensa – Não pode sair por aí fazendo acusações deste tipo doutor Halstead. É algo grave demais para ser tratado com leviandade – acusa.
—Não estou sendo leviano nem acusando ninguém. Estou apenas constatando os fatos que estão se apresentando – defende-se – Um paciente não diabético recebeu....
—Pode ter recebido – o corrijo.
—Pode, ao que tudo indica, ter recebido uma dose de Insulina, o que quase causou sua morte, nada mais – sustenta.
—Não exagere Halstead. Rhodes vai se recuperar. Como o próprio Connor reconheceu, é forte e teimoso – Bekker minimiza.
—Doutora Bekker, percebeu que a única razão para o senhor Rhodes estar vivo deve-se ao fato de os doutores Charles, Halstead e Reese terem vindo aqui, ver uma paciente? – Sharon interroga, assumindo uma postura rígida – Se não estivessem aqui, se não tivessem atendido prontamente ao chamado de Claire Rhodes, Connor Rhodes estaria, neste exato momento, confortando a si mesmo e a irmã por haverem perdido o pai de maneira tão abrupta e inesperada – observa, bastante irritada – Entende as implicações do que está sugerindo doutor Halstead? – questiona-o.
—Entendo Miss Goodwin, por isto não estou acusando, apenas relatando os fatos – reitera.
—Ninguém irá levantar nenhuma acusação antes realizarmos exames e periciar esta seringa – Latham determina, pegando o tablet novamente – Judy, colete sangue do senhor Rhodes e mande para o laboratório em caráter de urgência – ordena, terminando de digitar o que acredito ser a solicitação dos exames.
—Sim senhor – prontifica-se ela, indo fazer o que lhe fora ordenado.
—E quanto a seringa? – Sarah pergunta, me encarando.
—Podemos pedir que examinem também – Garrett sugere.
—Isso. Irei levá-la pessoalmente – prontifico-me.
—Faça isso Daniel e me comunique assim que tiver o resultado – Sharon pede – Peço que faça o mesmo doutor Latham – acresce, meu colega anuindo com um aceno afirmativo – Enquanto isto, peço que não comentem este assunto com mais ninguém – recomenda.
—E quanto ao Connor? Ele tem direito de saber o que houve – Will pondera.
—Mas não hoje. Não agora. Já é suficiente estar passando por tudo isto justo no dia de seu aniversário – Sarah comenta, olhando em direção ao quarto, nos induzindo fazer o mesmo – Ele e a irmã merecem uma trégua – finaliza.
—De acordo – concordo, emocionado em ver os irmãos juntos ao leito do pai apesar de todas as diferenças entre eles, de tudo que enfrentaram até agora, me voltando para Sarah e os demais – Mas tão logo tenhamos os resultados em mãos, iremos comunicar aos dois o que aconteceu. É direito deles saber – aviso.
—Certamente doutor Charles. Nada será escondido ao doutor Rhodes e sua irmã – Garrett garante – Mas antes precisamos nos salvaguardar contra um possível processo, senão por eles, pelo pai – diz – Aliás, vou ligar para o jurídico agora mesmo. Quanto mais cedo tomar as providencias cabíveis melhor – afirma, saindo sem mais nada dizer.
—Nisso ela está certa. Rhodes pai não vai perdoar!! – Will comenta, suspirando – Miss Goodwin, que vai fazer enquanto os resultados não saem? Hoje e amanhã não, porque estou certo de que Connor e a senhorita Rhodes não irão arredar pé do quarto nem para comer – afirma, nos fazendo olhar em direção a eles novamente – Mas depois, quando ele estabilizar e não correr mais nenhum risco...Como vai ser? – pergunta – Porque irá precisar ficar interno mais tempo e caso essa suspeita se confirme...Não me leve a mal, mas não dá para confiar deixá-lo sozinho no quarto. Bastaram trinta minutos para tudo dar errado. Ou quase – lembra.
—Entendo seu ponto de vista doutor Halstead e pretendo, em caráter preventivo a princípio, colocar um guarda junto ao quarto, discretamente para não causar desconforto em ninguém – avisa – Também peço que limite o acesso ao senhor Rhodes, Isidore. Apenas você, os filhos e mais uma ou duas enfermeiras além, é claro, de vocês três – aponta de mim para Sarah e Will. Não deixo de notar a expressão contrariada da doutora Bekker – Quero controle total sobre quem entra e sai, especialmente no que se refere a medicação. Tudo, absolutamente tudo, deve passar por seu crivo – alerta.
—E passará – assegura Latham, voltando-se para Ava – Doutora Bekker, sei que não concorda, mas peço-lhe que faça como pedi-lhe mais cedo. Mantenha-se distante. Não pelo ocorrido, de forma alguma. Peço por causa da senhorita Rhodes – recomenda.
—O que julgar melhor doutor Latham – anui ela, seca.
—Agora que todos concordamos, peço que voltemos a nossos afazeres – diz – Mantenha-me informa sobre o estado do senhor Rhodes, por favor – pede, Latham anuindo com novo aceno – Peço o mesmo a você Daniel – acresce – Vou ter uma palavrinha com doutor Rhodes e a irmã e antes que me esqueça, doutor Halstead, doutora Reese, bom trabalho – elogia, sorrindo-lhes gentil, caminhando até o quarto sob nossos olhares.
—Vamos. Retomemos nossos afazeres como Sharon pediu – convido, dando atenção a Sarah em especial – Reese, vou ao laboratório entregar a seringa e depois a encontro na minha sala. Quero passar as instruções para seu plantão de logo mais – aviso, caminhando em direção aos elevadores tendo os dois alguns passos atrás.
—Vai dobrar turno hoje? – escuto Will perguntar.
—Uhum – confirma – Para cobrir minha falta da semana passada – justifica.
—Ah!! – Will limita-se dizer, seu paiger tocando naquele momento – Graças isto não aconteceu enquanto a fera estava por perto!! – exclama, torcendo o nariz.
—Sorte mesmo ou levaria uma bela bronca – comento, apertando os botões referentes aos andares da Emergência e da Patologia.
—Nem quando sou herói escapo de receber bronca – resmunga e rio discretamente.
—Não é sempre assim com os verdadeiros heróis? – inquiro, ambos, ele e Sarah, fazendo caretas de desagrado – É a vida meus queridos. É a vida – acresço, recostando-me ao fundo quando o elevador para no PS – Encontro você daqui a pouco Sarah – reafirmo.
—Ok. Vou só trocar minha blusa e sigo para lá – avisa e somente então noto a mancha escura no seu flanco esquerdo – Nada sério, não se preocupe – tranquiliza-me ao notar minha preocupação, acenando antes que as portas fechassem.
Na patologia, converso com Joey e Nina, explicando-lhes não apenas a urgência, mas também a importância dos exames pedidos por Latham e agora do meu pedido, bem como friso que nada que descobrissem deveria ser divido com qualquer membro do staff além de Sharon, o próprio Latham ou eu. Ninguém mais. Nem mesmo Connor (me preocupava a reação dele em caso de confirmarmos a suspeita de tentativa de assassinato do pai, admito) recebendo deles o compromisso formal de que assim o fariam.
Deixo a Patologia um pouco mais aliviado, me preparando mentalmente para mais uma batalha, está pessoal: convencer Ceci aceitar minha proposta.
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Connor (01:28 a.m)
Estico pernas e braços, girando pescoço e ombros para aliviar a tensão, dirigindo meu olhar primeiramente a Claire, observando-a dormir abraçada ao álbum que havia trazido comigo, depois a nosso pai.
Latham e Abrams haviam passado por aqui antes de encerrarem seus turnos, um verificando medicação e sinais, outro realizando alguns testes para determinar o nível de consciência de meu pai. Conversamos, eles e eu apenas, honestamente, sobre a real situação dele e suas chances de sobrevivência (ainda corria risco de morte. Mínimo, mas corria) bem como as prováveis sequelas. Segundo Sam, o coma no qual se encontrava não era profundo e poderia despertar a qualquer momento. Quando isto ocorresse, teríamos uma noção de quais áreas e o quanto foram afetadas.
No geral, as chances eram boas, desde que não sofresse uma nova parada nas próximas vinte e quatro horas. Foi mais difícil do que pensei escutar isto. E mais difícil ainda contar para minha irmã. Por sorte Daniel estava presente quando falei com ela e me ajudou.
Da mesma forma, Maggie e April apoiaram-na (e a mim) quando passaram por aqui após seus respectivos turnos terminarem. Will, Ethan, Robin e sua mãe, Ceci (com Daniel mais uma vez) fizeram o mesmo antes de irem embora e até Miss Garrett viera prestar solidariedade. Na verdade, quase todos meus colegas haviam dado uma passada rápida por aqui. Apenas Ava não o fizera, por motivos óbvios. E Sarah. Ela não tinha aparecido após ter socorrido meu pai. Ia perguntar a Daniel, mas a presença de Robin me inibira, confesso. Não que estivéssemos em processo de reconciliação. Não estávamos. Mas o clima entre nós havia ficado estranho depois que descobriu meu caso com Ava e perguntar por outra mulher poderia gerar um desconforto maior tanto com ela e quanto com Claire. Minha irmã andava mais sensível a meus relacionamentos após o que se passara entre nosso pai, Ava e eu. Antes até. Ficara bastante frustrada com tudo que havia acontecido a Robin e culminara com o término de nosso relacionamento. E agora toda está situação. A pouparia de toda e qualquer situação desagradável provocada por mim e meus casos, sendo eles legítimos ou não.
—Café! – sopro, me esticando novamente – Preciso de um café bem quente! – murmuro, me levantando silenciosamente, cobrindo Claire com a manta com cuidado para não acordá-la, pondo o álbum sobre o braço do sofá que fora trazido para ela juntamente com uma cadeira, destas que alongam, para mim.
Ela demorara uma eternidade a adormecer, tempo que usáramos para conversar um pouco sobre nossas vidas, nossas escolhas, rir e chorar com as lembranças de aniversários passados, meus e dela. Sorrio, afagando seu rosto com as costas da mão. A seguir vou até meu pai. Verifico seus sinais, leio (pela milésima vez, provavelmente) seu prontuário, checando cada medicação aplicada, horário e quando teria de receber nova dose, calculando o tempo que tinha para ir a máquina de café no final do corredor e retornar antes que a enfermeira viesse aplicá-la. Ninguém dizia nada, mas senti no ar que algo estava acontecendo. Algo grave e que envolvia o que aconteceu.
—Seja o que for, descobrirei, mais cedo ou mais tarde. E até lá, cuidarei para que fique bem, pai – prometo em voz baixa, tocando sua mão por breves segundos antes de lhe dar as costas e sair.
Fora do quarto, olho a volta visualizando a enfermeira plantonista e...um segurança?? Por que colocariam um segurança neste andar? , penso, seguindo meu caminho depois de cumprimentar a mulher, que me sorri gentil.
—Parece que todos já sabem o que aconteceu – resmungo, baixando o olhar.
Não gostava de ter minha vida particular exposta como vinha acontecendo nos últimos meses quando de meu relacionamento com Robin e agora com Ava. Devo reconhecer que numa coisa meu pai estava certo em outra coisa além da ausência de minha mãe: fui infeliz em minhas escolhas amorosas recentes.
Suspiro longamente, parando em frente a máquina de café. Pego um dos copos médios, encho-o e tampo, repetindo o processo outra vez. Iria levar mais um para o caso de Claire estar acordada quando voltar.
—Ou para mim mesmo – murmuro, suspirando.
Refaço o caminho para o quarto notando, pela primeira vez (que me lembre) o quanto o hospital ficava silencioso àquela hora da madrugada. Passo pela ilha cumprimentando a enfermeira novamente, notando que o segurança mudara de posição, postando-se quase a frente da porta, afastando-se, discretamente, na medida em que me aproximo.
O cumprimento com um aceno fazendo-o saber que percebera sua presença. Abro a porta e estanco, surpreso, ao me deparar com Reese de pé junto ao sofá, folheando meu álbum de fotografias, ela desviando o olhar das páginas ao perceber não estar mais sozinha.
—Olá – cumprimenta – Estava no chão – diz, como que pedindo desculpas por estar mexendo em algo que não lhe pertencia.
—Tudo bem — digo, fechando a porta om cuidado, indo até ela – Dobrou plantão? – pergunto, oferecendo um dos copos que trazia.
—Sim. Cobrindo o dia que faltei – conta, aceitando após colocar o álbum de volta aonde o deixara – Como ele está? – quer saber, indicando meu pai com um gesto de cabeça.
—Bem, na medida do possível – respondo, olhando-o rapidamente, lhe dando atenção logo em seguida – Graças a você e Will está vivo – declaro, encarando-a na penumbra – Obrigado – agradeço.
—Por nada, mas fizemos o que qualquer médico faria em nosso lugar – afirma, sorrindo minimamente – Como está? – pergunta – Digo, como estão, o senhor e sua irmã? – corrige-se rápido, sorvendo um gole do café, inclinando-se o suficiente para colocar o copo sobre o braço do sofá, perto do álbum.
—O mesmo vale para nós – digo, rindo sem vontade, fazendo o mesmo com meu copo – Claire é mais forte do que parece e eu, bem, estou calejado, a esta altura da vida, para enfrentar este tipo de situação, estando ou não um ente próximo envolvido – declaro, ela olhando-me, séria, por um segundo.
—Quero saber como Connor Rhodes está. O médico já sabia que estaria bem – retruca, me deixando sem reação – Esquece que passei por algo semelhante pouco tempo atrás? – lembra, sorrindo triste, o amargor em sua voz não me passando despercebido.
—É, esqueci – admito, sustentando seu olhar, a lembrança de tudo que ela sofrera apenas alguns meses passando rapidamente em minha mente – Me sinto quebrado como nunca me senti antes! – confesso – Tínhamos discutido, ele e eu, algumas horas antes do que aconteceu. Fui em casa em busca de uma prova que meu pai estava mentindo ao afirmar que era minha mãe a ausente em meus aniversários e não ele. Queria esfregar o que julgava ser verdade na cara dele. Estava com raiva por ele mais uma vez a ter depreciado – admito, o nó em minha garganta quase me impedindo falar – Descobri que minha verdade não era tão verdade como pensava. Que minhas lembranças podem não ser tão fidedignas quanto gostaria – paro, tomando fôlego para prosseguir – Sai daqui tão cheio de mim, tão confiante e voltei abalado. E fiquei ainda mais abalado ao vê-lo ali, inerte, quase morto. Eu...- antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela me interrompe com um abraço. Um abraço forte, quente e sincero que tem o poder de me fazer baixar a guarda e me entregar as lágrimas.
Choro. Sem reservas. Sem pudor. Sem vergonha. Em silêncio. Apenas choro, abraçando-a de volta.
Durante um tempo impreciso permanecemos na mesma posição, sem nada dizer. Uma sensação de alívio e conforto me tomando, permanecendo comigo mesmo após o contato entre nós cessar.
—Não se sinta culpado pelo que sentia naquele momento. Reagiu ao que estava experimentando, nada mais – aconselha, me encarando novamente – Isto não o torna melhor ou pior do que ninguém, muito menos um mau filho ou má pessoa. O que importa é de agora em diante. O que pretende fazer e como irá lidar com os fatos daqui para frente. Estou certa de que saberá gerenciar seus sentimentos – afirma, deixando um sorriso calmo transparecer – E se precisar, estaremos aqui, doutor Charles e eu, para lhe ouvir e apoiar, assim como sua irmã e amigos – declara.
—Sei disso e agradeço – digo, puxando o ar com força, o toque baixo de seu paiger impedindo-me falar.
—Preciso ir. Estarei aqui até as sete. Se precisar conversar, é só chamar – prontifica-se, tocando meu ombro, passando por mim.
—Sarah – chamo ao mesmo tempo em que a retendo-a pelo pulso, fazendo-a estancar e se voltar.
—Sim – responde, me olhando atenta.
—Obrigado – digo após breve silêncio – Por tudo – acresço, fazendo memória particular a noite em que me ajudou Molly’s, me aproximando mais dela, como que atraído por uma força desconhecida, minha mão deslizando até segurar a sua.
Quando me dou conta, a estou beijando, nossos lábios colados, movendo-se lentamente numa carícia simples, singela. Nada havia de sensual ou sexual. Nenhum desejo impulsionando para que aprofundássemos o contato. No entanto, não era um beijo de amigos. Sentia isto em cada poro de meu corpo. E tão inesperadamente quanto começou, termina.
—Eu... preciso ir – sussurra, afastando-se lentamente.
—Ok – respondo, esticando o braço, nossas mãos separando-se sem pressa -Bom final de plantão – desejo.
—Obrigada – agradece me brindando com mais um sorriso antes de se voltar e sair, me deixando estático a olhar o espaço vazio.
“...Nada resta, mas o fruto que se tem;
É o bastante pra querer;
Um minuto a além do que eu posso andar com você...
O amor fez parte de tudo que nos guiou;
Na inocência cega;
No risco das palavras;
E até no risco da palavra;
Amor ...”

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