Notas iniciais
Como dizia Rose: " E já fazem oitenta e quatro anos..." Olá flores!! A sumida apareceu. Se ainda resta alguém por aqui, quero primeiramente agradecer por não desistirem. As coisas andaram e andam meio loucas, mas dentro do possivel vou prosseguir. Agradecendo a lindeza de capa que a Marielle fez, Te I Love U Chuchu!!, vamos para mais alguns momentos de tensão, riso e suspense porque sou dessas. Boa leitura. Bjinhos Xerinho

“Tu, é trevo de quatro folhas;

É manhã de domingo à toa;

Conversa rara e boa;

Pedaço de sonho que faz meu querer acordar;

Pra vida, ai, ai, ai;

Tu, que tem esse abraço casa;

Se decidir bater asa;

Me leva contigo pra passear;

Eu juro afeto e paz não vão te faltar;

Ai, ai, ai….”

Trevo (Tu)

Anavitória part. Tiago Iorc

Flat Village (sábado, 17/8 — 22:43 p.m)

Marcel

Respiro fundo enquanto entro no elevador, passando a mão pelo cabelo antes de apertar o botão correspondente ao andar no qual Jade está temporariamente hospedada.

Se estranhei minha afilhada ligar tão tarde da noite me pedindo para ir vê-la quando ela mesma, horas antes, me pedia, não, exigia, mais espaço? Estranhei. Muito. Se fiquei preocupado? Evidente que sim. Ainda mais ao notar o tom urgente e ao mesmo tempo choroso em sua voz. Jade não fazia o tipo dramático…na maior parte do tempo. Claro que, como uma adolescente normal que é e por ser filha de quem é (neste caso, especificamente falando, me refiro a sua falecida mãe!), ela tem seus momentos de drama, rebeldia, contestação, revolta, etc, etc, etc…. E já que eu não tinha como saber em qual categoria aquele inesperado telefonema se encaixava, e como bom padrinho que sou, me vi dispensando um encontro que levaria a uma transa certa e que demorei meses a conseguir, para atender seu chamado.

—Jade,ma cher, eu te amo…mas sinceramente espero que a causa seja justa! — resmungo, pensando na enfermeira loira alta e esguia que dispensei para vir em seu auxílio, um suspiro pesaroso, escapando sem que pudesse impedir — Tem de ser algo Muito justo! — reforço, saindo mal as portas abrem, caminhando a passos largos até o apartamento dela.

Mal toquei a campainha, me vi envolvido em um abraço carente.

—É…pela recepção a causa é justa! — soprei, fazendo-a se afastar minimamente, me encarando de cenho franzido -* Mon truc, ma cher!...coisa minha — dou de ombros, sorrindo gentil — Então…Onde é o incêndio? — perguntei, seguindo-a para dentro do apartamento.

—Então….- diz, cautelosa, fechando a porta enquanto me acomodava no sofá, pressentindo que não iria gostar da resposta — *J’ai fait exactement ce que tu voulais que je ne fasse pas!! — declarou, me deixando ligeiramente confuso.

—Você fez exatamente o que eu não queria que você fizesse???? -interroguei, abrindo levemente os braços.

—Eu fiz exatamente o que você queria que eu não fizesse! — repetiu, mais devagar, mas…

—Fiquei na mesma!! — exclamei, enrugando o cenho, a “ficha” caindo logo em seguida — Espera ... .por acaso está querendo me dizer que você….

—Procurei meu pai! — dispara, apertando as mãos, ansiosa — Na verdade eu brotei na porta da frente dele algumas horas atrás e me apresentei oficialmente como sua filha. Contei como havia descoberto, acidentalmente, não ser filha biológica do homem que me criou, contei como minha mãe conheceu ele cerca de um mês depois de ele ter ido embora do Rio de Janeiro, como ela se apaixonou e casou e foram morar na França e, e, e…-engasga, visivelmente emocionada — Sobre o acidente no qual mamãe e Elry morreram após terem contado toda a verdade para mim…sobre como me senti perdida e só… sobre minha decisão em vir procurar por ele — resumiu, desabando no espaço vago ao meu lado no sofá, seu desânimo denunciando , conforme eu previa, que o encontro não fora nada do que ela esperava, ainda que insistisse em dizer não haver criado expectativa alguma a este respeito sempre que eu perguntava.

—Hummm…- murmurei, refletindo um segundo sobre o que diria a seguir — E por que raios tomou essa decisão sem me consultar? — questiono-a, erguendo o indicador, silenciando-a momentaneamente — Esquece. Pergunta errada. A correta é: por que raios foi se antecipar quando te pedi para ter só um pouco mais de paciência? — reformulei, a expressão em seu rosto me pondo em alerta.

—Não se zangue com ela, por favor — pede antecipadamente, me dando a certeza de que não iria gostar do que diria — Mon grand père escutou Monique falando ao telefone com você e meio que obrigou ela coletar fios de meu cabelo, naquela noite na galeria, com a finalidade de realizar o teste de DNA e como você havia me alertado a respeito da relação complicada entre os dois, presumi que o resultado seria motivo de briga entre eles e eu não suportaria isso, Marcel! Não quero causar discórdia do meu avô com meu pai!! — choramingou e não consegui evitar um bufo irritado.

—Em primeiro lugar, minha querida, sinto lhe dizer que seu avô e seu pai não precisam, necessariamente, de motivos para se estranhar, por assim dizer. O simples ato de dividir o mesmo ambiente por mais de uma hora é suficiente para causar um atrito entre os dois — afirmei, olhando-a com carinho — É certo que depois de tudo o que enfrentaram recentemente, uma trégua foi selada. Até quando irá durar, só Deus sabe! — exclamei, erguendo as mãos — Em segundo lugar, como posso culpar Monique se fui eu a ligar para ela quando sabia que estava a serviço dos Rhodes? Falha grosseira de minha parte — assumo — Qualquer dos três poderia ter-nos escutado conversando, inclusive o próprio Connor — digo, suspirando longamente ao mesmo tempo em que cocei o queixo — É…ir até Connor antes que Cornélius o fizesse não foi totalmente errado, afinal agora ele estará preparado para quando o pai o procurar tendo o teste de paternidade em mãos — comento, fazendo careta ao pensar que teria de enfrentar, por assim dizer, os questionamentos e perguntas do Connor. Isso no mínimo.

—Eu falei pra ele que você tinha me aconselhado a aguardar um pouco, relaxa — ouço-a dizer e sorrio.

—Eu realmente preciso aprender a ser menos transparente — brinco, ficando sério logo em seguida — Esquecendo um pouco minha situação, esquecendo seu avô, essa sua tristeza tem motivo? Seu pai te destratou ou…

—Non!! Pas question! …De maneira nenhuma! — assegura rapidamente — Ao contrário. Ele até que recebeu tudo com calma e tranquilamente — diz, fazendo uma careta gozada — Calma e tranquilamente demais, na verdade. Achei-o até um pouco…- reflete um segundo, “martelando” o dedo no queixo

—Frio? — sugeri, recebendo um riso de canto de boca.

—É…talvez frio seja a palavra — admite — Ou distante demais, não sei — dá de ombros — Não é que esperasse fizesse festa, me recebesse de braços abertos ou algo do gênero, mas a forma como ele reagiu, tão formal e distante, me desapontou um pouco -confessou, tristonha.

— E isso porque não havia criado expectativas, não é mon cher?? — não resisti uma pequena provocação, não dando chance revidar — Escute Jade, não sei se percebeu mas nós americanos, e me incluo no pacote, não somos conhecidos por sermos efusivos ou calorosos na hora de demonstrar nossos sentimentos, especialmente mediante situações inesperadas, tipo uma filha adolescente brotando na porta da frente!! Connor não seria diferente, ainda mais tendo o histórico familiar que ele tem — argumento, ganhando um sorriso tímido — Ele vai precisar de um tempo para processar tudo, mas garanto, pelo pouco que o conheço, que irá querer uma aproximação muito em breve.

—É, eu sei. Ele falou exatamente isso — revela — Conversamos bastante, só eu e ele, e admitiu ter ficado em choque mas que iria querer sim me conhecer melhor e que eu também o conhecesse. Marcamos de nos ver no próximo final de semana, no sábado ou domingo, ainda não sei. Ele ficou de confirmar dia e hora — conta e aceno afirmativamente.

—Mais provável que seja o domingo porque estará de plantão no sábado — concluo, Sarah me vindo a mente — Ambos estarão, ele e Sarah, o que me lembra: como ela reagiu? — quero saber, curioso já que, segundo me consta, a namorada de Connor não gosta nadinha de surpresas.

—Bem — responde, mordendo o lábio e enrugando o cenho — Eu diria até melhor do que pensei — admite — Não que esperasse um escândalo ou algo do tipo…

—Isso definitivamente não faz o estilo dela!! — intervi.

—Verdade — anuiu, sorridente — A Reese é bem legal. Mas confesso que fiquei surpresa com a calma com que recebeu a novidade. Achei que iria ao menos ficar chateada ou irritada, afinal acabou de decidir morar junto com meu pai e já ganha de bônus moi!! — brinca, apontando a si mesma.

—Talvez os golpes recentes que recebeu da vida a tenham feito enxergar as coisas de uma maneira mais tranquila, suponho — digo, dando de ombros.

—Ou talvez tenha querido apenas agradar meu pai — rebate.

—Pouco provável — afirmo — Não seria nada inteligente implicar com um relacionamento que ele teve anos luz atrás e estou certo de que ela sabe disso — completei, relembrando o pouco que sei a respeito de Sarah Reese — Assim como seu pai, Reese enfrentou uma barra bem pesada com o pai não faz muito tempo. Não estou inteirado dos fatos, não tenho intimidade com ela para saber assuntos familiares, mas pelo que ouvi e pelo que Monique me falou, foi algo tão forte que a fez partir da cidade por um período — comento, sacudindo a cabeça a fim de organizar as ideias — Bom, o importante é que ambos te receberam bem e agora as portas estão abertas para você — comemorei.

—Pelo menos até meu avô intervir — lembra, fazendo uma careta tão exageradamente sofrida que foi impossível não rir — Para Marcel! Não ri — reclama, me estapeando.

—Mon cher, seu avô não é flor que se cheire, verdade, e a prova foi ter manipulado Monique para obter o que queria. Mas ainda está em recuperação e pelas informações que tive através dela, algo nele parece ter mudado para melhor, mesmo que não tão abertamente — revelo — Quem sabe um novo Cornélius vem aí, não é mesmo? Menos intransigente, menos briguento e rabugento, mais sociável, especialmente com os filhos — sugiro, ela suspirando.

—Je l’espère, mon cher! Je l’espère!!* (Assim espero, meu querido!)

—Cadê aquela Jade otimista e animada que eu conheço? — questiono-a.

—Se escondeu debaixo da cama!! — responde, fazendo memória do seu tempo de criança, quando se escondia sob a cama sempre que aprontava alguma arte.

—Pois trate de tirá-la de lá!! — ordeno, trazendo-a para um abraço — Relaxe, ma pettit. As coisas vão se ajustar, você vai ver — asseguro, afagando seus cabelos.

Durante um bom tempo permanece assim, quieta, em meus braços, em silêncio, tal qual ficará no dia em que a visitei após a morte dos pais, até que, saindo da inércia num “salto”, algo tipicamente seu, decide tomar um lanche e retomamos a conversa com temas mais amenos.

Passava um pouco da uma da manhã quando a deixei adormecida no confortável sofá em seu apartamento, e parti para a balada. Precisava jogar fora a tensão que acumulei durante nossa conversa e nada melhor do que alguns drinks… e uma boa companhia!

*****Connor (domingo, 18/8 — 09:30 a.m)****

Abro os olhos, piscando-os algumas vezes, tentando entender o que havia me feito acordar. A princípio, julgo ter sido a sutil e ritmada “massagem” em minhas costas que Persie realizava, mas logo percebi estar enganado.

Enrugo o cenho, movendo a cabeça para a esquerda, sorrindo de forma débil ao me deparar com o rosto doce e sereno de minha namorada, que dormia profundamente.

Ignorando o protesto da bolinha de pêlos número dois, ergui o tronco, me apoiando nos cotovelos, admirando-a. Dormindo daquele jeito, seus belos e rebeldes cachos espalhados sobre o travesseiro formando um halo dourado em volta de sua cabeça, parecia uma fada misteriosa e perigosamente bela. Suspiro pensando no tempo que perdi vivendo relacionamentos vazios e tóxicos, cada um me levando a um poço de incertezas e dor maior do que o anterior.

Suspiro, afastando cuidadosamente uma mecha dourada e me pego imaginando o que teria acontecido se tivéssemos nos envolvido lá atrás, quando ela ainda era uma estudante tímida e eu um dos responsáveis por orientá-la. Se eu tivesse dado um pouco mais de atenção àquele friozinho no estômago sempre que passávamos um tempo maior juntos ao invés de ignorá-lo.

— Eu não estava pronto para você — murmuro, desenhando o contorno delicado de seu rosto com cuidado para não acordá-la, um novo ruído vindo de fora do quarto me tirando do devaneio.

Arqueio a sobrancelha, deslizando para fora da cama, Persie ocupando, sem a menor cerimônia, meu lugar ao lado de Sarah. Balanço a cabeça, sorridente, enquanto visto a camisa de meu pijama e busco algo para calçar (mesmo com o aquecimento, o piso estava frio), fechando a porta o mais silenciosamente possível ao sair.

Enquanto caminho pelo curto corredor que me leva a sala( tentando não entrar em pânico ao pensar que nosso apartamento poderia ter sido invadido!) recrimino-me por não ter pego nada para defesa, caso precisasse, mas ao escutar a festa que Dino fazia, soube imediatamente de quem se tratava.

—Como raios entrou aqui ? — interrogo, sem nenhuma delicadeza, fazendo minha irmã ter um sobressalto que quase a faz derrubar a jarra em suas mãos.

—Credo Connor, quer me matar de susto!! — reclama, levando dramaticamente uma mão ao peito, depositando a jarra sobre a pia ao mesmo tempo em que se apoia na mesma -Esqueceu que tenho uma cópia da chave? — recordou e fiz careta, me sentando em uma das cadeiras, apoiando ambas mãos na bancada que também serve como mesa — E um bom dia para você também! — exclamou, abrindo um sorriso largo — Sarah também acordou? Ela já sabe ou você pretende fazer uma surpresa? Já pensou em alguma coisa? Porque se não planejou nada, eu tenho uma dezena de ideias!! — avisou, batendo palmas animadamente e enrugo o cenho novamente, a encarando, confuso — Não me diga que mudou de ideia!?!? Ah, Connor, não faça isso, por favor!! Apesar de não sermos íntimas, ainda — frisa, erguendo o dedo — já pude perceber o quanto a Sarah te faz bem e seria um erro, o maior de todos que já cometeu, se afastar dela. Você está mais leve, mais solto, sorridente e feliz desde que começaram a namorar e eu já amo minha futura cunhada por isso!!- declara de um fôlego só e durante alguns segundos a observo, absorvendo cada frase, a “ficha” caindo ao notar certos detalhes: a mesa caprichosamente posta, uma cesta com guloseimas sobre a bancada da pia, a jarra com o suco e é minha vez de ter um sobressalto.

—Espera um pouco ... .- me empertigo — Você invadiu nossa casa em plena madrugada do domingo…

—Já passa das nove, Connor. Quase dez, na verdade — me corrige, fazendo cara de tédio.

—Preparou tudo isso…- prossigo, ignorando-a — …porque acredita que irei pedir a Sarah em casamento? É isso? — questiono, ela acenando afirmativamente, o sorriso ficando ainda mais largo — Sério? — indago, incrédulo, a voz de Sarah soando as minhas costas.

—O que foi que eu te disse!! — exclama, rouca, me estapeando ao se postar do meu lado — Eu avisei, não avisei !! Bom dia senho… Claire — corrige-se ligeiro, dirigindo-lhe um sorriso terno — Explica isso — ordena, me dando outro tapa, indo em direção a geladeira.

—Explicar o quê?...Ahhh, se eu fosse você não mordia esse bolinho — Claire adverte ao ver Sarah levando o doce à boca, minha namorada olhando-a tão confusa quanto eu — Ao menos, não neste momento — acresce e a olhei desconfiado.

—O que tem no bolinho Claire?? — interrogo.

—Um par de alianças!! — é Sarah quem responde, pondo o doce repartido ao meio sobre a mesa, a minha frente, um delicado saquinho destacando-se em meio ao recheio, o par de alianças douradas cintilando lá dentro.

—Eu. Não. Acredito!! — recito, fechando os olhos, massageando minha ponte nasal.

—Ué gente, eu só quis ajudar e…

—Ajudar? Em que, pelo amor de Deus!?- a cortei, controlando a irritação crescente, ciente de que, conforme Sarah havia alertado, eu era o único responsável por essa confusão, observando enquanto minha namorada tira as alianças do saquinho

—Ajudar sim, porque sei como você pode ser enrolado nessas questões de coração, o que é bem estranho levando em consideração a quantidade de namoradas que teve até hoje — comenta e a fuzilo com o olhar — O quê? Falei alguma mentira? — defende-se, erguendo as mãos — E Sarah sabe disso, não sabe?-diz, se voltando para ela, que observava as alianças, curiosa.

—Uhum…Eu lembro dessas alianças — Sarah comenta, erguendo o olhar para mim -Nós as vimos quando fomos a Dolan procurar um presente para Will. — lembra — Por que escolheu especificamente estas? — questiona, estreitando os olhos, olhando de mim para Claire, desconfiada.

—Não tenho nada a ver com as maluquices de minha irmã!! — me apresso em dizer, ganhando um olhar enfezado de Claire — Ao menos não com essa daí — indico os anéis.

—A vendedora do setor me contou que vocês tinham passado na loja e olhado várias alianças, mostrando-me a que mais haviam gostado — Claire revela, apoiando-se a mesa, olhando diretamente para mim — E aí, alguns dias depois dessa visita, você me envia uma mensagem misteriosa pedindo para vir aqui porque tinha algo importante a dizer…o que queria que eu pensasse? — questionou, sorridente.

—Eram para o Will!! — bufo, passando as mãos pelo cabelo, Claire enrugando o cenho, confusa — Olhamos as alianças para o Will — repito — Ele planeja pedir a mão de Andrea em breve e pensei ajudá-lo presenteando com as alianças — esclareci.

—Ahhh…- Claire sopra, deixando os ombros caírem, desanimada — Mas então por que o recado misterioso me pedindo para vir o quanto antes?? — interroga e suspiro pesadamente, refletindo por um segundo se deveria ser direto.

—Tenho uma filha adolescente de quase quinze anos sobre a qual nada sabia até algumas horas atrás — despejei, não querendo prorrogar por mais tempo aquele mal entendido, cruzando os braços enquanto a encarava, controlando a muito custo o riso mediante sua expressão.

—Isso é algum tipo de piada!? — pergunta após alguns segundos, olhando para Sarah — Ele está brincando, não é? — reforça, abrindo a boca ante a negativa de minha namorada.

—Não — Sarah respondeu, direta, pondo as alianças sobre a mesa — A menina é filha de uma antiga namorada…

—Caso — a corrigi ligeiro, erguendo o indicador — Ela é fruto de um caso passageiro que tive quando morava fora do país — completei.

—Se foi apenas um caso, como pode saber se essa menina é, de fato, sua filha? Pode ser um golpe!! — Claire supôs, empertigando-se — Vai fazer o teste de paternidade, não vai? E como ela te achou? A mãe veio junto? Por que somente agora te procuraram, quer dizer, eu sei que estava fora, mas já faz um tempinho que regressou… é no mínimo estranho, admita! — argumenta e rio torto.

—Às vezes seu pensamento é tão similar ao de nosso pai que me assusta — confessei, não dando tempo a ela rebater — A mãe dela morreu dois anos atrás e só a partir daí Jade decidiu que iria me procurar — conto — Quanto ao teste, acredito que papai tenha ou terá o resultado em mãos já que fez Monique coletar material para realizá-lo durante a vernissage — revelei, não conseguindo conter o riso desta vez ao vê-la arregalar os olhos.

—Elas…ela estava na vernissage? Eu a vi? — interroga.

—Não só viu como falou com ela — afirmei, passando o braço em volta da cintura de Sarah, que se aproximara trazendo duas xícaras de café, sorvendo um gole do líquido fumegante enquanto aguardo minha irmã processar as informações — Quase dá pra ver as engrenagens girando!! — “cochichei” junto ao ouvido de Sarah, em tom de brincadeira, provocando uma risada baixa e rouca que me causa arrepios de prazer — Amo seu riso!! — sopro, deixando um beijo leve em seu ombro, sorrindo ao ver o rosto corar intensamente, a voz de Claire quebrando o breve momento de magia.

—Espera…. Jade?? Foi esse o nome que disse? — pergunta e confirmo com um meneio de cabeça — A garota que estava com os filhos do doutor Halstead? A morena de cabelo cacheado? É ela sua filha? — interroga.

—A própria — confirmei novamente.

—Eu não…como foi…-balbucia, abrindo os braços, fazendo uma careta gozada — Ok, estou oficialmente confusa! — admite, sentando-se à nossa frente — Como eles se conheceram? Will sabe que a paquerinha do filho é sua filha?..

—Taí uma pergunta que não sei responder — admiti.

—Soube, por alto, ontem, quando veio buscar os gêmeos, já que tiveram de explicar porque estavam aqui — Sarah elucida, arrumando uma mecha de cabelo — Tive de confirmar a história dos meninos, mas não entrei em detalhes. Disse a Will que depois você iria esclarecer as coisas — conta.

—É, eu vou mesmo ter de esclarecer muita coisa antes que as fofocas comecem — sopro, lembrando a cara de surpresa de um dos vizinhos ao me ver sair com Jade.

—Pode treinar comigo — Claire sugere, sentando-se mais confortavelmente — Porque quero saber como e por que essa minha sobrinha misteriosa ficou escondida tantos anos — diz, me encarando à espera de respostas.

Na hora seguinte, com o auxílio de Sarah, repito para minha irmã toda a história que ouvi na tarde de ontem, acrescentando algumas suspeitas que haviam me ocorrido quando Jade me contou sua versão dos fatos, melhor dizendo, a versão que a mãe e o padrasto lhe haviam contado.

—Acha que o tal Elry mentiu quando disse que tinha ido te procurar? — Claire interroga, servindo-se de mais pão e queijo.

—Só posso supor que sim — digo, massageando o queixo — Não teria sido difícil para ele me encontrar naquela época. Haviam muito poucos estrangeiros na faculdade de Bogotá e menos ainda americanos. Talvez ele até tenha ido até lá, mas não com o intuito de me encontrar — concluo.

—Ou talvez tenha achado a concorrência desleal e decidido mentir, afinal, a tal Juliana ainda estava a fim de você e até onde ele sabia, você também poderia estar e ela estando grávida…-Claire teoriza, sorridente — É, o castigo veio a cavalo maninho! Quem mandou zuar Halstead!! Agora você também é pai de uma adolescente. E bem gata, por sinal!! — me provoca e faço careta.

—Sem esquecer que Andrew Halstead está claramente interessado na Jade — Sarah acresce e rolo os olhos.

—Grato a ambas por lembrarem desses detalhes — resmungo, atirando um naco de queijo pros bolinhas de pêlo antes de dar atenção a minha irmã — Notou algo de estranho ou diferente na atitude de papai estes dias? Ele recebeu ou andou falando com alguém além do fisioterapeuta e Monique? — quero saber.

—Ele tem andado diferente sim, mas já fazem dias. Comentei com você — relembra, pondo-se de pé — Quanto a visitas ou conversas, Carlota pode responder melhor do que eu. Tenho estado muito pouco tempo em casa ultimamente. As obras na Dolan, na loja nova bem como contratação e treinamento de pessoal têm ocupado grande parte do meu dia. Sem contar os aborrecimentos com aquele tal JP!! — revela e enrugo o cenho.

—JP??? — indago.

—O representante de uma das marcas brasileiras de perfumaria — explica, bufando — Sujeitinho irritante, viu!!! — exclama e rio. Claire dificilmente perde a compostura ou sai do sério, logo esse tal JP ou era realmente muito irritante ou havia atingido algum ponto adormecido dentro de minha irmã. O coração, talvez — De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde iremos saber se papai recebeu o resultado do exame — dá de ombros — Quando poderei conhecer oficialmente minha sobrinha?

—Próximo domingo combinamos de ela vir almoçar conosco — revelo — Você, papai e Carlota já estavam inclusos nos planos — me adianto — Assim como doutro Crockett, com quem terei uma conversa amanhã..

—Sem estresses, espero — Sarah pede e anui.

—Nenhum. Quero somente esclarecer alguns detalhes que acredito apenas ele saiba — digo, esfregando as mãos — Agora que terminamos, podemos tomar esse belo desjejum propiciado por sua futura cunhada, não concorda amor? — não resisto a provocar ambas.

—Sua sorte é que estou realmente faminta!! — Sarah devolve, me dando um selinho antes de preparar um prato generoso para si, me deixando surpreso.

—Explica como mantém a forma comendo tão bem assim?!? — Claire questiona, olhando-a, curiosa.

—Aeróbica de alto impacto…se é que me entende, maninha — respondo, piscando enquanto também me sirvo uma porção generosa.

—Uhum…é...pode ser…- Claire murmura, observando Sarah por mais alguns segundos, um sorriso estranho no rosto — Pode ser — reitera, me devolvendo a piscadela e arqueio a sobrancelha me perguntando intimamente o que ela estava querendo insinuar.

********* Flat — Jade (10:27 a.m) ******

—Quer dizer que no próximo final de semana finalmente vai poder chamar sua tia de tia e seu avô de vovô!! - Bianca comemora e ri nasalado.

—Oui, mon cher — confirmei, brincando com uma mecha de meu cabelo — Muito embora eu duvide que o senhor Cornélius vá gostar de ser chamado assim! — exclamo.

—Fala em francês que ele aceita facinho!! — Andrew sugere e dessa vez ri alto.

—Vou pensar na sua sugestão — brinco, esticando-me preguiçosamente.

Havia acordado pouco depois que Marcel se fora e demorei a conciliar o sono novamente. O resultado é que acordei tarde e pouco disposta.

—Tem certeza que não quer vir pra cá ? Ficar o dia inteiro sozinha é chato - Bianca insiste.

—É um pouco, mas preciso de um tempinho para digerir o encontro de ontem. Não foi bem o que eu esperava, admito — confessei — E não costumo ser boa companhia quando não durmo bem. Preciso do meu soninho de beleza — brinco, fazendo-a rir — Quem sabe mais para o final do dia me sinto melhor e dou uma passadinha por ai — deixo em aberto, o toque da campainha me fazendo dar um salto, me pondo de pé.

—Vem mesmo. Assim a gente conversa um pouco e combina como vai ser amanhã. Ainda pretende ir conhecer nosso colégio, não pretende? - questiona.

—Oui! Claro! — confirmo, pegando minha carteira, caminhando para a sala — Até porque Marcel não vai me dar sossego enquanto não me ver frequentando uma sala de aulas…e pelo que pude perceber, meu pai também — declaro, apressando o passo ao escutar o segundo toque — Já estou indo!!- aviso, dando atenção minha amiga novamente — Bia, vou desligar. Meu café da manhã chegou. Por volta das duas te confirmo se vou ou não — aviso, me despedindo dela e de Andrew, dando uma breve corridinha até a porta, abrindo-a ao mesmo tempo em que começo me desculpar — Desculpa a demora, moço. É que eu estava ao…- me calo, surpresa ao ver a figura pomposa postada lado a lado com entregador, um meio sorriso nos lábios, os olhos claros me encarando com certo…divertimento???

—Tecnicamente, chegamos primeiro — ouço e pisquei, confusa, saindo do devaneio, olhando-o confusa — Ela e eu — aponta a senhora elegante (que até então não havia percebido a presença!) ao seu lado segurando um tapawer enorme — E a nossa comida é bem mais saborosa. Garanto — assegura.

—Moça, vai querer ou não? — a voz irritada do entregador me traz de volta do novo transe e sacudi a cabeça.

—Vou. Vou sim — balbucio, entregando a ele o pagamento que havia separado — Fique com o troco — aviso, segurando a sacola que me estendia, encarando novamente o homem parado à minha frente.

—Em outros tempos, não me incomodaria passar mais algum tempo aqui, de pé…mas ultimamente isso tem sido um pouco incômodo — declara e somente então me dou conta que se apoiava a uma bengala.

—Pardon…me perdoem…- peço, sentindo o rosto esquentar ao ficar, certamente, mais vermelha do que um pimentão — Entrem, por favor — convido, me pondo de lado para lhes dar passagem, seguindo-os.

—Onde posso pôr isso? — a mulher pergunta, me olhando avaliativamente.

—Por aqui — indico a cozinha, adiantando-me a ela, sentindo minhas pernas levemente bambas — Pode colocar aqui — aponto a mesa, eu mesma pondo a sacola que trazia — Eu vou…

—Deixe comigo, meu bem. Vá dar atenção a ele — a mulher me corta, segurando minha mão — Ele veio somente para conversarem, não tenha medo — me tranquiliza (ou tenta) e rio débil, esfregando as mãos úmidas na lateral do vestido, agradecendo intimamente por ter trocado o pijama tão logo levantei.

Respiro fundo, caminhando devagar em direção a sala e de lá para a varanda, aonde ele agora se encontrava, parecendo distraído com a paisagem. Aproveito para observá-lo enquanto me aproximo. Apesar da bengala, mantinha uma postura altiva, elegante. Tinha quase certeza de ele ser tão alto quanto meu pai. Apesar de parecer debilitado, algo me dizia que seria capaz de ganhar facilmente uma discussão, se assim desejasse posto que emanava uma aura de poder intimidante. Ao menos eu me sentia intimidade naquele momento.

—Então…- começou, a voz grave me sobressaltando e fazendo estancar a meio metro de distância, incapaz de mover um músculo sequer enquanto ele se voltava lentamente — Acho que temos uma conversa pendente, não é….Como devo chamá-la? — questiona, me encarando e sinto o estômago revirar — Jade ou minha neta??...

Continua

“....Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar;

E o tempo para, ah..;

É a sorte de levar a hora pra passear /;

Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá;

Quando aqui tu …”

Notas finais
Até breve. Bjinhos, xerinho flores
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.